12.19.2007

S - de Sócrates, de «socialista», de sinistro

Consumado o frete de Sócrates a Merkel, Sarkozy e Brown,
em breve os europeus - e especialmente, os portugueses -
estarão a lutar por aquilo que conquistaram há cerca de um século.
Para nós, será mais miséria e, consequentemente, mais repressão.

Um negro e fatídico «S»

- de Sócrates, de «socialista», de sinistro
Com o Natal à porta, as «boas» notícias não param de chegar.

Uma delas, é que o aumento médio das pensões da Segurança Social, em 2008, será apenas de 9,99€ por mês, o que corresponde a um aumento diário de 33 cêntimos.

Mas existem centenas de milhares de pensionistas que terão aumentos ainda menores. Assim, para os 278.300 pensionistas que recebem a chamada «Pensão Social» e a pensão do «Regime Especial das Actividades Agrícolas», o aumento varia entre 4,86€ e 5,83€ por mês, o que dá, por dia, entre 16 cêntimos e 19 cêntimos. Os 571.767 pensionistas com pensões médias de 239,9€ por mês, terão um aumento médio mensal de apenas 6,31€, o que corresponde a um aumento de 21 cêntimos diários.
Não ouvi Sócrates, nem o ministro da Segurança Social, nem o ministro das Finanças apregoaram o feito, mas atribuo isso à sua reconhecida modéstia...
Portugueses cada vez mais pobres

Outra boa notícia veio pela mão do maquiavélico e subversivo Eurostat, o instituto de estatística da União Europeia, que decidiu esclarecer que o poder de compra, em Portugal, caiu de 76% da média europeia para 75%. Não se faz.

Mas esta notícia, no entanto, só confirma aquilo que os nossos bolsos e estômagos estão fartinhos de saber: no que respeita ao poder de compra dos portugueses – da maioria dos portugueses, claro, e não dos distintos senhores banqueiros, grandes empresários e afins, cabendo nestes a não menos distinta classe política – estamos atrás de países como Espanha, Grécia, Chipre e Eslovénia e a par com República Checa e Malta.
Já ninguém duvida que, muito em breve, os poucos países que estão pior do que nós, saltarão para a nossa frente, como outros já fizeram. Eles convergem; nós divergimos.

Também não ouvi o palavroso Sócrates, nem o seu ministro das Finanças, comentarem esta magnífica realidade.
BCG? Por favor, dirija-se a Espanha

Maravilhado fiquei, aqui há dias, quando soube que o país está há mais de um mês sem a vacina contra a tuberculose (BCG). Dizia a notícia, certamente maldosa, imprecisa e tendenciosa, que depois de percorrerem hospitais, maternidades e centros de saúde sem obter respostas positivas, tanto no sector público quanto no privado, pais portugueses estão a optar por ir a Espanha vacinar os filhos recém-nascidos, pois o stock está esgotado em Portugal.
Isto apesar de o Infarmed ter garantido ontem que as unidades de saúde já tinham sido reabastecidas. Por seu lado, a Direcção-Geral de Saúde desvalorizou a importância da ruptura de stock.
Compreende-se: a Direcção-Geral de Saúde não tem filhos ou netos recém-nascidos. E se alguns ministros ou secretários de Estado os tiverem, tal como qualquer senhor de altas posses, alugam um avião para resolver o problema no estrangeiro.

Também neste caso, o senhor «engenheiro» nada disse, e o seu ministro da Saúde, se algo balbuciou, fiquei sem perceber o que foi.
Desemprego sobe todos os dias

Estando em maré de boas novas, próprias da quadra que vivemos, aí vai outra. Perto de 50 funcionárias de uma fábrica têxtil de Mangualde souberam, por um comunicado emitido pela gerência, que estavam sem emprego. O comunicado da gerência da Anjal – assim se chama a firma – informava que a empresa iria cessar de imediato a sua actividade para se apresentar à insolvência, acrescentando que não pagaria os vencimentos de Novembro, nem os de Dezembro e Janeiro de 2008.

Diz esta maravilhosa notícia que, desde Agosto que os ordenados eram pagos cada vez mais tarde. «Não havia trabalho e chegavam a mandar-nos dias para casa», adiantou uma trabalhadora. «As encomendas eram cada vez menos e havia alturas em que nem tínhamos agulhas e linhas. Quando chegava uma encomenda, tínhamos de ir trabalhar até as tantas».

Perante mais esta prenda de Natal para 50 trabalhadores, que enfrentam uma situação dramática numa zona onde o desemprego tem vindo aumentar e as alternativas são nulas, o Governo, talvez entretido a criar os tais 150 mil novos postos de trabalho, achou por bem nada dizer. O que se compreende, já que o fecho de uma fábrica e mais 50 desempregados são coisas a que, de tão rotineiras, já ninguém liga. Faz parte do nosso dia-a-dia.
Por isso, Sócrates, o ministro do Trabalho e o ministro da Economia mantiveram o bico calado. Tenham eles para a consoada, e a malta de Mangualde que se desenrasque.
O Tratado da vergonha - ou os fretes de Sócrates
A nova Constituição Europeia (disfarçada de Tratado)
vai de encontro às aspirações dos grandes senhores do dinheiro
e ataca os direitos sociais e políticos do povo português.
Continuando nesta onda de felizes novidades, quais prendas que o governo «socialista» do «engenheiro» Sócrates (saliento, para os distraídos, que tanto socialista, como engenheiro, estão entre aspas) decidiu ofercer-nos, veio agora o governo pôr no sapatinho do povo português um outro embrulho. E bem pesado.

Que maravilha! Sem o desembrulhar, já todos sabemos que não vai haver referendo ao Tratado de Lisboa que, como disse – e bem – Marcelo Rebelo de Sousa, é uma Constituição Europeia disfarçada de Tratado. Todos os grandes patrões, a começar por Belmiro de Azevedo, bateram palmas e entoam agora, em afinado coro, loas às intenções de Sócrates e do PS.
Porque será – pergunto eu, que, como admiti na crónica anterior, sou estúpido que nem um pneu – que o grande patronato quer o Tratado aprovado sem chatices? O que terá ele de tão bom para os grandes capitalistas? O que se estará a querer esconder, a todo o custo, do conhecimento dos portugueses? Porque prometeram Sócrates e o PS um referendo à questão, e agora estão a virar o bico ao prego?

Se eu não fosse estúpido, responderia a estas perguntas – ou nem sequer as faria. Assim, socorro-me de coisas que por aí vou lendo, como esta, escrita por um jornalista e advogado já aqui citado na crónica anterior, João Marques dos Santos. Disse ele:

«A presidência da UE deu-lhe (a Sócrates) a visibilidade por que tanto ansiava e parece ser a maior ambição de todos os políticos. Com a colaboração do seu amigo Barroso, ajudou a que os recados que lhe foram encomendados fossem levados a bom termo. A que tudo fosse “porreiro”.

É legítimo que Sócrates fique agora à espera do prémio que julga ser-lhe devido. Pelo menos, não evitou os mais arriscados exercícios de contorcionismo. Foi, sem dúvida, um mandatário aplicado e zeloso. Tão zeloso, que conseguiu vender o tratado como se ele não fosse um tratado constitucional. Uma constituição grosseiramente travestida. A mais estúpida das teses.
E, para que ninguém tenha dúvidas sobre a sua fidelidade, até se dispõe a engolir em seco uma das suas mais emblemáticas promessas eleitorais. A de referendar o texto do Tratado. Ultrapassando, com a ousadia dos corriqueiros incumpridores de promessas, a linha divisória daquilo a que Adriano Moreira chamou um dia “a mentira razoável”.

Infelizmente, a verdade é que Sócrates parece muito mais preocupado com o que possam pensar dele Merkel, Sarkozy, Brown e todos os pajens desta corte de interesses contraditórios que é esta Europa. Os seus favores durante seis meses não foram para nós. As suas preocupações não foram as nossas. As suas ansiedades nada tiveram a ver com as nossas desgraças. Há uma ironia amarga no facto de o Tratado ter sido assinado em Lisboa. Com pompa e circunstância.
Afinal, somos um dos parceiros menores que com ele veremos amputada mais uma parcela da nossa já reduzida soberania. Com princípio da subsidiariedade ou sem ele. É claro que a nossa soberania foi sempre muito mais ficcional do que real. A cultura política dos nossos dirigentes sempre foi a da moda importada. A da subserviência. A do medo e da incapacidade de afirmar que temos interesses próprios. Mas dava para disfarçar. Só que, a partir de agora, as limitações à nossa soberania já não poderão ser disfarçadas.
A festa acabou. Para sempre. Já ninguém duvida de que Sócrates fará tudo quanto os parceiros europeus lhe sugerirem para impedir que os Portugueses sejam ouvidos. Reduzindo-nos ao grau zero da cidadania.

Ontem foi a festa. Preparemo-nos para o velório».

Também o insuspeito Marcelo Rebelo de Sousa afirmou, neste domingo, que Sócrates deveria referendar o Tratado, e que se arrependerão todos aqueles que, agora e anteriormente, impediram os portugueses de se pronunciarem sobre a adesão de Portugal à UE.

Mas vem aí o Natal. Um Natal de fome e carências de vária ordem para milhões de portugueses. Com Sócrates, todos os dias, cada um de nós, perde qualquer coisa. Todos empobrecemos.

