6.26.2007

Santiago do Chile e Lisboa




Da farda bruta, ao distinto Armani

O governo socialista está prestes a atingir os seus objectivos: colocar a corda na garganta a cerca de nove milhões de portugueses, enquanto os restantes, essencialmente os detentores do poder económico e os barões da classe política – e seus afilhados – terão o país inteiramente para si.

Para nós, povo comum, a sangria está ao rubro. Emprego precário – e é se houver – ordenados incapazes de fazer face ao custo de vida, dificuldades cada vez maiores no acesso ao ensino (só acessível às elites), reformas cada vez piores e mais tardias, o acesso a cuidados médicos e de saúde progressivamente dificultado, agravamento de impostos, criação de novos mecanismo de extorsão, a nível central e local, como sejam a criação de novas taxas e o agravamento de outras.
Tudo serve para taxar. Por enquanto, salva-se o ar. Até ver...

Agora, uma chamada Comissão para a Sustentabilidade do Financiamento do Serviço Nacional de Saúde, por encomenda do Governo, vem propor que as despesas com a Saúde deixem de ser dedutíveis no IRS. Se assim for, milhões de portugueses vão trabalhar para, exclusivamente, pagarem impostos e reduzirem o seu dia-a-dia ao nível da pura sobrevivência.

Cinicamente, incute-se na população ideia de que o Serviço Nacional de Saúde está a caminho da rotura, porque as receitas não cobrem as despesas. Esquecem-se os facínoras que tal apregoam, que o SNS não é uma clínica privada, cuja finalidade é ganhar dinheiro à custa dos que podem pagar uma assistência de melhor qualidade. O SNS é pago por todos os portugueses, através dos seus impostos, e que o Orçamento Geral do Estado, cujas receitas saem dos bolsos de todos nós, deveria dotá-lo com as verbas necessárias a satisfazer, gratuitamente, as necessidades de toda a população, o que só não acontece porque o governo prefere gastar dinheiro noutras coisas.

A hipocrisia do Governo e da referida Comissão vai ao ponto de comparar Portugal com outros países, onde, para além dos ordenados serem incomparavelmente maiores, os respectivos SNS têm uma capacidade que não tem o SNS português – e cada vez tem menos. Por isso mesmo, o facto de as despesas de saúde serem dedutíveis no IRS, resulta do facto de sermos obrigados a recorrermos a serviços exteriores ao SNS, aliviando-o de milhares de consultas e outros actos médicos.

Por outro lado, ao pagarmos taxas moderadoras – ou, como eles querem que se diga agora, taxas de utilização – é bom que fique claro que estamos a pagar aquilo que já pagámos com os nossos impostos, e que só não chega porque o Governo, como já afirmei antes, não dota o OGE com as verbas adequadas à realidade nacional. Aos gastar onde não deve, falta-lhe onde não podia faltar.

Fica claro, assim, que matriz genética deste governo é, essencialmente exterminadora. Extermina tudo o que seja benéfico para a generalidade dos portugueses. Reduz as reformas e aumenta o tempo de trabalho. Extermina o direito à saúde, tornando-a cara, e eliminando Urgências, Serviços de Atendimento Permanente e maternidades. Extermina escolas e consulados. Extermina, em suma, o direito dos portugueses a uma vida sadia, feliz e digna.

No outro pólo, no entanto, no pólo das senhores ricos e dos seus ricos governantes e da sua imensa corte de assessores, adjuntos, gestores, administradores, presidentes, comentadores, analistas, propagandistas, e colaboradores, directores regionais de tudo e mais alguma coisa, a vida é diferente. A administração pública (central e local) está repleta de grandes e pequenos parasitas, abrigados sob as capas dos vários partidos, bandos de ociosos sugadores do erário público, construindo meticulosamente a reformazinha que lhes garantirá um amanhã sem os pavores que hoje atormentam milhões de portugueses.

Aí não faltam ordenados repolhudos, ajudas de custo generosas, reformas várias e em qualquer idade (bastando uns curtos meses para a elas se ter direito), seguros de vida, de saúde e de acidentes pessoais, o saltitar constante de um cadeirão para outro, prémios de resultados, mesmo que os resultados sejam negativos, automóvel às ordens, cartões de crédito com belos plafonds, enfim, a ordem é pilhar depressa e bem. É aí, também, que prolifera a corrupção com a sua cascata de bons negócios e as devidas gratificações.

E quando alguém fala em classes sociais, mesmo que aponte os casos que eu acabei de apontar, logo os tenores da governança (e os seus títeres dos andares inferiores da pirâmide), soltam um pungente dó de peito, gritando, «Aqui d’el Rei!, classes sociais não existem, o que se passa é que tais benesses são indispensáveis à dignificação das funções». E eu, ingénuo, a pensar que a dignidade da função tinha apenas a ver com a maneira como era exercida, e não com a maneira como era remunerada.

Mas Sócrates, o Exterminador Implacável, não pode ter tudo. Muito menos gente feliz nas ruínas. Pode tentar calar as vozes dissonantes, mandar perseguir opositores, ameaçar autores de blogs, iludir e tentar segurar aqueles que acreditaram um dia nele. Podem os seus lacaios obrigar uma professora a trabalhar até à morte, ou levantar processos a quem ouse desabafar contra a camarilha governante.

Mas a fome está aí, insidiosa, alastrando como mancha de óleo. A mentira não enche barrigas, não paga a prestação da casa, nem os livros dos filhos, nem a conta na farmácia. Nem a batata ou o papo-seco. E a retórica, de tantas vezes utilizada, enjoa. Enoja.

A regressão social e económica que vivemos assemelha-se, em muito, à regressão que os chilenos sofreram após o golpe de Pinochet. A diferença, é que no Chile foi à bruta. Aqui – porque eles também aprendem com os seus erros – está a ser silenciosa, delicodoce, cor-de-rosa. Não veste farda nem bombardeia o povo. Veste Armani, mas produz decretos tão assassinos como as bombas de Pinochet.

Portugal vive, hoje em dia, sob a mais violenta e sofisticada das ditaduras. A ditadura justificada por um voto que, descuidado – ou desencantado – lhe escancarou as portas.

Santiago do Chile, Setembro de 1973; Lisboa, Junho de 2007. O mesmo drama. As mesmas vítimas.

Chegou a hora de fazermos qualquer coisa. Não sei exactamente o quê, mas que é preciso fazer qualquer coisa, disso não tenho a menor dúvida.

6.23.2007

Ó Sócrates, diz-me com quem andas...




Tudo bons rapazes


António José Morais (lembram-se dele?) foi acusado de corrupção e branqueamento de capitais num inquérito à construção de uma estação de tratamento de resíduos na Cova da Beira.

O ex-professor de José Sócrates na Universidade Independente, esteve ligado à construção do aterro sanitário em 1996 através do GEASM, o seu gabinete de engenharia, que preparou o projecto, o programa do concurso, o caderno de encargos e avaliação técnica das propostas.

A Polícia Judiciária começou a investigar o caso em 1999, após uma denúncia anónima. À data dos factos, José Sócrates era secretário de Estado do Ambiente, mas não foi ouvido no inquérito. A notícia, avançada pelo Expresso Online e já confirmada pelo PÚBLICO, refere que foram constituídos mais cinco arguidos ".

Para quem já não se lembra do Morais e das suas ligações a Sócrates e ao Partido «Socialista», eu recordo alguns pormenores deliciosos:

I - Comecemos pela querida priminha

O António José Morais é primo em primeiro grau da Dr.ª Edite Estrela. É um transmontano, tal como a prima, que também é uma grande amiga do «engenheiro» Sócrates. Também é amigo de outro transmontano, igualmente licenciado pela UnI, o doutor (será mesmo?) Armando Vara, antigo caixa da Caixa Geral de Depósitos e actualmente Administrador desta instituição, e também ele grande amigo do «engenheiro» Sócrates e da Dr.ª Edite Estrela.

II - Um curiculum maravilhoso

O engenheiro Morais trabalhou no prestigiado LNEC (Laboratório Nacional de Engenharia Civil), só que, devido ao seu elevado espírito empreendedor, canalizava trabalhos destinados ao LNEC, para uma empresa em que era parte interessada. Um dia, devido à sua infeliz conduta, foi convidado a sair. Trabalhou para outras empresas, entre as quais a HIDROPROJECTO, e pelas mesmas razões foi também convidado a sair. Nesta sua fase de consultor de reconhecido mérito, trabalhou para a Câmara da Covilhã, à qual vendeu serviços requisitados pelo técnico «engenheiro» Sócrates – isto, claro, sem nunca se conhecerem...

III - O nascimento de uma bela amizade

É desta amizade entre o «engenheiro» da Covilhã e o engenheiro Consultor que se dá a apresentação de Sócrates à Dr.ª Edite Estrela, proeminente deputada e dirigente do Partido Socialista. E assim começa a fulgurante ascensão do «engenheiro» Sócrates no Partido Socialista de Lisboa, apadrinhada pela famosa Dr.ª Edite Estrela. Porém, logo ficou evidente que à natural e legítima ambição do político Sócrates era importante acrescentar a licenciatura. Fica bem, dá outro estatuto e outra credibilidade. Enfim, facilita a abertura de muitas portas. E, sobretudo, distingue a gente fina da ralé, da maralha…Assim, o engenheiro Morais, já professor do prestigiado ISEL (Instituto Superior de Engenharia de Lisboa) passa a contar naquela Universidade com um prestigiado aluno – José Sócrates Pinto de Sousa, bacharel, sendo importante recordar que não se conheciam de lado nenhum. Nem da Covilhã.

