11.25.2007


Asfixia


Desenho, de olhos fechados, o instante anterior,
cheio de cores bem definidas no avesso negro das pálpebras.
É onde estás agora, de gestos bailados, procurando a fuga.
Na breve posse, asfixias e tremes,
como há pouco tremeste e sufocaste, na violência dos corpos.
Deixar de respirar, e pronto...


Seria tão fácil matar-te, se morrer me bastasse.





Nota: (à margem - e a propósito)







ABAIXO A VIOLÊNCIA DE GÉNERO
HUMANIDADE NÃO TEM SEXO

A violência doméstica, nomeadamente a violência de género, é uma realidade que envergonha o mundo em pleno século XXI.

11.24.2007



Parábola dos três poemas
O menino sentou-se numa poça de água
e fez um poema de lama.
A mãe sentou à mesa vazia
e fez um poema de lágrimas.
O pai sentou-se à beira do desespero
e fez um poema de sangue.
E o poeta, ao vê-los,
sentou e limitou-se
a transcrevê-los.

11.22.2007

Picasso - Guernica

Poema para quem ficar

Um dia, virão pelo mel que guardámos.

Queimada a casa e degolado o cão

imolarão os nossos filhos em nome de verdades

decretadas entre sedas e olhos de serpentes.

Talvez te violem sobre cardos,

depois de me encostarem às tábuas da lei

para que pareça justo o festim das balas.

Já hoje os decifro, ainda no seu aspecto de pombas

tecendo labirintos de brisas onde esvoaçam outros ventos,

promessas de novos holocaustos,

coloridos com frágeis açucenas.

Mulher. Esconde estas palavras onde ninguém saiba,

para que as possam ler os cegos sobrevivos.

11.20.2007

Caldeirada à portuguesa

Cândido Portinari - Retirantes

Flagrantes do Portugal de Hoje
Hoje, meus caros amigos, vamos ter aqui uma autêntica caldeirada. Olhei em volta com cuidado, afinei bem os ouvidos, apurei o olfacto, tentei disciplinar o neurónios (se é que tenho algum) e esforcei-me por escolher um só tema capaz de agradar aos ouvintes e trazê-los à conversa. Não fui capaz.

E isto – garanto-vos – nada tem a ver com o facto de, por aí, certos socretinos de pendor monárquico, terem decidido dar-nos a honra de sermos alvo das suas crónicas jornalísticas. Não, meus amigos. Ninguém influi no meu pensamento, ninguém bole com os meus valores, nninguém limita a minha liberdade de expressão.

O que se passa é que não sei por que ponta hei-de pegar nos temas e nas ideias que me sufocam e que gostaria de aqui explanar. Por isso, paciência, vai tudo para dentro do caldeirão e saia a caldeirada que sair.

Fui às compras.
Olhei para a etiqueta dos kiwis e verifiquei que eles não podiam vir de mais longe: da Nova Zelândia. Mal refeito do susto, reparei que os alhos vinham de Espanha. Procurei outra embalagem, esperando que fossem portugueses. Eram da China.

Olhei para o leite.
Está mais caro. Ouvira o ministro dizer que foi porque a produção desceu, porque os agricultores venderam as vacas. Pudera! Mas não lhes foram impostas quotas de produção? Então, do que é que estavam à espera?

A fraude fiscal
abrange as grandes empresas, disse, sem se rir, o secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, João Amaral Tomaz. Não percebo o espanto. Alguém, das grandes empresas, foi preso quando elas entraram no esquema das facturas falsas? Não! Pelo contrário. Muitos dos senhores administradores dessas empresas continuaram a fazer parte das comitivas presidências e governamentais que iam – e vão – ao estrangeiro à cata de negócios.

José Rodrigues dos Santos
pode ser despedido da RTP por ter dito, numa entrevista, que a estação de televisão estatal passava «recados» do poder político e que era pressionada para que os noticiários não fossem o que deveriam ser. Se for para o olho da rua, talvez ninguém proteste. Isso faz-me lembrar o poema de Brecht, que diz mais ou menos isto: «Depois vieram buscar os judeus. / Não disse nada pois não era judeu. / Em seguida foi a vez dos operários. / Continuei em silêncio, pois não sou sindicalizado. / Mais tarde levaram os padres. / Nada disse, pois não sou católico. / Agora, eles vieram-me buscar. / E quando isso aconteceu, percebi que já era tarde, e não havia mais ninguém para protestar».

Pedro Namora
disse que a actual Provedora da Casa Pia o ignora, mas acrescentou que ele próprio não confia nela, porque não pode confiar em alguém que foi nomeado por Vieira da Silva, que é amigo de Ferro Rodrigues e Paulo Pedroso. Acrescentou que ela perdeu credibilidade quando afirmou que Catalina Pestana não a tinha informado sobre a existência de alunos abusados, para depois vir reconhecer que, afinal, tinha.
Barroso confessou
que a invasão do Iraque se baseou em mentiras. Grande novidade! Agora, no Paquistão, Benahzir Butto e Musharaff mantêm o braço de ferro. Ou eu me engano muito, ou Musharaff já não é o cavalo dos norte-americanos. Arranjaram uma égua mais útil e de aparência mais democrática. Mais um futuro ex-amigo que se prepara para dar uso à mesma corda de Saddam.

José António Moutinho
morreu há dois anos, mas o Centro Hospitalar do Barlavento Algarvio, em Portimão, chamou-o para fazer agora uma ressonância magnética à coluna. Menos um na lista de esperas.

A Ordem dos Médicos
não muda o código deontológico, por isso não vai alterar o artigo 47.º, que considera a prática de aborto como uma «falha grave». Os médicos aprendem a salvar vidas, a curar doentes. Por isso, o aborto, numa mulher saudável, que tem uma gravidez saudável, não é um acto médico. Se o aborto é legal, então que seja praticado – sei lá… por um militar ou por quem tenha por profissão eliminar vidas e não salvá-las. Mas os médicos que se prezem, não. Talvez a próxima investida do senhor ministro da Saúde seja mesmo obrigar todos os médicos a desfazer fetos saudáveis em mulheres saudáveis.

O fiscalista Medina Carreira
traçou esta segunda-feira um quadro muito negativo de Portugal, considerando que a actual situação resulta de uma quebra acentuada no crescimento económico, num país em que – diz ele – «ninguém é responsável por nada. A democracia em Portugal é uma brincadeira em que ninguém é responsável por nada, não há responsáveis», afirmou, salientando que «o País apenas é governado com rigor durante um ano ou um ano e meio por cada legislatura». No restante tempo, segundo o fiscalista, quem vence as eleições começa por tentar corrigir as promessas que fez na campanha eleitoral e, a meio do mandato, «começa a preparar as mentiras para a próxima campanha eleitoral». E acrescentou: «Com esta gente que temos, não podemos ter muitas esperanças», frisando que «as eleições ganham-se com mentiras». Medina Carreira, também se manifestou contra a rede ferroviária de alta velocidade e o novo aeroporto de Lisboa. «São uma tontice, o País não tem dinheiro para isso», afirmou.

Nos Açores,
prémios de antiguidade e assiduidade servem para engordar ordenados dos senhores presidentes das empresas públicas da região, que ganham uma média mensal de 4.251 euros, contra o rendimento médio de 600 euros de cada açoriano.

Os professores
dos 2.º e 3.º ciclos do ensino de algumas escolas estão a ser pressionados pelos conselhos executivos, no sentido de evitarem ao máximo as negativas já no primeiro período lectivo. A pressão dos conselhos executivos começou a sentir-se no início deste mês, em consequência das inspecções que vão ter lugar até ao final do ano, a propósito da avaliação das escolas. O Sindicato dos Professores do Norte está convicto de que a pressão para evitar negativas no Natal resulta de uma estratégia do Ministério da Educação para melhorar as estatísticas nacionais do aproveitamento escolar junto da União Europeia. Bruxo…

Desde que o actual Governo,
liderado por José Sócrates, tomou posse, em Março de 2005, Portugal perdeu 167 mil postos de trabalho qualificados. Segundo dados do Instituto Nacional de Estatística, o número de trabalhadores com maiores qualificações, incluindo dirigentes e quadros superiores, profissionais intelectuais e científicos e técnicos de nível intermédio, cifrava-se em 1,372 milhões de trabalhadores no primeiro trimestre de 2005. Já no terceiro trimestre deste ano, o número de profissionais empregues tinha recuado para 1,205 milhões, correspondendo a uma quebra de 12%. Comparando com o total de empregos, o trabalho qualificado viu o seu peso reduzido de 27 para 23%. É a excelência de sua Excelência…

No chamado Verão Quente de 1975,
em Portugal, o ditador espanhol Francisco Franco estava hospitalizado e praticamente já não falava, embora a comunicação social espanhola desse uma ideia completamente diferente: quem visitava o ditador no hospital dizia-lo atento aos problemas do país e do mundo. Mas agora, num texto publicado no El País, o médico Ramiro Rivera, que acompanhou Franco na sua doença, afirma que na maior parte do tempo Franco ele se encontrava incapaz de falar e que pouco mais lhe conseguiam ouvir do que monossílabos. Mas, a dada altura, um dos médicos perguntou a Franco: «Meu general, está o senhor a par do que se passa em Portugal? Não acredita que ali se vai armar uma grande confusão e vai correr muito sangue?». Segundo o testemunho de Ramiro Rivera, Franco ficou calado durante um bocado enquanto todos os médicos o olhavam, expectantes. E em seguida disse: «Não acredite nisso, os portugueses são muito cobardes».