E, em cada dia que passa, mais são os candidatos a essa vergonha que, de tão banal e glorificada nos noticiários, é, aos meus olhos, verdadeiramente monstruosa: a caridadezinha como instituição nacional, onde uns portugueses recebem as sobras de outros portugueses, como se não ter o suficiente para não precisar de esmolas, seja ela de roupa usada, do brinquedo que já não se quer, ou do pacote de arroz ou massa, fosse a coisa mais natural do mundo. Como se não fosse obrigação primeira dos governantes garantir a cada governado o direito a viver com autonomia e dignidade.
Natal? Qual Natal?
Não me parece que possa haver Natal enquanto Sócrates e o seu «socialismo» pintarem de tons sinistros o presente e o futuro dos portugueses.

12.17.2007

Há dias assim


Caminho

Gesto difuso e gasto,
esse de olhar, pensando,
os passos que já foram.

E assim, imóvel, me afasto
nos passos que me faltam,
que demoram.

12.11.2007

Da Cimeira, do Tratado e de outros desastres


«Os portugueses», segundo o ponto de vista
de um comentador radiofónico destas crónicas


Somos todos uma data de estúpidos


A crónica de hoje é dirigida apenas aos estúpidos, aos analfabetos, aos pobres de espírito, aos ignorantes, aos atrasados mentais, enfim, à escumalha sem qualquer espécie de qualificação e estatuto social. Para que ninguém se ofenda, quero esclarecer que me incluo neste vasto grupo, isto é, sou um português comum, incapaz, portanto, de pensar pela sua cabeça, tomar uma decisão e – muito menos – criticar um senhor doutor, um ministro, um presidente, um agente da autoridade, um comentador político, treinador de futebol, padre, bispo ou papa. Mais afirmo que, de hoje em diante, esforçar-me-ei por aceitar sem a mínima contestação, crítica ou insidiosa desconfiança, qualquer medida governamental, pois, como pessoa reles e tacanha que sou, jamais estarei à altura de a tanto me atrever.


Assim, longe mim – e de nós, a escória da sociedade – a veleidade de discutir, comentar ou pôr em causa a bondade das decisões que as altas esferas da política e da finança vão tomando, pois elas, além de serem as mais aconselháveis para o povo, para a nação, para a civilização ocidental e, por consequência, para o mundo, são de tal modo complexas e elaboradas, que os cérebros atrofiados e desprovidos de neurónios suficientes e capazes, como são os nossos, jamais conseguirão entender.


Isto, meus amigos de infortúnio, meus companheiros da classe da ralé, foi-me misericordiosamente informado, via telefone, para a rádio onde a crónica da semana passada foi lida, por um ouvinte das classes superiores, um senhor doutor, dito jurista, justamente irritado com a minha aleivosa impertinência de pretender discutir a sábia governação dos nossos lídimos dirigentes políticos e da não menos impoluta e distinta alta classe empresarial, altos crânios a quem tudo devemos e a quem, tantas vezes, por ignorância, ofendemos e injuriamos.


Posto isto, já não posso dizer o que pretendia, precisamente que foi essa mesma atrapalhada e nervosa criatura, nesse telefonema, tentar enganar a gentalha que somos, começando por dizer que o Eurostat não era um organismo que elaborasse estatísticas. Se eu pudesse responder-lhe, diria que no Portal de UE está escrito o seguinte, pelo próprio Eurostat: «A nossa missão é prestar à UE um serviço de informação estatística de qualidade».


Tratado Europeu às escondidas dos europeus



Também era minha intenção dizer (mas já não digo, porque me faltam as capacidades intelectuais e o estatuto social para tanto) que seria da mais elementar transparência democrática submeter a Constituição Europeia (disfarçada de Tratado Europeu – e de Lisboa chamado) a referendo, pois sendo algo de tão bom para Portugal e para a Europa – ou tão porreiro, para utilizar a expressão do inefável e aflautado «engenheiro» Sócrates – certamente que todos diríamos um enorme e glorificador SIM a tal maravilha, conferindo ao novo tratado uma digna e eterna legitimidade. Mas isto são ideias de gente estúpida e desqualificada, que não consegue entender que os nossos queridos líderes é que sabem como é…

Uma anedota chamada Cimeira


Era também para falar na famosa cimeira UE-África, que inchou Sócrates e esganiçou ainda mais Durão. Diria, se a elite de inteligentes nacionais me deixasse, que fiquei a saber que em África há ditadores bons e ditadores maus. Os maus, são os que não obedecem às ordens dos dirigentes ocidentais. Os bons, são os outros todos. A olho nu, é difícil distingui-los, pois têm todos excelente aspecto e usam roupas caríssimas, seja segundo os padrões ocidentais, seja segundo os padrões regionais.



Direitos humanos? A Europa não é exemplo para ninguém


Percebi – se é que consigo perceber alguma coisa – que os direitos humanos só são violados em Africa, mas nunca na Europa, pois não há por cá gente com fome, sem trabalho, sem tecto, sem acesso ao Ensino e à Saúde. Por cá não há crianças famintas e exploradas. Nem velhos ao abandono. Por cá não se morre sem assistência médica, ou por ela ser deficiente. Não há medicamentos por aviar por falta de dinheiro. Pois não…

Dizem-nos que, por cá, os governos são todos eleitos pelo povo. E são. Mas – e é para aí que aponta a Constituição Europeia (perdão: o Tratado Europeu liofilizado) cozinhada em Lisboa – os governos são, cada vez mais, meras mulheres-a-dias dos grandes empresários, que não são eleitos por ninguém, e que, beneficiando das decisões políticas tomadas nesse sentido, se apoderam de todos os recursos dos países, tomando assim conta efectiva da vida das pessoas. Na verdade, são os donos do dinheiro que determinam a nossa vida, sendo, na realidade, também os nossos donos.


Mas voltando à cimeira: entre dois banquetes pagos pela presidência portuguesa (ou não seria mais bonito dizer que foram pagos por todos nós?) proferiram-se belas palavras. Resultado? Tudo na mesma. Ou melhor: arrumaram-se novos entendimentos – e, certamente, novas taxas – para que os responsáveis africanos continuem a conceder aos interesses europeus o acesso às suas matérias-primas. Um neocolonialismo revestido de celofane e enfeitado com laçarotes de euros. Muitos euros.


Fome? Esqueletos vivos? Crianças de ventre inchado a quem as moscas vão comendo, enquanto os abutres esperam? Sida? Malária? Tuberculose? Isso, meus amigos (amigos, como eu, estúpidos e mentecaptos) isso foi só o cenário para iludir as nossas mentes obtusas. O que caracterizou a cimeira de Lisboa foi o aparato, o espectáculo e a confissão da indisfarçável convicção dos europeus, civilizados e cristãos, de que devem continuar a dizer aos gentios como é que as coisas são. Com uma ligeira novidade em relação há 500 anos atrás: agora, já não se trata de pilhar a ferro e fogo, nem de embarcar ninguém em navios negreiros. Agora, civilizadamente, encontram-se meios de todos eles (os das cúpulas, entenda-se) se enriquecerem entre salamaleques amigáveis ou falsas divergências.


Isto é o que eu diria, se não fosse tão lerdozinho de condição… Assim, calo-me para que o nosso crítico inteligente e sábio não se irrite nem se descomponha E nos descomponha. Mas como, apesar de bronco, ainda consegui aprender a ler, queiram ouvir um precioso trecho de um artigo que o jornalista e advogado João M. Santos escreveu há dias a propósito da cimeira.


«A presidência portuguesa, que felizmente está no fim, cumpre um ciclo de faxineiro desejoso de mostrar serviço. Ficará contente se nada der para o torto e não tem mais aspirações. Os restantes líderes europeus vêm para marcar o ponto. Sabem que os grandes interesses económicos se não discutem em cimeiras mas em recatados gabinetes devidamente insonorizados.


Os europeus querem apenas salvaguardar o que resta dos seus interesses económicos em África. Antes que os chineses comam tudo. Numa espécie de neocolonilismo doce, para que se reclama o assentimento dos líderes africanos. Porque haverá brindes para todos. Quem quiser falar dos dramas de África, que fale. Mas em voz baixa e nos corredores. Como conspiradores envergonhados.



Direitos humanos? Qual o quê? Se até na Europa esses direitos começam a ficar em risco, o que podem estes líderes europeus ensinar, prometer ou garantir às populações africanas? Ou exigir aos seus líderes? Nada. Esta cimeira vai saldar-se pela maior mentira da presidência portuguesa. Bem vindos senhor Mugabe e seus iguais. O império de Sua Majestade já fez a sua rábula e tudo irá correr pelo melhor. E muito obrigado por ter servido de manobra de diversão. Os povos africanos continuarão a morrer em genocídios, à fome e por falta de assistência médica. A Somália existe? A Etiópia não é uma invenção de visionários românticos? Darfur? Onde é que fica isso?».


Se a minha – e a vossa – capacidade mental desse para tanto, ainda gostava de falar do desemprego (a riquíssima PT quer despedir, em 2008, mais umas centenas largas de trabalhadores).


E do fecho das urgências, que a Ordem dos Médicos considera «criminosa», e diz que substituir, como se prevê, «o trabalho médico por trabalho de enfermagem, é criminoso e vai colocar em risco muitas vidas». Acrescenta não ter dúvidas de que se «irão perder vidas» se a «assistência de doentes graves for feita por pessoas que não são médicos». Mas, porque não somos pessoas capazes de perceber porque é que estas coisas acontecem, o melhor é não dizer nada.