IV - Mais dados para o curriculum

Porém, o diligente e empreendedor engenheiro Morais, demasiado envolvido noutros projectos, faltava, amiúdes vezes, às aulas, o que, naturalmente, levou a que fosse convidado a sair daquela docência. No entanto, convém não esquecer que estamos a falar de um homem dotado de grande espírito de iniciativa, pelo que, rapidamente, se colocou na Universidade Independente. Aí, o seu amigo (mas desconhecido) bacharel, José Sócrates, imensamente absorvido na política e na governação, seguiu-o, mas apenas «porque era a escola, mais perto do ISEL que encontrou». E, claro está, continuava a não saber quem era o engenheiro Morais.

E assim se licenciou, tendo como professor da maioria das cadeiras (logo quatro) o «desconhecido», mas «exigente», engenheiro Morais. E, ultrapassando todas as dificuldades, conseguindo ser ao mesmo tempo secretário de Estado e trabalhador estudante, licencia-se e passa a ser «engenheiro».

Eis que, licenciado o governante, há que retribuir o esforço do hiper, super, mega professor, que, com o sacrifício do seu próprio descanso, deve ter dado aulas e orientado o aluno a horas fora de normal, já que a ocupação de secretário de Estado é normalmente absorvente.

V - E assim…

O amigo Vara, também secretário de Estado da Administração Interna, coloca o engenheiro Morais como Director Geral no GEPI, um organismo daquele Ministério.

VI - E lá vem outra vez o curriculum...

Mas o Morais, um homem cheio de iniciativa, também aí teve de ser demitido, devido a adjudicações de obras não muito consonantes com a lei, para além de outras trapalhadas na Fundação de Prevenção e Segurança fundada pelo secretário de Estado, Vara. De tal modo as coisas foram, que a sigla FPS deixou de significar Fundação de Prevenção e Segurança, para passar a significar, no dizer do povo, Fundos para o PS. (Lembram-se, decerto, que foi por causa dessa famigerada Fundação que o engenheiro Guterres foi obrigado a demitir o já ministro Vara (pressões do presidente Sampaio), o que levou ao corte de relações de Vara com Jorge Sampaio – consta, até, que Vara nutre pelo ex-presidente um ódio de estimação). Guterres, farto que estava do Partido Socialista, aproveita a derrota nas autárquicas e dá uma bofetada de luva branca no PS, mandando-os todos para o desemprego.

Seguem-se Durão Barroso e Santana Lopes, que não se distinguem em praticamente nada de positivo, e assim volta ao poder o Partido Socialista, já comandado pelo «engenheiro» Sócrates. Ganha com maioria absoluta.

VI - Mais um tacho, mais uma oportunidade… e mais dados para o curriculum

Eis que, amigo do seu amigo é, e vamos dar mais uma oportunidade ao Morais, que o tipo não é para brincadeiras. E aí está o fabuloso engenheiro Morais nomeado Presidente do Instituto de Gestão Financeira do Ministério da Justiça. Claro que Sócrates não teve nada a ver com isso – e quem pensar o contrário é gente de mau íntimo, suspeitosa e má-língua. Pois se ele mal o conhecia e, certamente, teria apenas uma vaga ideia do outro ter sido seu dedicado professor e muito prestável examinador… Mas o Morais, que é homem sensível e de coração grande – e que, como a maioria dos homens, não é de pau – tomba de amores por uma cidadã brasileira, que era empregada num restaurante no Centro Comercial Colombo.

Ora, sabemos todos como a paixão obnubila a mente e trai a razão. Vítima disso, o Morais nomeia a «brasuca» Directora de Logística dum organismo por ele tutelado, a ganhar 1.600 € por mês. Claro que ia dar chatice, porque as habilitações literárias (outra vez as malfadadas habilitações) da pequena começaram a ser questionadas pelo pessoal que por lá circulava. Daí até a coisa vir publicada no 24 Horas, foi um ápice. E assim lá foi o apaixonado engenheiro Morais despedido outra vez.

E foi este o homem que fez do senhor José Sócrates Pinto de Sousa um… senhor «engenheiro»!

Agora, o Morais, está a contas com a Justiça. O Sócrates - para que conste - nunca ouviu falar do homem, nem coisa que se pareça.

Comentários? Para quê?

São rosas «socialistas», senhores! São rosas «socialistas».


6.19.2007

Siderurgia Nacional - testemunho de um crime


O mais giro, é que ninguém foi preso...


A história que eu vou contar não é ficção. É uma história que se passou em Portugal, nos nossos dias. É a história de um grande crime, com vários crimes menores pelo meio. É, em suma, uma história de terror.

No dia 5 de Março de 1998, escrevia eu no jornal Outra Banda: «O fim da Siderurgia Nacional, como empresa estratégica ao serviço dos interesses nacionais, está praticamente consumado. O processo arrastou-se ao longo de vários anos, mas caminha agora para um fim inexorável e muito bem definido: colocar um instrumento necessário ao desenvolvimento nacional e ao bem-estar dos portugueses nas mãos de quem, a nível europeu, quer, pode e manda na indústria siderúrgica».

Mas para que se compreenda melhor todo o processo, é preciso dizer que Portugal nunca produziu mais do que 60% das suas necessidades em produtos siderúrgicos. Conscientes desse défice, que obrigava o país a importar os restantes 40%, o que o colocava numa perigosa e caríssima dependência do estrangeiro, nos finais da década de setenta, início da década de oitenta, o Estado entendeu – e bem – executar um plano de desenvolvimento da Siderurgia Nacional. Investiram-se, então, já em meados anos 80, 70 milhões de contos nesse plano, o que incluiu trabalhos de terraplanagens e compra de equipamentos, entre eles um novo alto-forno, que ficou acondicionado nos terrenos da empresa. Convém dizer que, na época, trabalhavam na Siderurgia Nacional, entre as instalações de Aldeia de Paio Pires e da Maia, cerca de 6.500 pessoas.

Porém, por essa altura, iniciaram-se as conversações para a adesão de Portugal à CEE, que impuseram, entre outras obrigações, a necessidade de reduzir a nossa produção de produtos siderúrgicos, pois a Comunidade era, como parece que ainda é, excedentária nessa matéria.
Ora, se isso era verdade em relação à Comunidade, não o era em relação a Portugal, que precisava de produzir mais para satisfazer o seu consumo interno. Parece lógico que, a haver redução de quotas, deveriam ser os países que produziam acima das suas necessidades a fazê-lo, e nunca Portugal. Por incompetência, cobardia ou outra razão qualquer ainda mais censurável (e seria bom que, um dia, os dossiers fossem divulgados para conhecermos os nomes e as caras desses vendilhões da pátria), a verdade é que fomos forçados a sacrificar o interesse nacional para comprarmos os produtos siderúrgicos produzidos no estrangeiro.

Para além dos 70 milhões de contos assim deitados à rua – apenas o alto-forno, que entretanto apodrecia nos caixotes expostos ao tempo, permitiu algum retorno, pois foi vendido para um país asiático – também se comprometeram as hipóteses de garantir, no futuro, o nível de emprego e a estabilidade social de milhares de trabalhadores e suas famílias.

Se o que acabamos de relatar é mau, o que estava para vir não seria melhor.

Mentindo aos portugueses, o governo de Cavaco Silva acabou aquilo que a governação de Mário Soares havia começado. Estou a falar do desmembramento e venda da Siderurgia Nacional a empresas estrangeiras, o que - e ao contrário do que afirmaram, em coro, PS e PSD - não foi uma imposição, nem uma consequência da integração na CEE. Aliás, depois desta venda, passámos a ser o único país da então CEE que não tinha uma indústria siderúrgica própria.

Mas se o desmantelamento e venda da SN foram um autêntico crime de lesa-pátria, as peripécias da venda atingiram as raias do autêntico escândalo, próprio de uma qualquer – e autêntica – república das bananas.

Depois de dividir a SN em três empresas (SN-Serviços, SN-Empresa de Produtos Longos e SN-Empresa de Produtos Planos), o Governo decidiu manter na pose do Estado apenas a SN-Serviços, abrindo à privatização as outras duas. Em 18 de Setembro de 1995, é decidida a privatização da SN-Empresa de Produtos Longos, de Aldeia de Paio Pires e da Maia, a qual é adquirida por 3,750 milhões de contos, pelo grupo constituído pela Metalúrgica Galaica, SA e a Herisider Holand, B.V., uma empresa do Grupo Riva, considerado como os patrões do aço a nível europeu. E os compradores terão feito, sem a menor dúvida, o maior e melhor negócio do século passado, digno de figurar no Guiness.

De facto, por apenas 3,750 milhões de contos, a nova empresa ficou proprietária de todas as instalações e equipamentos das fábricas da Maia e de Aldeia de Paio Pires, das respectivas linhas de produção, correspondendo tudo a uma área de 83 hectares. Mas, para além disso, ficou a deter, também, 5 milhões de contos em stocks (isto é, produtos já fabricados, que, só eles, valiam mais do que o preço pago por tudo) e, como cereja em cima do bolo, de mais 9 milhões de contos em créditos, ou seja, valores a receber por vendas feitas antes de terem comprado as fábricas. Contudo, o Estado português, que abriu mão dos seus créditos, assumiu, pelo contrário, todos os débitos existentes à altura da venda.