Depois da caldeirada que acabei de vos servir, não sou eu, caros amigos, que me atrevo a desmentir Francisco Franco, o ditador espanhol. E até me apetece repetir:

Os portugueses são muito cobardes.

11.18.2007

Henri Tolouse-Lautrec, O Beijo


Sobre o meu corpo, nosso

Vivo, sobre o meu corpo morto,
duplico-me nos teus olhos minguantes.
Deixar-me-ia ali, num caótico silêncio,
meditando à sombra de outros sonhos,
se não fosse urgente dar-nos a ilusão da vida.

Morto, sobre o meu corpo vivo,
ladeio a pausa solitária da tua boca contida,
e acendo um extenso perigo rutilante
na lucidez dos vasos sanguíneos.

Vivo, sobre o meu corpo vivo,
invado-me da certeza oceânica dos poros,
infatigável matriz sem continentes.

Tão simples como as pedras somos nós,
barcos de navegar momentos e naufrágios.

11.14.2007

O reizinho, o OGE e outras coisas

A gente agradecia

Deixem-me, para começar, fazer uma referência ao episódio que envolveu Hugo Chávez, Zapatero e uma figura de opereta, pertencente a uma espécie em vias de extinção, nada mais, nada menos que Sua Majestade, el-rei de Espanha, D. Juan Carlos (e mais não sei quantos sobrenomes e apelidos).

Com a frontalidade que se lhe reconhece, Chávez disse que o antecessor de Zapatero, José Maria Aznar, era fascista. Zapatero saltou em defesa de Aznar, pois, como é natural, sempre se sentirá mais próximo, em termos ideológicos, de Aznar do que de Chávez, já que este é um socialista a sério – isto é: põe a economia e os recursos da Venezuela o país ao serviço do povo e do país – e Zapatero é, na melhor das hipóteses, um social-democrata a puxar para o neo-liberal, ou seja, é um homem que considera que o povo é que deve estar ao serviço da economia, desde que a economia e os recursos do país pertençam aos detentores do poder económico. E, se assim não pensasse, também não seria primeiro-ministro espanhol nem, sequer, secretário-geral do PSOE.
A inútil majestade

No meio da troca de palavras, resolveu el-rei perguntar a Chávez (assim como quem manda) por que não se calava. É verdade que a América Latina que fala castelhano já foi sujeita a uma Espanha beata e saqueadora, que pilhou os recursos dessa vasta região, massacrando, para isso, civilizações autóctones inteirinhas. Mas isso já faz parte da história há vários séculos, e hoje a Venezuela é uma república independente, com um presidente eleito democraticamente por esmagadoras maiorias, enquanto o monarca espanhol, que não foi eleito por ninguém, não passa de uma aberração política, exemplar de uma daquelas tumefacções sociais que o século XXI certamente irá remover. E a sociologia explicar.
As habilidades do professor Marcelo

Chávez – a quem o episódio caiu como sopa no mel – já respondeu nos termos que todos terão visto e ouvido na TV. Em Espanha e por cá, logo os senhoritos do costume aproveitaram para mordiscar Chávez, e até o professor Marcelo aproveitou para dizer que este alterou a Constituição da Venezuela para se perpetuar no poder. Sem querer dar lições ao senhor professor, que não disse esta bacorada por descuido ou ignorância, devo, no entanto, recordar ao insigne comentador (cujas opiniões quase sempre subscrevo) que é feio tentar enganar quem o ouve.
Chávez não quer manter-se no poder eternamente à revelia da vontade popular. O que Chávez quer é poder submeter-se a eleições sem limitação de mandatos, o que é completamente diferente. Caberá sempre ao povo escolher entre os vários candidatos que se apresentarem a votos. Marcelo sabe isto, mas, pondo as coisas como as pôs, quis lançar sobre o presidente da Venezuela, mais uma das muitas calúnias que os «democratas» do capitalismo por aí propagam. Foi feio, senhor professor, foi muito feio.

Quanto a el-rei, que vive de nada fazer, como é próprio de qualquer majestade, compreende-se o desaforo. É que, na sua terra, não tem coragem – nem autoridade – para mandar calar ninguém: limita-se a reinar, o que já não é mau, tendo em conta os proveitos que daí tira. Enfim, reinações…
OGE - ou o debate sórdido
Por cá, terminou a discussão, na generalidade, do OGE, que vai impor mais sacrifícios às vítimas do costume. O debate, aliás, foi um artifício sórdido, habilidosamente reduzido a um estúpido duelo entre Sócrates e Santana. Uma farsa, para não lhe chamarmos um deplorável número de mau circo .
Da conversa fiada do costume não veio, para o cidadão comum, qualquer novidade. Os problemas reais do país não foram abordados. As prima donnas afinaram a garganta com os habituais gorjeios e, depois, espremeram-se em duelos canoros cada vez mais desprezíveis e cada vez mais iguais aos de discussões anteriores. Todos sabemos o que vão cantar – e como vão cantar – aquelas cada vez mais ridículos e desprezíveis figuras.

Para quem vive pior neste país, talvez houvesse a expectativa de saber se, em 2008, a sua vidinha iria melhorar. Mas apenas ficou a saber que, no ano seguinte (2009) – por ser ano de eleições – a janela se entreabrirá e poderão entrar pequenas golfadas de ar fresco, na habitual e desavergonhada manobra de caça ao voto.

Aliás, estou mesmo convencido que as camadas mais desfavorecidas deste país nem sequer relacionam o OGE e o seu debate na Assembleia da República com o preço dos transportes, o valor das pensões, o peso dos impostos, o subsídio de desemprego, o próprio desemprego, o preço dos medicamentos, as taxas moderadoras ou o fecho das maternidades, SAPs e urgências, coisa que, de resto, convém imenso aos senhores ministros e ministras, aos senhores deputados e senhoras deputadas que, refastelados nos seus cadeirões, ou esganiçando-se sobre os modernos micros, têm o seu como certo ao fim do mês, a reforma repolhuda garantida a curto prazo, a que se juntarão, na maioria dos casos, futuros e não menos repolhudos tachos e posteriores e – ainda – repolhudas reformas.
OGE socialista - ou os pobres cada vez mais pobres

Na verdade, o que saiu do OGE socialista é a mesma desoladora certeza de que os pobres vão ficar cada vez mais pobres e que – por artes de uma maldita abracadabra – os bancos e os grandes grupos económicos verão multiplicados os seus lucros, como ainda agora ficámos a saber, com a divulgação dos resultados relativos aos primeiros 9 meses deste ano.

Ao ouvir o primeiro-ministro e a maioria dos deputados – especialmente os que mugem loas e sonoros «apoiados» às ordens do PS – cheguei a pensar que tinha acabado de aterrar em Portugal, num ano qualquer do futuro, depois de uma longa hibernação noutra galáxia qualquer, tal o descaramento daquela gentalha.
De facto, quem não viva em Portugal e não conheça as condições de vida de milhões portugueses, ao ouvir esses governantes e deputados, seria levado a pensar que temos excelentes – e bastantes – hospitais, maternidades e centros de saúde, que as escolas são um local exemplar, onde a juventude aprende e se habilita com os conhecimentos essenciais ao seu futuro – e ao futuro do país – que as empresas florescem e nascem para satisfazer as necessidades da população, e que esta tem uma vida razoável. Imaginaria, essa criatura recém-chegada, que os principais problemas económicos, sociais e políticos deste país tinham sido, enfim, resolvidos.
Da ficção à realidade

O problema, é que os nossos alunos aprendem cada vez menos, que os nossos doentes sofrem cada vez mais, e que os trabalhadores compram, com os seus ordenados cada vez mais precários e curtos, menos do que há um mês atrás. O problema, é que o desemprego aumenta todos os dias, as empresas fecham as portas, os subsídios sociais – que são tidos como esmolas ou privilégios – são eliminados ou reduzidos, e nascer nas estradas se tornou uma coisa tão normal que já notícia deixou de ser.

Por isso, Portugal, com este PS, ao contrário do que este mesmo PS e o seu chefe apregoam, continua a ter o crescimento mais baixo da União Europeia, afasta-se, ano após ano, da média europeia, exibe as piores taxas em doenças como a SIDA e a tuberculose, ou de chagas como o desemprego, os baixos salários e as baixíssimas reformas: Mas continua a ser, soberbamente – e cada vez mais – o campeão das desigualdades sociais e o país onde mais aumenta o fosso entre os mais ricos e os mais pobres. E onde os pobres, para além de serem cada vez mais pobres, são, também, cada vez mais.
Contenção?! Para quem?!

Porém, em época de contenção orçamental, e com a administração pública sujeita a restrições na aquisição de viaturas novas, por indicação do Decreto de Execução Orçamental para 2007, o ministro da Justiça acaba de comprar cinco automóveis topo de gama. O negócio, sem incluir o imposto automóvel, rondou quase 176 mil euros (35 mil contos) e foi por ajuste directo, logo sem recurso ao aborrecidíssimo concurso público.