Para fechar, só vos digo que mais uns estúpidos que por aí andam, ligados a uma coisa chamada GfK Metris, elaboraram um estudo, designado Roper, onde se demonstra que os portugueses vivem desalentados em relação ao modo como a economia tem avançado (?), sendo os mais pessimistas no que respeita à situação económica do país. Em tempo de crise, o povo mostra que anda desencantado, porque ganha pouco ou simplesmente porque está desempregado, ou em risco disso.


As principais preocupações dos portugueses estão relacionadas com a recessão económica e o desemprego, com o crime e ausência de Lei e ainda com a inflação e os preços elevados que se praticam a nível nacional.


Segundo um responsável da GfK, Luís Valente Rosa, «este desencanto que se vive em Portugal está relacionado com o descrédito que há nas instituições políticas». O mesmo responsável frisa que a confiança no Governo, na AR e nos partidos é «ainda reduzida».


«Há um desalento em relação ao modo como o país tem avançado, nos últimos anos. Os portugueses estão desiludidos e consideram que já não vale a pena confiar ou investir», acrescenta Luís Rosa.


É o que diz o outro: «Somos todos uma data de estúpidos…»

12.10.2007

Vaticano - teoria e práticas




Mais depresa um camelo...




Sobre a última postagem («Teremos ainda Portugal»), que mereceu vários e estimulantes comentários, quero destacar um, enviado por «Scorpion», que abaixo transcrevo.


E faço-o, não para pôr em causa aquilo que eu próprio afirmei, ao comentar o texto do Bispo de Aveiro, D. António Marcelino, que volto a aplaudir e, naturalmente, subscreveria, mas porque o comentador aborda um tema mais profundo, que é a cumplicidade da instituição Igreja Católica Apostólica Romana com as elites financeiras e políticas que provocam a miséria que pelo mundo vai. Isto é: objectivamente, a Igreja é aliada dos que causam as chagas que, segundo ela, Cristo quis eliminar - e por isso veio ao mundo.


Leiam e meditem:


«Há bispos e bispos. Há padres e padres. Há teoria e prática. Quero dizer: se a Igreja seguisse o Cristo que ela diz ter existido, não seria a Igreja que conhecemos, mas uma entidade que lutasse contra as injustiças, a riqueza escandalosa (em que ela, aliás, vive), os governos que a isso dão cobertura, as guerras de pilhagem dos povos mais fraco e atrasados, em suma, que lutasse contra a opressão que os senhores do dinheiro e os senhores da política - seus serventes - exercem sobre milhões de seres humanos.


Porque assim não é, pergunta-se: Cristo existiu? Se existiu, pregou o que dizem ter pregado? Se pregou, porque o não seguem os seus actuais «seguidores»? Porque não se opõem, dos seus tronos do Vaticano, à elite financeira e política, que nunca entrará no reino dos céus, porque um camelo também não entrará no buraco de uma agulha? Responda quem souber, a começar pelo Bispo D. Marcelino».

12.08.2007

Teremos ainda Portugal?



Caros Amigos

Quando comecei a ler o texto que se segue, desconhecia o seu autor. Coisa irrelevante, porque o que me interessava era o conteúdo e não a autoria.

Enquanto lia, dizia para mim mesmo que eu próprio já dissera e escrevera muito do que ali estava, o que significa, para abreviar, que concordei com todo o escrito.

Penso que muitos dos meus amigos e dos meus contactos habituais, quando lerem o texto, também subscreverão tudo – ou quase tudo.

Para que o preconceito não vicie a sua apreciação, deixo-vos um desafio: não vão, antecipadamente, ao fim, só para ver quem é o autor. Submetam-se a esse teste à vossa objectividade. Testem, perante vós próprios, se existe, no vosso íntimo, muito, pouco ou nenhum sectarismo e/ou preconceito.

Um abraço

Monte Cristo


Teremos ainda Portugal?


O título tem um tom provocatório, mas eu vou justificar. Não digo que esteja para breve o nosso fim de país independente e livre. Mas, pelo andar da carruagem, traduzido em factos e sintomas, a doença é grave e pode levar a uma morte evitável. Aliás, já por aí não falta gente a lamentar a restauração de 1640 e a dizer que é um erro teimarmos numa península ibérica dividida. De igual modo, falar-se de identidade nacional e de valores tradicionais faz rir intelectuais da última hora e políticos de ocasião. O espaço nacional parece tornar-se mais lugar de interesses, que de ideais e compromissos.

Há notícias publicadas a que devemos prestar atenção. Por exemplo: um terço das empresas portuguesas já é pertença de estrangeiros; 60% dos casais do país têm apenas um filho; vão fechar mais cerca de mil escolas ou de mil e trezentas, como dizem outras fontes; nas provas de língua portuguesa dos alunos do básico, os erros de ortografia não contam; o ensino da história pouco interessa, porque o importante é olhar para a frente e não perder tempo com o passado; a natalidade continua a descer e, por este andar, depressa baterá no fundo; não há nem apoios nem estímulos do Estado para quem quer gerar novas vidas, mas não faltam para quem quiser matar vidas já geradas; a família consistente está de passagem e filhos e pais idosos já não são preocupação a ter em conta, porque mais interessa o sucesso profissional; normas e critérios para fazer novas leis têm de vir da Europa caduca, porque dela vem a luz; a emigração continua, porque a vida cá dentro para quem trabalha é cada vez mais difícil; os que estão fora negam-se a mandar divisas, por não acreditarem na segurança das mesmas; os investigadores mais jovens e de mérito reconhecido saem do país e não reentram, porque não vêem futuro aqui; a classe média vai desaparecer, dizem os técnicos da economia e da sociologia, uma vez que o inevitável é haver só ricos cada vez mais ricos e pobres cada vez mais pobres; os políticos ocupam-se e divertem-se com coisas de somenos; e já se diz, à boca cheia, que o tempo dos partidos passou, porque, devido às suas contradições, ninguém os toma a sério; a participação cívica do povo é cada vez mais reduzida e mais se manifesta em formas de protesto, porque os seus procuradores oficiais se arvoram, com frequência, em seus donos e donos do país e fazedores de verdades dúbias; programa-se um açaime dourado para os meios de comunicação social; isolam-se as pessoas corajosas e livres, entra-se numa linguagem duvidosa, surgem mais clubes de influência, antecipam-se medidas de satisfação e de benefício pessoal…

Não é assim, porventura, que se acelera a morte do país, quer por asfixia consciente, quer por limitação de horizontes de vida? É verdade que muitos destes problemas e de outros existentes podem dispor de várias leituras a cruzar-se na sua apreciação e solução. Mais uma razão para não serem lidos e equacionados apenas por alguns iluminados, mas que se sujeitem ao diálogo das razões e dos sentimentos, porque tudo isto conta na sua apreciação e procura de resposta.

Há muitos cidadãos normais, famílias normais, jovens normais. Muita gente viva e não contaminada por este ambiente pouco favorável à esperança. Mas terão todos ainda força para resistir e contrariar um processo doentio, de que não se vê remédio nem controle? Preocupa-me ver gente válida, mas desiludida, a cruzar os braços; povo simples a fechar a boca, quando se lhe dá por favor o que lhe pertence por justiça; jovens à deriva e alienados por interesses e emoções de momento, que lhes cortam as asas de um futuro desejável; o anedótico dos cafés e das tertúlias vazias, a sobrepor-se ao tempo da reflexão e da partilha, necessário e urgente, para salvar o essencial e romper caminhos novos indispensáveis. Se o difícil cede o lugar ao impossível e os braços caem, só ficam favorecidos aqueles a quem interessa um povo alienado ao qual basta pão e futebol…

Mas não é o compromisso de todos e a esperança activa que dão alma a um povo?

D. António Marcelino, Bispo Emérito de Aveiro

12.05.2007



Ilusão

Acontece-me apertar as minhas mãos uma na outra,

como se uma delas fosse minha e outra tua.

E assim volto a sentir-me pai e filho,

atravessando a vida, ou uma rua.


A solidão tem devaneios destes:

gestos masturbados no vazio definitivo dos dedos.

12.04.2007

Vem aí o Annus Horribilis socratiano




Não há presépio que aguente

Anda aí, pela net, uma paródia política sobre o presépio, de que não resisto a deixar aqui um registo. Diz ela – a paródia – que este ano não vai haver presépio. E explica porquê:


- Os Reis Magos lançaram uma OPA sobre a manjedoura, que foi retirada do estábulo, até decisão governamental;
- O ribeiro que fazia girar a azenha foi privatizado e imediatamente levado pelos novos proprietários;
- Os camelos estão todos no governo, ou ao seu serviço;
- Os cordeirinhos, de tão magros e tão feios, não podem ser exibidos;
- A vaca está louca e não se segura nas patas;
- As vacas substitutas encontram-se perdidas no meio dos camelos;
- O burro está na Escola Básica a dar aulas de substituição;
- Nossa Senhora e S. José foram chamados à Escola Básica para avaliar o burro;- A estrelinha de Belém perdeu o brilho, porque o Menino Jesus, por lhe terem oferecido uma playstation, não tem tempo para olhar para ela;
- Os pastorinhos mais novos foram levados para um edifício enorme, ali no Largo do Rato, a fim de substituírem os meninos da Casa Pia, que começaram a dar com a língua nos dentes;
- O Menino Jesus, entretanto, foi enviado para o Politeama, para actividades de enriquecimento curricular, mas o tribunal de Coimbra ordenou a sua entrega imediata ao pai biológico;
- A ASAE fechou temporariamente o estábulo pela falta da manjedoura e, sobretudo, até serem corrigidas as péssimas condições higiénicas do estábulo, de acordo com as normas da UE.