Resumindo: a RIVA comprou por menos de 4 milhões de contos aquilo que valia, no mínimo, 14 milhões de contos. Sendo assim, não espanta sabermos que, tempos depois, cedeu a sua posição aos seus parceiros espanhóis por um valor que rondou os 20 milhões de contos.

Foi de tal ordem o escândalo, que o Eng. Silva Carneiro, na altura deste mirabolante negócio presidente do conselho de administração da SN, foi despedido sem justa causa, mas o inquérito que Augusto Mateus, secretário de Estado de Guterres, em finais de 1995, então prometeu, perdeu-se nas inúmeras gavetas do poder político.

A partir daqui, sucederam-se os despedimentos de milhares de trabalhadores. E como nota final, também ela explicativa da subserviência do Estado português aos interesses económicos – e dos muitos negócios subterrâneos que se adivinham no meio desta trapalhada toda – enquanto o alto-forno funcionou, a SN-Serviços, a única que se manteve nas mãos do Estado português, fornecia à SN-Longos as matérias primas (bilhetes, produzidos a partir da gusa líquida, via alto-forno, e energia).
Porém, com a substituição no alto-forno por um forno eléctrico, enganam-se os que pensam que o novo forno ficou nas mãos nacionais. Nada disso. Agora, toda a produção passou para as mãos privadas, que são, como sabemos, estrangeiras. Portugal perdeu totalmente o controlo sobre uma área estratégica fundamental para o seu desenvolvimento, que é a produção de produtos siderúrgicos.

E aqui vos deixei os traços principais de um crime – de vários crimes – em consequência dos quais o país saiu altamente lesado. Mas de onde, para além dos grandes interesses económicos estrangeiros, alguém deve ter ficado muito bem na vida.

Mas a verdade é que ninguém foi preso.

6.18.2007

Margarida Moreira e a Santa Bufaria


Cuidado, ó infiéis! As fogueiras já crepitam!

Mistura de Silva Pais e de juiz do Santo Ofício, Dona Margarida Moreira vive o seu momento de glória. É figura pública, mediática. Assanha-se em defesa de Sócrates, engenheiro sem mácula e político sem émulos. Pai de todos os tachos - e do seu, por consequência - o cônsul está acima de todas as críticas, gracejos e insultos. Ou melhor: o cônsul não pode ser criticado, alvo de gracejos ou de insultos, ainda que se trata de mero desabafo solto enquanto cidadão.

Incauto, o Charrua disse o que milhões de outros plebeus dizem. Desabafou na presença do comparsa amigo. Porém, antes de ser amigo, o comparsa, por já saber que «eles» andam por aí, pensou na sua barriguinha, na sua carreira, no seu interesse. E de bufo se fez.

Dona Margarida Moreira, matrona cor-de-rosa assanhado, que também sabe o que lhe convém, assumiu ela o papel de Silva Pais e de juiz do Santo Ofício, curiosa simbiose genética, versão Portugal XXI. Que lhe assenta lindamente.

Charrua já cheira os odores da lenha incendiada. Vai pagar a herética ousadia.
Para que ele - e todos os potenciais hereges - aprendam.

6.15.2007

Antes o carjacking


Quando você compra um carro, paga IVA e Imposto Automóvel. (Em breve pagará o mesmo imposto, mas com nome diferente). Depois, para poder circular na via pública, ou para nela ter o carro estacionado, pagava o chamado «selo do carro», ou imposto de circulação, ou imposto municipal sobre veículos.

Mas se você, por qualquer razão, desistisse de utilizar a sua viatura, bastava pô-la num espaço particular (garagem, terreno, etc) e nada devia a ninguém. Era razoável. Justo, até.

Agora, na sua sofreguidão por sacar os últimos cêntimos que chocalhem no bolso do cidadão, o governo do iluminado, distinto, competente, generoso e magnânimo engenheiro José Sócrates (é melhor utilizar esta linguagem, não vá a excelsa guardiã do templo socialista, Dona Margarida Moreira, mui ilustre Directora da DREN, ler estas palavras) decidiu que o selo nada tem a ver com a circulação/utilização/ da via pública, mas com a mera posse da viatura. Isto é: quem compra carrito, está sujeito a um, dois, três impostos. Até ver...

Para além disso, você paga uma fortuna em imposto por cada litro de combustível que mete no seu bólide. Nada mau!

Face a isto, antes o carjacking, meus amigos. Antes o carjacking.

6.14.2007

Uma indizível desumanidade


(Breves e fundamentadas reflexões sobre a chusma socialista e a vida humana - ou um preocupante regresso ao passado)

Uma professora portuguesa, chamada Manuela Estanqueiro, foi praticamente obrigada a dar aulas até cair para o lado. Morta. Sofria de leucemia há cerca de um ano, mas a ADSE, na sua desvairada ânsia de levar à letra as orientações governamentais, recusou a sua aposentação. Uma aposentação que lhe servisse de lenitivo para o seu sofrimento e amenizasse os últimos dias de vida.

Depois disso, uma mulher de Vendas Novas morreu de paragem cardíaca, dias após ter encerrado, a mando do Governo, o SAP que ficava a escassa distância da sua residência. Chegou morta ao Hospital de Évora, sem ter podido ser socorrida em tempo útil. Não teve direito a uma migalha de esperança através de um socorro rápido, àquilo a que a Constituição da República e a Declaração Universal dos Direitos Humanos determinam: o direito à saúde e a cuidados médicos eficazes.

A isto chegámos! Os episódios de Manuela Estanqueiro e o de Vendas Novas nada mais são do que o reflexo da brutalidade das políticas em curso. Da sua natureza de classe. Da sua indizível desumanidade. A vida humana, para Sócrates e restantes acólitos – os que o acompanham no governo e os milhares de boys e girls colocados, a granel, por toda a máquina administrativa do aparelho do Estado – foi reduzida à sua expressão mais simples, ou seja, não passa de um mero detalhe ao serviço da redução do défice.

Inebriada pela miragem de deter o poder absoluto, a chusma socialista pensa e age ao mesmo nível da máquina repressiva e opressora dos tempos da ditadura. Os incontáveis boys e girls esfalfam-se e atropelam-se na sua sofreguidão de mostrar ao «chefe» que merecem o jobezinho. Apuram-se no exercício do seu santo ofício, para que o senhor «engenheiro» saiba que perceberam como ele quer que o país funcione. Conheci gente desta – sem tirar nem pôr – antes do 25 de Abril. Era feita da mesma massa a maioria dos chefes de repartição, dos directores-gerais, dos responsáveis disto e daquilo, gente da máxima confiança do regime, sem esquecer esse sinistro exército transversal de bufos, informadores e pides.

Também hoje estas verrugas sociais estão espalhadas por todo o lado. Na DERN, por exemplo (denunciando e perseguindo colegas que não são da cor), na ADSE, no movimento sindical (furando lutas), nas autarquias, nas escolas, nos centros de saúde, em todas as repartições públicas, enfim.

Mas há uma coisa contra a qual não podem lutar. É que hoje, como então, esta gentalha já vive à margem da gente comum. É olhada com desconfiança e desprezo. Com nojo. Calamo-nos – ou mudamos de conversa – se por acaso algum deles se junta ao grupo. Já não são parte da comunidade, mas algo a ela estranho e, bem pior do que isso, algo que lhe é nocivo.

Numa palavra: repugnam.

6.11.2007

À população da Margem Sul

(Foto: João Carlos Pereira)

Estamos vivos! Somos gente!
(E por isso,dia 15, sexta-feira, voltamos ao BUZINÃO)

O ministro Mário Lino não quer pedir desculpa às populações da Margem Sul. Aliás, não é só o senhor ministro que nos deve desculpas e explicações. Há muitos anos que sucessivos governos olham para esta Outra Banda – e tratam esta Outra Banda – como se aqui habitassem seres menores, portugueses de segunda – ou terceira – categoria.

Os Governos não investem na Península de Setúbal – ou investem pouco e mal. Grandes empresas (Lisnave, Setenave, Sorefame, Siderurgia, Parry & Son, Mundet, Wicander, Alcoa, etc, etc) foram friamente assassinadas ou reduzidas a quase nada. O desemprego e o emprego precário atingem as mais elevadas taxas do país. Aos milhares, somos forçados a procurar trabalho na Margem Norte.

Na Arrábida, ex-libris do nosso turismo – uma das meia belas paisagens do mundo e ninho de espécies únicas da fauna e da flora mundiais – o Governo permite que a cimenteira e as pedreiras vão cumprindo o seu sinistro trabalho de corrosão e ruína. Até a co-incineração ameaça envenenar para sempre a Serra-Mãe. Na Costa de Caparica, o mar galga a terra e ameaça destruir o que resta de uma magnífico areal.

Se precisamos de ir à capital do país, seja para trabalhar, estudar, consultar um médico ou, simplesmente, numa mera acção de cultura ou lazer, pagamos aquilo que mais ninguém paga em Portugal: uma portagem que é, na prática, um imposto territorial, exclusivo da Margem Sul. Porque não temos alternativas gratuitas.

