7.07.2007




Austrália confessa a verdade:

Entrámos no Iraque por causa do petróleo

Afirmações recentes do primeiro-ministro australiano, deixaram claro que a Austrália participou na invasão e ocupação do Iraque para garantir o controlo das vastas jazidas petrolíferas existentes no Iraque. Louve-se-lhe a franqueza. É o neo-colonialismo e a guerra de pilhagem no seus esplendor. Ou o Império (pela boca de um dos seus rafeiros) a confessar, sem receio, a sua condição imperialista.

Mas nem tudo são rosas...

A explosão de um camião carregado de explosivos num mercado da localidade de Toz, a norte de Bagdade, causou pelo menos cem mortes e 120 feridos, segundo informaram fontes da Polícia citadas pelas agências internacionais.

Entretanto, o exército norte-americano também confirmou a existência de seis baixas no seu contingente, em resultado de um atentado na zona de Amarli, a 90 quilómetros de Tikrit. Desculpem-me a franqueza, mas dou dois ou três pulos de contente por cada baixa sofrida pelos invasores. Estou farto de saltar.

Tikrit e Toz situam-se na província de Salahedin, que pertence ao denominado Estado Islâmico do Iraque, anunciado por um grupo sunita, em Outubro. Certo ou errado, estes, pelos menos, estão na terra deles.

7.06.2007

LISTA NEGRA
(Nunca esquecer estes nomes)

José Sócrates

Teixeira dos Santos

Correia de Campos

Vieira da Silva

Augusto Santos Silva

António Costa

Luís Amado

Maria de Lurdes Rodrigues

(a actualizar em caso de necessidade)

7.05.2007

Ontem, hoje, aqui


Intelectuais apolíticos

por Otto Rene Castillo [*]

Um dia,
os intelectuais
apolíticos
do meu país
serão interrogados
pelo homem
simples do nosso povo.


Serão perguntados
sobre o que fizeram
quando
a pátria se apagava
lentamente,
como uma fogueira frágil,
pequena e só.


Não serão interrogados
sobre os seus trajes,
nem acerca das suas longas
siestas
após o almoço,
tão pouco sobre os seus estéreis
combates com o nada,
nem sobre sua ontológica
maneira
de chegar às moedas.


Ninguém os interrogará
acerca da mitologia grega,
nem sobre o asco
que sentiram de si,
quando alguém, no seu fundo,
dispunha-se a morrer covardemente.


Ninguém lhes perguntará
sobre suas justificações
absurdas,
crescidas à sombra
de uma mentira rotunda.


Nesse dia virão
os homens simples.
Os que nunca se couberam
nos livros e versos
dos intelectuais apolíticos,
mas que vinham todos os dias
trazer-lhes o leite e o pão,
os ovos e as tortilhas,
os que costuravam a roupa,
os que manejavam os carros,
cuidavam dos seus cães e jardins,
e para eles trabalhavam,
e perguntarão,
"Que fizestes quando os pobres
sofriam e neles se queimava,
gravemente, a ternura e a vida?"


Intelectuais apolíticos
do meu doce país,
nada podereis responder.


Um abutre de silêncio vos devorará
as entranhas.
Vos roerá a alma
vossa própria miséria.
E calareis,
envergonhados de vós próprios.


[*] Revolucionário guatemalteco (1936-1967), guerrilheiro e poeta. A seguir ao golpe de 1954 patrocinado pela CIA, que derrubou o governo democrático de Jacobo Arbenz , Castillo teve de exilar-se em El Salvador. Voltou à Guatemala em 1964, onde militou no Partido dos Trabalhadores, fundou o Teatro Experimental e escreveu numerosos poemas. No mesmo ano foi preso mas conseguiu fugir. Regressou ao exílio, desta vez na Europa. Posteriormente retornou secretamente à Guatemala e incorporou-se a um dos movimentos guerrilheiros que operavam nas montanhas de Zacapa. Em 1967, Castillo e outros combatentes revolucionários foram capturados. Ele, juntamente com camaradas seus e camponeses locais, foram brutalmente torturados e a seguir queimados vivos.

7.03.2007

O crepúsculo da democracia


A propósito de cancros



Os doentes de cancro esperam, em média, 3 meses e meio por uma operação, mas há hospitais onde a demora na intervenção chega aos sete meses, lê-se num relatório do próprio Ministério da Saúde, divulgado recentemente, acrescentando que dos 4.075 doentes com cancro que em Outubro estavam inscritos para cirurgia, 42 % estavam na lista há mais de dois meses e 27 % há mais de quatro. Segundo o mesmo relatório, existem também grandes assimetrias regionais na resposta dada aos pacientes.

Assim, no Algarve, os doentes com cancro aguardam em média mais de 6,5 meses por uma operação, no norte do país o tempo de espera baixa para os 2,5 em Lisboa e no Alentejo é superior a 4 meses e no Centro situa-se nos 3,5 meses. No Hospital de S. Teotónio, em Viseu, e no Centro Hospitalar da Zona Ocidental de Lisboa, a espera atinge, em média, os 7 meses.


(Correia de Campos - o Grande Cancro da Saúde)

Ao contrário disto, as senhoras saudáveis, com fetos normais (isto é: com gravidezes saudáveis) que desejem abortar por razões que só elas sabem, serão atendidas em escassos dias e, como cereja em cima do bolo, estão isentas de taxas moderadoras, coisas que não acontece a qualquer desgraçado que apanhe um pneumonia, sofra um enfarte, ou um AVC. Já para não falarmos do facto de o Estado nem sequer comparticipar a vacina que previne o cancro do colo do útero. Entre um canceroso que precisa de ser operado e uma mulher saudável que queira abortar, tem prioridade, para o SNS, o humaníssimo aborto.

Os dados aqui ficam, para que se medite seriamente na maneira como a política brinca com tudo, até com a vida das pessoas. Dou-vos mais um caso. No início deste ano, uma mulher de 65 anos começou a sentir fortes dores no ombro esquerdo. Foi, às seis da manhã, para a porta do Centro de Saúde do Seixal, para, lá para o fim da manhã, conseguir ser atendida. A médica mandou-a fazer uma radiografia, que foi inconclusiva. Seguiu-se uma ecografia que acusou algo de relativamente complicado, requerendo uma consulta da especialidade no Hospital Garcia de Orta, desconfiando a médica, pelo que viu e leu no relatório, que será necessária uma operação. Nesse mesmo dia foi passada a carta, pelo CSS, a pedir a marcação dessa consulta ao HGO. Até hoje não houve qualquer resposta. Já lá vão cerca de seis meses. Depois da consulta, quantos meses se passarão até que se realize a operação, se ela for, de facto, necessária? E quanto vai custar?

Pergunto-vos: serão os casos de doentes com cancro ou com outras quaisquer doenças, menos importantes do que a decisão de uma mulher saudável em querer abortar? Sentir-se-ão bem, ao saber disto, aqueles que tanto lutaram pela liberalização do aborto, sem que perguntem a si próprios porque ficam agora mudos e quedos perante estas notícias? Onde estão, agora, os grandes, aguerridos e corajosos activistas que encheram ruas e avenidas, colaram cartazes, debitaram argumentos sobre argumentos – alguns deles verdadeiramente imbecis – a favor da liberalização do aborto e por aí andaram, de faca nos dentes, como se eliminar um feto, por razões de natureza económica, fosse um avanço civilizacional e a resolução do nosso maior problema? Porque não saltam nem se esganiçam agora (como saltaram e se esganiçaram então), em defesa dos doentes cancerosos, que esperam meses por uma operação que lhes pode salvar a vida, ou para abreviar os tempos de espera por consultas da especialidade? E, à semelhança do que acontece para o aborto a pedido, porque não lutam com igual fervor e entusiasmo, em festivas e coloridas manifestações, para que todos os doentes – mas os verdadeiros doentes, com doenças que os atingiram sem que para tal tivessem contribuído – também fiquem isentos da taxa moderadora? Então, que moral é esta? Que moralistas são estes? Que coerência há nestas pessoas?

Já que estamos a falar de cancro, falemos doutro:
um cancro chamado Partido Socialista.