- Agora, a ASAE, entusiasmada com o sucesso da operação, já pensa em fechar o próprio país, que será posto em hasta pública, a fim de ser totalmente privatizado.

Com presépio, ou sem ele, meus amigos, eu gostava de ter boas notícias para vos dar, mas, mais uma vez, prefiro a «nudez crua da verdade» ao «manto diáfano da fantasia». Por isso, preparem os sapatinhos para as seguintes prendas:


- O preço dos transportes vai subir acima da inflação prevista;
- Os preços do leite, pão, carne, combustíveis e de todos os géneros de primeira necessidade não lhes vão ficar atrás;
- O crédito vai ser mais caro e mais difícil, especialmente para quem tem empréstimos à habitação;
- O consumo vai diminuir e, com ele, um longo cortejo de falências;
- As exportações também vão diminuir;
- O investimento vai abrandar, especialmente devido às condições de financiamento;
- O desemprego, em consequência, vai continuar a subir;
- Por tudo isto, o crescimento económico vai ser uma desgraça em 2008, afastando-nos ainda mais da EU.


No meio desta tragédia – e para amenizar – o governo veio contar-nos uma anedota. Disse ele que estava muito satisfeito por os números do desemprego, afinal, não serem aqueles que o Eurostat tinha divulgado. Não, meus queridos amigos. A taxa de desemprego não é de 8,5%. É só de, apenas… 8,2%. Menos umas miseráveis 3 décimas, mas o suficiente para não sermos os campeões europeus da modalidade, que fica a caber à Grécia. Até ver…


O país respirou aliviado. E os desempregados sentiram que, assim sendo, o seu Natal vai ser bem melhorzinho. Quanto ao facto de existirem mais de 64 mil jovens licenciados que não encontram ocupação para as suas habilitações, aí o primeiro-ministro não se pronunciou, nem quanto ao facto de não existirem razões para satisfação quando foi o próprio Governo que prometeu a criação de 150 mil novos empregos e tem mais de 440 mil desempregados registados, fora os não registados e os que não contam para as estatísticas, porque trabalharam 15 dias nos últimos três meses.


Mas o governo pensa que pode rejubilar porque um organismo comunitário errou, e em vez de nos colocar como campeões do desemprego da Zona Euro, nos colocou atrás da Grécia, que tem uma taxa de 8,4%. O que dirá o «engenheiro» quando, como se prevê, formos, de facto, os desonrosos campeões, pois, apesar da correcção anunciada, verdade é que o desemprego continua a aumentar em Portugal?


A provar isto, a fábrica de confecções Dergui, em Paul, Covilhã, encerrou e deixou no desemprego e sem subsídios de Natal (o do ano passado e deste ano) 53 trabalhadoras. A unidade têxtil chegou a laborar com mais de 250 trabalhadores, mas foi despedindo pessoal através de sucessivas reestruturações.


Em Setúbal, mais de 80 trabalhadores da empresa setubalense Unidos Panificadores, que receberam uma carta para ficar em casa durante dois meses, estão sob ameaça de desemprego, caso se concretize a falência da empresa proposta pelos accionistas.


Para desanuviar, dou agora um saltinho à Venezuela, onde Hugo Chávez não viu aprovada pelos eleitores a sua proposta de alteração constitucional. Apesar de lhe chamarem ditador – ou, no mínimo, de ter tendências ditatoriais – a verdade é que submeteu ao eleitorado, a sua visão do texto constitucional. Perante o foguetório que por cá se deitou, será de esperar – porque somos governados por «democratas» da mais fina cepa – que a Constituição Europeia (disfarçada de tratado constitucional) que nos querem impor à má fila, seja também ela referendada, pois, entre outras desgraças, limita a nossa independência e soberania.


Por isso, em breve veremos quem são os «democratas» e quem são os «ditadores». Entretanto, o serviçal Proença, líder duma coisa chamada UGT, já veio dizer que referendar a Constituição Europeia não lhe parece nada aconselhável.

Não termino sem referir algumas afirmações do doutor Carlos Silva Santos, docente da Escola Nacional de Saúde Pública e candidato a bastonário da Ordem dos Médicos.

Diz ele:


«O SNS está doente. Primeiro sintoma: está cada vez mais difícil a acessibilidade dos portugueses aos serviços de saúde. Segundo: com as medidas tomadas por este e outros governos, está mais desorganizado. Em terceiro, o resultado, em matéria de saúde global, não tem sido o melhor».(…)«Não havendo uma estratégia política bem definida, mas só estratégia contabilística de diminuição de gastos, o que se tem são serviços que não são melhorados, nem organizados, não há integração nem uma regra fundamental para melhorar os serviços».

(…)

«Com esta desorganização dos serviços (cada um por si), com modelos diferentes de organização, integrações precipitadas, toda a estrutura está a cair, tal como as carreiras médicas».

(…)

«Se nada for feito para inverter a situação, o SNS tenderá a piorar cada vez mais e a não responder às necessidades da população».


O ano de desgraça de 2007 aproxima-se do fim. Como vimos, um ano pior está prestes a abater-se sobre os portugueses.

Este ano, meus amigos, não vai haver presépio, mesmo para quem, por tradição ou pura fé, o armar. Ele simboliza e promete, na sua pureza original, um tempo de paz, de solidariedade e de calor humano.

Mas Portugal, guiado pela desumana e bárbara horda socratiana, transformou-se num sítio gélido, insalubre, injusto e violento.

Não. Não há presépio que aguente.

12.03.2007



Mar núbil

Se houvesse harmonia no paladar das densas nuvens,
ou no roxo vespertino em que adormeço,
amanhã serias uma alga,
a primeira do mar em que eu me acordaria.

Não saberá a língua ainda dizer mar?
Ou será que não te queres assim, elementar e nua,
a ondular?

11.27.2007

A Verdade, de Teixeira Lopes
(Estátua a Eça de Queiroz)


A nudez crua da verdade


Prometi que vos daria conhecimento de uma carta enviada ao ministro das Finanças, carta essa que anda a circular na net, estando o seu autor, devidamente identificado. Vamos a ela:


«Exmo. Senhor Ministro das Finanças

Victor Lopes da Gama Cerqueira, cidadão eleitor e contribuinte deste País, com o número de B.I. 8388517, do Arquivo de identificação de Lisboa, contribuinte n.º152115870 vem por este meio junto de V. Ex.ª para lhe fazer uma proposta:


A minha esposa, Maria Amélia Pereira Gonçalves Sampaio Cerqueira, foi vítima de CANCRO DE MAMA em 2004, e foi operada em 6 Janeiro, com a extracção radical da mesma. Por esta "coisinha" sem qualquer importância, foi-lhe atribuída uma incapacidade de 80%. Imagine, que deu origem a que a minha esposa tenha usufruído de alguns benefícios fiscais.


Assim,


- e tendo em conta as suas orientações, nomeadamente para a CGA, que confirmam que para si o CANCRO é uma questão de somenos importância.


- e considerando ainda, o facto de V. Ex.ª, coerentemente, querer que para o ano seja retirado os benefícios fiscais, a qualquer um que ganhe um pouco mais do que o salário mínimo, venho propor a V. Ex.ª o seguinte:


a) a devolução do CANCRO de MAMA da minha Mulher a V. Ex.ª que, com os meus cumprimentos o dará à sua Esposa ou Filha.

b) Concomitantemente com esta oferta, gostaria que aceitasse para a sua Esposa ou Filha ainda:

c) os seis (6) tratamentos de quimioterapia.

d) os vinte e oito (28) tratamentos de radioterapia.

e) a angústia e a ansiedade que nós sofremos antes, durante e depois.

f) os exames semestrais (que desperdício Senhor Ministro, terá que orientar o seu colega da saúde para acabar com este escândalo).

g) a ansiedade com que são acompanhados estes exames.

h) a angústia em que vivemos permanentemente.

Em troca de V. Ex.ª ficar para si e para os seus com a doença da minha esposa e os nossos sofrimentos, eu DEVOLVEREI todos os benefícios fiscais de que a minha esposa terá beneficiado, pedindo um empréstimo para o fazer.


Penso sinceramente que é uma proposta justa e com a qual, estou certo, a sua esposa ou filha também estarão de acordo.


Grato pela atenção que possa dar a esta proposta, informo V. Ex.ª que darei conhecimento da mesma a Sua Ex.ª o Presidente da República, agradecendo fervorosamente o apoio que tem dispensado ao seu Governo e a medidas como esta, e também o aumento de impostos aos reformados e outras...

Reservo-me ainda o direito (será que tenho direitos?) de divulgar esta carta como muito bem entender.

Como V. Ex.ª não acreditará em Deus (por se considerar como tal...) e por isso dorme em paz, abraçando e beijando os seus, só lhe posso desejar que Deus lhe perdoe, porque eu não posso jamais perdoar-lhe.

Atentamente

19/Outubro/2007
Victor Lopes da Gama Cerqueira»


A este português – e à sua família – aqui fica a nossa solidariedade.


Mas vamos em frente.