Atente-se nisto:

- Ninguém paga para atravessar o Douro

- Ninguém paga para atravessar o Mondego

- Ninguém paga para atravessar o Túnel da Gardunha

- Ninguém paga para atravessar o Guadiana e ir passear a Espanha

- Quem entra em Lisboa vindo de Este, do Oeste ou do Norte de Lisboa tem vias alternativas gratuitas.

E da MARGEM SUL? Aqui, ou pagas… ou pagas.

SEREMOS MENOS PORTUGUESES?

Exijamos ser tratados como os cidadãos do resto do país.

DIGAMOS NÃO:

- À DISCRIMINAÇÃO POLÍTICA E SOCIAL

- AO IMPOSTO TERRITORIAL EXCLUSIVO DA MARGEM SUL
(MAIS CONHECIDO POR PORTAGEM)
INDIGNA-TE – PROTESTA – LUTA
DIA 15 ADERE AO BUZINÃO

6.09.2007

Estão de volta


Os esbirros

Conheci-os noutro tempo. Num tempo que eu julguei definitivamente acabado numa certa manhã de um dia de primavera. Marcava o calendário o dia 25 do mês de Abril de 1974.

No meu bairro, em Campolide, eram temidos e desprezados. Chamavam-lhes os bufos, os informadores; de alguns se dizia, ainda com mais temor e ódio, que eram mesmo agentes da PIDE. Também havia os outros, os salazaristas de «mãos limpas», os admiradores confessos do regime, que iam à missa todos os domingos, que nunca se misturavam com a ralé, que tinham automóvel e botões de punho de ouro. Geralmente gordos, vestiam paletó, usavam o cabelo todo penteado para trás, lustroso de brilhantina. As suas madames nunca eram vistas sem ser muito bem vestidas e pintadas, salpicadas de jóias. Cobertas de espaventosos chapéus. E tinham criadas, fardadas a rigor.

Ainda me lembro de ver, nos verdes anos da minha meninice, alguns deles fardados de legionários, em certos dias caros ao regime, ostentando a pose dos que estão por cima.

Conheci-os, depois, no emprego e na tropa, sempre seres marginais e repugnantes. Sempre perigosos e indesejáveis no seio da maralha.

Depois da tal manhã, sumiram-se, uns; converteram-se à democracia, os outros.

Mais tarde, quando a vingança ganhou força e atrevimento, percebi que tinham voltado. Dei por eles no meu local de trabalho, nos sindicatos, na minha rua, no café, nas autarquias. Identifiquei-os pelo cheiro, pelo olhar matreiro e sombrio, pelo som das palavras ocas ou dúbias. Pelo espumar verde das ideias que o tempo gastou. Pela mesma atitude de tumor, pela mesma silhueta do esbirro oficial. São, agora, democratas. E de esquerda. E abrigam-se debaixo de um chapéu cor-de-rosa, que tem um rótulo onde se pode ler: Partido Socialista.

Insinuaram-se, primeiro, num palrar de lérias avulsas. Depois, encorajados pela envolvência confortável dos estofos do poder - onde se deve destacar o advento do estatuto do boy e da girl «socialista» - aí estão eles (e elas) sem medo, sem pudor, sem limites.

Seja na Direcção Regional de Educação do Norte, perseguindo os seus pares desalinhados, seja na ADSE, obrigando uma professora a trabalhar até morrer, seja nas empresas, seja nas autarquias, seja nos locais de residência, os bufos e os esbirros aí estão de novo, prontos a fazer cumprir as orientações do «chefe máximo». Do «chefe absoluto».

Os esbirros gozam o seu momento de glória. Até ao dia em que, como aconteceu há 33 anos, sairão de cena como ratazanas que são.

Embora tenham, como sabemos, o aspecto inconfundível dos porcos.

6.06.2007

Havia um país chamado Portugal


Anda por aí esta notícia: «O Norte de Portugal e a Galiza estão a viver dois ciclos completamente diferentes. Enquanto na região norte se vive um ciclo de recessão e de estagnação económica, a Galiza vive um ciclo importante de crescimento».


Na verdade, um relatório sobre a conjuntura económica, divulgado pela Junta da Galiza, mostra um cenário de franca expansão económica, com uma taxa de crescimento do PIB a atingir 4,1%, verificando-se ainda que o sector da indústria é o que apresenta maior dinamismo, com a produção industrial a registar uma sensível recuperação, atingindo o nível mais alto de sempre. Ainda assim, continuou a ser o sector dos serviços o que mais contribui para a subida do PIB, cuja taxa média de crescimento, de 2001 a 2005, rondou os 3,3%.

Outro sinal da prosperidade galega é o facto de a taxa de desemprego ter caído pela primeira vez no último quarto de século, contrariamente ao que sucede em Portugal e, com muita incidência, na região Norte.

Separado geograficamente da Galiza por um rio que facilmente se atravessa, o Norte de Portugal, definhando sem remédio ou panaceia, está, apesar da proximidade, nos antípodas daquela região espanhola. À indústria florescente dos galegos e à sua saúde económica e social, respondemos nós com o fecho ou fuga das empresas, com o desemprego em subida alucinada, com o fecho de escolas, maternidades e serviços de saúde, com despovoamento do território, com uma emigração galopante e com os baixos salários a reflectirem-se no poder de aquisição das populações que restam. O Norte de Portugal agoniza num catre miserável – como, aliás, o resto do país.

Ora, se todos sabemos que as diferenças entre a Galiza e o Norte de Portugal não são geográficas, climatéricas, demográficas ou antropológicas – pois entre portugueses e galegos são mais as características comuns do que as dissemelhanças – só nos resta concluir que a explicação para o progresso na Galiza e a recessão em Portugal só pode estar nas políticas implementadas pelos respectivos governos, o que não é nenhuma novidade, como, de resto, aqui estamos fartinhos de afirmar.

Não deixa de ser quase anedótico que, perante esta realidade indiscutível, tenha sido precisamente em Braga – isto é: bem no coração do depauperado Norte do país e a um pulinho da risonha Galiza – que Cavaco Silva tenha resolvido chamar a atenção dos portugueses para – e cito: «se pensar seriamente sobre as políticas de natalidade, de protecção das crianças, de valorização dos jovens e de qualificação dos activos». Tudo porque, advertiu Cavaco Silva, se avizinha um «cenário de envelhecimento e de recessão demográfica, fenómeno que, até pela sua dimensão estrutural, não encontra precedentes na nossa história».


Ao falar em políticas de natalidade e de protecção das crianças, Cavaco Silva terá querido dizer, lá na dele, que pelo facto de, nas últimas décadas, as taxas de natalidade terem vindo a baixar drasticamente em Portugal, é fundamental que os portugueses invertam esta realidade. Isto é, que passem a ser mais reprodutivos, dando ao país os filhos que ele precisa para que possa rejuvenescer-se e promover um equilíbrio inter-geracional necessário à nossa sobrevivência colectiva.

Ao discorrer sobre estas coisas, Cavaco Silva deveria ter meditado – e, se possível, meditado em voz alta – sobre as razões que levam os portugueses a evitar ter filhos. Não será, certamente, porque os homens deixaram de ser viris e as mulheres de ser férteis. Não será, certamente, porque o natural e normalíssimo desejo de procriar tenha sido substituído por outros desejos menos naturais ou, até, contrariando as leis naturais. Cavaco deve saber que a taxa de natalidade tem vindo a baixar – e que essa tendência se tem acentuado nas últimas décadas e, em especial, nos últimos anos – porque os portugueses deixaram de ter condições para suportarem as consequências da procriação.

Cavaco devia saber que os baixos salários, a precariedade de emprego, as taxas galopantes do crédito à habitação, a perda do poder de compra, a insegurança quanto ao futuro, a degradação do ensino e da saúde são, entre outros, factores que fazem um casal responsável pensar várias vezes antes de se aventurar a trazer um filho a este miserável país.

Aliás, quantos jovens, com as políticas hoje em dia em vigor em Portugal, se podem aventurar sequer a constituir família, sem o risco muito real de terem a vida completamente do avesso daí a poucos meses?

Cavaco deveria ter dito, porque deve sabê-lo, que o envelhecimento demográfico resulta da falta de esperança e de perspectivas de um povo, e representa, por si mesmo, um dos mais contundentes libelos acusatórios contra as políticas económicas e sociais a que esse povo está sujeito. Resulta, também, da desumanização instilada pelo poder dominante a nível planetário, cuja principal consequência é a desvalorização da vida, a vulgarização da violência e a negação da estabilidade e da paz.

É neste contexto que um pouco por toda a Europa e EUA as taxas de natalidade têm vindo a cair, atingindo em Portugal, como acontece com tudo o que é negativo, valores verdadeiramente alarmantes.

Portugal envelhece. Definha. Agoniza.

E um dia, quando as mais variadas comunidades imigrantes se encontrarem disseminadas pelo este velho recanto da Península Ibérica, constituindo extractos distintos e prevalecentes, alguém contará uma história que começará assim:

«Havia um país chamado Portugal. Um dia, o seu povo, nos primeiros anos do século XXI, elegeu, com maioria absoluta, um indivíduo sinistro, chamado José Sócrates, que se fazia passar por engenheiro civil…»

6.05.2007

O buzinão às portas do gueto


O buzinão voltou às portagens. Hoje, em protesto pelas bacoradas do ministro das Obras Públicas (e interesses privados).

