2.17.2008

Dili e Lisboa - o mesmo fado

O povo timorense merecia mais e melhor que Rambos reinadios,
Hortas e Xananas comprados por um prato de lentilhas. Mas há o petróleo, não é?


Do Rambo de Timor,
ao caladinho de S. Bento


Não consigo ouvir a palavra Timor sem que, cá dentro – no sítio onde dizem que o coração, ao assinalar as emoções, muda de ritmo e, por vezes, parece até doer ao cavalgar dores ou alegrias – algo se manifeste à revelia da minha vontade.

A verdade é que passei dois anos da minha juventude naquela terra de muitas e variadas gentes, onde timorenses, europeus (quase todos ali presentes em chamada missão de soberania), chineses (que dominavam todo o comércio), africanos, indianos e, por fim, a mistura de todas estas raças, conviviam num clima de aparente tolerância e relativa afectividade. É claro que os timorenses, na base da pirâmide, acabavam por ser, na sua própria terra, quem nenhuma voz activa tinha na vida social e económica (a vida política, nesse tempo, era coisa ferreamente reservada aos representantes do Estado) limitando-se, na sua maioria, a sobrevier praticamente à custa de uma agricultura precária, já que a pesca era ainda mais frágil e incipiente.

Depois, tínhamos os donos da terra: o clã do velho Carrascalão (que para ali fora deportado nos primórdios do fascismo, e que tomara tudo o que a vista alcançara). A filharada pai Carrascalão vivia aparte de tudo, contra tudo, acima de tudo. Não se sentiam europeus, porque nasceram mestiços. Também não sentiam timorenses, porque prezavam o seu sangue branco e o seu estatuto de amos e senhores. Detestavam a tropa, não pelo seu peso colonial, mas porque lhes roubavam o mando a que julgavam ter direito. Enfim, eram a face mais conflituosa – e preconceituosa – da sociedade daquele tempo.

Seja como for, os dois anos que passei naquela metade de ilha foram uma experiência extraordinária, não só pela relação com uma realidade colonial, que muito me ensinou, como também pela ligação aos diversos extractos sociais, onde as clivagens me pareciam absurdamente esbatidas. Depois, o mar e os seus corais, as montanhas e a floresta, o sol radioso, as acácias vermelhas, as chuvas densas e fortíssimas da monção – mais certas e infalíveis que um relógio suíço – ou o perfume tropical de uma terra quase virgem, deixaram-me marcas que jamais perderei. Nem quero.
Reinado quis reinar demais...
O major Reinado era um instrumento dos norte-americanos,
australianos e dos seus aliados em Timor, Xanana e Ramos-Horta.
«Reinou» à vontade, até ter decidido «reinar» demais...

Mas vêm estas divagações a propósito do atentado perpetrado pelo major Alfredo Reinado, um rapazola a soldo dos interesses ocidentais, interesses que têm nos australianos e norte-americanos os seus principais representantes.

Na verdade, Alfredo Reinado reinou à fartazana com a tolerância – nem sei se deva dizer: com o apoio – de Xanana Gusmão, Ramos Horta e toda a tropa aliada que ali está para salvaguardar a possibilidade de Timor ser, de facto, dos timorenses. Alfredo Reinado saiu da prisão quando quis, como quis, com quem quis, com as armas que quis e, posteriormente, instalou-se, com os seus seguidores, onde quis. Deu as entrevistas que quis, movimentou-se como e quando quis e, se não foi recapturado, meus amigos, foi, apenas, porque ninguém… quis. O homem dava jeito.

Xanana e Ramos Horta, há muito rendidos aos ditames das radiosas democracias ocidentais – e, por isso, um saiu da prisão de Jacarta, e o outro foi prémio Nobel (e ambos presidentes da república e primeiros-ministros) – acabaram por ser vítimas do monstro que criaram e alimentaram. O que falta saber é se Reinado, de costas quentes pelos amigos ocidentais, se precipitou na execução do golpe, ou se alguém, em Camberra ou Washington, acreditou demais na capacidade do pequeno Rambo.
Ramos-Horta pensava que bastava ter as costas quentes pelos seus amigos norte-americanos e australianos, para que a criatura que ajudou a criar (Reinado) não se voltasse contra um dos criadores.

O que é certo, é que Xanana, Ramos Horta e os seus aliados Carrascalões e Cia., terão começado a perceber que não podiam governar Timor sem estabelecer laços com as forças políticas que, de facto, representam o povo timorense, entre as quais se destaca a Fretilin, onde Xanana nasceu como político e patriota e que, depois dos compromissos que o devolveram á liberdade, renegou sem pudor, para não dizer que traiu miseravelmente.

E foi assim que Timor, pequeno e pobre (mas com razoáveis jazidas petrolíferas, que a Fretilin quis fazer reverter a favor do povo timorense, e por isso, foi apeada pela santa aliança pró-ocidental) se tornou palco de mais um acto da longa tragédia política que a rapaziada dos dólares ali tem em cartaz.

Reinado morreu, veremos que é o próximo Rambo. Ou totó.

Viajemos, agora, até ao nosso país, onde a tragédia em cena assume, por vezes, aspectos de comédia burlesca e rasca.
De fala-barato, a fala pouco...