A carne para canhão e as mentiras

Morreu, no Afeganistão, um jovem soldado português. Lamente-se a perda de uma vida tão jovem, e sejamos solidários com a dor da família. Mas corrija-se uma aldrabice. O jovem não morreu ao serviço de Portugal, nem ao serviço da Paz. Morreu ao serviço da NATO, que é uma aliança militar agressiva, made in USA, e onde é utilizada carne para canhão de várias nacionalidades, ao serviço das guerras expansionistas e de pilhagem planetária levadas a cabo pelos EUA.


Mais depressa se apanha um mentiroso…


Por cá, mais depressa se apanha um mentiroso do que um coxo, diz o povo na sua imensa sabedoria. Agora, o economista Eugénio Rosa apanhou o governo numa das suas mais escabrosas mentiras, já que com ela vai tornar a vida de muitos reformados num verdadeiro inferno. Lembra-nos este economista que em Novembro de 2005, quando se realizou o debate do OGE de 2006, o governo fez o país acreditar que o regime geral da Segurança Social teria, a partir de 2006, saldos negativos cada vez mais elevados (em 2006, um saldo nulo (zero); em 2007, um saldo negativo de 159 milhões de euros; em 2008, um saldo negativo de 259 milhões de euros, e por aí fora. E foi com base nestas previsões que quis convencer os portugueses que se não fossem feitas as "reformas" que pretendia realizar na Segurança Social, a sustentabilidade financeira desta corria grave risco.


E foi assim que o governo de Sócrates aprovou a antecipação do cálculo da pensão com base em toda a carreira contributiva e a aplicação do chamado "factor de sustentabilidade", medidas que vão determinar uma redução importante nas pensões dos trabalhadores que se reformarem no futuro, a qual, segundo a OCDE, deverá atingir –40%.

Ora, o OGE para 2008, agora aprovado na AR, contem já dados que mostram que aquelas previsões feitas pelo governo em 2005 estavam totalmente erradas. Assim, se o governo previa que o regime geral da Segurança Social tivesse, em 2006, um saldo zero, o que se verificou foi um saldo positivo e de 787,4 milhões de euros; para 2007, o governo previa um saldo negativo no valor de 151 milhões de euros, no entanto o saldo estimado, constante do OE2008, já é positivo e de valor igual a 706 milhões de euros. Mesmo este valor poderá ser ultrapassado pois, de acordo com o Boletim Informativo do mês de Outubro de 2007, da Direcção Geral do Orçamento, até Setembro deste ano o saldo positivo da Segurança Social já atingia 1.096,4 milhões de euros. Para 2008, o governo previa, em 2005, um saldo negativo de 290 milhões, mas no OE2008 já prevê que o regime geral da Segurança Social terá um excedente de 696,7 milhões de euros. E estes resultados positivos não se devem às duas medidas aprovadas pelo governo – antecipação no cálculo da pensão com base em toda a carreira contributiva e aplicação do "factor de sustentabilidade – pois elas só entrarão em vigor a partir de 1 de Janeiro de 2008.

Isto é: para conseguir sangrar os reformados, o governo utilizou dados falsos, que ele próprio – e o Banco de Portugal – se encarregaram, agora, de desmentir. Pergunta-se: sendo falsos os argumentos utilizados – e resultando daí prejuízos para milhões de portugueses, que espera o governo para repor a verdade e a justiça?


Portugal está a saque




Em Portugal, o roubo e o crime violento têm vindo a crescer. Os dados são do Eurostat, entidade responsável pelas estatísticas da UE, que regista, para o nosso país, um crescimento na ordem dos 5% para o crime violento, que engloba violência contra as pessoas, roubo com violência e crimes sexuais. Em termos da criminalidade global, os Estados membros registam naquele período um crescimento na ordem dos 0,6%. Portugal destaca-se com 3%, uma das mais altas taxas de evolução negativa. Pior, só a Polónia, com 5%, e a Eslovénia, com 10%. O próprio relatório da Segurança Interna relativo a 2006, dá conta do aumento da criminalidade grave.

Sem querer ser pessimista, relaciono tudo isto com a miséria galopante, com o desemprego, os baixos salários, as desigualdades sociais, enfim, com as políticas que transformaram este país numa selva, e onde os crimes de colarinho branco, como a grande corrupção e a fraude fiscal praticada por grandes empresas, são um incentivo à rebaldaria geral. Com Teixeira dos Santos ao leme da Finanças, Portugal está a saque.


Procurador-Geral da República não quer Justiça nas mãos de Sócrates

Entretanto, o Procurador-Geral da República, Pinto Monteiro, veio avisar o governo que não aceitará ser um Procurador-geral ao serviço do poder político, algo que sentiu necessidade de dizer face à tentação socratiana de arrebanhar todo o poder e transformar este sítio (Justiça incluída) numa fazenda do PS, sendo ele o Chefe de Posto. Pinto Monteiro ainda comentou: «A primeira vez que li aquilo (esclareço: o diploma aprovado pelo PS) pensei que tivesse sido uma distracção do governo, mas agora vejo, com grande espanto, que a prazo pode pôr os magistrados ao nível dos funcionários públicos. E isso é o fim da independência dos tribunais, pois os funcionários públicos dependem da tutela ministerial».


Comércio perde mais de 300 mil postos de trabalho e patrões estão em pânico

A insatisfação, o alarme e a insegurança alastram por todo o lado, tocando cada vez mais sectores da actividade económica. Bem pode Sócrates, espanejar-se em cima do poleiro, apregoando, no seu estilo de galito capão, as maravilhas do seu consulado, que os factos todos os dias o desmentem.

Soube-se agora que o Comércio perdeu 250 mil empregos desde 2004, e que, nos próximos dois anos, o pequeno comércio vai perder mais de 50 mil empregos. A afirmação foi feita por José António Silva, presidente da Confederação do Comércio de Portugal, que se mostra furibundo por o Governo ter apresentado um anteprojecto de licenciamento de novas grandes superfícies que, segundo ele «liberaliza ainda mais a abertura» de hipermercados e centros comerciais. Revoltado, o patrão dos comerciantes portugueses ameaça agora alinhar numa greve geral com a CGTP.



Cavaco e a anedota da semana


A anedota da semana, essa, contou-a Cavaco Silva, na Guarda, quando, preocupado com a baixa natalidade verificada no país, perguntou: «Por que é que nascem tão poucas crianças, em Portugal? Porquê? O que é preciso fazer para que nasçam mais crianças em Portugal?» Eu, se estivesse lá, esclareceria sua excelência que a maneira tradicional de fazer crianças serviria perfeitamente, mas que não é aí que reside o problema. É que a angustiante – e angustiada – pergunta presidencial só tem uma resposta, embora tenha vários responsáveis, Cavaco Silva incluído. É porque não há emprego certo, nem bem remunerado, nem serviços sociais bastantes e de qualidade. É porque os portugueses temem o futuro, pois sentem que vivem num país onde o amanhã é incerto em tudo, menos numa coisa: o dia seguinte será sempre pior que o dia anterior.


Pobreza em Portugal – de mal a pior.
(diz a OCDE)

A provar estas palavras aí está a OCDE a afirmar que o nosso país é o sexto mais pobre dos 30 que pertencem a esta organização. Num estudo que abrange os anos de 2002 a 2005, a OCDE apurou que o produto interno bruto ‘per capita’, em Portugal, desceu de 72 para 69% da média dos 30 países que fazem parte da referida organização. Ou seja: nos três anos em análise, os portugueses ficaram com menos poder de compra. Portugal gerou menos riqueza, mas paga caro os bens de consumo, que custam mais do que na Grécia e quase igualam os da Espanha, onde os salários são mais altos do que os nossos. E, com o governo de Sócrates, todos estes indicadores se agravaram substancialmente.


Soares e Alegre – as rábulas do costume


No meio disto tudo, Mário Soares veio acusar o governo de fomentar a injustiça social, agravar as desigualdades e, consequentemente, a pobreza. E Manuel Alegre, numa das suas rábulas de esquerda, questionou o Governo no que diz respeito às mudanças a operadas na empresa Estradas de Portugal (EP), afirmando temer tratar-se de «uma espécie de neo-feudalismo sob a forma de privatização encapotada». E perguntou: «Caso a EP fique dependente de accionistas privados, quem defenderá o direito à livre circulação nas estradas nacionais?». Mas votou a favor do OGE
É por tudo isto – e por tudo o que já aqui dissemos – mais o que poderíamos dizer, se tempo houvesse, que a greve de dia 30 deve ser um grande sucesso.
Um virar de rumo para um Portugal justo, humano, solidário e próspero.

11.25.2007


Asfixia


Desenho, de olhos fechados, o instante anterior,
cheio de cores bem definidas no avesso negro das pálpebras.
É onde estás agora, de gestos bailados, procurando a fuga.
Na breve posse, asfixias e tremes,
como há pouco tremeste e sufocaste, na violência dos corpos.
Deixar de respirar, e pronto...


Seria tão fácil matar-te, se morrer me bastasse.





Nota: (à margem - e a propósito)







ABAIXO A VIOLÊNCIA DE GÉNERO
HUMANIDADE NÃO TEM SEXO

A violência doméstica, nomeadamente a violência de género, é uma realidade que envergonha o mundo em pleno século XXI.