Ultimamente, sucedem-se as notícias sobre constantes actos de perseguição política, sendo já três as vítimas mais mediáticas da mentalidade pidesca da gentalha que por aí está espalhada, desde os píncaros da governança até ao reles esbirro sedento de mostrar serviço.

Primeiro, foi o professor Charrua, corrido da DREN, suspenso de funções e com uma nota de culpa à perna, à conta de uma piada e de desabafos que milhões de portugueses, como eu, repetem todos os dias. Por ter brincado com o senhor presidente do conselho, sujeita-se a seis meses de suspensão
.


(Margarida Moreira, a coordenadora da bufaria na DREN)


Seguiu-se a exoneração de Maria Celeste Cardoso, Directora do Centro de Saúde de Vieira do Minho, por causa de um cartaz que recordava aquilo que o ministro da Saúde tinha dito, ou seja, que nunca tinha ido a um SAP, nem esperava ir, ao qual se acrescentava um comentário jocoso O crime da senhora saneada (para dar lugar a um boy socialista, pois claro), terá sido o de não ter mandado retirar o cartaz no preciso instante em foi afixado, ordem que foi dada pela vítima logo que do facto teve conhecimento.

(A girl bisbilhoteira Ana Maria Correia)



Como não há duas sem três, aparece agora uma nota de uma girl socialista, coordenadora da Sub-região de Saúde de Castelo Branco, de sua graça Ana Maria Correia (foto acima), onde esta informa todo o pessoal da sede «que a correspondência endereçada directamente a determinados funcionários, ou ao cuidado dos mesmos, será aberta na coordenação, desde que oriunda de qualquer serviço público, ou outro».

Também é sabido que o blog
http://www.doportugalprofundo.blogspot.com/ (cuja visita aconselho vivamente), do professor António Balbino Caldeira, está sob vigilância apertada desde o dia em que este português levantou a lebre das confusões acerca da célebre licenciatura de José Sócrates, pelo que o seu autor já foi alvo de uma queixa crime por parte do primeiro-ministro, enquanto tal e enquanto cidadão. Só falta saber porque não se queixou, também, como «engenheiro».

A forma como este governo está a tratar a liberdade de expressão, especialmente se é ele próprio o alvo da crítica, não tem comparação sequer com a ditadura do Estado Novo, já que esta, apesar de tudo, teve o cuidado de permitir sempre alguma crítica política e social.

Agora, os esbirros do PS, verdadeiros candidatos a futuros pidezecos, aprestam-se a mostrar ao grande chefe a sua fidelidade canina. Mas já nada espanta se vier da canalha socialista. Depois dos casos que citei, a que falta acrescentar as listas de grevistas de Teixeira dos Santos, e em apenas dois anos de poder absoluto, já estamos, como referi outras vezes, a respirar o ar de chumbo que nos pesava nos tempos de Salazar a Marcelo.

Entretanto, a crise arrasta-se. Para fugir a ela, 200 mil portugueses abastecem-se regularmente em Espanha. As lojas, por cá, estão às moscas, mesmo com promoções de 50%. Cada vez há mais casas devolutas, porque as famílias não podem pagar uma prestação que, em poucos meses, subiu para valores incomportáveis. As empresas fecham umas atrás das outras.

Porém, para o senhor «engenheiro», o remédio não é governar bem. É calar os críticos, como se faz em qualquer ditadura. Os jornalistas começam a incomodar? Sujeitam-se jornais e jornalistas a órgão autoritários, fiéis ao Governo, capazes de calar uns e outros. Censura? Nem pensar!

E a malta, com os bolsos cada vez mais vazios, não sabe o que fazer à vida. Se rir das patacoadas de ministros imbecis, se começar a pensar que isto só vai lá à bomba.

Uma coisa é certa. Democracia é que isto não é. Ou se é, sofre de cancro.

Um cancro chamado PS.

7.02.2007

Combustíveis e não só..


200 mil portugueses abastecem
regularmente em Espanha
As notícias dos jornais galegos davam conta dos combustíveis a preços recorde naquela região autónoma: o gasóleo a 0,98 euros e a gasolina sem chumbo 95 octanas a 1,11 euros.

Ora, o preço recorde da Galiza, que não é diferente do resto da Espanha, é ‘apenas’ mais baixo 26 cêntimos (52 saudosos escudos) por litro da gasolina e dez cêntimos por litro de gasóleo do que em Portugal. Com esta diferença, atestar um carro a gasolina sem chumbo, de 95 octanas, no outro lado da fronteira, significa uma poupança mínima de dez euros (dois mil escudos) o que, para quem vive perto, é muito significativo.
Um automobilista que, no nosso país, gaste uma média de 1.500 euros de gasolina por ano, se abastecer em Espanha, consegue poupar pelo menos 364 euros. É por isso que, segundo a Associação Nacional dos Revendedores de Combustíveis (ANAREC), já são cerca de 200 mil os automobilistas portugueses que abastecem regularmente em Espanha, o que corresponde a qualquer coisa como 300 milhões de euros gastos em combustíveis no país vizinho.
"Pouco compro em Portugal"
Leio nos jornais: «António Lima vive na vila de Valença do Minho, a 500 metros de Tui, “onde tudo, menos comer em restaurantes, é mais barato do que cá”, diz ele - e diz quem faz as compras todas em Espanha. “Pouco compro em Portugal”, diz este valenciano, destacando as diferenças de preços da gasolina, do gás, da carne, do peixe, dos cereais e até do pão e do leite. “Na minha casa somos cinco pessoas e há dois carros. A comprar tudo em Espanha e a meter lá gasolina conseguimos uma poupança de mais de 250 euros por mês”, acrescentando que “o que cá vale a pena é ir comer fora e tomar café”».
É por isso que a ANAREC diz não ter dúvidas de que 25 a 30 por cento dos habitantes da raia portuguesa faz compras regularmente em Espanha, o que dá cerca de 200 mil pessoas. Não é por acaso que, só no ano passado, decretaram falência mais de 30 postos de abastecimento de combustíveis nas vilas e cidades fronteiriças.
É. Um dia destes dou o salto. Estou farto disto. Estou farto deles. Cheiram-me ao mesmo que me cheiravam os outros, os que um dia de primavera se renderam ao Movimento das Forças Armadas.

6.26.2007

Santiago do Chile e Lisboa




Da farda bruta, ao distinto Armani

O governo socialista está prestes a atingir os seus objectivos: colocar a corda na garganta a cerca de nove milhões de portugueses, enquanto os restantes, essencialmente os detentores do poder económico e os barões da classe política – e seus afilhados – terão o país inteiramente para si.

Para nós, povo comum, a sangria está ao rubro. Emprego precário – e é se houver – ordenados incapazes de fazer face ao custo de vida, dificuldades cada vez maiores no acesso ao ensino (só acessível às elites), reformas cada vez piores e mais tardias, o acesso a cuidados médicos e de saúde progressivamente dificultado, agravamento de impostos, criação de novos mecanismo de extorsão, a nível central e local, como sejam a criação de novas taxas e o agravamento de outras.
Tudo serve para taxar. Por enquanto, salva-se o ar. Até ver...

Agora, uma chamada Comissão para a Sustentabilidade do Financiamento do Serviço Nacional de Saúde, por encomenda do Governo, vem propor que as despesas com a Saúde deixem de ser dedutíveis no IRS. Se assim for, milhões de portugueses vão trabalhar para, exclusivamente, pagarem impostos e reduzirem o seu dia-a-dia ao nível da pura sobrevivência.

Cinicamente, incute-se na população ideia de que o Serviço Nacional de Saúde está a caminho da rotura, porque as receitas não cobrem as despesas. Esquecem-se os facínoras que tal apregoam, que o SNS não é uma clínica privada, cuja finalidade é ganhar dinheiro à custa dos que podem pagar uma assistência de melhor qualidade. O SNS é pago por todos os portugueses, através dos seus impostos, e que o Orçamento Geral do Estado, cujas receitas saem dos bolsos de todos nós, deveria dotá-lo com as verbas necessárias a satisfazer, gratuitamente, as necessidades de toda a população, o que só não acontece porque o governo prefere gastar dinheiro noutras coisas.