Sócrates, de intenso fala-barato, passou, recentemente,
para um curioso estado de fala-pouco.

Soubemos que o desemprego atingiu o seu mais alto nível dos últimos 21 anos. O «engenheiro» Sócrates, porém, calou-se. A fantasia dos 150 mil novos empregos foi chão que deu uvas. Ou ele quereria dizer: menos 150 mil empregos?

Soubemos que Portugal precisaria de 60 anos, ao ritmo actual das políticas implementadas pelos socialistas, para alcançar a escolaridade média da União Europeia. O «engenheiro» Sócrates não solta um pio sobre esta triste realidade.

Soubemos que o governo socialista quer acabar com o Conservatório Nacional.
A denúncia circula por aí nestes termos:
O vergonhoso ataque ao Conservatório Nacional
«Disto, já se suspeitava há algum tempo, mas agora é público: o Ministério da Educação quer mesmo acabar com a Escola de Música do Conservatório Nacional. Por isso, se o deixarem, uma instituição com quase 180 anos, que já nos deu Maria João Pires, Bernardo Sassetti e tantos outros, tem os dias contados. Já não se trata de destruí-la devagarinho, como até aqui – deixando-a cair aos bocados, como o órgão do século XVIII a deteriorar-se, ou o Salão Nobre quase a ruir sobre a plateia. Desta vez, a sinistra ministra quer fazer o serviço de uma só vez. Com três golpes tão rápidos e certeiros que, espera ela, ninguém vai sequer perceber o que se passa.

O primeiro golpe é acabar com os Cursos de Iniciação. Crianças dos 6 aos 9 anos de idade vão deixar de ter acesso às 6 horas semanais de instrumento, orquestra, formação musical, coro e expressão dramática hoje ministradas pelo Conservatório.

O segundo golpe é matar o Ensino Articulado. Adolescentes com talento musical já não poderão conciliar a formação artística de alto nível do Conservatório com a frequência às outras matérias da sua escola habitual. Quem quiser ser músico, a partir de agora, tem que decidir profissionalizar-se aos 10 anos de idade – sem poder voltar atrás.

Por fim, o golpe de misericórdia é dar cabo do Ensino Supletivo – o regime que tem formado, ao longo dos anos, a maior parte dos músicos portugueses. De Alfredo Keil a Pedro Abrunhosa, passando por centenas e centenas de outros
».

Quanto a isto, Sócrates cala-se que nem um rato.


Outras notícias dizem-nos que quase duas mil famílias tiveram de pedir auxílio para não perderem as casas. As dívidas são o novo flagelo da sociedade moderna portuguesa. A crise perpétua em que vivemos, agravada pela subida das taxas de juro e pelo desemprego, está a deixar cada vez mais famílias em situação desesperada.


Associado a isto, está o crescimento do crédito malparado, que mantém a tendência iniciada no final de 2006. De acordo com dados do Boletim Estatístico do Banco de Portugal, o crédito de cobrança duvidosa atingiu, no final de Novembro, os 2.367 milhões de euros, o que representa um crescimento de 129 milhões, face ao mês anterior, e de 209 milhões, face ao período homólogo.


E Sócrates sem tugir nem mugir.


Mas, às vezes, Sócrates ainda fala. No dia 10 de Janeiro, garantia que iria ser construída uma nova ponte sobre o Tejo, aliás um projecto que já não é novo e, por acaso, bastante consensual. Porém, dias depois, o impagável ministro Mário Lino vem informar que, afinal, mandou o LNEC estudar outras alternativas. O que era certo num dia, passou a incerto noutro.


E Sócrates, que durante meses nunca se calava, voltou a meter a viola no saco.


O director da Polícia Judiciária, que é amigo íntimo do ministro da Administração Interna, matou a investigação do caso Maddie. Nada de espantar. Desde cedo se percebeu que o governo inglês, da mesma família política do governo português, apostava forte na protecção dos Macann, cujas ligações ao Partido Trabalhista são do conhecimento público. Tarde ou cedo, aqui chegaríamos. Parece que já chegámos.


E Sócrates nada tem a dizer.


Aparentemente, eclipsou-se a verve do senhor «engenheiro» de (pelos vistos) obras feitas… mas pelos outros.


Mas o que interessa aos portugueses a vida nacional? Na verdade, e a julgar pelos noticiários, o que realmente é importante para nós – e para o mundo – é o folclore milionário das escolhas dos candidatos às eleições presidências norte-americanas.


Pelo que somos forçados a engolir diariamente – e pelo que comemos por tabela em resultado da política do império – bem deveríamos exigir o direito de também votarmos naquela palhaçada.


Não acham?

2.05.2008

Intermezzo



Terra molhada

No limite do poema emerge a dúvida,
quando a flor silvestre exalta o chão,
mostrando a terra cantada pela inocência da chuva.
Tudo está aqui, e tudo aqui é perceptível,
neste desenho saliente, gravado em cor e calma,
onde só o medo e as perguntas não existem.
Nem o tempo.

Para que servem as palavras, para que serve a fala,
se não podem transformar-me em simples erva
presa à terra molhada,
gloriosamente a festejá-la?

2.03.2008

Até ver, é o triunfo dos porcos


A democracia agoniza e, com ela, um povo abúlico e desnorteado.
O vírus «socialista» está a cumprir a sua missão. O «engenheiro» também...