11.24.2007



Parábola dos três poemas
O menino sentou-se numa poça de água
e fez um poema de lama.
A mãe sentou à mesa vazia
e fez um poema de lágrimas.
O pai sentou-se à beira do desespero
e fez um poema de sangue.
E o poeta, ao vê-los,
sentou e limitou-se
a transcrevê-los.

11.22.2007

Picasso - Guernica

Poema para quem ficar

Um dia, virão pelo mel que guardámos.

Queimada a casa e degolado o cão

imolarão os nossos filhos em nome de verdades

decretadas entre sedas e olhos de serpentes.

Talvez te violem sobre cardos,

depois de me encostarem às tábuas da lei

para que pareça justo o festim das balas.

Já hoje os decifro, ainda no seu aspecto de pombas

tecendo labirintos de brisas onde esvoaçam outros ventos,

promessas de novos holocaustos,

coloridos com frágeis açucenas.

Mulher. Esconde estas palavras onde ninguém saiba,

para que as possam ler os cegos sobrevivos.

11.20.2007

Caldeirada à portuguesa

Cândido Portinari - Retirantes

Flagrantes do Portugal de Hoje
Hoje, meus caros amigos, vamos ter aqui uma autêntica caldeirada. Olhei em volta com cuidado, afinei bem os ouvidos, apurei o olfacto, tentei disciplinar o neurónios (se é que tenho algum) e esforcei-me por escolher um só tema capaz de agradar aos ouvintes e trazê-los à conversa. Não fui capaz.

E isto – garanto-vos – nada tem a ver com o facto de, por aí, certos socretinos de pendor monárquico, terem decidido dar-nos a honra de sermos alvo das suas crónicas jornalísticas. Não, meus amigos. Ninguém influi no meu pensamento, ninguém bole com os meus valores, nninguém limita a minha liberdade de expressão.

O que se passa é que não sei por que ponta hei-de pegar nos temas e nas ideias que me sufocam e que gostaria de aqui explanar. Por isso, paciência, vai tudo para dentro do caldeirão e saia a caldeirada que sair.

Fui às compras.
Olhei para a etiqueta dos kiwis e verifiquei que eles não podiam vir de mais longe: da Nova Zelândia. Mal refeito do susto, reparei que os alhos vinham de Espanha. Procurei outra embalagem, esperando que fossem portugueses. Eram da China.

Olhei para o leite.
Está mais caro. Ouvira o ministro dizer que foi porque a produção desceu, porque os agricultores venderam as vacas. Pudera! Mas não lhes foram impostas quotas de produção? Então, do que é que estavam à espera?

A fraude fiscal
abrange as grandes empresas, disse, sem se rir, o secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, João Amaral Tomaz. Não percebo o espanto. Alguém, das grandes empresas, foi preso quando elas entraram no esquema das facturas falsas? Não! Pelo contrário. Muitos dos senhores administradores dessas empresas continuaram a fazer parte das comitivas presidências e governamentais que iam – e vão – ao estrangeiro à cata de negócios.

José Rodrigues dos Santos
pode ser despedido da RTP por ter dito, numa entrevista, que a estação de televisão estatal passava «recados» do poder político e que era pressionada para que os noticiários não fossem o que deveriam ser. Se for para o olho da rua, talvez ninguém proteste. Isso faz-me lembrar o poema de Brecht, que diz mais ou menos isto: «Depois vieram buscar os judeus. / Não disse nada pois não era judeu. / Em seguida foi a vez dos operários. / Continuei em silêncio, pois não sou sindicalizado. / Mais tarde levaram os padres. / Nada disse, pois não sou católico. / Agora, eles vieram-me buscar. / E quando isso aconteceu, percebi que já era tarde, e não havia mais ninguém para protestar».

Pedro Namora
disse que a actual Provedora da Casa Pia o ignora, mas acrescentou que ele próprio não confia nela, porque não pode confiar em alguém que foi nomeado por Vieira da Silva, que é amigo de Ferro Rodrigues e Paulo Pedroso. Acrescentou que ela perdeu credibilidade quando afirmou que Catalina Pestana não a tinha informado sobre a existência de alunos abusados, para depois vir reconhecer que, afinal, tinha.
Barroso confessou
que a invasão do Iraque se baseou em mentiras. Grande novidade! Agora, no Paquistão, Benahzir Butto e Musharaff mantêm o braço de ferro. Ou eu me engano muito, ou Musharaff já não é o cavalo dos norte-americanos. Arranjaram uma égua mais útil e de aparência mais democrática. Mais um futuro ex-amigo que se prepara para dar uso à mesma corda de Saddam.

José António Moutinho
morreu há dois anos, mas o Centro Hospitalar do Barlavento Algarvio, em Portimão, chamou-o para fazer agora uma ressonância magnética à coluna. Menos um na lista de esperas.

A Ordem dos Médicos
não muda o código deontológico, por isso não vai alterar o artigo 47.º, que considera a prática de aborto como uma «falha grave». Os médicos aprendem a salvar vidas, a curar doentes. Por isso, o aborto, numa mulher saudável, que tem uma gravidez saudável, não é um acto médico. Se o aborto é legal, então que seja praticado – sei lá… por um militar ou por quem tenha por profissão eliminar vidas e não salvá-las. Mas os médicos que se prezem, não. Talvez a próxima investida do senhor ministro da Saúde seja mesmo obrigar todos os médicos a desfazer fetos saudáveis em mulheres saudáveis.

O fiscalista Medina Carreira
traçou esta segunda-feira um quadro muito negativo de Portugal, considerando que a actual situação resulta de uma quebra acentuada no crescimento económico, num país em que – diz ele – «ninguém é responsável por nada. A democracia em Portugal é uma brincadeira em que ninguém é responsável por nada, não há responsáveis», afirmou, salientando que «o País apenas é governado com rigor durante um ano ou um ano e meio por cada legislatura». No restante tempo, segundo o fiscalista, quem vence as eleições começa por tentar corrigir as promessas que fez na campanha eleitoral e, a meio do mandato, «começa a preparar as mentiras para a próxima campanha eleitoral». E acrescentou: «Com esta gente que temos, não podemos ter muitas esperanças», frisando que «as eleições ganham-se com mentiras». Medina Carreira, também se manifestou contra a rede ferroviária de alta velocidade e o novo aeroporto de Lisboa. «São uma tontice, o País não tem dinheiro para isso», afirmou.

Nos Açores,
prémios de antiguidade e assiduidade servem para engordar ordenados dos senhores presidentes das empresas públicas da região, que ganham uma média mensal de 4.251 euros, contra o rendimento médio de 600 euros de cada açoriano.

Os professores
dos 2.º e 3.º ciclos do ensino de algumas escolas estão a ser pressionados pelos conselhos executivos, no sentido de evitarem ao máximo as negativas já no primeiro período lectivo. A pressão dos conselhos executivos começou a sentir-se no início deste mês, em consequência das inspecções que vão ter lugar até ao final do ano, a propósito da avaliação das escolas. O Sindicato dos Professores do Norte está convicto de que a pressão para evitar negativas no Natal resulta de uma estratégia do Ministério da Educação para melhorar as estatísticas nacionais do aproveitamento escolar junto da União Europeia. Bruxo…

Desde que o actual Governo,
liderado por José Sócrates, tomou posse, em Março de 2005, Portugal perdeu 167 mil postos de trabalho qualificados. Segundo dados do Instituto Nacional de Estatística, o número de trabalhadores com maiores qualificações, incluindo dirigentes e quadros superiores, profissionais intelectuais e científicos e técnicos de nível intermédio, cifrava-se em 1,372 milhões de trabalhadores no primeiro trimestre de 2005. Já no terceiro trimestre deste ano, o número de profissionais empregues tinha recuado para 1,205 milhões, correspondendo a uma quebra de 12%. Comparando com o total de empregos, o trabalho qualificado viu o seu peso reduzido de 27 para 23%. É a excelência de sua Excelência…

No chamado Verão Quente de 1975,
em Portugal, o ditador espanhol Francisco Franco estava hospitalizado e praticamente já não falava, embora a comunicação social espanhola desse uma ideia completamente diferente: quem visitava o ditador no hospital dizia-lo atento aos problemas do país e do mundo. Mas agora, num texto publicado no El País, o médico Ramiro Rivera, que acompanhou Franco na sua doença, afirma que na maior parte do tempo Franco ele se encontrava incapaz de falar e que pouco mais lhe conseguiam ouvir do que monossílabos. Mas, a dada altura, um dos médicos perguntou a Franco: «Meu general, está o senhor a par do que se passa em Portugal? Não acredita que ali se vai armar uma grande confusão e vai correr muito sangue?». Segundo o testemunho de Ramiro Rivera, Franco ficou calado durante um bocado enquanto todos os médicos o olhavam, expectantes. E em seguida disse: «Não acredite nisso, os portugueses são muito cobardes».

Depois da caldeirada que acabei de vos servir, não sou eu, caros amigos, que me atrevo a desmentir Francisco Franco, o ditador espanhol. E até me apetece repetir:

Os portugueses são muito cobardes.

11.18.2007

Henri Tolouse-Lautrec, O Beijo


Sobre o meu corpo, nosso

Vivo, sobre o meu corpo morto,
duplico-me nos teus olhos minguantes.
Deixar-me-ia ali, num caótico silêncio,
meditando à sombra de outros sonhos,
se não fosse urgente dar-nos a ilusão da vida.