A hipocrisia do Governo e da referida Comissão vai ao ponto de comparar Portugal com outros países, onde, para além dos ordenados serem incomparavelmente maiores, os respectivos SNS têm uma capacidade que não tem o SNS português – e cada vez tem menos. Por isso mesmo, o facto de as despesas de saúde serem dedutíveis no IRS, resulta do facto de sermos obrigados a recorrermos a serviços exteriores ao SNS, aliviando-o de milhares de consultas e outros actos médicos.

Por outro lado, ao pagarmos taxas moderadoras – ou, como eles querem que se diga agora, taxas de utilização – é bom que fique claro que estamos a pagar aquilo que já pagámos com os nossos impostos, e que só não chega porque o Governo, como já afirmei antes, não dota o OGE com as verbas adequadas à realidade nacional. Aos gastar onde não deve, falta-lhe onde não podia faltar.

Fica claro, assim, que matriz genética deste governo é, essencialmente exterminadora. Extermina tudo o que seja benéfico para a generalidade dos portugueses. Reduz as reformas e aumenta o tempo de trabalho. Extermina o direito à saúde, tornando-a cara, e eliminando Urgências, Serviços de Atendimento Permanente e maternidades. Extermina escolas e consulados. Extermina, em suma, o direito dos portugueses a uma vida sadia, feliz e digna.

No outro pólo, no entanto, no pólo das senhores ricos e dos seus ricos governantes e da sua imensa corte de assessores, adjuntos, gestores, administradores, presidentes, comentadores, analistas, propagandistas, e colaboradores, directores regionais de tudo e mais alguma coisa, a vida é diferente. A administração pública (central e local) está repleta de grandes e pequenos parasitas, abrigados sob as capas dos vários partidos, bandos de ociosos sugadores do erário público, construindo meticulosamente a reformazinha que lhes garantirá um amanhã sem os pavores que hoje atormentam milhões de portugueses.

Aí não faltam ordenados repolhudos, ajudas de custo generosas, reformas várias e em qualquer idade (bastando uns curtos meses para a elas se ter direito), seguros de vida, de saúde e de acidentes pessoais, o saltitar constante de um cadeirão para outro, prémios de resultados, mesmo que os resultados sejam negativos, automóvel às ordens, cartões de crédito com belos plafonds, enfim, a ordem é pilhar depressa e bem. É aí, também, que prolifera a corrupção com a sua cascata de bons negócios e as devidas gratificações.

E quando alguém fala em classes sociais, mesmo que aponte os casos que eu acabei de apontar, logo os tenores da governança (e os seus títeres dos andares inferiores da pirâmide), soltam um pungente dó de peito, gritando, «Aqui d’el Rei!, classes sociais não existem, o que se passa é que tais benesses são indispensáveis à dignificação das funções». E eu, ingénuo, a pensar que a dignidade da função tinha apenas a ver com a maneira como era exercida, e não com a maneira como era remunerada.

Mas Sócrates, o Exterminador Implacável, não pode ter tudo. Muito menos gente feliz nas ruínas. Pode tentar calar as vozes dissonantes, mandar perseguir opositores, ameaçar autores de blogs, iludir e tentar segurar aqueles que acreditaram um dia nele. Podem os seus lacaios obrigar uma professora a trabalhar até à morte, ou levantar processos a quem ouse desabafar contra a camarilha governante.

Mas a fome está aí, insidiosa, alastrando como mancha de óleo. A mentira não enche barrigas, não paga a prestação da casa, nem os livros dos filhos, nem a conta na farmácia. Nem a batata ou o papo-seco. E a retórica, de tantas vezes utilizada, enjoa. Enoja.

A regressão social e económica que vivemos assemelha-se, em muito, à regressão que os chilenos sofreram após o golpe de Pinochet. A diferença, é que no Chile foi à bruta. Aqui – porque eles também aprendem com os seus erros – está a ser silenciosa, delicodoce, cor-de-rosa. Não veste farda nem bombardeia o povo. Veste Armani, mas produz decretos tão assassinos como as bombas de Pinochet.

Portugal vive, hoje em dia, sob a mais violenta e sofisticada das ditaduras. A ditadura justificada por um voto que, descuidado – ou desencantado – lhe escancarou as portas.

Santiago do Chile, Setembro de 1973; Lisboa, Junho de 2007. O mesmo drama. As mesmas vítimas.

Chegou a hora de fazermos qualquer coisa. Não sei exactamente o quê, mas que é preciso fazer qualquer coisa, disso não tenho a menor dúvida.

6.23.2007

Ó Sócrates, diz-me com quem andas...




Tudo bons rapazes


António José Morais (lembram-se dele?) foi acusado de corrupção e branqueamento de capitais num inquérito à construção de uma estação de tratamento de resíduos na Cova da Beira.

O ex-professor de José Sócrates na Universidade Independente, esteve ligado à construção do aterro sanitário em 1996 através do GEASM, o seu gabinete de engenharia, que preparou o projecto, o programa do concurso, o caderno de encargos e avaliação técnica das propostas.

A Polícia Judiciária começou a investigar o caso em 1999, após uma denúncia anónima. À data dos factos, José Sócrates era secretário de Estado do Ambiente, mas não foi ouvido no inquérito. A notícia, avançada pelo Expresso Online e já confirmada pelo PÚBLICO, refere que foram constituídos mais cinco arguidos ".

Para quem já não se lembra do Morais e das suas ligações a Sócrates e ao Partido «Socialista», eu recordo alguns pormenores deliciosos:

I - Comecemos pela querida priminha

O António José Morais é primo em primeiro grau da Dr.ª Edite Estrela. É um transmontano, tal como a prima, que também é uma grande amiga do «engenheiro» Sócrates. Também é amigo de outro transmontano, igualmente licenciado pela UnI, o doutor (será mesmo?) Armando Vara, antigo caixa da Caixa Geral de Depósitos e actualmente Administrador desta instituição, e também ele grande amigo do «engenheiro» Sócrates e da Dr.ª Edite Estrela.

II - Um curiculum maravilhoso

O engenheiro Morais trabalhou no prestigiado LNEC (Laboratório Nacional de Engenharia Civil), só que, devido ao seu elevado espírito empreendedor, canalizava trabalhos destinados ao LNEC, para uma empresa em que era parte interessada. Um dia, devido à sua infeliz conduta, foi convidado a sair. Trabalhou para outras empresas, entre as quais a HIDROPROJECTO, e pelas mesmas razões foi também convidado a sair. Nesta sua fase de consultor de reconhecido mérito, trabalhou para a Câmara da Covilhã, à qual vendeu serviços requisitados pelo técnico «engenheiro» Sócrates – isto, claro, sem nunca se conhecerem...

III - O nascimento de uma bela amizade

É desta amizade entre o «engenheiro» da Covilhã e o engenheiro Consultor que se dá a apresentação de Sócrates à Dr.ª Edite Estrela, proeminente deputada e dirigente do Partido Socialista. E assim começa a fulgurante ascensão do «engenheiro» Sócrates no Partido Socialista de Lisboa, apadrinhada pela famosa Dr.ª Edite Estrela. Porém, logo ficou evidente que à natural e legítima ambição do político Sócrates era importante acrescentar a licenciatura. Fica bem, dá outro estatuto e outra credibilidade. Enfim, facilita a abertura de muitas portas. E, sobretudo, distingue a gente fina da ralé, da maralha…Assim, o engenheiro Morais, já professor do prestigiado ISEL (Instituto Superior de Engenharia de Lisboa) passa a contar naquela Universidade com um prestigiado aluno – José Sócrates Pinto de Sousa, bacharel, sendo importante recordar que não se conheciam de lado nenhum. Nem da Covilhã.

IV - Mais dados para o curriculum

Porém, o diligente e empreendedor engenheiro Morais, demasiado envolvido noutros projectos, faltava, amiúdes vezes, às aulas, o que, naturalmente, levou a que fosse convidado a sair daquela docência. No entanto, convém não esquecer que estamos a falar de um homem dotado de grande espírito de iniciativa, pelo que, rapidamente, se colocou na Universidade Independente. Aí, o seu amigo (mas desconhecido) bacharel, José Sócrates, imensamente absorvido na política e na governação, seguiu-o, mas apenas «porque era a escola, mais perto do ISEL que encontrou». E, claro está, continuava a não saber quem era o engenheiro Morais.