Um dia, voltará pela razão maior. E ainda com mais força. Contra uma portagem medieval, que faz dos cidadãos da Margem Sul (dos beduínos, no dizer alarve do alarve Lino) cidadãos de 3.ª categoria.

Somos nós os únicos portugueses que se vêem forçados a pagar para se deslocarem diariamente para os seus empregos ou para as suas escolas, ou para uma consulta em Lisboa, ou para o que for, pois não temos alternativas gratuitas, como têm os restantes portugueses do Continente ou Ilhas.
Quem paga para atravessar o Douro? Quem paga para atravessar o Mondego? Quem paga para atravessar o túnel da Gardunha? Quem paga para atravessar a ponte sobre o Guadiana e ir passear a Espanha?
Estamos presos no deserto, às portas da capital. Quem entra em Lisboa, vindo de Leste, do Norte ou do Oeste (Vila Franca, Loures ou Sintra/Cascais, p.e.) tem vias alternativas grátis. Na Margem Sul, ou pagas... ou pagas.
É a política (democrática) do gueto.

5.30.2007

Iraque, mês de Maio


Desde o princípio do mês de Maio, até hoje, dia 30 - e que se saiba - já foram abatidos 112 soldados norte-americanos no Iraque. No mesmo período, um helicóptero foi igualmente abatido, enquanto, segundo foi possível extrair de vários órgãos informativos, terão sido destruídas entre 15 e 18 viaturas militares do exército invasor.

Não posso impedir, ao disto saber, um íntimo sentimento de regozijo. Um sentimento igual àqueles que, nos já distantes anos setenta de século passado - senhores, como o tempo passa! - me invadiam ao saber das perdas e desaires dos norte-americanos perante os vietcongs. E, certamente - se na altura já pudesse entender o que se passava no mundo - sentimento igual, sem tirar nem pôr, ao que sentiria quando o Exército Vermelho veio atrás das hordas nazis e encurralou Hitler e os seus últimos fiéis num bunker, em Berlim.

Na sua sala oval, Bush, alucinado - tal como Hitler no seu bunker - acredita que pode vencer a guerra. Para já, uma coisa é certa: a resistência no Iraque e no Afeganistão impediu os EUA de estenderem os seus tentáculos a outras regiões do globo. O passeio de «libertação» transformou-se num beco sem saída. Em vez das esperadas flores e palmas, os invasores atolam-se num cenário de pesadelo, mal se atrevendo a sair das suas zonas de segurança.

Por cá, os eunucos, pressurosos, fazem o que é próprio dos castrados. Agacham-se e servem o imperador, não percebendo - ou fingindo não perceber - que o fim dos tiranos é sempre o mesmo.

5.29.2007

De pé, ó vítimas do PS!

Hoje é dia de greve geral. Estou aqui como quem está numa trincheira. Num campo de batalha. E espero que a batalha de hoje acrescente um novo ânimo a quem luta por um país decente. Política, social, económica e culturalmente decente. Justo. Vamos, então, à luta!

Há dois anos, na sua intragável vozinha de coisa falsa, dizia Sócrates em plena campanha eleitoral:

«Nós não vamos combater o défice fazendo dele uma obsessão, arruinando a nossa economia e fazendo disparar o desemprego».

Continuando a citar a espécie de engenheiro que governa o país, recordemos outra promessa feita por ele na mesma altura: «Com o PS, a política ambiental vai recuperar o dinamismo que nunca deveria ter perdido e a qualidade de vida vai voltar à agenda política».

E mais dizia: «Nós vamos retirar 300 mil idosos da pobreza, porque o país tem de ser capaz de garantir uma vida digna àqueles que passaram uma vida inteira a trabalhar».

E todos se lembram, ainda, da sua famosa promessa, afirmada por ele a plenos pulmões e colocada em grandes cartazes por todas as ruas do país: «Nós vamos recuperar 150 mil empregos», acrescentado ainda o engenheiro fabricado na Independente, referindo-se ao desemprego existente na altura – e cito: «7,1% de taxa de desemprego é bem a marca de uma governação falhada, de uma economia mal conduzida».

Nessa altura, respondendo aos jornalistas sobre a sua promessa de não aumentar os impostos, afirmava, sorridente, o engenheiro de aviário: «Recomendo a todos os senhores jornalistas que leiam o programa. E não está previsto no programa nenhum aumento de impostos».

Os socialista prometeram isto e muito mais. Prometeram praticamente tudo. Prometeram que a Saúde seria para todos, independentemente do local onde vivessem e da sua situação económica. Prometeram melhorar o sistema de Ensino. Prometeram retirar a Cultura do sistema de asfixia financeira em que vivia, e dedicar-lhe 1% do orçamento.

Passados dois anos, levantemos o «manto diáfano da fantasia» socialista e olhemos para «a nudez crua da realidade»:

Se 7,1% de taxa de desemprego, no tempo do PSD, eram a marca de uma governação falhada, os 8,2% de hoje serão o quê? São, para vergonha do governo – e para nossa desgraça – a maior taxa de desemprego dos últimos 21 anos, com 73 novos desempregados, em média, por dia.

Dos 300 mil idosos que queriam retirar da pobreza, nem 20 mil recebem o complemento de solidariedade.

Prometeram não aumentar os impostos, mas, só em dois anos, aumentaram 9 impostos, e cada português paga hoje mais 330 euros (66 contos) em impostos do que pagava há dois anos.

Prometeram mais e melhor Saúde para todos, especialmente para os mais idosos e desfavorecidos, e o que temos é uma Saúde mais cara e de acesso mais difícil. Os medicamentos aumentaram 6,6% e 300 deles deixaram de ser comparticipados. As taxas moderadoras aumentaram 27%. Nas regiões mais pobres, onde a população é mais idosa e carente, fecham-se serviços e reduzem-se horários. Agora, as grávidas têm os seus filhos cada vez mais em ambulâncias ou no chão da garagem, enquanto outras são encaminhadas para Espanha.

Prometeram melhor sistema de Ensino, mas o caos e o descontentamento instalaram-se. Milhares de crianças passaram a ficar a quilómetros das suas novas escolas, por encerramento daquelas que frequentavam. Portugal, em consequência, apresenta os piores índices europeus em matéria de Educação.

Prometeram retirar a Cultura da asfixia financeira e dedicar-lhe 1% do orçamento, mas, hoje em dia, o ministério está falido e, praticamente, só existe no papel. Política cultural não existe.

Prometeram colocar o ambiente no centro da sua estratégia, mas, dois anos depois, as leis e projectos não saíram da gaveta, e o país está cada vez mais desordenado, mais sujo e mais roído pelo mar. Apenas no que respeita à co-incineração o governo quis agir, não por questões ambientais, mas porque a co-incineração nada mais é do que um grande negócio da China, com largos proveitos para as cimenteiras e graves riscos para a saúde pública. Para sua infelicidade e sorte nossa, os tribunais têm vindo a cortar as vasas a esse atentado.

Dois anos depois das promessas de Sócrates, Portugal está mais longe da Europa, os portugueses estão mais pobres, há mais desemprego, a saúde é uma miragem – e, cada vez mais, um luxo só ao alcance dos mais favorecidos – o ambiente está caótico, o investimento parou, o poder de compra entrou em queda livre. Enfim, Portugal afunda-se.

Mas falta falar das liberdades. Com o PS, voltou o reino da bufaria, de delação, das perseguições políticas. Os boys e as girls são os novos «informadores» de sua excelência o senhor Presidente do Conselho, a quem directamente reportam, ou através do ministério que os tutele. Isto, enquanto não for oficializada a nova PIDE, para tornar tudo mais simplex. Então, será deste bufos, destes boys e girls acantonados por todo o aparelho de Estado, que sairão os novos pides, os novos Barbieris os novos Rosas Casacos. Entretanto, os «delitos de opinião» vão sendo punidos com suspensões, cessações, despedimentos e outras práticas neo-salazarentas.

Por outro lado, avança a chamada monitorização de rádios, televisões, jornais e blogues, feita pela Entidade Reguladora da Comunicação Social, para se perceber quem é da cor e quem é do contra – e daí se tirarem as devidas consequências. Isto para não falar do novo Estatuto do Jornalista, que institui um tribunal especial para julgar e condenar os jornalistas de «sarjeta», ou seja, os que dizem as verdades que os neo-salazaristas querem manter escondidas.

A corrupção é a moeda corrente. Nada há que ela não compre. Mas o PS recusa medidas eficazes ao seu combate, mesmo que sejam as pálidas propostas apresentadas por um socialista, João Cravinho. Aparentemente, o PS – como partido e como governo – não que ir buscar lenha para se queimar.

Na política externa, Sócrates continua a aceitar que os portugueses sejam a carne para canhão nas guerras imperiais de conquista que Bush, alucinadamente, promove. Só este mês – e só no Iraque – já foram abatidos mais de cem soldados invasores norte-americanos. O passeio que Bush prometera, tanto no Afeganistão, como no Iraque, está a ser uma longa caminhada de mortes, mutilações, deserções, suicídios, e distúrbios mentais.