Morto, sobre o meu corpo vivo,
ladeio a pausa solitária da tua boca contida,
e acendo um extenso perigo rutilante
na lucidez dos vasos sanguíneos.

Vivo, sobre o meu corpo vivo,
invado-me da certeza oceânica dos poros,
infatigável matriz sem continentes.

Tão simples como as pedras somos nós,
barcos de navegar momentos e naufrágios.

11.14.2007

O reizinho, o OGE e outras coisas

A gente agradecia

Deixem-me, para começar, fazer uma referência ao episódio que envolveu Hugo Chávez, Zapatero e uma figura de opereta, pertencente a uma espécie em vias de extinção, nada mais, nada menos que Sua Majestade, el-rei de Espanha, D. Juan Carlos (e mais não sei quantos sobrenomes e apelidos).

Com a frontalidade que se lhe reconhece, Chávez disse que o antecessor de Zapatero, José Maria Aznar, era fascista. Zapatero saltou em defesa de Aznar, pois, como é natural, sempre se sentirá mais próximo, em termos ideológicos, de Aznar do que de Chávez, já que este é um socialista a sério – isto é: põe a economia e os recursos da Venezuela o país ao serviço do povo e do país – e Zapatero é, na melhor das hipóteses, um social-democrata a puxar para o neo-liberal, ou seja, é um homem que considera que o povo é que deve estar ao serviço da economia, desde que a economia e os recursos do país pertençam aos detentores do poder económico. E, se assim não pensasse, também não seria primeiro-ministro espanhol nem, sequer, secretário-geral do PSOE.
A inútil majestade

No meio da troca de palavras, resolveu el-rei perguntar a Chávez (assim como quem manda) por que não se calava. É verdade que a América Latina que fala castelhano já foi sujeita a uma Espanha beata e saqueadora, que pilhou os recursos dessa vasta região, massacrando, para isso, civilizações autóctones inteirinhas. Mas isso já faz parte da história há vários séculos, e hoje a Venezuela é uma república independente, com um presidente eleito democraticamente por esmagadoras maiorias, enquanto o monarca espanhol, que não foi eleito por ninguém, não passa de uma aberração política, exemplar de uma daquelas tumefacções sociais que o século XXI certamente irá remover. E a sociologia explicar.
As habilidades do professor Marcelo

Chávez – a quem o episódio caiu como sopa no mel – já respondeu nos termos que todos terão visto e ouvido na TV. Em Espanha e por cá, logo os senhoritos do costume aproveitaram para mordiscar Chávez, e até o professor Marcelo aproveitou para dizer que este alterou a Constituição da Venezuela para se perpetuar no poder. Sem querer dar lições ao senhor professor, que não disse esta bacorada por descuido ou ignorância, devo, no entanto, recordar ao insigne comentador (cujas opiniões quase sempre subscrevo) que é feio tentar enganar quem o ouve.
Chávez não quer manter-se no poder eternamente à revelia da vontade popular. O que Chávez quer é poder submeter-se a eleições sem limitação de mandatos, o que é completamente diferente. Caberá sempre ao povo escolher entre os vários candidatos que se apresentarem a votos. Marcelo sabe isto, mas, pondo as coisas como as pôs, quis lançar sobre o presidente da Venezuela, mais uma das muitas calúnias que os «democratas» do capitalismo por aí propagam. Foi feio, senhor professor, foi muito feio.

Quanto a el-rei, que vive de nada fazer, como é próprio de qualquer majestade, compreende-se o desaforo. É que, na sua terra, não tem coragem – nem autoridade – para mandar calar ninguém: limita-se a reinar, o que já não é mau, tendo em conta os proveitos que daí tira. Enfim, reinações…
OGE - ou o debate sórdido
Por cá, terminou a discussão, na generalidade, do OGE, que vai impor mais sacrifícios às vítimas do costume. O debate, aliás, foi um artifício sórdido, habilidosamente reduzido a um estúpido duelo entre Sócrates e Santana. Uma farsa, para não lhe chamarmos um deplorável número de mau circo .
Da conversa fiada do costume não veio, para o cidadão comum, qualquer novidade. Os problemas reais do país não foram abordados. As prima donnas afinaram a garganta com os habituais gorjeios e, depois, espremeram-se em duelos canoros cada vez mais desprezíveis e cada vez mais iguais aos de discussões anteriores. Todos sabemos o que vão cantar – e como vão cantar – aquelas cada vez mais ridículos e desprezíveis figuras.

Para quem vive pior neste país, talvez houvesse a expectativa de saber se, em 2008, a sua vidinha iria melhorar. Mas apenas ficou a saber que, no ano seguinte (2009) – por ser ano de eleições – a janela se entreabrirá e poderão entrar pequenas golfadas de ar fresco, na habitual e desavergonhada manobra de caça ao voto.

Aliás, estou mesmo convencido que as camadas mais desfavorecidas deste país nem sequer relacionam o OGE e o seu debate na Assembleia da República com o preço dos transportes, o valor das pensões, o peso dos impostos, o subsídio de desemprego, o próprio desemprego, o preço dos medicamentos, as taxas moderadoras ou o fecho das maternidades, SAPs e urgências, coisa que, de resto, convém imenso aos senhores ministros e ministras, aos senhores deputados e senhoras deputadas que, refastelados nos seus cadeirões, ou esganiçando-se sobre os modernos micros, têm o seu como certo ao fim do mês, a reforma repolhuda garantida a curto prazo, a que se juntarão, na maioria dos casos, futuros e não menos repolhudos tachos e posteriores e – ainda – repolhudas reformas.
OGE socialista - ou os pobres cada vez mais pobres

Na verdade, o que saiu do OGE socialista é a mesma desoladora certeza de que os pobres vão ficar cada vez mais pobres e que – por artes de uma maldita abracadabra – os bancos e os grandes grupos económicos verão multiplicados os seus lucros, como ainda agora ficámos a saber, com a divulgação dos resultados relativos aos primeiros 9 meses deste ano.

Ao ouvir o primeiro-ministro e a maioria dos deputados – especialmente os que mugem loas e sonoros «apoiados» às ordens do PS – cheguei a pensar que tinha acabado de aterrar em Portugal, num ano qualquer do futuro, depois de uma longa hibernação noutra galáxia qualquer, tal o descaramento daquela gentalha.
De facto, quem não viva em Portugal e não conheça as condições de vida de milhões portugueses, ao ouvir esses governantes e deputados, seria levado a pensar que temos excelentes – e bastantes – hospitais, maternidades e centros de saúde, que as escolas são um local exemplar, onde a juventude aprende e se habilita com os conhecimentos essenciais ao seu futuro – e ao futuro do país – que as empresas florescem e nascem para satisfazer as necessidades da população, e que esta tem uma vida razoável. Imaginaria, essa criatura recém-chegada, que os principais problemas económicos, sociais e políticos deste país tinham sido, enfim, resolvidos.
Da ficção à realidade

O problema, é que os nossos alunos aprendem cada vez menos, que os nossos doentes sofrem cada vez mais, e que os trabalhadores compram, com os seus ordenados cada vez mais precários e curtos, menos do que há um mês atrás. O problema, é que o desemprego aumenta todos os dias, as empresas fecham as portas, os subsídios sociais – que são tidos como esmolas ou privilégios – são eliminados ou reduzidos, e nascer nas estradas se tornou uma coisa tão normal que já notícia deixou de ser.

Por isso, Portugal, com este PS, ao contrário do que este mesmo PS e o seu chefe apregoam, continua a ter o crescimento mais baixo da União Europeia, afasta-se, ano após ano, da média europeia, exibe as piores taxas em doenças como a SIDA e a tuberculose, ou de chagas como o desemprego, os baixos salários e as baixíssimas reformas: Mas continua a ser, soberbamente – e cada vez mais – o campeão das desigualdades sociais e o país onde mais aumenta o fosso entre os mais ricos e os mais pobres. E onde os pobres, para além de serem cada vez mais pobres, são, também, cada vez mais.
Contenção?! Para quem?!

Porém, em época de contenção orçamental, e com a administração pública sujeita a restrições na aquisição de viaturas novas, por indicação do Decreto de Execução Orçamental para 2007, o ministro da Justiça acaba de comprar cinco automóveis topo de gama. O negócio, sem incluir o imposto automóvel, rondou quase 176 mil euros (35 mil contos) e foi por ajuste directo, logo sem recurso ao aborrecidíssimo concurso público.

E se olharmos para o orçamento da Assembleia da República para 2008, agora publicado em DR, verificamos que ali se prevê, na rubrica «Estadas», uma verba superior a 1,3 milhões de euros, ou seja, um acréscimo de 23,6%, para gastos com dormidas e ajudas de custo dos ilustres parlamentares.
O orçamento da AR, de cerca de 98,9 milhões de euros para despesas correntes, regista um aumento de 5,86% face aos 93,4 milhões de euros orçamentados para este ano. Isto é: os gastos previstos com viagens e estadas dos deputados em deslocações internas e ao estrangeiro acabam por registar um crescimento muito superior ao próprio orçamento anual do Parlamento.

Respiremos fundo. Era mesmo isto que faltava para o Parlamento começar a tratar dos problemas de Portugal e dos portugueses. Dinheirinho para viagens, comidas e dormidas.

Então, boa viagem. E, se puder ser, só de ida.

A gente agradecia.

11.06.2007

Eça já dizia...