E assim se licenciou, tendo como professor da maioria das cadeiras (logo quatro) o «desconhecido», mas «exigente», engenheiro Morais. E, ultrapassando todas as dificuldades, conseguindo ser ao mesmo tempo secretário de Estado e trabalhador estudante, licencia-se e passa a ser «engenheiro».

Eis que, licenciado o governante, há que retribuir o esforço do hiper, super, mega professor, que, com o sacrifício do seu próprio descanso, deve ter dado aulas e orientado o aluno a horas fora de normal, já que a ocupação de secretário de Estado é normalmente absorvente.

V - E assim…

O amigo Vara, também secretário de Estado da Administração Interna, coloca o engenheiro Morais como Director Geral no GEPI, um organismo daquele Ministério.

VI - E lá vem outra vez o curriculum...

Mas o Morais, um homem cheio de iniciativa, também aí teve de ser demitido, devido a adjudicações de obras não muito consonantes com a lei, para além de outras trapalhadas na Fundação de Prevenção e Segurança fundada pelo secretário de Estado, Vara. De tal modo as coisas foram, que a sigla FPS deixou de significar Fundação de Prevenção e Segurança, para passar a significar, no dizer do povo, Fundos para o PS. (Lembram-se, decerto, que foi por causa dessa famigerada Fundação que o engenheiro Guterres foi obrigado a demitir o já ministro Vara (pressões do presidente Sampaio), o que levou ao corte de relações de Vara com Jorge Sampaio – consta, até, que Vara nutre pelo ex-presidente um ódio de estimação). Guterres, farto que estava do Partido Socialista, aproveita a derrota nas autárquicas e dá uma bofetada de luva branca no PS, mandando-os todos para o desemprego.

Seguem-se Durão Barroso e Santana Lopes, que não se distinguem em praticamente nada de positivo, e assim volta ao poder o Partido Socialista, já comandado pelo «engenheiro» Sócrates. Ganha com maioria absoluta.

VI - Mais um tacho, mais uma oportunidade… e mais dados para o curriculum

Eis que, amigo do seu amigo é, e vamos dar mais uma oportunidade ao Morais, que o tipo não é para brincadeiras. E aí está o fabuloso engenheiro Morais nomeado Presidente do Instituto de Gestão Financeira do Ministério da Justiça. Claro que Sócrates não teve nada a ver com isso – e quem pensar o contrário é gente de mau íntimo, suspeitosa e má-língua. Pois se ele mal o conhecia e, certamente, teria apenas uma vaga ideia do outro ter sido seu dedicado professor e muito prestável examinador… Mas o Morais, que é homem sensível e de coração grande – e que, como a maioria dos homens, não é de pau – tomba de amores por uma cidadã brasileira, que era empregada num restaurante no Centro Comercial Colombo.

Ora, sabemos todos como a paixão obnubila a mente e trai a razão. Vítima disso, o Morais nomeia a «brasuca» Directora de Logística dum organismo por ele tutelado, a ganhar 1.600 € por mês. Claro que ia dar chatice, porque as habilitações literárias (outra vez as malfadadas habilitações) da pequena começaram a ser questionadas pelo pessoal que por lá circulava. Daí até a coisa vir publicada no 24 Horas, foi um ápice. E assim lá foi o apaixonado engenheiro Morais despedido outra vez.

E foi este o homem que fez do senhor José Sócrates Pinto de Sousa um… senhor «engenheiro»!

Agora, o Morais, está a contas com a Justiça. O Sócrates - para que conste - nunca ouviu falar do homem, nem coisa que se pareça.

Comentários? Para quê?

São rosas «socialistas», senhores! São rosas «socialistas».


6.19.2007

Siderurgia Nacional - testemunho de um crime


O mais giro, é que ninguém foi preso...


A história que eu vou contar não é ficção. É uma história que se passou em Portugal, nos nossos dias. É a história de um grande crime, com vários crimes menores pelo meio. É, em suma, uma história de terror.

No dia 5 de Março de 1998, escrevia eu no jornal Outra Banda: «O fim da Siderurgia Nacional, como empresa estratégica ao serviço dos interesses nacionais, está praticamente consumado. O processo arrastou-se ao longo de vários anos, mas caminha agora para um fim inexorável e muito bem definido: colocar um instrumento necessário ao desenvolvimento nacional e ao bem-estar dos portugueses nas mãos de quem, a nível europeu, quer, pode e manda na indústria siderúrgica».

Mas para que se compreenda melhor todo o processo, é preciso dizer que Portugal nunca produziu mais do que 60% das suas necessidades em produtos siderúrgicos. Conscientes desse défice, que obrigava o país a importar os restantes 40%, o que o colocava numa perigosa e caríssima dependência do estrangeiro, nos finais da década de setenta, início da década de oitenta, o Estado entendeu – e bem – executar um plano de desenvolvimento da Siderurgia Nacional. Investiram-se, então, já em meados anos 80, 70 milhões de contos nesse plano, o que incluiu trabalhos de terraplanagens e compra de equipamentos, entre eles um novo alto-forno, que ficou acondicionado nos terrenos da empresa. Convém dizer que, na época, trabalhavam na Siderurgia Nacional, entre as instalações de Aldeia de Paio Pires e da Maia, cerca de 6.500 pessoas.

Porém, por essa altura, iniciaram-se as conversações para a adesão de Portugal à CEE, que impuseram, entre outras obrigações, a necessidade de reduzir a nossa produção de produtos siderúrgicos, pois a Comunidade era, como parece que ainda é, excedentária nessa matéria.
Ora, se isso era verdade em relação à Comunidade, não o era em relação a Portugal, que precisava de produzir mais para satisfazer o seu consumo interno. Parece lógico que, a haver redução de quotas, deveriam ser os países que produziam acima das suas necessidades a fazê-lo, e nunca Portugal. Por incompetência, cobardia ou outra razão qualquer ainda mais censurável (e seria bom que, um dia, os dossiers fossem divulgados para conhecermos os nomes e as caras desses vendilhões da pátria), a verdade é que fomos forçados a sacrificar o interesse nacional para comprarmos os produtos siderúrgicos produzidos no estrangeiro.

Para além dos 70 milhões de contos assim deitados à rua – apenas o alto-forno, que entretanto apodrecia nos caixotes expostos ao tempo, permitiu algum retorno, pois foi vendido para um país asiático – também se comprometeram as hipóteses de garantir, no futuro, o nível de emprego e a estabilidade social de milhares de trabalhadores e suas famílias.

Se o que acabamos de relatar é mau, o que estava para vir não seria melhor.

Mentindo aos portugueses, o governo de Cavaco Silva acabou aquilo que a governação de Mário Soares havia começado. Estou a falar do desmembramento e venda da Siderurgia Nacional a empresas estrangeiras, o que - e ao contrário do que afirmaram, em coro, PS e PSD - não foi uma imposição, nem uma consequência da integração na CEE. Aliás, depois desta venda, passámos a ser o único país da então CEE que não tinha uma indústria siderúrgica própria.

Mas se o desmantelamento e venda da SN foram um autêntico crime de lesa-pátria, as peripécias da venda atingiram as raias do autêntico escândalo, próprio de uma qualquer – e autêntica – república das bananas.

Depois de dividir a SN em três empresas (SN-Serviços, SN-Empresa de Produtos Longos e SN-Empresa de Produtos Planos), o Governo decidiu manter na pose do Estado apenas a SN-Serviços, abrindo à privatização as outras duas. Em 18 de Setembro de 1995, é decidida a privatização da SN-Empresa de Produtos Longos, de Aldeia de Paio Pires e da Maia, a qual é adquirida por 3,750 milhões de contos, pelo grupo constituído pela Metalúrgica Galaica, SA e a Herisider Holand, B.V., uma empresa do Grupo Riva, considerado como os patrões do aço a nível europeu. E os compradores terão feito, sem a menor dúvida, o maior e melhor negócio do século passado, digno de figurar no Guiness.