Uma espécie de genocídio

Parênteses introdutório: (Não falarei de nenhuma remodelação. Porque não houve remodelação. Só a teríamos, se Sócrates e o PS deixassem o país em paz. Mas a gamela do poder é como a droga. Vicia. E os que a provam não conseguem deixá-la de livre vontade...)


Em Portugal tudo é pequeno. Quase tudo. Apenas a pouca-vergonha, a corrupção e a fúria saqueadora da oligarquia instalada (ou seja: o PS de braço dado com os donos do capital financeiro) são enormes, gigantescas. Por isso, quando os portugueses vão caindo como tordos às portas das urgências hospitalares – ou dentro delas – ou à espera que o INEM decida socorrer o desgraçado que agoniza deitado no passeio, ou caído no corredor da sua casa, não se pode dizer, para sermos rigorosos, que estejamos perante um genocídio. Ainda é cedo. Por enquanto, é apenas uma espécie disso, já que, de facto, as políticas do PS, designadamente nos capítulos da Saúde, relações laborais e Segurança Social, ainda não matam em massa e em ritmo industrial. Mas matam.

É verdade que há, também, as mortes silenciosas e invisíveis (ditas naturais) registadas entre aqueles milhares que vão definhando, escondidos em casebres e casinhotas esconsas das aldeias ou das cidades, ou em qualquer outra paragem deste país em putrefacção. São os que não alcançam os patamares mínimos da dignidade humana, sem meios para se alimentarem capazmente ou – muito menos – para acederem a cuidados de saúde que lhes evite a morte prematura. Morrem anónimos, minadinhos pela incúria e indiferença dos Salazares cor-de-rosa. Morre-se por má nutrição e falta de assistência médica e medicamentosa, porque gente há, aos milhares, que se esconde dentro do seu sofrimento e da sua miséria, de tal modo habituada à dor e ao definhamento, que isso toma por coisa natural, como se a sua condenação à morte lenta não passasse de um desígnio, de um ditame da ordem natural das coisas.

Sócrates, com a sua voz de flauta, que produz sempre os mesmos estranhos e duvidosos requebros – vá lá saber-se se por vaidade, se por gostar de se ouvir no delicodoce registo que a natureza, matreira, lhe deu – garante, sem se rir, que Portugal nunca foi governado tão à esquerda e com tantas preocupações sociais.

Não sei o que pensam deste delírio os dois milhões de pobres, mais os outros novos pobres que não entram nestas estatísticas, nem as famílias dos mortos que já perceberam qual é a política de Saúde do PS, nem o meio milhão (pelo menos) de desempregados, nem as dezenas de mulheres que foram forçadas a parir no meio de uma auto-estrada ou estrada nacional, nem as centenas de milhares de portugueses que, nos últimos anos emigraram, nem os milhões de portugueses que, todos os dias, perdem poder de compra, nem os casais que ficam sem a casa, porque as tais «políticas de esquerda» lhes deram cabo do orçamento familiar, nem os jovens que procuram, em vão, o primeiro emprego, nem os milhares de portugueses que só encontram trabalho precário e mal remunerado, nem os reformados, que sofreram agravamentos fiscais que lhes reduziram as já de si reduzidas reformas, nem aqueles que já evitam acender a luz, à noite, para que a conta da luz não corroa o fraquíssimo rendimento mensal.

Uns morrem, outros engordam...

Recebeu 9,732 milhões de euros de «compensações» e «remunerações variáveis». E enquanto a juntas médicas obrigam cancerosos a trabalhar até à morte, ele não se possa queixar. Paulo Teixeira Pinto, ex-presidente do BCP, passou "à situação de reforma em função de relatório de junta médica" . O banqueiro, de 46 anos, foi considerado inapto para o trabalho, apesar de já ter arranjado um cargo numa consultora financeira.



Sócrates não sabe – ou finge não saber – que milhões de portugueses sabem, hoje em dia (e alguns pela primeira vez nas suas vidas) o que significa a expressão «comer o pão que o diabo amassou». Sócrates não sabe – ou finge não saber – que nunca se viveu tão mal em Portugal e que nunca, neste pobre país, o fosso entre os mais ricos e os mais pobres se alargou até tocar as fronteiras da mais desavergonhada obscenidade.

Sócrates e o seu governo – onde abundam os mais ridículos, mentirosos e incompetentes ministros de que há memória nos últimos anos – mais os seus fiéis deputados na Assembleia da República (ou seja: o Partido Socialista), são todos, material e objectivamente, responsáveis pela miserável situação do país, onde uma economia à deriva só deixa margem de manobra para o grande capital financeiro, que nunca encheu as arcas como agora sucede. São os responsáveis pelas mortes que uma política de saúde criminosa já provocou – ou não pôde evitar.

«Era evidente, quando o dissemos, há um ano, que o encerramento dos Serviços de Atendimento Permanente sem estar finalizada a reestruturação das Urgências era um crime.» Isto disse o bastonário da Ordem dos Médicos perante os casos mais recentes de mortes por falta de assistência médica. Pedro Nunes disse ainda que, «mais cedo ou mais tarde, estes casos teriam de acontecer», e que «casos idênticos repetir-se-ão, se não for rapidamente repensado o sistema».