Foi contra isto tudo que a Greve Geral foi decretada. O mesmo é dizer que o foi em nome da vida, em nome da decência, em nome da liberdade, em nome da justiça, em nome, enfim, do direito ao pão. Em nome da democracia.

De pé, ó vítimas do PS!




5.27.2007

O sono do Zé


O Zé adormeceu. Hibernou. Há que diga que é uma coisa atávica, que sempre foi assim, que vivemos perpetuamente hibernados, alheios de nós. Não irei tão longe. Estaremos, apenas, a passar pelas brasas.

Enquanto isso, no país que é nosso - mas cuja posse demoramos a tomar - os pastores partem e repartem o pasto pelos senhores morgados. Sobram-nos cardos e erva seca. Acordamos - quando acordamos - mais pobres do que antes de cada sesta.

As nossas mulheres estão a aprender a parir em ambulâncias, chãos de garagens ou em terras de Espanha. Os nossos filhos calcorreiam quilómetros para chegarem à escola mais próxima. Morremos, porque a urgência hospitalar foi levada para lá do sol-posto. Roemos as unhas, porque perdemos o emprego e o pão que dele vinha. Voltamos a tirar o barrete, respeitosamente, e a curvar a coluna, em solícita vénia, para que nos seja concedida a graça de um trabalhito, por mais precário e mal pago que seja. Perdemos a casa, porque os pastores de Bruxelas decidem que os juros devem continuar a subir para que os banqueiros acrescentem mais grãos aos seus celeiros. Os velhos morrem de solidão e de vergonha pelos fiados que têm na farmácia. Por já não serem gente

Todos os dias nos apresentam uma nova factura, uma nova exigência, uma nova canga. E nós - o Zé - estremunhados, pagamos. Sem um PORQUÊ?, sem um BASTA!, sem um grunhido que seja.

Vai longa sesta. É quase um coma irreversível.

5.25.2007

Mário Lino visita a Península de Setúbal

Confrontado com as críticas generalizadas às suas afirmações, segundo as quais a Península de Setúbal era um deserto despovoado e desprovido de quaisquer equipamentos, Mário Lino, ministro das Obras Públicas do Governo chefiado por José Sócrates, deslocou-se a esta região para justificar as suas polémicas declarações.
Dessa visita, que a foto documenta, pode verificar-se que a razão - como sempre - está do lado do governante. No final, Mário Lino (o segundo da primeira fila, a contar da direita), que se fez acompanhar por diversos secretários de estado, assessores e adjuntos, para além de investidores com interesses na Ota, disse à comunicação social que a Península de Setúbal está em condições de começar a abastecer com areia as zonas do litoral do país que estão a ser afectadas pela erosão marítima.
Lúcido e bem disposto - e com a elegância argumentativa que o caracteriza - esclareceu que o governo não inviabilizou o novo aeroporto na Ota por a Península de Setúbal ser um deserto, mas que foi precisamente o contrário, ou seja - e citamos - «temo-nos esforçado por transformar esta região num deserto, para podermos agora dizer que na Ota é que o aeroporto fica bem». O ministro disse ainda que, «para o sucesso do governo ser completo, falta a Secil e as pedreiras arrasarem a Serra da Arrábida, que se está a revelar um grande entrave aos nossos objectivos».
A terminar, Mário Lino acrescentou que «é também por isso que o senhor primeiro-ministro insiste tanto na co-incineração na Serra da Arrábida, esse monte de pedras sem qualquer sentido».



5.24.2007

Malhas que o Império tece

Escondidas em páginas pares, quase sem títulos, as notícias lá vão saindo. Aqui há meses, as baixas norte-americanas no Iraque eram dadas com algum destaque nas rádios, nos jornais e nas televisões. Agora, só em pequenas notas de rodapé - e nem sempre. Compreende-se. A ordem é não desagradar aos EUA e seus aliados. Melhor dizendo: aos seus eunucos.
Só esta semana consegui compilar alguns desses revezes. Carros de combate são destruídos com frequência, através de minas artesanais, mas eficientes. Soldados norte-americanos são capturados e aparecem mortos, dias depois, apesar das enormes e operações de resgate, servidas por meios altamente sofisticados.

Só nas últimas 48 horas (entre os dias 22 e 24) o exército norte-americano registou mais nove baixas no Iraque, em resultado de cinco ataques registados. No mesmo período, apareceu morto outro dos soldados ocupantes há dias capturados pela resistência.

As más notícias para o Império e para os seus eunucos, meus amigos, são sempre excelentes notícias para quem luta pela Liberdade e pela Paz.

A co-incineração e a Censura segundo Sócrates



Discreta e sofisticada, de máscara democrática e farpela à socialista, a censura aí está. Voltou reciclada. Mas voltou. Agora, não se farda de coronel mentecapto, nem usa outro lápis que não seja para salientar as pestanas. Não corta nem amputa artigos. Não confisca livros. Não está ligada (que se saiba) à sede de nenhuma polícia política. A Censura, agora, não cheira a farda, nem a botas, nem a cavalariça. Veste fatos das melhores marcas, perfuma-se com os mais caros olores. E fala com vozinha melosa, adocicada, assexuada, estranha.

A Censura, hoje, funciona no gabinete do senhor «engenheiro» José Sócrates e nos gabinetes dos seus incontáveis assessores. Mas o censor não existe. Não se sabe se é homem, mulher, ou assim-assim. O velho lápis azul, prévio e grosso, deu lugar ao telefonema «indignado», ao e-mail truculento, ao fax «esclarecedor», à conversa de reposteiro com o chefe de redacção, o director-adjunto ou, mesmo, com o senhor director.

Hoje, da televisão aos jornais, passando pela rádio, toda a gente sabe o que deve - ou não - escrever ou dizer. Não é bom para a carreira de nenhum jornalista dar notícias que desagradem ao senhor «engenheiro». Começou por ser inconveniente, e agora é claramente perigoso não se alinhar pela socratiana verdade oficial. Ser-se do «contra» pode tirar o pão da boca.

Há dias, o governo sofreu nova derrota no Tribunal Central Administrativo do Sul, que confirmou a suspensão da co-incineração de resíduos perigosos na Arrábida. Com ínfimas excepções, a comunicação social ignorou o assunto. Isto é: não quis arreliar o senhor «engenheiro», que viu, mais uma vez, contrariada a sua paranóica obsessão. Na conferência de imprensa que os presidentes das câmaras municipais de Setúbal, Palmela e Sesimbra promoveram, acompanhados do advogado que representa estas autarquias na sua luta pela saúde pública, nem uma estação de televisão apareceu. Pensemos no alarido que seria, caso a decisão tivesse sido a inversa

É verdade. Um silêncio de chumbo, negro, opressivo, alastra por todo o lado. O caso do professor que se referiu à trafulhice com a licenciatura de Sócrates é apenas mais um episódio desse alastrar. A bufaria sente-se estimulada a defender o «chefe». Os boys e girls, desejosos de conservarem - ou aumentarem - as suas sinecuras, já não respeitam amigos ou colegas. Bufam, na esperança de treparem mais uns degraus, pois há muito que perceberam que ar se respira e que é o vale-tudo a ditar a nova ordem «democrática». E «socialista».

Pois é. Nos dias que correm, democracia, socialismo, liberdade de expressão, direito à saúde, ao trabalho e à remuneração valem o mesmo que certos diplomas.

Nada.

5.23.2007

E dir-nos-emos deuses


- É o maior diamante do mundo.
-
Não - corrigiu o cigano - É gelo.
Gabriel Garcia Marques
Cem Anos de Solidão

Faremos, de pedras afagadas pela dor torrencial das mãos,
as casas e os caminhos pendulares do tédio imperecível.
Na letargia do sonho, sob o silêncio luminosos das estrelas,
criaremos rosas já abertas, e do musgo afirmaremos
ser oposto ao sol. E dir-nos-emos sábios.

Imporemos às palmeiras o rigor da linha recta,
e aos rios definiremos margens isentas de limos e meandros.
Depois, rasgaremos o espaço com uivos laminados,
coagulando o azul e o vento. E dir-nos-emos fortes.

Ensinaremos ao cão os equívocos do sangue,
e acrescentaremos aos muros as farpas vidradas da renúncia.
Circularemos em redor do ouro, modelando peixes com olhos de rubi,
e com eles compraremos o prazer e a verdade. E dir-nos-emos lúcidos.

Mataremos, então, em nome dos valores eternos,
reclamando dos púlpitos a posse da razão fundamental,
e desabando sobre os ímpios a força da nossa mão intacta.
E dir-nos-emos sérios. E dir-nos-emos justos.

E quando recordarmos a pergunta original,
para decidirmos que a transparência agulhada do gelo
é o esplendor estelar dos diamantes,
nenhum tempo faltará para que nos digamos deuses.

5.22.2007

Um cheirinho a fascismo


Um professor da Direcção Regional de Educação do Norte foi suspenso após ter feito comentários à licenciatura do primeiro-ministro. O docente em causa, de seu nome Fernando Charrua, ter-se-ia referido em termos jocosos à licenciatura de José Sócrates, o que não agradou à senhora directora regional, Margarida Moreira, provavelmente uma girl socialista atenta e obrigada. A distinta senhora considerou que o dito era insultuoso e que foi proferido em ambiente de trabalho, dando por isso lugar à instauração de um processo disciplinar e à suspensão do professor. Fernando Charrua, aliás, admitiu ter feito um «comentário jocoso a um colega, dentro de um gabinete», acrescentando que o referido comentário foi «retirado do anedotário nacional do caso Sócrates/Independente».