De facto, por apenas 3,750 milhões de contos, a nova empresa ficou proprietária de todas as instalações e equipamentos das fábricas da Maia e de Aldeia de Paio Pires, das respectivas linhas de produção, correspondendo tudo a uma área de 83 hectares. Mas, para além disso, ficou a deter, também, 5 milhões de contos em stocks (isto é, produtos já fabricados, que, só eles, valiam mais do que o preço pago por tudo) e, como cereja em cima do bolo, de mais 9 milhões de contos em créditos, ou seja, valores a receber por vendas feitas antes de terem comprado as fábricas. Contudo, o Estado português, que abriu mão dos seus créditos, assumiu, pelo contrário, todos os débitos existentes à altura da venda.

Resumindo: a RIVA comprou por menos de 4 milhões de contos aquilo que valia, no mínimo, 14 milhões de contos. Sendo assim, não espanta sabermos que, tempos depois, cedeu a sua posição aos seus parceiros espanhóis por um valor que rondou os 20 milhões de contos.

Foi de tal ordem o escândalo, que o Eng. Silva Carneiro, na altura deste mirabolante negócio presidente do conselho de administração da SN, foi despedido sem justa causa, mas o inquérito que Augusto Mateus, secretário de Estado de Guterres, em finais de 1995, então prometeu, perdeu-se nas inúmeras gavetas do poder político.

A partir daqui, sucederam-se os despedimentos de milhares de trabalhadores. E como nota final, também ela explicativa da subserviência do Estado português aos interesses económicos – e dos muitos negócios subterrâneos que se adivinham no meio desta trapalhada toda – enquanto o alto-forno funcionou, a SN-Serviços, a única que se manteve nas mãos do Estado português, fornecia à SN-Longos as matérias primas (bilhetes, produzidos a partir da gusa líquida, via alto-forno, e energia).
Porém, com a substituição no alto-forno por um forno eléctrico, enganam-se os que pensam que o novo forno ficou nas mãos nacionais. Nada disso. Agora, toda a produção passou para as mãos privadas, que são, como sabemos, estrangeiras. Portugal perdeu totalmente o controlo sobre uma área estratégica fundamental para o seu desenvolvimento, que é a produção de produtos siderúrgicos.

E aqui vos deixei os traços principais de um crime – de vários crimes – em consequência dos quais o país saiu altamente lesado. Mas de onde, para além dos grandes interesses económicos estrangeiros, alguém deve ter ficado muito bem na vida.

Mas a verdade é que ninguém foi preso.

6.18.2007

Margarida Moreira e a Santa Bufaria


Cuidado, ó infiéis! As fogueiras já crepitam!

Mistura de Silva Pais e de juiz do Santo Ofício, Dona Margarida Moreira vive o seu momento de glória. É figura pública, mediática. Assanha-se em defesa de Sócrates, engenheiro sem mácula e político sem émulos. Pai de todos os tachos - e do seu, por consequência - o cônsul está acima de todas as críticas, gracejos e insultos. Ou melhor: o cônsul não pode ser criticado, alvo de gracejos ou de insultos, ainda que se trata de mero desabafo solto enquanto cidadão.

Incauto, o Charrua disse o que milhões de outros plebeus dizem. Desabafou na presença do comparsa amigo. Porém, antes de ser amigo, o comparsa, por já saber que «eles» andam por aí, pensou na sua barriguinha, na sua carreira, no seu interesse. E de bufo se fez.

Dona Margarida Moreira, matrona cor-de-rosa assanhado, que também sabe o que lhe convém, assumiu ela o papel de Silva Pais e de juiz do Santo Ofício, curiosa simbiose genética, versão Portugal XXI. Que lhe assenta lindamente.

Charrua já cheira os odores da lenha incendiada. Vai pagar a herética ousadia.
Para que ele - e todos os potenciais hereges - aprendam.

6.15.2007

Antes o carjacking


Quando você compra um carro, paga IVA e Imposto Automóvel. (Em breve pagará o mesmo imposto, mas com nome diferente). Depois, para poder circular na via pública, ou para nela ter o carro estacionado, pagava o chamado «selo do carro», ou imposto de circulação, ou imposto municipal sobre veículos.

Mas se você, por qualquer razão, desistisse de utilizar a sua viatura, bastava pô-la num espaço particular (garagem, terreno, etc) e nada devia a ninguém. Era razoável. Justo, até.

Agora, na sua sofreguidão por sacar os últimos cêntimos que chocalhem no bolso do cidadão, o governo do iluminado, distinto, competente, generoso e magnânimo engenheiro José Sócrates (é melhor utilizar esta linguagem, não vá a excelsa guardiã do templo socialista, Dona Margarida Moreira, mui ilustre Directora da DREN, ler estas palavras) decidiu que o selo nada tem a ver com a circulação/utilização/ da via pública, mas com a mera posse da viatura. Isto é: quem compra carrito, está sujeito a um, dois, três impostos. Até ver...

Para além disso, você paga uma fortuna em imposto por cada litro de combustível que mete no seu bólide. Nada mau!

Face a isto, antes o carjacking, meus amigos. Antes o carjacking.

6.14.2007

Uma indizível desumanidade


(Breves e fundamentadas reflexões sobre a chusma socialista e a vida humana - ou um preocupante regresso ao passado)

Uma professora portuguesa, chamada Manuela Estanqueiro, foi praticamente obrigada a dar aulas até cair para o lado. Morta. Sofria de leucemia há cerca de um ano, mas a ADSE, na sua desvairada ânsia de levar à letra as orientações governamentais, recusou a sua aposentação. Uma aposentação que lhe servisse de lenitivo para o seu sofrimento e amenizasse os últimos dias de vida.

Depois disso, uma mulher de Vendas Novas morreu de paragem cardíaca, dias após ter encerrado, a mando do Governo, o SAP que ficava a escassa distância da sua residência. Chegou morta ao Hospital de Évora, sem ter podido ser socorrida em tempo útil. Não teve direito a uma migalha de esperança através de um socorro rápido, àquilo a que a Constituição da República e a Declaração Universal dos Direitos Humanos determinam: o direito à saúde e a cuidados médicos eficazes.

A isto chegámos! Os episódios de Manuela Estanqueiro e o de Vendas Novas nada mais são do que o reflexo da brutalidade das políticas em curso. Da sua natureza de classe. Da sua indizível desumanidade. A vida humana, para Sócrates e restantes acólitos – os que o acompanham no governo e os milhares de boys e girls colocados, a granel, por toda a máquina administrativa do aparelho do Estado – foi reduzida à sua expressão mais simples, ou seja, não passa de um mero detalhe ao serviço da redução do défice.

Inebriada pela miragem de deter o poder absoluto, a chusma socialista pensa e age ao mesmo nível da máquina repressiva e opressora dos tempos da ditadura. Os incontáveis boys e girls esfalfam-se e atropelam-se na sua sofreguidão de mostrar ao «chefe» que merecem o jobezinho. Apuram-se no exercício do seu santo ofício, para que o senhor «engenheiro» saiba que perceberam como ele quer que o país funcione. Conheci gente desta – sem tirar nem pôr – antes do 25 de Abril. Era feita da mesma massa a maioria dos chefes de repartição, dos directores-gerais, dos responsáveis disto e daquilo, gente da máxima confiança do regime, sem esquecer esse sinistro exército transversal de bufos, informadores e pides.

Também hoje estas verrugas sociais estão espalhadas por todo o lado. Na DERN, por exemplo (denunciando e perseguindo colegas que não são da cor), na ADSE, no movimento sindical (furando lutas), nas autarquias, nas escolas, nos centros de saúde, em todas as repartições públicas, enfim.

Mas há uma coisa contra a qual não podem lutar. É que hoje, como então, esta gentalha já vive à margem da gente comum. É olhada com desconfiança e desprezo. Com nojo. Calamo-nos – ou mudamos de conversa – se por acaso algum deles se junta ao grupo. Já não são parte da comunidade, mas algo a ela estranho e, bem pior do que isso, algo que lhe é nocivo.

Numa palavra: repugnam.