E se olharmos para o orçamento da Assembleia da República para 2008, agora publicado em DR, verificamos que ali se prevê, na rubrica «Estadas», uma verba superior a 1,3 milhões de euros, ou seja, um acréscimo de 23,6%, para gastos com dormidas e ajudas de custo dos ilustres parlamentares.
O orçamento da AR, de cerca de 98,9 milhões de euros para despesas correntes, regista um aumento de 5,86% face aos 93,4 milhões de euros orçamentados para este ano. Isto é: os gastos previstos com viagens e estadas dos deputados em deslocações internas e ao estrangeiro acabam por registar um crescimento muito superior ao próprio orçamento anual do Parlamento.

Respiremos fundo. Era mesmo isto que faltava para o Parlamento começar a tratar dos problemas de Portugal e dos portugueses. Dinheirinho para viagens, comidas e dormidas.

Então, boa viagem. E, se puder ser, só de ida.

A gente agradecia.

11.06.2007

Eça já dizia...



A nódoa e a náusea


O governo pôs à venda a REN - Redes Energéticas Nacionais, ou seja, as redes nacionais de transporte de electricidade e gás natural. Para que as pessoas não percebam bem o que se passa – e, em consequência, não fiquem chocadas e façam algum chinfrim – o governo dá ao negócio a habitual designação milagrosa de privatização.

Para que se perceba o alcance deste atentado aos interesses nacionais, socorro-me de uma opinião abalizada e insuspeita, emitida a este propósito por Jorge Vasconcelos, que foi presidente da Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos, e a quem o Governo levou, meses atrás, à demissão. Diz ele no site www.resistir.info:

«
As redes nacionais de transporte de electricidade e de gás natural estão à venda. Eufemisticamente, diz-se que vão ser privatizadas – parcialmente, como sempre acontece quando o Estado, envergonhado, vende o seu património. Sobretudo quando esse património corresponde a uma infra-estrutura essencial que actua e continuará a actuar em regime de monopólio.

A privatização da REN parece ser a resposta tecnicamente iluminada, politicamente moderna, economicamente inteligente, financeiramente vanguardista e socialmente ousada a uma qualquer questão. Será?
Será que a privatização da REN decorre de uma obrigação ou de uma recomendação comunitária (sabe-se como a Europa da concorrência sem distorções tinha as costas largas)? A resposta é não.

De acordo com o direito comunitário, o transporte de energia (electricidade e gás natural) é um monopólio regulado e deve ser exercido por empresas separadas juridicamente de empresas que actuem, em regime de concorrência, na produção, na importação e na comercialização de energia. Assegura-se assim o acesso não discriminatório de todos os interessados às infra-estruturas de transporte e facilita-se o desenvolvimento de mercados de energia eficientes. Na verdade, o direito comunitário apenas impõe a separação jurídica da actividade de transporte, nem sequer obrigando à separação patrimonial
».

Com estas palavras, Jorge Vasconcelos deita por terra os habituais argumentos do Governo, que costuma desculpar a venda dos interesses nacionais – do povo e do país – a privados (portugueses ou estrangeiros) com imposições da União Europeia. No fim do seu interessante artigo, cuja leitura integral aconselho, conclui Jorge Vasconcelos:

«Nada de mal acontecerá se, amanhã, após uma patriótica privatização para resolver a emergência financeira de hoje, os planos de expansão da REN forem anunciados num hotel londrino e os lucros das redes energéticas nacionais forem distribuídos pelas viúvas da Escócia, pelos reformados da Califórnia ou pelos oligarcas russos. Mas os consumidores portugueses de energia não retirarão daí qualquer benefício».

Por outro lado, ficámos ontem a saber, pela boca de outra insuspeita figura, o professor Marcelo Rebelo de Sousa, que o Governo espanhol e uma entidade financeira estatal do país vizinho estabeleceram uma parceria que visa financiar, a juros altamente favoráveis, a compra, por empresas ou cidadãos espanhóis, de várias herdades alentejanas.

Dito isto, quase se pode dizer que está tudo dito sobre a qualidade de vende pátrias (será muito feio chamar-lhes traidores?) da pandilha socialista que nos «governa» há mais de dois anos.

Entretanto, seis estudantes deficientes do Agrupamento de Escolas da Infante D. Henrique, em Viseu, que precisam de cuidados educativos especiais, podem ter de abandonar as aulas porque a escola não dispõe de verba para continuar a pagar às auxiliares que têm acompanhado esses alunos. Entre eles, está um jovem que sofre de distrofia muscular congénita. Tem um grau de deficiência de 95%, não pode largar a cadeira de rodas e precisa de um aparelho para comer e respirar. O jovem é acompanhado há cerca de dez anos pela mesma auxiliar, e não quer ouvir falar na possibilidade de a perder. «É ela que o vem buscar a casa, o leva para as aulas e à casa de banho, lhe dá o comer. Enfim, lhe faz tudo», explica a mãe do jovem. O pai critica o Governo por poupar dinheiro em áreas desta natureza e acrescenta: «Deviam era poupar nos altos ordenados dos políticos e não nestas situações», desabafa ele, que foi informado da situação pelos directores da escola. Não sei em quem votarem – se votaram – os pais destes alunos, mas já têm matéria para meditar daqui a dois anos.

Como se este exemplo não chegasse, uma mulher de Barcelos está cansada de pedir apoio, sem qualquer sucesso, para uma filha menor, deficiente profunda, que há cinco anos espera uma cadeira de rodas nova, pois a que tem está quebrada, com rodas encravadas e o cinto seguro por um adesivo. A mulher, viúva e desempregada, lamenta o "esquecimento" da Segurança Social. Com 42 anos, vive em condições precárias em Vilar, e não tem emprego, pois precisa de cuidar da adolescente a partir das 16:00, quando esta regressa da Associação de Pais e Amigos das Crianças Inadaptadas.

Alice, assim se chama, admite estar «quase a morrer à fome», pois gasta «mais de 250 euros por mês» com Cláudia, em medicamentos e fraldas, e o Estado não cobre todos os medicamentos diários.

Valha-nos as listas de espera para primeira consulta nos hospitais públicos, que «só» atingem 380 mil doentes. Rigorosamente, são 382.866 doentes à espera de uma primeira consulta com um médico especialista hospitalar, em regra marcada depois de um diagnóstico de doença ou suspeita de doença nos Centros de Saúde. Somando consultas e cirurgias, há quase 600 mil doentes em lista de espera nos hospitais públicos, mais de 5% da população, sem esquecer, no entanto, que há muitos hospitais que definem tectos de doentes a consultar e depois fecham as inscrições. E dos que morrem à espera da tal consulta? Alguém terá essa sinistra lista?

Para vergonha maior de Sócrates e do seu ministro da Saúde – caso eles saibam o que é isso de vergonha – as condições “degradantes” em que se encontram os doentes “internados” nos corredores das Urgências do Hospital Distrital de Faro, levaram os 19 chefes de equipa da área médica daquele serviço a apresentar a sua demissão. Também os responsáveis pelos serviços de Oftalmologia, Anestesia e do bloco operatório pediram a demissão dos cargos.

Os 19 responsáveis das Urgências dizem que os doentes estão sujeitos a “risco de infecção hospitalar”, enquanto os médicos “são obrigados a aceitar responsabilidades” por aquilo que não controlam. “Homens e mulheres, lado a lado, são despidos, higienizados e alimentados. Não podemos aceitar que os nossos doentes sejam sujeitos a tão degradante situação”, referem os médicos na carta enviada à direcção clínica do HDF, cujo primeiro subscritor é o chefe da equipa de Medicina, Luís Pereira, que lembra que ao longo dos anos têm chamado à atenção para o problema e sido constantemente ignorados.

No meio deste pouca-vergonha, o despudor absoluto. É que são «apenas» mais de 61,6 milhões de euros que o Governo prevê gastar só em deslocações e estadias no próximo ano de 2008, o que ultrapassa em cerca de 10 milhões o valor orçamentado para este ano. Este aumento de dez milhões de euros (mais 18,8%) das verbas para viagens e alojamentos, inscrito no OGE, acontece num ano em que Portugal já não presidirá à União Europeia e, pelo menos teoricamente, os titulares de cargos políticos e equiparados não necessitam de viajar tanto.

Note-se que os valores orçamentados para deslocações e estadias não incluem as verbas destinadas às viagens dos deputados, nem as viagens do Presidente da República. Questionado sobre as razões do aumento de dez milhões de euros na rubrica ‘Deslocações e Estadas’ do Orçamento do Estado para 2008, o Ministério das Finanças calou-se que nem um rato.

Ainda vale a pena falar das entrevistas de Catalina Pestana? Depois do que ela disse – e da maneira como disse – alguém terá ficado com dúvidas sobre a devassidão que corrói este país – e que tem cobertura e agentes – a nível de altas figuras do aparelho de Estado?

«Este Governo não cairá, porque não é um edifício. Sairá com benzina, porque é uma nódoa», escreveu Eça de Queirós, em 1878, no seu famoso Conde de Abranhos.