O concubinato descarado




No meio desta espécie de genocídio, e como óleo indispensável a lubrificar as grandes negociatas públicas e privadas – e a mistura das duas, num caldeirão de promiscuidades, de que o BCP é um belo exemplo – aí está a voz insuspeita de Marinho Pinto a clamar, do alto do seu estatuto de bastonário da Ordem dos Advogados, aquilo que toda a gente sabe. A corrupção e o clientelismo proliferam como cogumelos venenosos, que crescem e medram até nos mais altos níveis do aparelho do Estado. Não é novidade, mas sabe bem ouvir isto dito assim, de tal modo que o senhor Procurador-Geral da República, como se pela primeira vez de tal coisa tivesse ouvido falar, lá decidiu, com este empurrão, tomar as providências necessárias ao esclarecimento de tão desgraçada denúncia.

Mas a coisa não é nova. Aqui há tempos, alguém disse exactamente isto: «A cooperação prestada por responsáveis dos serviços de contribuições e impostos permitir-me-ia consolidar as suspeitas de que a falsificação de facturas visava diversas finalidades, em que avultavam a evasão fiscal, a obtenção de benefícios fiscais ilícitos, o pagamento de salários e gratificações ocultos ou não autorizados, a realização de negócios com o exterior e a corrupção de agentes da administração e do poder político.»

Estas palavras, então, caíram em saco roto, apesar de terem sido proferidas pelo então Procurador-Geral da República, Cunha Rodrigues. Veremos se, agora, a coisa avança.

Os «manos» e os cunhados (propriamente ditos)

Na semana passada falei de casos em que o tráfico de influências, favorecimento pessoal a partir do poder que se detém, o amiguismo e o clientelismo são moeda corrente atrás dos reposteiros da política. Da nova classe de boys, os chamados «manos», que por estarem ligados a altas figuras do PS, conseguiram os seus jobs na administração pública. Também nas câmaras municipais abundam os cunhados e demais elementos dos agregados familiares dos senhores presidentes e respectivos acólitos. O que é preciso é a malta safar-se, enquanto a coisa está a dar.

Trinta e quatro anos depois do 25 de Abril, a distinta classe política está bem e recomenda-se. Entrou em concubinato descarado com os senhores do cimento, das finanças e de outros valores e instrumentos que vão passando carinhosamente do público para o privado e, entre ternas manifestações de amiganço, satisfazem-se uns aos outros, revezando-se no deter das rédeas, num toma-lá-dá-cá indecente e, até ver, completamente impune.

Mas é um festim caríssimo, onde os chorudos ordenados, as opíparas e várias reformas, os abundantes e sempre disponíveis altos cargos na administração pública ou no privado, as muitas e variadas benesses e mordomias – carro às ordens, gasolina, cartões de crédito, despesas de representação, motorista, telemóvel, linhas de crédito especiais e, principalmente, impunidade absoluta em caso do caldo azedar – exigem dos miseráveis plebeus a contribuição necessária à liquidação da factura.

É um baile macabro, porque, para o consumarem, tiram vida às vidas de cada um de nós – e, como se viu, sacrificam até a vida daqueles que, mais infelizes ou desprotegidos, com ela pagam o facto de terem nascido neste triste e anémico país.

Até ver, é o triunfo dos porcos.

1.28.2008

Viver e morrer em Portugal


Na Bolsa de Valores, os capitalistas devoram-se uns aos outros,
depois de sugarem o sangue dos portugueses
A náusea e o vómito
As Bolsas de Valores, segundo alguém disse, são os locais onde os capitalistas se devoram uns aos outros. Por isso, meus amigos, estou-me nas tintas para o facto das acções subirem ou descerem. Ali, o negócio é virtual, na medida em que nada daquilo tem a ver com a vida real. Vendam-se as acções ao preço que se venderem, os parafusos continuam a ser feitos como no dia anterior, o peixe continua – ou não – a ser pescado, as searas crescem ou definham conforme o tempo e o mérito do agricultor mandarem, e as couves e as batatas desenvolvem-se sem se incomodarem com quem compra ou vende acções, e a que preço.

Aliás, ainda ninguém me explicou porque é que uma empresa tem, num dia, acções na bolsa a determinado valor e, no dia a seguir, sendo exactamente a mesma – e fazendo exactamente a mesma coisa e ao mesmo preço – passa a valer mais, ou menos.

Por explicar, pelo menos em termos racionais – está o facto de, um certas alturas, as acções descerem e, aos gritos, os economistas, analistas, comentadores e políticos desatarem a proclamar maus tempos – tempos terríveis – para quem não tem empresas, nem acções. Cheira-me a esturro.

Outra coisa que falta explicar, é porque os lucros fabulosos conseguidos na especulação – porque é disso que se trata – bolsista, não pagam os mesmos impostos que nós pagamos só pelo simples facto de trabalharmos e ganharmos para a bucha. Ou pagamos sobre as nossas tristes pensões.

As políticas assassinas do PS


As urgências foram transformadas, pelo governo PS ,em antecâmaras dos cemitérios

O que me rala são as pessoas que morrem à porta de urgências encerradas, e as palavras criminosas de um ministro da Saúde, ao defender a tese sublime de que ninguém pode provar que as pessoas se salvariam caso as urgências estivessem abertas.