6.11.2007

À população da Margem Sul

(Foto: João Carlos Pereira)

Estamos vivos! Somos gente!
(E por isso,dia 15, sexta-feira, voltamos ao BUZINÃO)

O ministro Mário Lino não quer pedir desculpa às populações da Margem Sul. Aliás, não é só o senhor ministro que nos deve desculpas e explicações. Há muitos anos que sucessivos governos olham para esta Outra Banda – e tratam esta Outra Banda – como se aqui habitassem seres menores, portugueses de segunda – ou terceira – categoria.

Os Governos não investem na Península de Setúbal – ou investem pouco e mal. Grandes empresas (Lisnave, Setenave, Sorefame, Siderurgia, Parry & Son, Mundet, Wicander, Alcoa, etc, etc) foram friamente assassinadas ou reduzidas a quase nada. O desemprego e o emprego precário atingem as mais elevadas taxas do país. Aos milhares, somos forçados a procurar trabalho na Margem Norte.

Na Arrábida, ex-libris do nosso turismo – uma das meia belas paisagens do mundo e ninho de espécies únicas da fauna e da flora mundiais – o Governo permite que a cimenteira e as pedreiras vão cumprindo o seu sinistro trabalho de corrosão e ruína. Até a co-incineração ameaça envenenar para sempre a Serra-Mãe. Na Costa de Caparica, o mar galga a terra e ameaça destruir o que resta de uma magnífico areal.

Se precisamos de ir à capital do país, seja para trabalhar, estudar, consultar um médico ou, simplesmente, numa mera acção de cultura ou lazer, pagamos aquilo que mais ninguém paga em Portugal: uma portagem que é, na prática, um imposto territorial, exclusivo da Margem Sul. Porque não temos alternativas gratuitas.

Atente-se nisto:

- Ninguém paga para atravessar o Douro

- Ninguém paga para atravessar o Mondego

- Ninguém paga para atravessar o Túnel da Gardunha

- Ninguém paga para atravessar o Guadiana e ir passear a Espanha

- Quem entra em Lisboa vindo de Este, do Oeste ou do Norte de Lisboa tem vias alternativas gratuitas.

E da MARGEM SUL? Aqui, ou pagas… ou pagas.

SEREMOS MENOS PORTUGUESES?

Exijamos ser tratados como os cidadãos do resto do país.

DIGAMOS NÃO:

- À DISCRIMINAÇÃO POLÍTICA E SOCIAL

- AO IMPOSTO TERRITORIAL EXCLUSIVO DA MARGEM SUL
(MAIS CONHECIDO POR PORTAGEM)
INDIGNA-TE – PROTESTA – LUTA
DIA 15 ADERE AO BUZINÃO

6.09.2007

Estão de volta


Os esbirros

Conheci-os noutro tempo. Num tempo que eu julguei definitivamente acabado numa certa manhã de um dia de primavera. Marcava o calendário o dia 25 do mês de Abril de 1974.

No meu bairro, em Campolide, eram temidos e desprezados. Chamavam-lhes os bufos, os informadores; de alguns se dizia, ainda com mais temor e ódio, que eram mesmo agentes da PIDE. Também havia os outros, os salazaristas de «mãos limpas», os admiradores confessos do regime, que iam à missa todos os domingos, que nunca se misturavam com a ralé, que tinham automóvel e botões de punho de ouro. Geralmente gordos, vestiam paletó, usavam o cabelo todo penteado para trás, lustroso de brilhantina. As suas madames nunca eram vistas sem ser muito bem vestidas e pintadas, salpicadas de jóias. Cobertas de espaventosos chapéus. E tinham criadas, fardadas a rigor.

Ainda me lembro de ver, nos verdes anos da minha meninice, alguns deles fardados de legionários, em certos dias caros ao regime, ostentando a pose dos que estão por cima.

Conheci-os, depois, no emprego e na tropa, sempre seres marginais e repugnantes. Sempre perigosos e indesejáveis no seio da maralha.

Depois da tal manhã, sumiram-se, uns; converteram-se à democracia, os outros.

Mais tarde, quando a vingança ganhou força e atrevimento, percebi que tinham voltado. Dei por eles no meu local de trabalho, nos sindicatos, na minha rua, no café, nas autarquias. Identifiquei-os pelo cheiro, pelo olhar matreiro e sombrio, pelo som das palavras ocas ou dúbias. Pelo espumar verde das ideias que o tempo gastou. Pela mesma atitude de tumor, pela mesma silhueta do esbirro oficial. São, agora, democratas. E de esquerda. E abrigam-se debaixo de um chapéu cor-de-rosa, que tem um rótulo onde se pode ler: Partido Socialista.

Insinuaram-se, primeiro, num palrar de lérias avulsas. Depois, encorajados pela envolvência confortável dos estofos do poder - onde se deve destacar o advento do estatuto do boy e da girl «socialista» - aí estão eles (e elas) sem medo, sem pudor, sem limites.

Seja na Direcção Regional de Educação do Norte, perseguindo os seus pares desalinhados, seja na ADSE, obrigando uma professora a trabalhar até morrer, seja nas empresas, seja nas autarquias, seja nos locais de residência, os bufos e os esbirros aí estão de novo, prontos a fazer cumprir as orientações do «chefe máximo». Do «chefe absoluto».

Os esbirros gozam o seu momento de glória. Até ao dia em que, como aconteceu há 33 anos, sairão de cena como ratazanas que são.

Embora tenham, como sabemos, o aspecto inconfundível dos porcos.

6.06.2007

Havia um país chamado Portugal


Anda por aí esta notícia: «O Norte de Portugal e a Galiza estão a viver dois ciclos completamente diferentes. Enquanto na região norte se vive um ciclo de recessão e de estagnação económica, a Galiza vive um ciclo importante de crescimento».


Na verdade, um relatório sobre a conjuntura económica, divulgado pela Junta da Galiza, mostra um cenário de franca expansão económica, com uma taxa de crescimento do PIB a atingir 4,1%, verificando-se ainda que o sector da indústria é o que apresenta maior dinamismo, com a produção industrial a registar uma sensível recuperação, atingindo o nível mais alto de sempre. Ainda assim, continuou a ser o sector dos serviços o que mais contribui para a subida do PIB, cuja taxa média de crescimento, de 2001 a 2005, rondou os 3,3%.

Outro sinal da prosperidade galega é o facto de a taxa de desemprego ter caído pela primeira vez no último quarto de século, contrariamente ao que sucede em Portugal e, com muita incidência, na região Norte.

Separado geograficamente da Galiza por um rio que facilmente se atravessa, o Norte de Portugal, definhando sem remédio ou panaceia, está, apesar da proximidade, nos antípodas daquela região espanhola. À indústria florescente dos galegos e à sua saúde económica e social, respondemos nós com o fecho ou fuga das empresas, com o desemprego em subida alucinada, com o fecho de escolas, maternidades e serviços de saúde, com despovoamento do território, com uma emigração galopante e com os baixos salários a reflectirem-se no poder de aquisição das populações que restam. O Norte de Portugal agoniza num catre miserável – como, aliás, o resto do país.

Ora, se todos sabemos que as diferenças entre a Galiza e o Norte de Portugal não são geográficas, climatéricas, demográficas ou antropológicas – pois entre portugueses e galegos são mais as características comuns do que as dissemelhanças – só nos resta concluir que a explicação para o progresso na Galiza e a recessão em Portugal só pode estar nas políticas implementadas pelos respectivos governos, o que não é nenhuma novidade, como, de resto, aqui estamos fartinhos de afirmar.

Não deixa de ser quase anedótico que, perante esta realidade indiscutível, tenha sido precisamente em Braga – isto é: bem no coração do depauperado Norte do país e a um pulinho da risonha Galiza – que Cavaco Silva tenha resolvido chamar a atenção dos portugueses para – e cito: «se pensar seriamente sobre as políticas de natalidade, de protecção das crianças, de valorização dos jovens e de qualificação dos activos». Tudo porque, advertiu Cavaco Silva, se avizinha um «cenário de envelhecimento e de recessão demográfica, fenómeno que, até pela sua dimensão estrutural, não encontra precedentes na nossa história».