Também hoje uma imensa nódoa nos governa. Daí, caros amigos, esta náusea de viver aqui, em Portugal, à mercê dum Abranho, que é, nas palavras de Eça, «um estadista, orador, ministro, presidente do Concelho, etc., etc. – que sobre esta aparência grandiosa é um patife, um pedante, um burro».

11.02.2007

A Morte ao serviço do Défice


Viver ou morrer passa pelo equilíbrio do défice,
atentamente observado pela sombra sinistra do Frankenstein da Saúde


A Sombra e as «Listas»


Perto de 400 mil doentes esperam uma primeira consulta com um médico especialista hospitalar, normalmente marcada depois de um diagnóstico de doença (ou suspeita de doença) nos Centros de Saúde.

Somando consultas e cirurgias, há quase 600 mil doentes em lista de espera nos hospitais públicos, mais de 5% da população. Só...
Não concordo. Os números são, seguramente, muito inferiores. Estou certo que muitos destes nossos compatriotas - nossos irmãos - já desistiram de esperar. Segundo sei, muitos deles - muitíssimos deles - foram agora visitados (nos dias 1 e 2 de Novembro), nos locais onde finalmente descansam em paz, livres, enfim, do «engenheiro» Sócrates e o seu Frankenstein da Saúde (Correia de Campos, para os mais distraídos).
Que, naturalmente, respiram um pouco mais aliviados.
E o défice, por consequência, também.

10.31.2007

Intermezzo (II)

Alpendre

De súbito, a plenitude, a felicidade.
Sob o alpendre, a mesa posta, farta, e a família à volta.
Era serena a tarde, com verdes e azuis
e voos de pássaros estivais.
As manchas do jasmim e das roseiras
coloriam o eco das palavras,
os risos tranquilos e os gritos alegres das crianças.
Nenhuma dor, angústia ou névoa a ensombrar
os olhos luminosos e os sons de pétalas e cristais.

Sob o alpendre,
naquele puro instante, nenhuma dor havia.
E, no entanto, até a mesa, maciça e nova,
silenciosamente apodrecia.

10.30.2007

Era uma vez um país




No saguão reinam os vermes

O (re)casamento do senhor Pinto da Costa foi a notícia da semana para grande parte da nossa imprensa. Aliás, o senhor Pinto da Costa é notícia sempre que emite um som, seja ele de que natureza for. Por isso, se me permitem, não vou falar do ilustre noivo, como, aliás, não falarei do Cristiano Ronaldo, nem da Lili Caneças, nem dessa coisa trangénica a quem chamam, salvo erro, o «Conde», designado outras vezes por José Castelo Branco, ou de figuras afins da nossa melhor sociedade. Isto é: não vou falar dos portugueses verdadeiramente «importantes» deste país.

E se, na minha prosa, vierem a lume outros nomes conhecidos, designadamente, ministros, políticos, grandes empresários e outros valorosos varões (ou barões) da mandança lusitana, não será por eles, enquanto indivíduos, mas pelos efeitos que produzem entre a ralé a que pertenço com – diga-se de passagem – bastante orgulho.

Começo por Alberto Costa, o ministro da Justiça, que veio prometer alterações ao novo Código de Processo Penal, mas só para 2009. Quer isto dizer que é preciso dar tempo a que processos como os da Casa Pia, Apito Dourado e todos os que se relacionem com os grandes crimes económicos, com a grande banqueirada à mistura, terminem sem complicações para nenhum dos implicados, com a exclusão natural do senhor Silvino, mais conhecido por Bibi, e de outra arraia miúda que venha à rede.

Falando nisto, recordo o que li há dias, escrito pelo jornalista António Ribeiro Ferreira:
As palavras do senhor Procurador-geral da República, Pinto Monteiro, vêm a público no momento em que voltam a surgir à luz do dia novas acusações sobre os abusos sexuais a alunos da Casa Pia. (…) A ex-provedora Catalina Pestana veio denunciar a continuação da actividade de uma rede de pedófilos no interior da instituição. Os gritinhos indignados sobre as escutas são a poeira necessária, veremos se é suficiente, para desvalorizar e colocar em segundo plano o facto de senhores muito importantes do regime continuarem a ir buscar crianças à Casa Pia para satisfazer os seus criminosos desejos pedófilos. Desde que o escândalo rebentou em finais de 2002, uma grande parte da classe política, com o PS à cabeça, e altas figuras do Estado fizeram tudo o que era possível e impossível para abafar o caso e evitar que os pedófilos fossem condenados. Substituíram o procurador Souto Moura por Pinto Monteiro, destruíram a brigada que investigou os crimes sexuais, afastaram Catalina Pestana e alteraram o Código Penal e o Código de Processo Penal».

Não se pode ser mais claro. Mas vindo à baila o PS, logo nos lembramos desse interessante fenómeno da corrupção, sendo impossível esquecer o que se passa no julgamento de Felgueiras e o que se está a passar em Coimbra, onde a Polícia Judiciária local investigou à lupa, durante dois anos, os negócios de Luís Vilar, dirigente e autarca socialista naquela cidade. E o que descobriu a PJ? Conto-vos o que li no Correio da Manhã:

«Descobriu que o vereador, sem pelouro e sem ordenado na Câmara, conseguiu nos últimos anos amealhar uma fortuna invejável. No processo é evidenciado que Vilar era o homem do “dinheiro” em Coimbra, o principal “financiador” do PS, ao ponto de Vítor Baptista, candidato à presidência, precisar que aquele fosse avalista da sua campanha. Foi feita uma livrança de 100 mil euros para que a mesma se concretizasse, tendo ainda Vilar emprestado 20 mil euros ao candidato a presidente. Os negócios foram investigados e embora o MP acabasse por propor o arquivamento de muitos destes casos, uma verdade tornou-se evidente. As cumplicidades no poder local geram compadrios difíceis de entender».

Esta edificante história inclui empresários, com negócios pendentes na autarquia, que emprestam dinheiro a vereadores e como, por esta e por outras vias, se financiam as campanhas eleitorais. No meio disto tudo, surgem lotes de prédios com andares a mais, tendo o feliz construtor entregue a Luís Vilar dez mil euros para a campanha do PS. Curiosamente, o PS só recebeu metade dessa verba, e o recibo não foi passado ao empresário, mas ao próprio Vilar, que assim aparece como benemérito.

Mas onde a história começa a ter suco é quando entra em acção a famosa Bragaparques. Voltemos ao CM, que nos conta:

«Há duas versões para uma história que assenta no depósito de 50 mil euros, em dois cheques, na conta do vereador e líder da concelhia do PS, Luís Vilar. O Ministério Público assegura que se tratou de um caso de corrupção (e acusou Domingos Névoa, da Bragaparques, e o autarca socialista do crime de corrupção na forma passiva e activa), enquanto os envolvidos garantem que foi apenas um empréstimo. Luís Vilar precisava de dinheiro para um negócio, que depois acabou por não concretizar, e pediu ao amigo empresário que lho adiantasse. Domingos Névoa teria dado o dinheiro ao “amigo” vereador, e António Vilar devolveu-lho, passadas algumas semanas, mas em dinheiro e sem hipótese de o comprovar.O procurador público que assina a acusação diz exactamente o contrário. Na altura em que os cheques entraram na conta do autarca, (Março de 2002), ainda estava em discussão a construção de um parque de estacionamento construído pela empresa, em Coimbra. A Bragaparques adquirira um terreno em hasta pública e conseguira, em clara violação do regulamento camarário, adquirir um segundo lote para um parque de dimensões anormais.

Luís Vilar também não conseguiu explicar às autoridades por que é que pediu o dinheiro emprestado ao empresário. Afinal, os extractos das suas contas nos três meses anteriores e posteriores mostram saldos de 110 mil euros. Nesse mesmo período de tempo, Luís Vilar também fez aplicações financeiras de 550 mil euros, numa altura em que, segundo o próprio, precisava que Domingos Névoa lhe emprestasse os 50 mil euros.

A PJ investigou o negócio à volta da construção do parque de estacionamento na zona do Bota Abaixo, no Largo das Olarias, em Coimbra, e verificou que em 1999 foram alienados dois terrenos naquela zona, só tendo a Bragaparques conseguido comprar um deles. Pode depois ler-se no processo que “contra os termos do regulamento do concurso”, a Bragaparques conseguiu juntar os dois lotes, promovendo a construção de um parque de estacionamento de maiores dimensões. Com este negócio obteve elevados lucros que foram indevidos por os terrenos terem sido adquiridos a baixo custo
».

Veremos agora no que vai dar isto tudo, com o socialista Luís Vilar e o empresário da Bragaparques, Domingos Névoas, a serem os únicos acusados no meio de tanta bagunça. Uma coisa é certa: percebe-se melhor agora por que se opôs o PS ao pacote legislativo contra a corrupção proposto por João Cravinho, agora desterrado – e silenciado – num cargo qualquer perdido no meio desta Europa connosco.

Não sei porquê, mas tudo isto me trouxe à ideia que o Governo prevê gastar no próximo ano mais de 190,4 milhões de euros em estudos, pareceres, projectos e consultadorias. Uma verba que representa um aumento de 74 milhões (62%) em relação ao montante de 116 milhões despendido este ano. Não! Não estou a pensar em comissões, em favores, em habilidades dessas. Deus me livre!