Espero bem que um dia seja julgado, tal como o seu presidente do conselho de ministros, o inefável e sinistro «engenheiro» Sócrates (o verdadeiro promotor destas políticas), por todos estes atentados à vida e à saúde dos portugueses.

E não deixo de registar, com repulsa, a pressa do pai do bebé de Anadia em absolver o governo, o que me levou a pensar aquilo que depois se confirmou. «Aí está um socialista de gema». Não quero dizer que, naquele caso concreto, a morte não fosse o desfecho inevitável. Mas não será que afastar os serviços de urgência das populações é arriscar a perda de vidas em nome de critérios economicistas. O que vale mais? A vida, ou o défice?

Por tudo isto, Portugal enoja-me. Como nunca me enojou. E – podem crer – a náusea é minha velha companheira, pois já tinha os olhos e o espírito bem abertos durante os tempos em que a ditadura impunha as suas regras e fazia cumprir os seus desígnios.

Mas se em ditadura tudo se espera, em democracia o que é expectável é o respeito pelo cidadão que elege quem se propõe governá-lo e, com os seus impostos, sustenta o Estado. Estado que outro papel não tem que não seja fazer reverter para os cidadãos e para o país, de forma justa e eficaz, o que recolhe de cada um de nós. Escuso de me cansar a dizer que nada disso acontece em Portugal.

Tenho afirmado várias vezes que, hoje em dia, as diferenças entre o sistema democrático em vigor – se de democrático merece o nome… – e a ditadura, são apenas as que se relacionam com o voto (é menos condicionado), a liberdade de expressão (é teoricamente permitida) e a garantia, também teórica, de ninguém ser prejudicado pelas suas opções ideológicas, o que impede a existência, por exemplo, de presos políticos.

Na verdade, as coisas não são bem assim. Antes do 25 de Abril, tive oportunidade de votar em listas da oposição, e lembro-me de acompanhar o meu pai às mesas de voto nas eleições presidências a que concorreu Humberto Delgado. É certo que os resultados nas urnas, fossem eles quais fossem, eram sempre transformados em vitórias dos candidatos do regime, tal como é certo que os cadernos eleitorais eram uma enorme farsa, de onde eram excluídos milhares de eleitores, mas onde os mortos podiam votar, pois faziam-nos pelas mãos dos legionários e outros esbirros do fascismo.

Partidos do Poder - a antítese da democracia

Os partidos que ocupam o poder arrebanham apoiantes, votos e fidelidades, que depois traem indecorosamente


Mas o que se passa, hoje, com o nosso voto? Votamos em quem? Porquê? Para quê? Fomos induzidos a tomar opções partidárias, a fidelizar-nos a um determinado partido e, a partir daí, tornamo-nos servos dessa estrutura política, abençoando-a com o nosso voto e apoio activo. Ou remetendo-nos, passivamente, como silenciosos cúmplices, às suas piores práticas.

Aceitamos como prática normal – e até achamos excelente, se tal vier do partido a que aderimos – que a mentira, o discurso ardiloso, a vã promessa eleitoral e a manipulação ou coação psicológicas sejam armas da luta pelo poder. Sujeitamo-nos, depois, às consequências nefastas das políticas levadas a cabo, mesmo que estejam nos antípodas do prometido e se revelam absolutamente contrárias aos nossos interesses e direitos, atirando-nos para o desemprego, levando-nos a casa e o pão, limitando-nos – ou vedando-nos – o acesso à saúde e à educação. A isto, de facto, se chegou.

Ou seja: pela força e atropelo – em ditadura – ou pela subtil manipulação – em dita democracia – os resultados são iguais. O poder político faz o que sabe fazer, que é, ontem como hoje, asfixiar o mais possível o cidadão, extorquindo-lhe directamente (pelos impostos) ou indirectamente (pelos mecanismos que levam à perda do poder de compra, de que a inflação superior aos aumentos salariais é o melhor exemplo), e oxigenar os detentores do poder económico que, com as variações que o tempo e os métodos construíram, são os mesmos que o fascismo alimentava.

Quanto à liberdade de expressão, meus caros amigos, experimente usá-la quem depender profissionalmente de alguém afecto ao partido no poder, caso não partilhe das mesmas simpatias. Experimente um candidato a um emprego deixar entender a sua ideologia ou cor partidária, e depois diga que não percebeu as razões da exclusão.

Ainda sobre a liberdade de expressão, veja-se quem tem acesso às grandes tribunas da comunicação social escrita e falada, e atente-se nos critérios, ditos jornalísticos, que alinham cientificamente as notícias, seleccionam os comentadores, convidam analistas e valorizam – ou desvalorizam – as diversas iniciativas políticas ou partidárias. Mais uma vez, aquilo que a ditadura impunha pela censura, esta «democracia» alcança pelo controlo dos meios de comunicação social dominantes – ditos de referência – para que a plebe continue a ser plebe, e os senhores feudais continuem a ser os senhores feudais.