Ao falar em políticas de natalidade e de protecção das crianças, Cavaco Silva terá querido dizer, lá na dele, que pelo facto de, nas últimas décadas, as taxas de natalidade terem vindo a baixar drasticamente em Portugal, é fundamental que os portugueses invertam esta realidade. Isto é, que passem a ser mais reprodutivos, dando ao país os filhos que ele precisa para que possa rejuvenescer-se e promover um equilíbrio inter-geracional necessário à nossa sobrevivência colectiva.

Ao discorrer sobre estas coisas, Cavaco Silva deveria ter meditado – e, se possível, meditado em voz alta – sobre as razões que levam os portugueses a evitar ter filhos. Não será, certamente, porque os homens deixaram de ser viris e as mulheres de ser férteis. Não será, certamente, porque o natural e normalíssimo desejo de procriar tenha sido substituído por outros desejos menos naturais ou, até, contrariando as leis naturais. Cavaco deve saber que a taxa de natalidade tem vindo a baixar – e que essa tendência se tem acentuado nas últimas décadas e, em especial, nos últimos anos – porque os portugueses deixaram de ter condições para suportarem as consequências da procriação.

Cavaco devia saber que os baixos salários, a precariedade de emprego, as taxas galopantes do crédito à habitação, a perda do poder de compra, a insegurança quanto ao futuro, a degradação do ensino e da saúde são, entre outros, factores que fazem um casal responsável pensar várias vezes antes de se aventurar a trazer um filho a este miserável país.

Aliás, quantos jovens, com as políticas hoje em dia em vigor em Portugal, se podem aventurar sequer a constituir família, sem o risco muito real de terem a vida completamente do avesso daí a poucos meses?

Cavaco deveria ter dito, porque deve sabê-lo, que o envelhecimento demográfico resulta da falta de esperança e de perspectivas de um povo, e representa, por si mesmo, um dos mais contundentes libelos acusatórios contra as políticas económicas e sociais a que esse povo está sujeito. Resulta, também, da desumanização instilada pelo poder dominante a nível planetário, cuja principal consequência é a desvalorização da vida, a vulgarização da violência e a negação da estabilidade e da paz.

É neste contexto que um pouco por toda a Europa e EUA as taxas de natalidade têm vindo a cair, atingindo em Portugal, como acontece com tudo o que é negativo, valores verdadeiramente alarmantes.

Portugal envelhece. Definha. Agoniza.

E um dia, quando as mais variadas comunidades imigrantes se encontrarem disseminadas pelo este velho recanto da Península Ibérica, constituindo extractos distintos e prevalecentes, alguém contará uma história que começará assim:

«Havia um país chamado Portugal. Um dia, o seu povo, nos primeiros anos do século XXI, elegeu, com maioria absoluta, um indivíduo sinistro, chamado José Sócrates, que se fazia passar por engenheiro civil…»

6.05.2007

O buzinão às portas do gueto


O buzinão voltou às portagens. Hoje, em protesto pelas bacoradas do ministro das Obras Públicas (e interesses privados).

Um dia, voltará pela razão maior. E ainda com mais força. Contra uma portagem medieval, que faz dos cidadãos da Margem Sul (dos beduínos, no dizer alarve do alarve Lino) cidadãos de 3.ª categoria.

Somos nós os únicos portugueses que se vêem forçados a pagar para se deslocarem diariamente para os seus empregos ou para as suas escolas, ou para uma consulta em Lisboa, ou para o que for, pois não temos alternativas gratuitas, como têm os restantes portugueses do Continente ou Ilhas.
Quem paga para atravessar o Douro? Quem paga para atravessar o Mondego? Quem paga para atravessar o túnel da Gardunha? Quem paga para atravessar a ponte sobre o Guadiana e ir passear a Espanha?
Estamos presos no deserto, às portas da capital. Quem entra em Lisboa, vindo de Leste, do Norte ou do Oeste (Vila Franca, Loures ou Sintra/Cascais, p.e.) tem vias alternativas grátis. Na Margem Sul, ou pagas... ou pagas.
É a política (democrática) do gueto.

5.30.2007

Iraque, mês de Maio


Desde o princípio do mês de Maio, até hoje, dia 30 - e que se saiba - já foram abatidos 112 soldados norte-americanos no Iraque. No mesmo período, um helicóptero foi igualmente abatido, enquanto, segundo foi possível extrair de vários órgãos informativos, terão sido destruídas entre 15 e 18 viaturas militares do exército invasor.

Não posso impedir, ao disto saber, um íntimo sentimento de regozijo. Um sentimento igual àqueles que, nos já distantes anos setenta de século passado - senhores, como o tempo passa! - me invadiam ao saber das perdas e desaires dos norte-americanos perante os vietcongs. E, certamente - se na altura já pudesse entender o que se passava no mundo - sentimento igual, sem tirar nem pôr, ao que sentiria quando o Exército Vermelho veio atrás das hordas nazis e encurralou Hitler e os seus últimos fiéis num bunker, em Berlim.

Na sua sala oval, Bush, alucinado - tal como Hitler no seu bunker - acredita que pode vencer a guerra. Para já, uma coisa é certa: a resistência no Iraque e no Afeganistão impediu os EUA de estenderem os seus tentáculos a outras regiões do globo. O passeio de «libertação» transformou-se num beco sem saída. Em vez das esperadas flores e palmas, os invasores atolam-se num cenário de pesadelo, mal se atrevendo a sair das suas zonas de segurança.

Por cá, os eunucos, pressurosos, fazem o que é próprio dos castrados. Agacham-se e servem o imperador, não percebendo - ou fingindo não perceber - que o fim dos tiranos é sempre o mesmo.

5.29.2007

De pé, ó vítimas do PS!

Hoje é dia de greve geral. Estou aqui como quem está numa trincheira. Num campo de batalha. E espero que a batalha de hoje acrescente um novo ânimo a quem luta por um país decente. Política, social, económica e culturalmente decente. Justo. Vamos, então, à luta!

Há dois anos, na sua intragável vozinha de coisa falsa, dizia Sócrates em plena campanha eleitoral:

«Nós não vamos combater o défice fazendo dele uma obsessão, arruinando a nossa economia e fazendo disparar o desemprego».

Continuando a citar a espécie de engenheiro que governa o país, recordemos outra promessa feita por ele na mesma altura: «Com o PS, a política ambiental vai recuperar o dinamismo que nunca deveria ter perdido e a qualidade de vida vai voltar à agenda política».

E mais dizia: «Nós vamos retirar 300 mil idosos da pobreza, porque o país tem de ser capaz de garantir uma vida digna àqueles que passaram uma vida inteira a trabalhar».

E todos se lembram, ainda, da sua famosa promessa, afirmada por ele a plenos pulmões e colocada em grandes cartazes por todas as ruas do país: «Nós vamos recuperar 150 mil empregos», acrescentado ainda o engenheiro fabricado na Independente, referindo-se ao desemprego existente na altura – e cito: «7,1% de taxa de desemprego é bem a marca de uma governação falhada, de uma economia mal conduzida».

Nessa altura, respondendo aos jornalistas sobre a sua promessa de não aumentar os impostos, afirmava, sorridente, o engenheiro de aviário: «Recomendo a todos os senhores jornalistas que leiam o programa. E não está previsto no programa nenhum aumento de impostos».

Os socialista prometeram isto e muito mais. Prometeram praticamente tudo. Prometeram que a Saúde seria para todos, independentemente do local onde vivessem e da sua situação económica. Prometeram melhorar o sistema de Ensino. Prometeram retirar a Cultura do sistema de asfixia financeira em que vivia, e dedicar-lhe 1% do orçamento.

Passados dois anos, levantemos o «manto diáfano da fantasia» socialista e olhemos para «a nudez crua da realidade»:

Se 7,1% de taxa de desemprego, no tempo do PSD, eram a marca de uma governação falhada, os 8,2% de hoje serão o quê? São, para vergonha do governo – e para nossa desgraça – a maior taxa de desemprego dos últimos 21 anos, com 73 novos desempregados, em média, por dia.

Dos 300 mil idosos que queriam retirar da pobreza, nem 20 mil recebem o complemento de solidariedade.

Prometeram não aumentar os impostos, mas, só em dois anos, aumentaram 9 impostos, e cada português paga hoje mais 330 euros (66 contos) em impostos do que pagava há dois anos.

