
O Governo no País das Maravilhas

As notícias que me alegram os diasNa panóplia diária da informação, sobram sempre as más notícias. A primeira, é que o PS ainda é governo. A segunda, é que os EUA ainda dominam o mundo. Por isso, aumentam as taxas de juro, os bancos e as seguradoras nunca ganharam tanto - mas os seguros vão aumentar - os preços dos bens essenciais vão voltar / continuar a subir, os impostos não baixam, mas o imposto sobre os combustíveis - e os próprios combustíveis ainda vão aumentar mais. No mundo, continua a guerra de pilhagem, ainda mais feroz e descarada do que nos melhores tempos da época colonial.
Sócrates e Bush abrem a boca e o mundo fica mais escuro. Mas, de vez em quando, em rodapé na TV, ou escondida no fundo de uma página par dos jornais, lá vem a boa notícia: foram mortos mais uns quantos soldados norte-americanos no Iraque e no Afeganistão.
Em Agosto, no Iraque, já foram abatidos, pela resistência, 29 inimigos, o que eleva as baixas norte-americanas para 3.684. No afeganistão, em 11 de Agosto, foram abatidos mais quatro soldados de Bush e outro britânico.
Enfim. Nem tudo são más notícias...


A redução do défice corresponde à redução da nossa saúde, da nossa educação, da nossa segurança social, do nosso futuro. Da nossa dignidade. Para o senhor Sinistro das Finanças, não há vida para além do Défice. Com a devida vénia ao jornalista António Ribeiro Ferreira, pessoa que anda muito longe de mim em termos ideológicos, vou ler-vos, integralmente, a crónica que este colaborador do Correio da Manhã escreveu na edição do dia 16 deste mês. São, então, palavras dele:
«Com o patrocínio de Sócrates, este sítio está, dia após dia, a voltar ao tempo em que falar de liberdade era sinónimo de subversão.
Em tempos que já lá vão, neste sítio cada vez mais mal frequentado, havia uma censura cega e muito burra, que zelava não só pelos bons costumes como pela paz podre do cemitério. Era linear, sem grandes enredos intelectuais e elaboradas justificações ideológicas. Era assim, ponto final. Uma das normas dos coronéis lateiros da saudosa censura era evitar, a todo o custo, que o povo soubesse antecipadamente os passos do senhor presidente do Conselho.
A palavra «vai» era rigorosamente cortada pelos lápis azuis. As razões para essa medida com grande sentido de Estado eram várias. Mas as mais óbvias tinham a ver com a segurança de tão alta figura, sempre preocupada com comunistas, anarquistas e outras almas perdidas no tenebroso mundo da subversão, e com o natural desprezo que a dita sentia pelo povo do sítio.
O senhor presidente do Conselho só admitia olhar para a turba à distância, longe de odores e dizeres desagradáveis, que ordeiramente era conduzida em comboios e camionetas para manifestações organizadas pelo partido único, em momentos festivos ou de combate às forças negras do reviralho, domésticas ou internacionais.
Na sua infinita sabedoria, o povo deste sítio logo apelidou Sua Excelência de senhor Esteves. Nesses tempos que já lá vão, essa graçola marota não era castigada pelos esbirros da PIDE e os bufos do regime sabiam perfeitamente que nem sequer valia a pena denunciar quem a dizia em cafés, repartições públicas, autocarros, eléctricos, baptizados, casamentos, funerais ou simples festas de família. Era uma graçola, ponto final.
O senhor presidente do Conselho, ele próprio, sorria superiormente quando estas e outras anedotas lhe eram contadas com todo o respeito pelas figuras que tinham a seu cargo essa espinhosa missão. Os tempos mudaram, as gaivotas da democracia deram à costa há mais de 33 anos e eis que voltam, inesperadamente, não só os esbirros, como os censores e o próprio senhor Esteves.
O presidente do Conselho José Sócrates entra pelos fundos da Casa da Música no Porto, para fugir à turba, e inaugura uma ponte sobre o Tejo com o povo ao longe, rigorosamente vigiado. Os esbirros de serviço suspendem, despedem e ameaçam quem ouse dizer graçolas inocentes.
E os velhos coronéis lateiros foram substituídos pelos doutores e doutoras da Entidade Reguladora da Comunicação Social e da Comissão da Carteira dos Jornalistas. Com o alto patrocínio do senhor presidente do Conselho e dos acólitos socialistas este sítio está, dia após dia, a voltar ao tempo em que falar de liberdade era sinónimo de subversão