No resto, é o mesmo – ou pior – forrobodó. Acredito, até, que esta «democracia» e estes «democratas» estão a fazer coisas que os homens da ditadura não fariam. Acuso-os, até, de irem mais longe em desumanidade e indiferença pelo sofrimento dos cidadãos do que os próprios fascistas.


Os manos - nova classe de boys

Corupção, tráfico de influências, amiguismo? No PS? Que ideia!

Sócrates, neste momento, é um fala-barato, um rei nu que ainda não percebeu a velocidade a que está a resvalar para o ridículo e para o descrédito. Há factos e sinais alarmante, que provam ter o homem assumido que a maioria absoluta é poder absoluto. Que as regras e a moral deixaram de contar. Por exemplo:

Há dias, o deputado do PCP, Manuel Tiago, perguntou ao Governo porque razão certo advogado foi contratado duas vezes pelo Ministério da Educação para levar a cabo determinado trabalho. Da primeira vez, embora a remuneração fosse cumprida integralmente, o trabalho não foi concluído. Apesar disso, o Ministério da Educação voltou a contratar o mesmo advogado, só que, desta vez, aumentou-lhe a retribuição, que fora de 1.500 euros mensais, no primeiro contrato, para 20 mil euros mensais, no contrato actual. O deputado quer saber – e muito bem – porque razão não foram utilizados os recursos internos do Ministério, que motivos justificaram a nova contratação, exactamente com o mesmo advogado que não cumpriu os compromissos anteriormente contratualizados, e, também, que motivos justificam um aumento de 1.233,33%.
Eu julgo que tenho a resposta para esta perguntas todas. É que, segundo consta por aí, o distinto advogado é irmão de uma célebre figura do PS, envolvido num escândalo que tem agitado a opinião pública e merecido grande cobertura da comunicação social.

O rídiculo reizinho não sabe, mas vai nu...


Mas há mais: há dias, recebi um e-mail que dizia o seguinte:

«Sabe quem é António Pinto de Sousa? É o novo responsável pelo gabinete de comunicação e imagem do Instituto da Droga e Toxicodependência. Tem competência atribuída para empossar quem quiser, independentemente da sua qualificação académica e profissional, para os cargos dirigentes do Instituto, contrariando os próprios estatutos do IDT. Ah! Já me esquecia de dizer que é irmão de José Sócrates...»

Como estas duas situações circulam sem respostas, esclarecimentos ou desmentidos, perdoe-se a veleidade, mas muito gostaria que esta simples crónica contribuísse para apurar a verdade. É que se isto for verdade, como tudo leva a crer, já nada faltará para que a náusea se transforme em vómito.

São portugueses, senhores!


Depois de tanta coisa triste – e feia – uma velha anedota para encerrar a nossa crónica de hoje – e fazer sorrir, ainda que o sorriso seja triste:

Os portugueses, hoje em dia...



Um alemão, um francês, um inglês e um português comentam uma pintura representando Adão e Eva no Paraíso.

Diz o alemão:

- Olhem que perfeição de corpos: ela esbelta e espigada, ele com este corpo atlético, os músculos perfilados... Devem ser alemães.

Imediatamente, o francês contesta:

- Não acredito. É evidente o erotismo que se desprende de ambas as figuras... Ela tão feminina... Ele tão masculino... Sabem que em breve chegará a tentação... Devem ser franceses.

Movendo negativamente a cabeça, o inglês comenta:

- Nada! Notem... A serenidade dos seus rostos, a delicadeza da pose, a sobriedade do gesto... Só podem ser ingleses.

Depois de alguns segundos de contemplação, o português afirma:

- Não concordo. Olhem bem: não têm roupa, não têm sapatos, não têm casa, só têm uma triste maçã para comer, não protestam e ainda pensam que estão no Paraíso... Só podem ser portugueses.

1.17.2008

O Banco Alimentar Contra a Fome e a «Esquerda Moderna»


O Banco Alimentar Contra a Fome significa, antes de mais, isto:
HÁ MUITA FOME NESTA DEMOCRACIA, GERIDA POR «SOCIALISTAS» DA «ESQUERDA MODERNA»


Esquerda moderna, ou direita antiga?

O Banco Alimentar Contra a Fome é uma coisa que existe, mas não deveria existir. Porquê? Porque a existência de gente com fome, em pleno século XXI, num país europeu que arrota novos aeroportos e TêGêVês, e que se permite conceder a um cidadão com várias e copiosas fontes de rendimento, perfeitamente válido e apto para o trabalho, uma reforma de 3.600 contos, por apenas 18 meses como gestor numa empresa do Estado, ou ordenados e futuras reformas de luxo ao governador do seu Banco Central, é algo que a moral recusa, a inteligência não entende e a decência condena.

E não deveria existir, principalmente, porque o senhor «engenheiro» que ocupa o lugar de primeiro-ministro (melhor dizendo: de presidente do conselho de ministros), se diz socialista e de esquerda, embora esclareça que se trata de esquerda, sim, mas… «moderna».

Mas a verdade é que vivemos num país onde 500 famílias detém a maior fatia da riqueza nacional e os bancos acumulam lucros a um ritmo nunca visto. Mas onde, com o mesmo ritmo – isto é: a uma velocidade alucinante – os pobres descem aos patamares da miséria e os remediados passam a pobres. A grande maioria da população, nos últimos 12 anos – mas com maior intensidade nos últimos 2 anos correspondentes ao consulado socratiano – todos os dias empobrece e percebe que o futuro vai ser cada vez pior. Na realidade, nada disto me parece compatível com democracia, socialismo e esquerda, leve ela as etiquetas que o «engenheiro» lhe quiser pôr.