Prometeram mais e melhor Saúde para todos, especialmente para os mais idosos e desfavorecidos, e o que temos é uma Saúde mais cara e de acesso mais difícil. Os medicamentos aumentaram 6,6% e 300 deles deixaram de ser comparticipados. As taxas moderadoras aumentaram 27%. Nas regiões mais pobres, onde a população é mais idosa e carente, fecham-se serviços e reduzem-se horários. Agora, as grávidas têm os seus filhos cada vez mais em ambulâncias ou no chão da garagem, enquanto outras são encaminhadas para Espanha.

Prometeram melhor sistema de Ensino, mas o caos e o descontentamento instalaram-se. Milhares de crianças passaram a ficar a quilómetros das suas novas escolas, por encerramento daquelas que frequentavam. Portugal, em consequência, apresenta os piores índices europeus em matéria de Educação.

Prometeram retirar a Cultura da asfixia financeira e dedicar-lhe 1% do orçamento, mas, hoje em dia, o ministério está falido e, praticamente, só existe no papel. Política cultural não existe.

Prometeram colocar o ambiente no centro da sua estratégia, mas, dois anos depois, as leis e projectos não saíram da gaveta, e o país está cada vez mais desordenado, mais sujo e mais roído pelo mar. Apenas no que respeita à co-incineração o governo quis agir, não por questões ambientais, mas porque a co-incineração nada mais é do que um grande negócio da China, com largos proveitos para as cimenteiras e graves riscos para a saúde pública. Para sua infelicidade e sorte nossa, os tribunais têm vindo a cortar as vasas a esse atentado.

Dois anos depois das promessas de Sócrates, Portugal está mais longe da Europa, os portugueses estão mais pobres, há mais desemprego, a saúde é uma miragem – e, cada vez mais, um luxo só ao alcance dos mais favorecidos – o ambiente está caótico, o investimento parou, o poder de compra entrou em queda livre. Enfim, Portugal afunda-se.

Mas falta falar das liberdades. Com o PS, voltou o reino da bufaria, de delação, das perseguições políticas. Os boys e as girls são os novos «informadores» de sua excelência o senhor Presidente do Conselho, a quem directamente reportam, ou através do ministério que os tutele. Isto, enquanto não for oficializada a nova PIDE, para tornar tudo mais simplex. Então, será deste bufos, destes boys e girls acantonados por todo o aparelho de Estado, que sairão os novos pides, os novos Barbieris os novos Rosas Casacos. Entretanto, os «delitos de opinião» vão sendo punidos com suspensões, cessações, despedimentos e outras práticas neo-salazarentas.

Por outro lado, avança a chamada monitorização de rádios, televisões, jornais e blogues, feita pela Entidade Reguladora da Comunicação Social, para se perceber quem é da cor e quem é do contra – e daí se tirarem as devidas consequências. Isto para não falar do novo Estatuto do Jornalista, que institui um tribunal especial para julgar e condenar os jornalistas de «sarjeta», ou seja, os que dizem as verdades que os neo-salazaristas querem manter escondidas.

A corrupção é a moeda corrente. Nada há que ela não compre. Mas o PS recusa medidas eficazes ao seu combate, mesmo que sejam as pálidas propostas apresentadas por um socialista, João Cravinho. Aparentemente, o PS – como partido e como governo – não que ir buscar lenha para se queimar.

Na política externa, Sócrates continua a aceitar que os portugueses sejam a carne para canhão nas guerras imperiais de conquista que Bush, alucinadamente, promove. Só este mês – e só no Iraque – já foram abatidos mais de cem soldados invasores norte-americanos. O passeio que Bush prometera, tanto no Afeganistão, como no Iraque, está a ser uma longa caminhada de mortes, mutilações, deserções, suicídios, e distúrbios mentais.

Foi contra isto tudo que a Greve Geral foi decretada. O mesmo é dizer que o foi em nome da vida, em nome da decência, em nome da liberdade, em nome da justiça, em nome, enfim, do direito ao pão. Em nome da democracia.

De pé, ó vítimas do PS!




5.27.2007

O sono do Zé


O Zé adormeceu. Hibernou. Há que diga que é uma coisa atávica, que sempre foi assim, que vivemos perpetuamente hibernados, alheios de nós. Não irei tão longe. Estaremos, apenas, a passar pelas brasas.

Enquanto isso, no país que é nosso - mas cuja posse demoramos a tomar - os pastores partem e repartem o pasto pelos senhores morgados. Sobram-nos cardos e erva seca. Acordamos - quando acordamos - mais pobres do que antes de cada sesta.

As nossas mulheres estão a aprender a parir em ambulâncias, chãos de garagens ou em terras de Espanha. Os nossos filhos calcorreiam quilómetros para chegarem à escola mais próxima. Morremos, porque a urgência hospitalar foi levada para lá do sol-posto. Roemos as unhas, porque perdemos o emprego e o pão que dele vinha. Voltamos a tirar o barrete, respeitosamente, e a curvar a coluna, em solícita vénia, para que nos seja concedida a graça de um trabalhito, por mais precário e mal pago que seja. Perdemos a casa, porque os pastores de Bruxelas decidem que os juros devem continuar a subir para que os banqueiros acrescentem mais grãos aos seus celeiros. Os velhos morrem de solidão e de vergonha pelos fiados que têm na farmácia. Por já não serem gente

Todos os dias nos apresentam uma nova factura, uma nova exigência, uma nova canga. E nós - o Zé - estremunhados, pagamos. Sem um PORQUÊ?, sem um BASTA!, sem um grunhido que seja.

Vai longa sesta. É quase um coma irreversível.

5.25.2007

Mário Lino visita a Península de Setúbal

Confrontado com as críticas generalizadas às suas afirmações, segundo as quais a Península de Setúbal era um deserto despovoado e desprovido de quaisquer equipamentos, Mário Lino, ministro das Obras Públicas do Governo chefiado por José Sócrates, deslocou-se a esta região para justificar as suas polémicas declarações.
Dessa visita, que a foto documenta, pode verificar-se que a razão - como sempre - está do lado do governante. No final, Mário Lino (o segundo da primeira fila, a contar da direita), que se fez acompanhar por diversos secretários de estado, assessores e adjuntos, para além de investidores com interesses na Ota, disse à comunicação social que a Península de Setúbal está em condições de começar a abastecer com areia as zonas do litoral do país que estão a ser afectadas pela erosão marítima.
Lúcido e bem disposto - e com a elegância argumentativa que o caracteriza - esclareceu que o governo não inviabilizou o novo aeroporto na Ota por a Península de Setúbal ser um deserto, mas que foi precisamente o contrário, ou seja - e citamos - «temo-nos esforçado por transformar esta região num deserto, para podermos agora dizer que na Ota é que o aeroporto fica bem». O ministro disse ainda que, «para o sucesso do governo ser completo, falta a Secil e as pedreiras arrasarem a Serra da Arrábida, que se está a revelar um grande entrave aos nossos objectivos».
A terminar, Mário Lino acrescentou que «é também por isso que o senhor primeiro-ministro insiste tanto na co-incineração na Serra da Arrábida, esse monte de pedras sem qualquer sentido».



5.24.2007

Malhas que o Império tece

Escondidas em páginas pares, quase sem títulos, as notícias lá vão saindo. Aqui há meses, as baixas norte-americanas no Iraque eram dadas com algum destaque nas rádios, nos jornais e nas televisões. Agora, só em pequenas notas de rodapé - e nem sempre. Compreende-se. A ordem é não desagradar aos EUA e seus aliados. Melhor dizendo: aos seus eunucos.
Só esta semana consegui compilar alguns desses revezes. Carros de combate são destruídos com frequência, através de minas artesanais, mas eficientes. Soldados norte-americanos são capturados e aparecem mortos, dias depois, apesar das enormes e operações de resgate, servidas por meios altamente sofisticados.

Só nas últimas 48 horas (entre os dias 22 e 24) o exército norte-americano registou mais nove baixas no Iraque, em resultado de cinco ataques registados. No mesmo período, apareceu morto outro dos soldados ocupantes há dias capturados pela resistência.

As más notícias para o Império e para os seus eunucos, meus amigos, são sempre excelentes notícias para quem luta pela Liberdade e pela Paz.