E enquanto o Banco de Portugal concede créditos aos seus administradores para a compra de habitação, há um homem da ralé, chamado Francisco Sousa, que desabafa: «Ainda há gente boa neste Mundo. Se não fossem os amigos, eu já tinha morrido.» O desabafo de Francisco traduz a cruel realidade da sua vida. Sem saúde nem força para trabalhar, sem dinheiro, sem nada, este homem vive numa casa em Chãos, nos arredores de Viseu, sem as mínimas condições e onde falta tudo. Ou quase tudo.

O seu caso tornou-se mais complicado quando, há cerca de três semanas foi hospitalizado devido a problemas respiratórios, «a juntar aos outros». Antes de ter alta, foi avisado pelos médicos de que teria de passar a noite e grande parte do dia ligado a um ventilador. Francisco Sousa resignou-se à situação, mas ficou desesperado quando soube que o aparelho só funcionava ligado à energia eléctrica. «Como é que vou fazer?», interrogou-se na altura, sabendo que a sua casa não tem electricidade. Porque neste país não há só gente como aquela que eu referi atrás, o problema foi resolvido no próprio dia em que teve alta hospitalar. O vizinho, Artur Campos, prontificou-se a ajudar e emprestou a luz.

A vida de Francisco Sousa “não tem sido fácil”, como fácil não é a vida de muitos milhões de portugueses. Solteiro e apenas com 105 euros que recebe do rendimento social de inserção, dinheiro que mal chega para comprar os medicamentos, reconhece que a sua sorte é viver rodeado de pessoas amigas e que ajudam os pobres. “Sem este vizinho que me deu a luz, não sei como iria respirar”, diz ele.

É como os administradores do Banco de Portugal. Se não lhes emprestassem dinheiro para as casitas, onde é que os pobrezitos iam morar, não me dizem?

Intermezzo


Não contes a ninguém


Às vezes vou por aí, dissimuladamente,
as mãos metidas nos bolsos,
remexendo cinzas e outras memórias,
sem saber o que fazer com elas.
São os olhos que me levam,
para surpresas das pernas,
e isso acontece sempre ao fim da tarde,
quando suspeito que as horas nocturnas
vão ser irrespiráveis, como cactos.
Não contes a ninguém,
mas as cinzas são tudo o que tenho
e são tudo o que perdi.

Até hoje, voltei sempre para casa,
recoloquei as cinzas no meu sangue e,
depois, mais calmo,
adormeci.

10.23.2007

O Tratado de Lisboa



Porreiro, pá!


Assim que a chamada Cimeira de Lisboa amanhou o Tratado Europeu, o «engenheiro» Sócrates abraçou-se a Barroso e disse: «Porreiro, pá!».

Ali perto, nas ruas do Parque das Nações, mais de 200 mil manifestantes, unidos numa das mais poderosas manifestações de que há memória, não eram da mesma opinião, e gritavam-no bem alto. Eles sabem que não é porreira a vida de milhões de portugueses, e que não ficará mais porreira se o Tratado for posto em prática.

Aquele «porreiro, pá!», que Sócrates não conteve, soou-me aos ouvidos, educados por muitos anos de convivência com cretinos desta e doutra natureza, com uma expressão da nossa gíria, que viria muito mais a propósito. «Já os lixámos, pá!». Mas não serei eu que vou estragar a festa ao primeiro-ministro, que, de tanta excitação, até o seu habitual ar pardacento adquiriu uns leves tons rosados.

Deixem-me, por isso, embarcar no clima festivo que a criatura deu à mascarada há muito cerzida nos bastidores mais bafientos da Europa e, indo para além do Tratado de Lisboa, exclamar o meu «porreiro, pá!» por muitas outras vitórias deste brilhante estratega do reaccionarismo nacional, ao pé do qual Salazar e Caetano se sentiriam definitivamente chocados. E não por não terem conseguido fazer tanto, mas porque até eles tinham limites para a bestialidade anti-social em que Sócrates é mestre.

Então, porreiro, pá!, porque a partir deste Tratado Portugal será uma colónia insignificante de uma Europa Federal, comandada por alemães e franceses, e totalmente entregue aos interesses do capitalismo selvagem que, por via do Tratado, imporá as regras do jogo, das quais a flexisegurança é apenas uma pequena e pálida amostra.

Porreiro, pá!, porque a tua fúria destruidora de tudo o que é serviço público, e que tem sido a imagem de marca e o denominador comum das tuas medidas como dirigente máximo do Partido Socialista – e a que chamas, cinicamente, «reformas modernizadoras», – passará a ser culpa do Tratado e, consequentemente, do Parlamento Europeu, essa coisa que os europeus não conhecem e os portugueses não querem, sequer, conhecer.

Porreiro, pá!, pois com a tua grande vitória, tentarás esconder que criaste, em Portugal, a sociedade europeia de maior desigualdade, um país onde dois milhões vivem já abaixo do nível da pobreza, e à qual regressou, pela tua mão, um feudalismo de novo tipo.

Porreiro, pá!, porque já podes demolir a Educação e a Saúde, enquanto serviços públicos, a um ritmo ainda mais vertiginoso e desumano. E investir mais contra os reformados e deficientes. E fechar mais maternidades, urgências, centros de saúde, escolas, tribunais e postos da GNR.

Porreiro, pá!, porque um político capaz de fazer aprovar um Tratado que dá ao capitalismo as rédeas de todo o poder, pode tratar a Função Pública – e, nomeadamente, os professores – abaixo de cão, enquanto os restantes trabalhadores não passarão de vermes inqualificáveis.

Porreiro, pá!, porque agora sentes as mãos ainda mais livres para privatizar o que resta, desde a água aos correios, dos cemitérios às estradas e caminhos, sem esquecer o ar, logo que os teus amos e senhores capitalistas encontrem maneira de o armazenar e distribuir.

Porreiro, pá!, porque sendo tu um tipo com tanto poder, já podes mandar entrar a polícia em qualquer sítio, principalmente nos sindicatos. Ou, de madrugada, em casa de qualquer cidadão, desde que, nalguma escuta telefónica, daquelas que são decididas em certos gabinetes, de um certo andar, de um certo edifício da Rua Gomes Teixeira, tenham gravado algumas palavras menos compreensíveis, que rimem com bomba ou que acabem em ismo.

Porreiro, pá!, porque a agricultura foi destruída ou arruinada e as melhores terras, sobretudo no Alentejo, já são estrangeiras.

Porreiro, pá!, porque somos um Estado parasita, que consome muito mais do que produz, já que a indústria está controlada por interesses estrangeiros, ou morreu de morte macaca, e das pescas nem é bom falar.

Porreiro, pá!, pois os escândalos da banca já não são apenas os dos seus enormes lucros, mas outros mais ajardinados, que não passarão, aliás, de pontinhas de icebergues.

Porreiro, pá!, porque o salário mínimo é a vergonha que tu sabes, mas isso até é um mérito para quem convenceu a Europa a assinar um Tratado;

Porreiro, pá!, porque se os salários dos trabalhadores estão ao nível do terceiro mundo, mas já os vencimentos dos gestores são os mais elevados da tua querida Europa.

Porreiro, pá!, porque as falências de pequenas e médias empresas sucedem-se em ritmo nunca visto.

Porreiro, pá!, porque a dívida externa bruta – que quase duplica o produto interno bruto – é já, em valor absoluto, superior à do Brasil, país com 200 milhões de habitantes.

Porreiro, pá!, porque o desemprego cresce como as couves do Entroncamento e o crédito malparado atingiu um nível recorde. Os números são do Boletim Estatístico do Banco de Portugal, dirigido pelo teu amigo e camarada Vítor Constâncio, e revelam que, em Agosto, mais de 2 mil milhões de euros eram considerados incobráveis pelos bancos portugueses. Descontando aqui os do filho do senhor Jardim Gonçalves…

Porreiro, pá!, porque até um dos mais moderados capitães de Abril, Vasco Lourenço, disse, preto no banco: «Se outros indícios não existissem, sem necessidade de constatar os inúmeros retrocessos verificados nos últimos anos, basta-nos olhar para a enorme degradação das relações entre o trabalho e o capital, no que se refere à parte dos salários no rendimento social. Apesar de a riqueza criada por trabalhador ter crescido 41 vezes, entre 1975 e 2004, a parte dos salários no rendimento nacional desceu, no mesmo período, de 59 por cento para 40 por cento». E acrescentou: «Francamente, não foi para isto que se fez o 25 de Abril».




Tás porreiro, pá?



Porreiro, pá!, porque o homem disse mais isto: «a actual situação tem apresentado vários retrocessos nos últimos anos, principalmente porque a maioria dos órgãos de soberania já perderam um pouco a noção do que foi o 25 de Abril», por isso, «as desigualdades sociais aumentaram, os nossos pobres continuam a aumentar, aumenta o fosso entre ricos e pobres e há uma classe média cada vês mais castigada. Portugal está desequilibrado em termos de justiça social face aos primeiros anos após o 25 de Abril». Vasco Lourenço denunciou ainda o «isolamento da classe política-partidária face à população, facto que prejudica a Democracia».