Aqui fica o aviso: a partir de agora, todos os portugueses que, por qualquer meio, teçam, durante o horário laboral, comentários jocosos, depreciativos ou meramente risonhos sobre a licenciatura de José Sócrates, estão sujeitos à alçada rigorosa da sua hierarquia profissional. Suspensão imediata, processo disciplinar e pena consequente, que pode ir da repreensão ao despedimento com justa causa. Por outras palavras: a liberdade de expressão não é aplicável nos casos em que o suposto engenheiro Sócrates seja o alvo do comentário.


Atenção, meus amigos! Anda no ar um cheiro inconfundível a fascismo e à sua indispensável bufaria. Há muito que eu venho dizendo que as coisas estão a ir por caminhos muito tristes e sombrios. E entre os métodos dos socialistas e os métodos dos fascista (garanto-vos eu, que a ambos conheço de ginjeira) encontrar uma diferença de vulto é mais difícil que encontrar a tal agulha no palheiro.


Falando de Sócrates, dessa coisa nefasta que está a estender os seus tentáculos à volta da nossa incipiente democracia, asfixiando direitos, liberdades e garantias a mais de nove milhões de portugueses, enquanto os restantes acumulam o que àqueles é retirado, quero dizer que o homem nem sempre conta mentiras. Há dias, fugiu-lhe a boca para a verdade. Disse ele, dirigindo-se a pessoas que tinham acabado de adquirir a nacionalidade portuguesa: «Quero deixar-vos também uma palavra de confiança, confiança em vós, nas vossas famílias e a certeza que cada um de vós dará o seu melhor para um país mais justo, para um país mais pobre». Foi um lapso, disse ele. Pois foi. Mas um lapso nascido no seu subconsciente, na convicção íntima que ele tem sobre o destino deste desgraçado país.


A contribuir para que sejamos um país cada vez mais pobre, aí estão mais 500 despedimentos anunciados na multinacional norte-americana Delphi, o que me deixa uma dúvida no espírito. Quando Sócrates falou em 150 mil postos de trabalho, durante a campanha eleitoral onde enganou cerca de dois milhões de eleitores, estaria a referir-se a mais 150 mil novos postos de trabalho, ou em 150 mil novos desempregados? Se calhar, foi isso…

Entretanto, fruto das «excelentes» políticas do suposto engenheiro Sócrates – e também suposto socialista – o número de portugueses a trabalhar em Espanha e inscritos na Segurança Social do país vizinho é já superior a 75 mil. Diz o Ministério do Trabalho e Assuntos Sociais espanhol que existiam, no final de Abril, 75.307 portugueses naquelas condições, mais alguns do que em Março. Face a finais de 2006, a subida é já de quase 4%.

Por cá, (olha a grande novidade!) a taxa de desemprego subiu para o valor dramáticos, sendo este o terceiro trimestre consecutivo em que aumenta o número de pessoas sem trabalho. Quem o diz é o insuspeito Instituto Nacional de Estatística, que divulgou os números de desemprego referentes aos primeiros três meses de 2007. Sem papas na língua, afirma – e prova – que o número de desempregados voltou a aumentar. E para aborrecimento – e vergonha, se a tivesse – do suposto engenheiro Sócrates, acrescenta-se que para encontrar um valor superior ao anunciado é preciso recuar 21 anos, mais precisamente, até ao segundo trimestre de 1986.


Os números mostram que Portugal tinha 469.900 desempregados no final do primeiro trimestre deste ano, número que representa uma taxa de desemprego de 8,4%, mais 0,7% do que no mesmo período do ano passado, e mais 0,2% acima do último trimestre de 2006. As estatísticas mostram também que o actual ritmo de crescimento económico não só não é suficiente para alimentar uma descida do desemprego, como continua a deixar-nos cada vez mais para trás em relação ao resto da Europa. Maiores vítimas do desemprego são os jovens entre os 15 e os 24 anos, com uma taxa de desemprego de 18,1%, valor que representa um aumento face aos 15,7% registados há um ano, e aos 17,9% do final de 2006.


Caso o suposto engenheiro Sócrates não se lembre disse, aqui fica a ideia. Encerrar o INE, ou privatizá-lo. Assim, as confederações patronais já podiam divulgar os dados que mais lhes conviessem. Ou, então, levantar processos disciplinares a todos os responsáveis pelas estatísticas, dado que elas não respeitam as conveniências e as verdades oficiais. Tudo a bem da nação.


Enquanto isto acontecia, os meios de comunicação social passavam o tempo na Aldeia da Luz entretidos com o caso da menina desaparecida. Talvez por isso, quase ninguém deu destaque a uma decisão do Tribunal Central Administrativo do Sul, que confirmou a suspensão da co-incineração de resíduos perigosos na Arrábida. Distracções.

Que Sócrates mais o seu ministro do Ambiente tenham metido a viola no saco, compreende-se. Há verdades que devem ser escondidas, porque, como esta, representam uma violenta bofetada na cara arrogante do «engenheiro» que vai sendo primeiro-ministro. Mas já não se compreende que a maioria dos jornais e as televisões tenham escondido a coisa.

Leio-vos passagens do texto que o advogado Castanheira Barros, que representa as Câmaras de Setúbal, Palmela e Sesimbra, em defesa da saúde pública das suas populações, ameaçadas pela co-incineração na Arrábida, escreveu no seu blog, http://castanheira.blogspot.com/. Diz ele:

«
Depois da Laika ter sido posta em órbita pelos soviéticos em 1957, passando a ser o primeiro ser vivo no espaço, eis que agora é notícia a Leya, cadela de José Mourinho, que os jornalistas portugueses decidiram pôr nos píncaros da Lua. E porquê? Que fez ela de especial? Nada, que se saiba. Tal aconteceu no mesmo dia em que o Tribunal Central Administrativo – Sul confirmou a suspensão da co-incineração de resíduos perigosos na Arrábida. A estratégia da mediatização do banal e da banalização do fundamental, funcionou mais uma vez.
Transformou-se em trivial o que tem sido uma raridade em Portugal: adopção de providências cautelares contra as pretensões do Governo, e em transcendental o que não passa de uma banalidade: uma cadela a viajar de avião ao colo da sua dona. Sem dúvida que o dono da cadela é um homem muito especial, desde logo porque Mourinho é também contra a co-incineração no Outão, mas nada justifica que se tenham escrito páginas inteiras acerca do romance construído à volta da cadela, e apenas breves notícias sobre o anúncio público de uma decisão judicial que é de crucial importância para a saúde pública e para o meio ambiente. Nem uma só câmara de televisão se dignou colher a opinião dos Presidentes das Câmaras de Setúbal, Sesimbra e Palmela, que vêm travando, até ao momento com sucesso, uma titânica batalha judicial contra o Governo.E se a decisão tivesse sido ao contrário, ou seja, se o ministro do Ambiente ou a Secil tivessem ganho o recurso que apresentaram? Passaria também essa decisão despercebida aos portugueses? A imprensa desempenha, todos nós sabemos, um papel crucial na aculturação ou na estupidificação do nosso Povo. O último jogo de futebol entre o Benfica e o Sporting preencheu, no dia seguinte, 23 páginas de um jornal desportivo deste País. Para bom entendedor, meia palavra basta.
»

Pois é, amigo Castanheira Barros. O jogo está viciado. A liberdade de expressão, o direito à informação, a ausência de censura, as razões e os direitos de milhões de portugueses são coisas de faz-de-conta. A democracia está detida preventivamente, em parte incerta. Aquilo que por aí anda é a velha ditadura, agora mascarada de socialista e democrática.

E se não abrirmos os olhos e dermos as mãos (nós, os que só queremos ser cidadãos de corpo inteiro) pode crer – podemos todos crer – que dias bem piores aí virão.

5.16.2007

Mentiras e Mentirosos

(Crónica lida dia 16 de Maio de 2007 na Rádio Baía)

Depois dos excelentes momentos que vivi na passada sexta-feira, durante o convívio que uniu os ouvintes da Rádio Baía e esta nossa equipa no restaurante Forno de Cima, em Almada, com a carinho anfitrião da Luísa Basto e do João Fernando, resolvi fazer uma pausa e mudar hoje o registo das nossas «Provocações». Antes disso, porém, quero dizer que desses momentos guardarei para sempre os rostos, as palavras e a emoção que vi, ouvi e senti, e que mais uma vez tive a prova que uma outra sociedade é possível. E ela sê-lo-á quando, sem mentiras e sem disfarces, sem vaidades e sem arrogâncias, olhando uns para os outros com espírito fraterno e solidário – conforme ali aconteceu – o povo português possa entender-se e definir o seu rumo, livre do malabarismo dos políticos, esses sábios manipuladores das palavras e das consciências. Quando também soubermos expurgar do nosso seio os oportunistas, os parasitas, os falsos amigos ou, em muitos casos, os simples vendedores da banha da cobra, ineptos papagaios de frases feitas, que se deslumbram com as suas próprias tiradas, e que estão convencidos que são a nata da democracia e um exemplo a ser seguido sem contestação. Por isso, pelo que vivi – mas, sobretudo, pelo que aprendi – no jantar desta nossa Rádio Baía com os seus ouvintes, quero deixar-vos a todos – aos companheiros da rádio e a esses ouvintes – os meus agradecimentos.