Já que falei no Banco Alimentar Contra a Fome (cuja simples existência é, por si só, a prova da falência das políticas em curso nas chamadas democracias dominadas pelo capital financeiro), soube, há dias, que a crise é de tal ordem que «há médicos e professores a pedirem ajuda para dar de comer aos filhos».

«O novos pobres»


A notícia saiu no insuspeito Expresso, num excelente trabalho de Raquel Moleiro e Isabel Vicente, e transcreve declarações de Isabel Jonet, presidente do Banco Alimentar Contra a Fome, que denuncia a existência dos chamados «novos pobres», saídos de uma classe média sobre-endividada. Deixem-me ler parte do texto:

«Manuela, 33 anos, hesitou antes de escrever aquele “e-mail” para o Banco Alimentar Contra a Fome. E mesmo enquanto o redigia, não tinha ainda a certeza de, no fim, ter coragem de carregar no botão de enviar.

Ela, bacharel em Relações Internacionais, quadro de um ministério, casada com um professor de educação física, ex-atleta olímpico. Mãe de uma bebé com cinco meses, tinha agora de pedir ajuda para alimentar a família. O marido que ficou sem emprego, um salário de 2000€ que desapareceu no mês em que festejaram a gravidez, a renda da casa que foi falhando vezes de mais, o cartão de crédito gasto até ao limite, o apartamento trocado por um quarto, e nem assim a comida chegava à mesa. "No dia em que enviei o e-mail faltavam três semanas para receber. e só tinha 80€", explica. "Havia para a bebé, mas nós íamos passar fome".

O caso tem um mês. Ana Vara, assistente social do BACF, ligou a Manuela mal leu o pedido. E disse-lhe o que tanto tem repetido ultimamente: “Não tenha vergonha, não é a única”. “Nos últimos quatro meses, mais que duplicaram os pedidos directos ao banco alimentar. E há cada vez mais casos de classe média”, garante Isabel Jonet. A directora do BACF chama-lhes "os novos pobres": empregados, instruídos, socialmente integrados, mas, ainda assim, vítimas da pobreza e até da fome. Nos últimos três meses, chegaram ao banco alimentar de Alcântara 250 casos, 30% dos quais se enquadram nesta nova categoria. E em todos há pontos transversais: mais mulheres, muitas mães, desemprego inesperado, rupturas familiares, e sempre sobre-endividamento.
(...) As famílias tradicionalmente carenciadas aparecem no banco alimentar, pedem olhos nos olhos.

Os novos pobres gritam por ajuda, envergonhadamente, através do correio electrónico.

Como Luciana, médica, cujo desemprego súbito do marido fez ruir a estrutura económica do lar de nove filhos Sem ele saber, sem o magoar de vergonha, pediu apoio alimentar para um casa onde nunca tinha faltado nada».

Por este breve excerto da reportagem do Expresso, podemos ver o que por aí vai.


Governa entrou em parafuso
(e o camelo engoliu a areia toda)


Afinal, Mário Lino engoliu a areia toda do deserto da Margem Sul... Como se vê.


Mas se as coisas vão mal para a generalidade dos portugueses, cuja capacidade de reacção é tradicionalmente lenta e mole, também, neste dealbar do ano de 2008, começam a azedar para os lados do «engenheiro» feito à pressa.
Depois da «Margem Sul jamais», veio o Ota nem pensar, e os dois estarolas – Sócrates e Mário Lino – a coincidirem no descaramento de dar o dito por não dito, como se não tivessem sido obrigados a evitar o erro enorme – e caríssimo – de construir o novo aeroporto num local de todo inapropriado. Humilhado e ridicularizado, Mário Lino não se demitiu nem foi demitido, porque Sócrates, como todos os iluminados absolutistas, não sabe o que é moral ou senso comum.


Se o rídiculo matasse...
(as prestações de 68 cêntimos morreram)

Depois, um dos muitos matraquilhos que pululam no governo, um génio capaz de meter Albert Einstein num chinelo, e que é secretário de Estado não sei do quê – nem me interessa – decidiu que os retroactivos do mês de Dezembro, relativos aos aumentos das pensões dos reformados e pensionistas, seriam pagos em míseras prestações (algumas de 68 cêntimos), ao longo de 14 meses, não fossem os pobres desgraçados estoirar o dinheiro nos casinos ou casas de alterne.

Perante o ridículo da situação, que muitos julgaram não passar de mera brincadeira ou má-língua dos perigosos e subversivos opositores do regime democrático (que Sócrates interpreta como ninguém), lá veio o governo, atabalhoadamente meter marcha atrás, e, como quem dá uma esmola com dinheiro roubado, dizer que, enfim, sempre pagarão tudo no mês que vem.
Se o ridículo matasse, Sócrates, os ministros e a troupe «socialista» que comanda (isto é: a «esquerda moderna» em peso) estariam todos no Panteão Nacional, não pelos altos méritos dos seus feitos, mas como monumento indelével à pulhice política e à credulidade de um povo que ainda não aprendeu a tomar conta do seu destino.