Porreiro, pá!, porque o capitão de Abril é ainda da opinião de que os «partidos políticos se transformaram em agências de emprego», indo mais longe quando diz que «as Democracias Europeias caminham alegremente para o abismo, face à falta de ligação entre eleitos e eleitores, fenómenos com a xenofobia e a imigração ilegal, e a predominância do capital sobre o trabalho».
Porreiro, pá!, porque, pelos vistos, já deste cabo do que restava do 25 de Abril.

Mas tem cuidado, pá! É que tu finges que aqueles 200 mil que te bateram á porta não existem. Existem eles e existem muitos mais. E eu, se fosse a ti, nem era deles que teria mais medo. Quem mais deves temer, pá, são aqueles que ainda não dizem nada, Uns, por medo; outros, por comodismos; outros, por vergonha, já que um dia acreditaram em ti e no teu falso palrar de democrata e socialista. Mas quando a raiva desses se soltar, então, pá, «tás» tramado.

Então, sou eu quem dirá, mas a sério, abraçado à primeira pessoa que encontrar:

PORREIRO, PÁ!

10.19.2007

Resistir



Nova poesia da resistência
(de autor desconhecido)






(e parece que é mesmo assim...)


No primeiro diploma,
congelaram as progressões,
acabaram os escalões,
e não dissemos nada.

No segundo diploma,
aumentaram o tempo das reformas,
mexeram com todas as normas,
e não dissemos nada.

No terceiro diploma,
alteraram o sistema de saúde,
há um controlo amiúde,
e não dissemos nada.

No quarto diploma,
criam-se informações,
geram-se várias divisões,
e não dissemos nada.

No quinto diploma,
passa a haver segredo,
as pessoas vivem com medo,
e não dissemos nada.

Até que um dia,
o emprego já não é nosso,
tiram-nos a carne, fica o osso,
e já não podemos dizer nada.

Porque a luta não foi travada,
a revolta foi dominada,
e a garganta está amordaçada.

Agora, a Pátria é uma teia
onde caímos incautos.
Uma coisa suja e feia..

Mas que já consta dos autos
da União Europeia.

10.16.2007

Che, cegos e canalhadas

Assim se vive, assim se vota



Dos milagres e das cegueiras




No dia 9 de Outubro de 1967 – passaram agora quarenta anos – um homem, chamado Mário Teran, sargento das forças armadas bolivianas, aponta a sua arma a outro homem, preparando-se para assassiná-lo. Antes da rajada de metralhadora ceifar a vida ao prisioneiro indefeso, este diz-lhe: «É melhor assim. Nunca deviam ter-me capturado vivo… Diz a Fidel que em breve assistirá a uma revolução triunfante na América. E diz à minha mulher que volte a casar e que tente ser feliz. Sei que vens matar-me. Dispara, cobarde, só vais matar um homem!»




O outro disparou e Che Guevara morreu.




Aqui há poucos dias, os jornais e a televisão noticiaram que algumas dezenas de portugueses, residentes em Vila Real de Santo António, estavam a caminho de Cuba – da Cuba, de Fidel – para ali serem operados às cataratas, pois, em Portugal – no Portugal de Sócrates e Correia de Campos – arriscavam-se, nas listas de espera, a cegar. Pela mesma altura, alguns doentes operados às cataratas, num hospital qualquer deste país, acabaram, em vez de curados, por cegar de um dos olhos, enquanto outros, segundo os familiares, ficaram pior do que estavam. O hospital lava as mãos e responsabiliza algum dos doentes, que teria levado a infecção consigo. A cretinice bateu o seu recorde pessoal, e a culpa, essa, morreu como sempre morre em Portugal: solteira.




Ora, neste preciso momento, decorre em diversos países da América Latina uma iniciativa chamada «Operação Milagre», que mais não é que um programa cubano de assistência oftalmológica gratuita, destinado a pessoas que, por falta de posses, cegaram, ou estão em vias de cegar.




Não é milagre – salvo no Portugal de Sócrates e Correia de Campos – recuperar a visão de pessoas afectadas por certos tipos de cegueira, pois o desenvolvimento técnico-científico dos nossos dias já o permite com alguma facilidade. O milagre – dos verdadeiros, dos palpáveis, dos visíveis, e não os embustes milagreiros que por aí, de vez em quando, se festejam – está no facto de um país – Cuba – usar os seus recursos e conhecimentos para ajudar, noutros países, aqueles que precisam.




Há quem ajude os povos à bomba, como os EUA. Cuba fá-lo com médicos e generosidade. É que, por esse mundo fora, onde milhões de pobres só têm utilidade enquanto podem vender barata a sua força de trabalho, mal uma enfermidade, como a cegueira, os afecta, logo passam a coisa inútil e lançada para a sarjeta. É, então, este o milagre que está a acontecer em vários países da América Latina, onde equipas de cirurgiões oftalmológicos cubanos devolvem a visão a milhares de seres humanos.


A cegueira e a cegueira de Mario Teran


E por aqui ficaríamos em termos de cegueira, não tivesse acontecido que, durante a visita de uma destas equipas a Santa Cruz, a segunda maior cidade da Bolívia, lhes apareceu, para ser operado às cataratas, um certo Mário Teran, exactamente o mesmo Teran que, quarenta anos atrás, havia assassinado Che Guevara. Claro que o assassino do Che não se apresentou com o próprio nome, eventualmente com medo de não ser, sequer, observado. Mas foi o filho, que o acompanhava, quem decidiu, ao manifestar o seu reconhecimento aos médicos cubano, revelar a verdadeira identidade do pai, que, naturalmente, foi operado e recuperou a visão.



A este propósito, escreveu o jornal cubano Granma: «Teran, agora na reforma, poderá apreciar de novo a cor do céu e da floresta, conhecer o sorriso dos seus netos (…). Mas nunca será capaz de ver a diferença entre as ideias que o levaram a assassinar um homem a sangue frio e as ideias desse homem».

Bando de malfeitores


Se esta crónica acabasse aqui, acabava muito bem. Acontece, porém, que foi divulgado o OGE para 2008, e ficámos a saber que vem aí pior – muito pior – do mesmo. Num país onde, em pleno Dia Mundial da Alimentação, se fica a saber que há cada vez mais pobres a pedir ajuda, e que o seu número deve rondar os dois milhões, não posso ficar calado perante esse facto. Se o fizesse, estaria a ser, de certo modo, mais um sargento Teran, ou seja, um reles lacaio – ainda que por omissão – de Sócrates e do seu bando de malfeitores políticos e sociais.


Talvez alguns achem que uso frequentemente, palavras excessivas, como estas. Bando e malfeitores.


Mas não serão malfeitores aqueles que, mesmo por via legal, vão atacar os já parcos rendimentos de milhares de reformados, agravando-lhes a carga fiscal?


Não são malfeitores aqueles que, pela via orçamental, vão agravar o IRS aos deficientes?


Mas não serão malfeitores aqueles que fixam taxas de inflação inconcretizáveis, para poderem continuar a corroer o poder de compra de milhões de portugueses, já que todos sabemos, até os mais cegos de entre os cegos, que a inflação anunciada é sempre muito inferior à inflação depois verificada?


Mas não serão, para além de malfeitores, reles mentirosos, aqueles que afirmam ter cumprido a redução do défice, mas apenas porque se «esqueceram» de incluir nas contas os muitos milhões de euros que o Estado deve aos seus credores, habilidade esta seguida por algumas câmaras, tão caloteiras quanto o Governo?


Mas não serão malfeitores aqueles que, para controlarem o défice, em vez de reduzirem os benefícios fiscais aos grandes grupos económicos, preferem fechar escolas, centros de saúde, maternidades, urgências, tribunais e postos da GNR?


Não serão malfeitores, aqueles que, ao elaborarem um Orçamento Geral do Estado, agravam a injustiça fiscal, porque as receitas dos impostos indirectos, que são os mais injustos, vão aumentar muito mais do que as receitas que têm como origem os impostos directos? E, que ao fazê-lo, em vez de obrigar a pagar mais impostos aqueles que mais ganham, vão obrigar a pagar, rico e pobre, o mesmo imposto sobre aquilo que se é obrigado a comprar?


Ó cegos do meu país, abri os olhos! Ó dois milhões de pobres, reclamai o que é vosso e uni-vos à gente honrada e solidária – que não sendo cega nem pobre – há muito que reclama o fim desta política, que tem tanto de canalha como de desumana.


E depressa, antes que estes vampiros – em tudo iguais aos outros que o Zeca cantava – comam o que resta.

10.02.2007

A propósito de terrorismo

O terror dos utentes do

Serviços Nacional de Saúde

e, especialmente, das grávidas



Os actos e os rótulos



Leio nos jornais:


«A política de redução de salas de partos realizada pelo Ministério da Saúde, conduziu a que no concelho de Resende (o mais pobre do País) um em cada oito nascimentos ocorra no transporte por ambulância dos bombeiros locais». Resende é o concelho onde os nascimentos fora de um ambiente hospitalar atingem maior expressão. Por todo o País, no entanto, os bombeiros dizem não haver memória da situação atingir tais proporções. Pelo menos 31 casos foram noticiados desde há um ano».