Os dois «Esteves». E as parecenças sucedem-se assustadoramente...O senhor Esteves (que dantes era António de nome e Salazar de apelido, e hoje foi baptizado como José e gosta de ser tratado por Sócrates, embora os apelidos sejam uns prosaicos Pinto de Sousa), então o senhor Esteves dos nossos dias que se cuide, mais a sua corte de esbirros e bufos «socialistas», porque este voltar ao passado não traz só coisas más. Também vai trazendo, aqui e além, umas ténues teias de cumplicidades e alianças, um certo reagrupar de forças e resistências, de tal forma que, um dia destes, quando menos esperarmos, as coisas deixarão de ser como são. Aliás, já Camões sabia que todo o mundo é composto de mudança…
Entretanto, todos percebemos que continua a saga do aborto (e que me desculpem os defensores da dignidade da mulher através do acto abortivo), mas é assunto que todos os dias aparece na comunicação social, por isso não vejo razão para fugir a ele.
Por um lado, porque inúmeros médicos (honras lhes sejam feitas) se recusam a praticar aquilo que, na verdade não é um acto médico – ou seja, um acto destinado a curar uma doença ou a salvar uma vida. De facto, um aborto por razões que nada tenham a ver com a saúde de mãe ou do filho, não passa de um acto expedito de eliminar uma vida que ameaça chatear a progenitora, algo que não encaixa na ética médica nem nas competências dos serviços de saúde, sejam públicos, sejam privados. Matar, não é a função dos médicos nem dos hospitais. Quando muito, o aborto encaixaria num serviço qualquer que se criasse exclusivamente para exterminar fetos, tipo matadouro municipal ou estatal, ou coisa parecida. Algo que tivesse a ver com o negócio da morte – e não com a dádiva da vida.
Por outro lado, porque já se viu que cada aborto vai custar ao SNS (isto é: a todos nós) um verdadeiro balúrdio, tanto fazendo que seja praticado no serviço público, como através das clínicas privadas convencionadas. Segundo a tabela em vigor, uma interrupção custa ao Estado entre 830 e 1.074 euros. (Na tabela de 2004 do Sistema de Gestão dos Utentes Inscritos para Cirurgia, uma interrupção voluntária da gravidez cirúrgica justificada pela saúde da mãe ou problemas graves com o feto, rondava os 590 euros). Ora, sendo agora a eliminação do feto não só legal, como gratuita (até de taxa moderadora está isenta), não admira que os diversos hospitais já digam que não vão ter capacidade para a chuva de abortos que aí vem, tendo que os reencaminhar para os privados.
De facto, se com as dificuldades antes existentes era o que era, agora, meus amigos, o aborto, como mais um método de contracepção puro e simples – e gratuito – vai disparar em flecha. Não se percebe – eu não percebo – que com a facilidade e diversidade de meios contraceptivos ao dispor das pessoas, possam ser assim tantas as gravidezes acidentais. Com o que vamos vendo e ouvindo – e com o que todos sabíamos, mas alguns fingiam não saber – aí está a prática abortiva como uma saída natural e comum para uma gravidez acidental ou, a partir de certa altura, não desejada – à mercê das venetas do momento – em vez de uma situação excepcional e justificada por indubitáveis razões de saúde.
Enfim, o que eu sei, isso sim, é que é mais um golpe nas contas do SNS, e que vai ser pago por todos nós. E – muito pior do que isso – vai dificultar e encarecer ainda mais o acesso aos serviços de saúde a quem está verdadeiramente doente. Pegando no exemplo da semana passada, é verdadeiramente escandaloso que um canceroso espere meses por uma cirurgia, que um doente cardíaco, renal ou hepático pague taxas moderadoras, que a vacina contra o cancro do colo do útero nem sequer seja comparticipada, que uma consulta de qualquer especialidade demore meses e meses, mas que um mulher saudável, que não teve os devidos cuidados nas suas relações sexuais – ou, de súbito – mudou de ideias em relação à sua gravidez, ocupe o lugar e os recursos dos verdadeiros doentes.
Enfim, não é apenas Sócrates que merece uma grande vaia.




(Margarida Moreira, a coordenadora da bufaria na DREN)
(A girl bisbilhoteira Ana Maria Correia)