A nódoa e a náusea


O governo pôs à venda a REN - Redes Energéticas Nacionais, ou seja, as redes nacionais de transporte de electricidade e gás natural. Para que as pessoas não percebam bem o que se passa – e, em consequência, não fiquem chocadas e façam algum chinfrim – o governo dá ao negócio a habitual designação milagrosa de privatização.

Para que se perceba o alcance deste atentado aos interesses nacionais, socorro-me de uma opinião abalizada e insuspeita, emitida a este propósito por Jorge Vasconcelos, que foi presidente da Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos, e a quem o Governo levou, meses atrás, à demissão. Diz ele no site www.resistir.info:

«
As redes nacionais de transporte de electricidade e de gás natural estão à venda. Eufemisticamente, diz-se que vão ser privatizadas – parcialmente, como sempre acontece quando o Estado, envergonhado, vende o seu património. Sobretudo quando esse património corresponde a uma infra-estrutura essencial que actua e continuará a actuar em regime de monopólio.

A privatização da REN parece ser a resposta tecnicamente iluminada, politicamente moderna, economicamente inteligente, financeiramente vanguardista e socialmente ousada a uma qualquer questão. Será?
Será que a privatização da REN decorre de uma obrigação ou de uma recomendação comunitária (sabe-se como a Europa da concorrência sem distorções tinha as costas largas)? A resposta é não.

De acordo com o direito comunitário, o transporte de energia (electricidade e gás natural) é um monopólio regulado e deve ser exercido por empresas separadas juridicamente de empresas que actuem, em regime de concorrência, na produção, na importação e na comercialização de energia. Assegura-se assim o acesso não discriminatório de todos os interessados às infra-estruturas de transporte e facilita-se o desenvolvimento de mercados de energia eficientes. Na verdade, o direito comunitário apenas impõe a separação jurídica da actividade de transporte, nem sequer obrigando à separação patrimonial
».

Com estas palavras, Jorge Vasconcelos deita por terra os habituais argumentos do Governo, que costuma desculpar a venda dos interesses nacionais – do povo e do país – a privados (portugueses ou estrangeiros) com imposições da União Europeia. No fim do seu interessante artigo, cuja leitura integral aconselho, conclui Jorge Vasconcelos:

«Nada de mal acontecerá se, amanhã, após uma patriótica privatização para resolver a emergência financeira de hoje, os planos de expansão da REN forem anunciados num hotel londrino e os lucros das redes energéticas nacionais forem distribuídos pelas viúvas da Escócia, pelos reformados da Califórnia ou pelos oligarcas russos. Mas os consumidores portugueses de energia não retirarão daí qualquer benefício».

Por outro lado, ficámos ontem a saber, pela boca de outra insuspeita figura, o professor Marcelo Rebelo de Sousa, que o Governo espanhol e uma entidade financeira estatal do país vizinho estabeleceram uma parceria que visa financiar, a juros altamente favoráveis, a compra, por empresas ou cidadãos espanhóis, de várias herdades alentejanas.

Dito isto, quase se pode dizer que está tudo dito sobre a qualidade de vende pátrias (será muito feio chamar-lhes traidores?) da pandilha socialista que nos «governa» há mais de dois anos.

Entretanto, seis estudantes deficientes do Agrupamento de Escolas da Infante D. Henrique, em Viseu, que precisam de cuidados educativos especiais, podem ter de abandonar as aulas porque a escola não dispõe de verba para continuar a pagar às auxiliares que têm acompanhado esses alunos. Entre eles, está um jovem que sofre de distrofia muscular congénita. Tem um grau de deficiência de 95%, não pode largar a cadeira de rodas e precisa de um aparelho para comer e respirar. O jovem é acompanhado há cerca de dez anos pela mesma auxiliar, e não quer ouvir falar na possibilidade de a perder. «É ela que o vem buscar a casa, o leva para as aulas e à casa de banho, lhe dá o comer. Enfim, lhe faz tudo», explica a mãe do jovem. O pai critica o Governo por poupar dinheiro em áreas desta natureza e acrescenta: «Deviam era poupar nos altos ordenados dos políticos e não nestas situações», desabafa ele, que foi informado da situação pelos directores da escola. Não sei em quem votarem – se votaram – os pais destes alunos, mas já têm matéria para meditar daqui a dois anos.

Como se este exemplo não chegasse, uma mulher de Barcelos está cansada de pedir apoio, sem qualquer sucesso, para uma filha menor, deficiente profunda, que há cinco anos espera uma cadeira de rodas nova, pois a que tem está quebrada, com rodas encravadas e o cinto seguro por um adesivo. A mulher, viúva e desempregada, lamenta o "esquecimento" da Segurança Social. Com 42 anos, vive em condições precárias em Vilar, e não tem emprego, pois precisa de cuidar da adolescente a partir das 16:00, quando esta regressa da Associação de Pais e Amigos das Crianças Inadaptadas.

Alice, assim se chama, admite estar «quase a morrer à fome», pois gasta «mais de 250 euros por mês» com Cláudia, em medicamentos e fraldas, e o Estado não cobre todos os medicamentos diários.

Valha-nos as listas de espera para primeira consulta nos hospitais públicos, que «só» atingem 380 mil doentes. Rigorosamente, são 382.866 doentes à espera de uma primeira consulta com um médico especialista hospitalar, em regra marcada depois de um diagnóstico de doença ou suspeita de doença nos Centros de Saúde. Somando consultas e cirurgias, há quase 600 mil doentes em lista de espera nos hospitais públicos, mais de 5% da população, sem esquecer, no entanto, que há muitos hospitais que definem tectos de doentes a consultar e depois fecham as inscrições. E dos que morrem à espera da tal consulta? Alguém terá essa sinistra lista?

Para vergonha maior de Sócrates e do seu ministro da Saúde – caso eles saibam o que é isso de vergonha – as condições “degradantes” em que se encontram os doentes “internados” nos corredores das Urgências do Hospital Distrital de Faro, levaram os 19 chefes de equipa da área médica daquele serviço a apresentar a sua demissão. Também os responsáveis pelos serviços de Oftalmologia, Anestesia e do bloco operatório pediram a demissão dos cargos.

Os 19 responsáveis das Urgências dizem que os doentes estão sujeitos a “risco de infecção hospitalar”, enquanto os médicos “são obrigados a aceitar responsabilidades” por aquilo que não controlam. “Homens e mulheres, lado a lado, são despidos, higienizados e alimentados. Não podemos aceitar que os nossos doentes sejam sujeitos a tão degradante situação”, referem os médicos na carta enviada à direcção clínica do HDF, cujo primeiro subscritor é o chefe da equipa de Medicina, Luís Pereira, que lembra que ao longo dos anos têm chamado à atenção para o problema e sido constantemente ignorados.

No meio deste pouca-vergonha, o despudor absoluto. É que são «apenas» mais de 61,6 milhões de euros que o Governo prevê gastar só em deslocações e estadias no próximo ano de 2008, o que ultrapassa em cerca de 10 milhões o valor orçamentado para este ano. Este aumento de dez milhões de euros (mais 18,8%) das verbas para viagens e alojamentos, inscrito no OGE, acontece num ano em que Portugal já não presidirá à União Europeia e, pelo menos teoricamente, os titulares de cargos políticos e equiparados não necessitam de viajar tanto.

Note-se que os valores orçamentados para deslocações e estadias não incluem as verbas destinadas às viagens dos deputados, nem as viagens do Presidente da República. Questionado sobre as razões do aumento de dez milhões de euros na rubrica ‘Deslocações e Estadas’ do Orçamento do Estado para 2008, o Ministério das Finanças calou-se que nem um rato.

Ainda vale a pena falar das entrevistas de Catalina Pestana? Depois do que ela disse – e da maneira como disse – alguém terá ficado com dúvidas sobre a devassidão que corrói este país – e que tem cobertura e agentes – a nível de altas figuras do aparelho de Estado?

«Este Governo não cairá, porque não é um edifício. Sairá com benzina, porque é uma nódoa», escreveu Eça de Queirós, em 1878, no seu famoso Conde de Abranhos.

Também hoje uma imensa nódoa nos governa. Daí, caros amigos, esta náusea de viver aqui, em Portugal, à mercê dum Abranho, que é, nas palavras de Eça, «um estadista, orador, ministro, presidente do Concelho, etc., etc. – que sobre esta aparência grandiosa é um patife, um pedante, um burro».

11.02.2007

A Morte ao serviço do Défice


Viver ou morrer passa pelo equilíbrio do défice,
atentamente observado pela sombra sinistra do Frankenstein da Saúde


A Sombra e as «Listas»


Perto de 400 mil doentes esperam uma primeira consulta com um médico especialista hospitalar, normalmente marcada depois de um diagnóstico de doença (ou suspeita de doença) nos Centros de Saúde.

Somando consultas e cirurgias, há quase 600 mil doentes em lista de espera nos hospitais públicos, mais de 5% da população. Só...
Não concordo. Os números são, seguramente, muito inferiores. Estou certo que muitos destes nossos compatriotas - nossos irmãos - já desistiram de esperar. Segundo sei, muitos deles - muitíssimos deles - foram agora visitados (nos dias 1 e 2 de Novembro), nos locais onde finalmente descansam em paz, livres, enfim, do «engenheiro» Sócrates e o seu Frankenstein da Saúde (Correia de Campos, para os mais distraídos).
Que, naturalmente, respiram um pouco mais aliviados.
E o défice, por consequência, também.