«“Nunca tínhamos visto uma coisa destas. Desde 27 de Abril – em cinco meses – realizámos cinco partos”, disse o comandante dos Bombeiros Voluntários de Resende, José Ângelo. Um número que os bombeiros dizem ser elevado, dada a quantidade de crianças que nascem no concelho. José Ângelo aponta o encerramento da sala de partos de Lamego, há cerca de um ano, como causa principal para as crianças nascerem na estrada».Cravado no vale do Douro e com acesso por estradas sinuosas, Resende viu nascer 92 crianças no ano passado, segundo dados do Instituto Nacional de Estatística. Um número que, repartido pelos 12 meses do ano, dá uma média de oito partos por mês. Verificados que nos últimos cinco meses ocorreram cinco partos em ambulâncias, uma em cada oito crianças nasceu num ambiente extra-hospitalar. O comandante dos bombeiros garante que “nunca foram realizados tantos partos, como agora, em ambulâncias”».



Se a situação é inédita no concelho de Resende, em todo o País os partos realizados pelos bombeiros não param de aumentar, com especial incidência em concelhos que viram encerrar os blocos de partos mais próximos. “Não tenho memória de haver tantos partos em ambulâncias como agora”, disse ao CM Rui Ramos Silva, do conselho executivo da Liga dos Bombeiros Portugueses. Também o presidente da Liga, Duarte Caldeira, afirma “ser possível estabelecer uma relação causa/efeito entre o encerramento de um bloco de partos e o nascimento de uma criança numa ambulância”.



José Ângelo teme que a prática constante de partos pelos seus homens possa ter riscos perante uma gravidez mais complexa. Indica que apenas têm uma formação básica do Instituto Nacional de Emergência Médica, e que a ambulância não está habilitada para a realização de partos. Também Rodolfo Baptista, dos Bombeiros Voluntários da Merceana, no concelho de Alenquer, considera que a reestruturação nacional das salas de partos não foi a mais correcta para as seis freguesias da Serra de Montejunto, que são servidas pela sua corporação. “Apesar de estarmos a apenas 15 minutos da maternidade de Torres Vedras, esta foi classificada como municipal, pelo que somos obrigados a encaminhar as grávidas para o Hospital de Vila Franca de Xira. São 40 quilómetros de más estradas que obrigam a uma viagem de um hora”, afirmou.



Claro que há mais: 31 partos foram noticiados nos últimos 12 meses. Sete na Figueira da Foz, seis em Resende, três em Mirandela e Lourinhã, dois em Penafiel, seis no Alentejo e um em cada um nos concelhos de Baião, Ansião, Alenquer e Ourém. Os casos mais falados são os da Figueira da Foz, onde após o encerramento da sala de partos nesta cidade, cujo concelho conta com 63 mil habitantes, ocorreram sete partos de emergência. Dois foram feitos no próprio hospital e cinco em ambiente extra-hospitalar, sendo que um foi feito em plena garagem da parturiente. Também em Mirandela, fechada a sala de partos em Setembro de 2006, pelo menos três bebés nasceram na estrada, assistidos pelos bombeiros.



Se isto não é terrorismo, vou ali e já venho.



Mas serão estas notícias incómodas para os carniceiros que mandam na Saúde? Não sei. Costuma-se dizer que quem não tem vergonha…



Porém, outra desgraça veio agora a público. Os maus cuidados prestados aos doentes valeram a Portugal o 19.º lugar num ranking que avaliou os sistemas de saúde de 29 países europeus. Uma posição atrás de estados como o Chipre, a República Checa, a Estónia ou a Eslovénia, numa lista que tem como objectivo aferir quais os serviços mais amigos do doente. A comparação foi ontem divulgada pela Health Consumer Powerhouse, uma organização sueca que visa avaliar e defender o papel do cidadão perante os diferentes sistemas de saúde. O desempenho do sistema de saúde português ressentiu-se dos resultados em áreas como a espera por uma consulta de clínica geral ou de especialidade e por uma cirurgia; a mortalidade por enfarte ou AVC; as operações às cataratas e os cuidados dentários disponíveis nas unidades públicas. Em todas estes pontos, o País recebeu uma classificação negativa.



O Ministério da Saúde diz que a sua avaliação coincide com este estudo. Isto é: não nega. E está muito feliz da vida, garantindo que vai continuar a sua política de destruição do SNS, que vai trespassando, calmamente, para os privados. Recordo que nas zonas onde o governo fechou maternidade e outros serviços de saúde, os privados apressaram-se a ocupar a vaga. Mais terrorismo social, ou haverá por aí designação melhor?



Mudando de assunto, para aliviar.



Leio que duas irmãs, de 16 e 33 anos, foram detidas pela GNR na cadeia de Custóias, quando tentavam, durante o horário da visita, introduzir droga no estabelecimento prisional, a pedido de um dos reclusos. As 100 gramas de haxixe que as duas mulheres tentaram introduzir estavam dissimuladas na comida que diziam levar para o recluso que iam visitar, contou uma fonte policial ao JN. Segundo contaram as detidas, a droga destinava-se a um dos reclusos, que a havia encomendado. Foram presentes a tribunal. Francamente! Presas por só levarem 100 graminhas de haxixe. Afinal, em que ficamos? As pessoas já não se podem drogar nas prisões? Então, para que servem as seringas e o resto do material que o Estado vai oferecer aos presos?



Voltando ao terrorismo, impõem-se a pergunta: Afinal, quem são os terroristas? O Parlamento iraniano aprovou a designação de "organizações terroristas" para a CIA e o Exército dos Estados Unidos da América, numa resposta à resolução do Senado norte-americano de atribuir designação idêntica aos Guardas Revolucionários do Irão. Para o Parlamento iraniano, a CIA e as Forças Armadas dos Estados Unidos são terroristas por causa do lançamento de bombas atómicas no Japão; da utilização de munições com urânio empobrecido nos Balcãs, Afeganistão e Iraque; do apoio às matanças de palestinianos por Israel; e do bombardeamento e matança de civis iraquianos e tortura a suspeitos de terrorismo.







«Os agressores, Exército dos EUA e a CIA, são terroristas e também alimentam o terror», refere uma declaração subscrita por 215 dos 290 deputados iranianos, divulgada anteontem à noite. A sessão parlamentar foi transmitida em directo pela rádio. A Casa Branca recusou-se a comentar a decisão.


Não é por nada, mas ao passar os olhos pela história dos conflitos armados e das agressões e invasões de países estrangeiros, os EUA ocupam os lugares todos do pódio. Nos últimos 60 anos, ninguém esteve na origem de tanta barafunda, de tanto morte, de tanto sangue inocente, de tanta destruição, de tanto massacre como os norte-americanos.


Mas continuando a ler os jornais vejo isto: «Em 2006, os EUA mantiveram o primeiro lugar na venda de armas no mundo, revelou um relatório do Congresso ontem divulgado em Washington. Num ano em que o comércio de armamento para os países em desenvolvimento movimentou 28,8 mil milhões de dólares, o Governo americano foi responsável por 36% desses negócios. Em segundo lugar surge a Rússia, com 28%, e em terceiro o Reino Unido, com 11%».

O relatório intitulado Transferência de Armas Convencionais para as Nações em Desenvolvimento revela ainda que os três principais compradores foram o Paquistão, a Índia e a Arábia Saudita. Com negócios de 10,3 mil milhões de dólares, os EUA mantiveram, contudo, a liderança deste mercado. Por outras palavras. Os norte-americanos não só matam que se fartam, como põem os outros a matar por eles, para além de fazerem do negócio da guerra e da morte uma das suas melhores fontes de receita.


Mas agora vai ser preciso muito tento na língua. Punir o elogio ao terrorismo é um dos objectivos da UE. De facto, o comissário europeu para a Liberdade, Segurança e Justiça, Franco Fratini, anunciou, durante o Conselho de Ministros da Justiça e da Administração Interna da União Europeia, que vai propor, no início do próximo mês, uma série de medidas que visam um endurecimento do combate ao terrorismo.


Vou ter que pensar muito bem antes de falar. Se eu disser que Bush é um uma excelente pessoa, uma espécie de Madre Teresa de Calcutá de calças, estarei a elogiar o terrorismo? Na minha opinião, estou. Na opinião deles, estarei a gozar, logo devo ser simpatizante daqueles a quem eles chamam terroristas.


E se eu disser que os palestinianos têm direito a usar a força para constituírem o seu Estado e se libertarem o jugo sionista, ou que os iranianos e os norte-coreanos têm o mesmo direito que paquistaneses, chineses, franceses, norte-americanos ou indianos de enriquecer urânio, estarei a elogiar o terrorismo, ou expressar um ponto de vista perfeitamente legítimo e compreensível? Na opinião deles, estarei a elogiar o terrorismo.

Mas sabem uma coisa? De quem eu tenho medo, por mim e pelo mundo inteiro, não é da Al-Quaeda, do Irão, da Eta, dos norte-coreanos, do Hamas ou das FRAC.


De quem eu tenho medo é de quem possui os grandes arsenais de armas convencionais, químicas, biológicas e nucleares, e que deles se valem para pilhar os recursos do planeta. Isto é: dos norte-americanos e dos seus aliados. Eles é que são capazes de incendiar isto tudo, seja por petróleo, seja por água, seja pelo que for.