Mas disse, no início, que ia mudar o registo das «Provocações» de hoje. E assim sendo, permitam-me que me dirija exclusivamente aos senhor primeiro-ministro, pois os assuntos que tenho a tratar são com ele – e apenas com ele. Por isso, se os nossos ouvintes, mesmo os mais fiéis, quiserem desligar o rádio, estejam à vontade.

Senhor «engenheiro».

V. Exa. não vê as aspas, mas elas estão lá, na palavra engenheiro, amparando-a, não vá ela desmoronar-se por falta de solidez, de consistência. Aliás, pouco se me dá que V. Exa. tenha, ou não, direito a alardear um título académico. O que não me pode deixar indiferente é o facto de V. Exa. poder ter percorrido caminhos ínvios – e, por isso mesmo, censuráveis – para se ornamentar com um canudo, significando isso que não seria pessoa aconselhável para exercer qualquer mister, muito menos para ocupar o cargo que ocupa. E se à sua rocambolesca licenciatura me refiro não é pelo prazer de malhar em ferro frio, mas porque hoje decidi falar consigo de mentiras e mentirosos. E, nesta questão, muitas mentiras nos foram contadas. Um dia se saberá por quem. Por isso, a questão da licenciatura veio, apenas, a talhe de foice.

Alinhavo este texto num dia igual a tantos outros. Lá fora, não acontece nada. Ou não acontece nada de especial. Já não oiço a descarga do alto-forno da antiga – e assassinada – Siderurgia Nacional, e sei que, às quatro da tarde, não haverá a mudança de turno, como não houve às oito da manhã, nem à meia-noite, com milhares de trabalhadores revezando-se para que o coração da fábrica continuasse quente e a pulsar. Já não fabricamos o aço que nos fazia falta – e ainda faz – porque temos de absorver os excedentes doutros países. E agora, até sucata importamos.

Isto traz-me a outra realidade. Tenho ouvido V. Exa. falar de competitividade e produtividade, garantindo que precisamos aumentar uma e outra. Aqui chegados, garante V. Exa. o mesmo que garantem os donos do dinheiro, vulgarmente chamados capitalistas, ou seja, que o aumento da competitividade e da produtividade não se fará sem que os salários sejam contidos ou, até, reduzidos. Aliás, o muitíssimo bem pago camarada de V. Exa., que ocupa o cargo de governador do Banco de Portugal, diz que «a única forma de manter níveis de competitividade externa é através da contenção dos custos salariais» acrescentando que «a rigidez salarial no mercado de trabalho português, uma das mais elevadas da União Europeia, não facilita o ajustamento das empresas a choques negativos sobre a procura dos seus produtos, especialmente tendo em conta que a legislação laboral dificulta a adaptação do número de trabalhadores à evolução da actividade das empresas». Quer ele dizer, lá na dele, que é preciso despedir à vontade e, ao mesmo tempo, praticar salários cada vez mais baixos, mas pondo, é claro, o seu rabinho de fora.

Deixe que lhe diga, senhor «engenheiro», que alguém anda a mentir – e muito – quando faz tais afirmações. Ora eu acho que não é preciso ser-se doutor nem engenheiro para explicar a V. Exa., ou ao seu camarada Victor Constâncio, mais aos senhores capitalistas deste país, que a «competitividade» e a «produtividade» são dois conceitos que, sob o ponto de vista técnico, significam coisas completamente diferentes. Basta sabermos que a produtividade pode aumentar sem que a competitividade cresça; e inversamente, a competitividade pode crescer sem que seja necessário aumentar a produtividade.

Se V. Exa. perguntar ao seu ministro das Finanças se isto é verdade, ele responderá que é, caso não esteja mais ninguém a ouvir. Porque ele sabe que a produtividade se obtém dividindo a quantidade de produtos obtidos pela quantidade de recursos utilizados. Como sabe que a competitividade é uma coisa completamente diferente, já que mede a posição vantajosa, ou não, de uma empresa no mercado, relativamente às outras. Como é fácil de concluir, a produtividade de uma empresa pode aumentar sem que aumente a sua competitividade. Para que isso aconteça, basta que uma empresa, com produtos ultrapassados ou de má qualidade, aumente a sua produtividade, ou seja, aumente a quantidade de produtos que obtém com os mesmos recursos que utiliza, mas como não os consegue vender, porque os consumidores os não compram, a sua posição no mercado piora, piorando a sua competitividade. Inversamente, poderá suceder que uma empresa se torne mais competitiva, portanto que a sua posição no mercado melhore relativamente às outras empresas, sem que aumente a sua produtividade. Basta, para tanto, que melhore o seu marketing, ou que encontre um canal de distribuição mais adequado, ou que consiga associar aos seus produtos uma marca de prestígio, etc..
E porque estamos a falar de mentiras e de mentirosos, devo já dizer a V. Exa. que também mentem aqueles que afirmam que serão os salários baixos e o aumento da carga horária a salvação da economia e, consequentemente do país. Contrariamente ao seu discurso, que é o discurso do grande capital, e a posição oficial dos media, os países mais competitivos da União Europeia são precisamente os que têm salários mais elevados. Tenho à minha frente um interessante quadro, retirado de dados do Eurostat que prova isso mesmo.

Não me parecendo que V. Exa. possa ser tão ignorante que desconheça estes dados, resta-me concluir que será, nesse caso, alguém a quem, com rigor, se pode acusar de fugir à verdade, alguém a quem, na linguagem comum, chamamos aldrabão – ou simplesmente mentiroso

O dia continua ensolarado, mas estranhamente quieto. Lá fora, mantém-se o silêncio. O país anda calado, tristonho, macambúzio, sem esperança. Aqueles que podiam fazer a festa, senhor «engenheiro», preferem o silêncio. Ou festejam na privacidade das suas mansões, dos seus castelos feudais. Lambem os beiços e esfregam as mãos enquanto vêem os lucros acumularem-se. São os seus amigos, os donos dos grandes grupos económicos e financeiros, para quem nunca haverá crise. Só no primeiro trimestre deste ano os lucros da banca cresceram mais 24%. Para eles, a economia vai de vento em popa.

Mas esta é uma das coisas de que V. Exa. não gosta que se fale. No entanto, se fosse um político sério – se é que numa sociedade dominada pelo poder económico podem chegar aos governos políticos sérios – seria o primeiro a promover a discussão desta e doutras matérias. Em vez disso, o seu governo e a generalidade dos meios de comunicação social (que deveriam ser um fórum de debate e esclarecimento, caso não fossem propriedade de grupos capitalistas ou rigidamente controlados pelos comissários políticos do sistema) esforçam-se por esconder ou deturpar estas realidades inconvenientes.

Hoje, em Portugal, milhares de crianças não beberão leite, nem comerão carne ou peixe. Milhares de idosos não terão a sua consulta nem comprarão os medicamentos de que precisam. Milhares de homens e mulheres desempregados – ou à beira disso – deitarão contas à vida, sentados à beira do desespero. Milhares de jovens casais não sabem como poderão suportar a próxima subida da prestação dos seus empréstimos para habitação.

Nos dois anos do seu mandato, senhor «engenheiro», fecharam quase 2.500 escolas. Nos locais onde encerraram maternidades, serviços de urgência ou serviços de atendimento permanente, os privados atropelam-se na ânsia de aproveitarem o terreno para a caça ao doente.

Resta-me dar-lhe os parabéns, senhor «engenheiro». Creio que a sua governação lhe guardará um merecido lugar na história.

Porque não, até, um museu na sua terra natal?

5.12.2007

Não fechem a Independente!

Não se percebe a razão do encerramento da Universidade Independente! É que, como se demonstrou, está muito mais à frente que qualquer outra universidade. Vejamos:

- Está aberta nas férias do Verão;

- Passa diplomas aos Domingos;

- Aceita candidatos sem documentação comprovativa das habilitações, confiando na boa-fé dos candidatos (princípiohumanista);

- Maximiza a potencialidade científica dos seus docentes, aocolocá-los a reger 4 cadeiras (ao mesmo tempo que o regente é assessor no mesmo Governo onde um dos alunos é Secretário deEstado);

- Permite que uma mesma pessoa, num só ano, faça duas licenciaturas;

- Convida os seus antigos alunos, que nunca conheceram, a ir dar aulas para lá;

- Estabelece planos de curso pessoais "ad-hoc", sem os documentar, para poupar nos custos do papel e impressão;

- Aceita provas de exame feitas no domicílio e enviadas por fax, desde que acompanhadas com uma mensagem simpática dirigida ao ilustre Reitor;

- Possibilita a apresentação de teses finais sem que as mesmas fiquem guardadas no arquivo a ocupar espaço e recursos;

- Forma alunos que, no futuro, ascendem a primeiros-ministros.

Como justificar, então, o encerramento de uma universidade assim, cujo mal é, pelos vistos, confiar nas pessoas, poupar nos custos e maximizar os recursos?

Juntemo-nos e lutemos contra o encerramento da UnI.!

Passemos este texto até chegar às mão de Mariano, o Gago, e pode ser que ainda consigamos evitar o pior.