
Gesto difuso e gasto,
esse de olhar, pensando,
os passos que já foram.
E assim, imóvel, me afasto
que demoram.

Direitos humanos? A Europa não é exemplo para ninguémOs europeus querem apenas salvaguardar o que resta dos seus interesses económicos em África. Antes que os chineses comam tudo. Numa espécie de neocolonilismo doce, para que se reclama o assentimento dos líderes africanos. Porque haverá brindes para todos. Quem quiser falar dos dramas de África, que fale. Mas em voz baixa e nos corredores. Como conspiradores envergonhados.




Anda aí, pela net, uma paródia política sobre o presépio, de que não resisto a deixar aqui um registo. Diz ela – a paródia – que este ano não vai haver presépio. E explica porquê:
- Os Reis Magos lançaram uma OPA sobre a manjedoura, que foi retirada do estábulo, até decisão governamental;
- O ribeiro que fazia girar a azenha foi privatizado e imediatamente levado pelos novos proprietários;
- Os camelos estão todos no governo, ou ao seu serviço;
- Os cordeirinhos, de tão magros e tão feios, não podem ser exibidos;
- A vaca está louca e não se segura nas patas;
- As vacas substitutas encontram-se perdidas no meio dos camelos;
- O burro está na Escola Básica a dar aulas de substituição;
- Nossa Senhora e S. José foram chamados à Escola Básica para avaliar o burro;- A estrelinha de Belém perdeu o brilho, porque o Menino Jesus, por lhe terem oferecido uma playstation, não tem tempo para olhar para ela;
- Os pastorinhos mais novos foram levados para um edifício enorme, ali no Largo do Rato, a fim de substituírem os meninos da Casa Pia, que começaram a dar com a língua nos dentes;
- O Menino Jesus, entretanto, foi enviado para o Politeama, para actividades de enriquecimento curricular, mas o tribunal de Coimbra ordenou a sua entrega imediata ao pai biológico;
- A ASAE fechou temporariamente o estábulo pela falta da manjedoura e, sobretudo, até serem corrigidas as péssimas condições higiénicas do estábulo, de acordo com as normas da UE.
- Agora, a ASAE, entusiasmada com o sucesso da operação, já pensa em fechar o próprio país, que será posto em hasta pública, a fim de ser totalmente privatizado.
Com presépio, ou sem ele, meus amigos, eu gostava de ter boas notícias para vos dar, mas, mais uma vez, prefiro a «nudez crua da verdade» ao «manto diáfano da fantasia». Por isso, preparem os sapatinhos para as seguintes prendas:
O país respirou aliviado. E os desempregados sentiram que, assim sendo, o seu Natal vai ser bem melhorzinho. Quanto ao facto de existirem mais de 64 mil jovens licenciados que não encontram ocupação para as suas habilitações, aí o primeiro-ministro não se pronunciou, nem quanto ao facto de não existirem razões para satisfação quando foi o próprio Governo que prometeu a criação de 150 mil novos empregos e tem mais de 440 mil desempregados registados, fora os não registados e os que não contam para as estatísticas, porque trabalharam 15 dias nos últimos três meses.
Em Setúbal, mais de 80 trabalhadores da empresa setubalense Unidos Panificadores, que receberam uma carta para ficar em casa durante dois meses, estão sob ameaça de desemprego, caso se concretize a falência da empresa proposta pelos accionistas.
Para desanuviar, dou agora um saltinho à Venezuela, onde Hugo Chávez não viu aprovada pelos eleitores a sua proposta de alteração constitucional. Apesar de lhe chamarem ditador – ou, no mínimo, de ter tendências ditatoriais – a verdade é que submeteu ao eleitorado, a sua visão do texto constitucional. Perante o foguetório que por cá se deitou, será de esperar – porque somos governados por «democratas» da mais fina cepa – que a Constituição Europeia (disfarçada de tratado constitucional) que nos querem impor à má fila, seja também ela referendada, pois, entre outras desgraças, limita a nossa independência e soberania.
Por isso, em breve veremos quem são os «democratas» e quem são os «ditadores». Entretanto, o serviçal Proença, líder duma coisa chamada UGT, já veio dizer que referendar a Constituição Europeia não lhe parece nada aconselhável.
Não termino sem referir algumas afirmações do doutor Carlos Silva Santos, docente da Escola Nacional de Saúde Pública e candidato a bastonário da Ordem dos Médicos.
Diz ele:
«O SNS está doente. Primeiro sintoma: está cada vez mais difícil a acessibilidade dos portugueses aos serviços de saúde. Segundo: com as medidas tomadas por este e outros governos, está mais desorganizado. Em terceiro, o resultado, em matéria de saúde global, não tem sido o melhor».(…)«Não havendo uma estratégia política bem definida, mas só estratégia contabilística de diminuição de gastos, o que se tem são serviços que não são melhorados, nem organizados, não há integração nem uma regra fundamental para melhorar os serviços».
(…)
«Com esta desorganização dos serviços (cada um por si), com modelos diferentes de organização, integrações precipitadas, toda a estrutura está a cair, tal como as carreiras médicas».
(…)
«Se nada for feito para inverter a situação, o SNS tenderá a piorar cada vez mais e a não responder às necessidades da população».
O ano de desgraça de 2007 aproxima-se do fim. Como vimos, um ano pior está prestes a abater-se sobre os portugueses.
Este ano, meus amigos, não vai haver presépio, mesmo para quem, por tradição ou pura fé, o armar. Ele simboliza e promete, na sua pureza original, um tempo de paz, de solidariedade e de calor humano.
Mas Portugal, guiado pela desumana e bárbara horda socratiana, transformou-se num sítio gélido, insalubre, injusto e violento.
Não. Não há presépio que aguente.
A Verdade, de Teixeira Lopes



Um dia, virão pelo mel que guardámos.
Queimada a casa e degolado o cão
imolarão os nossos filhos em nome de verdades
decretadas entre sedas e olhos de serpentes.
Talvez te violem sobre cardos,
depois de me encostarem às tábuas da lei
para que pareça justo o festim das balas.
Já hoje os decifro, ainda no seu aspecto de pombas
tecendo labirintos de brisas onde esvoaçam outros ventos,
promessas de novos holocaustos,
coloridos com frágeis açucenas.
Mulher. Esconde estas palavras onde ninguém saiba,
para que as possam ler os cegos sobrevivos.
Henri Tolouse-Lautrec, O Beijo
A gente agradecia