E é a isso, meus caros, que eu chamo TERRORISMO. Com maiúsculas.

E para terminar, mais uma notícia sobre terrorismo: A taxa de desemprego harmonizada em Portugal acelerou para 8,3 % em Agosto passado, após ter estabilizado nos 8,2 % nos meses de Maio, Junho e Julho, anunciou ontem o departamento de estatística da Comissão Europeia, o Eurostat.

E eu é que sou terrorista, não é?

10.01.2007

Portugal regressa ao passado - ao pior passado - com as políticas do político
mais desumano que conheci ao longo de toda a minha vida: Sócrates
O desrespeito pela vida humana não tem expressão apenas
nos campos de concentração nazis. Também se vai lá por decreto.

Regresso ao Passado

A comunicação social está a dar, desde ontem, novas sobre o apoio do governo à natalidade. No fundo, trata-se de antecipar o início da prestação do abono de família a partir dos primeiros meses da gravidez, e de o aumentar consoante o número de filhos ou a magreza do orçamento familiar.


Numa altura em que os portugueses decidiram deixar de procriar, porque vivem no país onde isso é de todo desaconselhável - desemprego, emprego precário, salários baixíssimos, perda constante do poder de compra, insegurança a todos os níveis - não será uma pálida, irrisória e ridícula prestação social, ligeiramente melhorada, chamada abono de família, que motivará os nativos deste rectângulo mal afamado a deitar crianças ao mundo. Seria deitá-las ao pântano em que vivemos.


As políticas do senhor presidente do conselho, «engenheiro» José Sócrates - e de todo o bando que o rodeia, tanto no governo, como na Assembleia da República, ou nos vários patamares do aparelho do Estado, onde os camisas cor-de-rosa foram metódica e cientificamente instalados - revelam-se mais desumanas e anti-sociais que as dos seus antecessores de má memória, Salazar e Caetano.


Custa-me dizê-lo, mas com a autoridade que tenho por ter vivido, com plena lucidez e consciência política, as últimas décadas da ditadura e estes negros anos da governação socialista, afirmo, sem a menor hesitação, que as políticas de Sócrates se revelam, para a maioria da população, mais nefastas e desumanas do que algumas vez o foram as seguidas pelos antigos ditadores. E para as velhas minorias, tão ou mais férteis e favoráveis como então o eram.


O futuro de nove milhões de portugueses é, no actual contexto, um tristíssimo e revoltante regresso ao passado.

9.26.2007

Ele anda muito contente

Quando o défice estiver como o Governo quer,
os portugueses estarão (quase) todos assim, no Balcão de
Sócrates

O Balcão de Sócrates
No última crónica, com o título «Um Código à maneira», que também é lida na rádio, numa rubrica chamada «Provocações», um ouvinte entrou em linha para emitir uns desabafos e classificar o programa como um tempo de antena do PCP (partido ao qual ele disse já ter pertencido, confessando-se agora um admirador do PS e de José Sócrates).
Entendia o ouvinte que, aliás – e pelo que disse – muda de posto sempre que as «Provocações» entram no ar, que o programa não é democrático, pois, para além de desancar no governo, na maioria dos casos só entrariam em linha comunistas e afins. Para quem, como disse, não ouve o programa – ou raramente o ouve – não deixa de ser curiosa tão definitiva conclusão. Como não deixa de ser curioso o facto de ter entrado em linha e ter dito tudo o que lhe apeteceu. Democraticamente.

Convém dizer, mais uma vez, que as posições que assumonestas crónicas são da minha conta e risco, nada mais pretendendo fazer para além do chamar à discussão factos da nossa vida real, situações que, na maioria dos casos, decorrem dos aspectos sociais e políticos que, em termos nacionais ou internacionais, mexem com a nossa vidinha. Nada mais faço que exprimir críticas e opiniões – que são as minhas – e denunciar situações, muitas delas escandalosas, que fazem da vida dos portugueses um autêntico inferno.
E devo realçar que nunca, na rádio – como nunca, no jornal Outra Banda, que dirigi durante seis anos – fui obrigado a fazer um desmentido, por ter relatado ou comentado factos falsos. Se o ouvinte, apesar de me ouvir pouco, alguma vez me apanhou (ou apanhar) a mentir, agradeço que logo me desminta, pois não gostaria de ser comparado a muitos políticos que conheço, alguns deles primeiros-ministros, ministros e deputados, líderes partidários e outros escroques que fazem da política – e da mentira – o seu ganha-pão. E de alguns deles diz-se fã o tal ouvinte.

Também é preciso dizer, para quem não me conhece, que nunca tive jeito para ser yes men, ou fazer eco da voz do dono, seja lá o dono quem for. E se um dia entender – como é meu direito – participar partidariamente num programa ou num debate público, terei toda a honra em esclarecer que o faço nessa condição.
Porém, na rádio só fala o cidadão João Carlos – por especial deferência da sua direcção, que nada me paga – nem cobra – por esse facto. Depois, telefona quem quer, diz o que quer, e como quer. Se há coisa mais simples do que isto, desconheço. Daí, que eu seja levado a pensar que, bem lá no fundo, o que incomoda o ouvinte é virem a lume coisas que, por ele ser, hoje em dia, simpatizante do PS, bem gostaria que fossem caladas. Pois é. Ainda não há censura, é uma chatice…

Por exemplo:
Eu não devia dizer...

Eu não devia dizer que a crise económica, resultante das políticas seguidas e diariamente agravadas pelo governo de Sócrates, fez duplicar o número de famílias em situações de falência. Em 2006, segundo os últimos dados oficiais, o número de portugueses declarados falidos ascendeu a 635, um aumento de 74,5 por cento face aos 364 casos de insolvências de pessoas singulares registados no ano anterior.

Para o responsável da Associação Portuguesa de Gestores e Liquidatários Judiciais e dos Administradores da Insolvência, Artur Ribeiro da Fonte, não existem dúvidas de que este «é um número muito elevado», a ponto de frisar que tem «conhecimento de pessoas que estão em situações muito, muito, difíceis».

O crédito malparado (de cobrança duvidosa) totalizou 2,201 mil milhões de euros em Julho último, mais 1,8% que no mês anterior. Na verdade, quem vive com ordenados baixos – os mais baixos da Europa, recorde-se – não aguenta o aumento selvático das taxas de juro nem suporta, todos os meses, gastar mais dinheiro para comprar as mesmas coisas – ou menos.

Eu também não devia dizer que todos os dias aumenta o número de bebés que nascem em ambulâncias, nem que milhares de pequenos alunos são agora obrigados a levantarem-se de noite – e a chegarem a casa de noite – porque são forçados a frequentar escolas que ficam a quilómetros das suas residências.

Eu não devia dizer que nunca tantos portugueses (aos milhares) saem todos os anos de Portugal, para procurarem no estrangeiro uma vida melhorzinha, fartos que estão de cheirar a miséria que por aí alastra.
Eu também devia fingir que não sei que nas últimas décadas, onde a governação do PS teve peso decisivo, Portugal perdeu 40% da sua frota de pesca. Com o forte contributo da política de reestruturação e de abate financiada pela União Europeia, passámos de 14 mil embarcações, em 1986, para as actuais nove mil. Acresce que muitas dos barcos de pesca que sobrevivem foram compradas por espanhóis. E que mais embarcações vão ser abatidas nos próximos tempos, já que o plano de recuperação de pescada e lagostim implica a redução dos dias de pesca permitidos anualmente (menos 10%). E consequentemente o abate de mais navios. Assim, eu devia esconder que em apenas duas décadas perdemos 20 mil pescadores (alguns foram trabalhar para Espanha) e que, com uma costa destas, sejamos obrigados a comprar peixe aos espanhóis, que pescam o que querem e onde querem.

Talvez eu devesse estar muito contente – e até dar pulos de alegria – por Sócrates anunciar a abertura de um balcão onde se pode dirigir quem tiver perdido a carteira, e logo ali lhe passarem novos documentos.
Tantos balcões por abrir...
Mas o que gostava, era que Sócrates, que abriu o tal balcão chamado «Perdi a Carteira», abrisse outro ao lado, chamado «Perdi o Emprego», e outro logo a seguir, com o título «Perdi a minha Casa», e mais outro, muito grande, pois iria ter milhões de utilizadores, chamado «Perdi o meu Poder de Compra».
E ainda outro, que deverá chamar-se «Perdi o meu Centro de Saúde», ao pé de outro que seria «Perdi a minha Maternidade», e outro ainda, chamado «Perdi a minha Escola». E como o país perde, todos os dias, capacidade produtiva, porque as fábricas fecham, a agricultura definha, as pescas agonizam e estamos, cada vez mais, dependentes dos interesses e da vontade do estrangeiro, logo à frente de todos estes balcões, estaria o principal, com um grande letreiro lá no topo, onde se leria: «Perdi o meu País»

E, já que os balcões, pelos vistos, são como as cerejas, sugiro o mais triste de todos os balcões, que se chamaria, simplesmente, «Perdi a Esperança».

E – porque não? – mais um balcão apenas destinados a Sócrates e à sua troupe? Com que nome? É fácil. Chamar-se-ia apenas: «Perdemos o Vergonha».