Fundo de Pensões do BCP
- O gato escondido...



Dava um jeitão ao Berardo transferir o Fundo de Pensões do BCP para a Segurança Social, não dava? E ao Governo, também...


No meio deste circo, um escândalo enorme parece estar escondido sobre o já de si grande escândalo do BCP. Fazendo rir o pagode – como compete a uma troupe que se preze – Sócrates garante que o Governo em nada interferiu na escolha dos futuros administradores do BCP. Deixaríamos de lado a óbvia mentirola, se ela não estivesse relacionada com uma manobra muito mais vasta que se relaciona com o controlo de défice de 2008.


De facto, o que parece estar pronto a ser cozinhado é a provável transferência para a Segurança Social do fundo de pensões dos colaboradores do Banco, avaliado em cerca de quatro mil milhões de euros.


Segundo Delfim Sousa, que é accionista do BCP, onde foi um quadro destacado e, também, membro da respectiva estrutura sindical e da Comissão de Trabalhadores, «esta transferência, a concretizar-se, será contabilizada como receita extraordinária da Segurança Social neste ano 2008, e controlará o défice do Estado satisfatoriamente. Esta solução que estará na mira do Governo Sócrates, já foi testada pelo Governo de Guterres (com a transferência do fundo de pensões do BNU, realizado pelo ex-ministro Sousa Franco) e pelo Governo de Santana Lopes, para controlar o défice e cumprir os valores limite fixados pelo Pacto de Estabilidade e Crescimento. E foi assim, no ano de 2004, quando o ex-ministro das Finanças, Bagão Félix, transferiu fundos de pensões de empresas públicas (entre outros, o Fundo da Caixa Geral de Depósitos) para a Caixa Geral de Aposentações, conseguindo um encaixe financeiro de cerca de 1,9 mil milhões de euros».


Com gente sua a comandar o BCP, e com os principais accionistas (especialmente os que se dedicam às obras públicas) atentos e obrigados aos desejos do PS, tendo em conta o novo aeroporto e o TGV, tudo se encaminhará para uma solução que desenrasque o controlo do maldito défice.

Mesmo que, como disse em casos anteriores o Tribunal de Contas, «O impacto directo sobre as finanças públicas, que se projectará por um período longo, resultante das transferências referidas, tem um efeito positivo sobre as receitas do Estado no ano em que ocorreram, mas têm um efeito inverso nos anos posteriores, uma vez que as receitas não serão suficientes para suportar o valor das despesas».


Perante a passividade amarela do Sindicato dos Bancários do Sul e Ilhas, o silêncio da comunicação social, mais interessada em discutir a dança dos nomes do que as manobras de Sócrates e banqueiros, as atenções voltam-se para Jo Berardo, que gosta de fazer o papel de capitalista do povo. Mas, como diz Delfim Sousa, «o Senhor Joe Berardo não é seguramente um “capitalista do povo”, como quer fazer passar na imagem que vende. Pelo contrário, Berardo defende unicamente o seu dinheiro, os seus investimentos, e o Fundo de Pensões (dos trabalhadores do BCP) representa uma responsabilidade para o Banco que quer ver eliminada, ou antes, transferida para o Estado».



Esquerda Moderna = Direita Antiga


A grande diferença está só na indumentária e na mãozinha aberta. O resto...


E assim vai o país. Lentamente, Sócrates perde o pé. Mas enquanto não o perde de vez, milhões de portugueses afundam-se entregues a um estado que está na mão dos senhores do capital financeiro, cujas acções não estão sujeitas ao escrutínio popular. São eles que governam, mas não são eles que vão a votos.
José Sócrates e os socialistas, ao volante da sua «esquerda moderna» são, hoje em dia, as alavancas deste poder opressor e oculto, do qual não passam de meros paus-mandados. Não governam para proveito dos portugueses – para que acabem, por exemplo, os Bancos Alimentares Contra a Fome – mas, como todos sabemos, para manter nos seus feudos aqueles que os sustentam no poder, enchendo-lhes, duma ou doutra maneira, os cofres do partido e os bolsos de quem lhes faz o frete.


De onde se conclui que esta «esquerda moderna» chega a fazer corar de vergonha a velha «direita antiga».

1.08.2008

Grande Circo Sócrates




A trágica palhaçada


Uma pensionista deste país, que recebe todos os meses a opulenta pensão de 283 euros – o que dá cinquenta contos e uns picos – sabendo das nossas crónicas, de que se diz leitora fiel, pediu-me que aqui desse conta do seu caso. Sofre, para mal dela, de uma doença crónica que a obriga a consultas frequentes de psiquiatria. Como é normal neste tipo de doentes, tanto pode acontecer andar bem durante uns tempos, como ver-se obrigada, em determinados períodos, a recorrer com mais assiduidade ao seu médico.

Como sabemos, o SNS não dá resposta pronta e eficaz a este tipo de doentes, pelo que a pessoa em questão tem vindo a ser assistida por um médico particular, o único que, até hoje, conseguiu mantê-la relativamente bem. Só que, por cada consulta, a senhora desembolsa 115 euros. Recentemente, a juntar a este valor, acrescentou mais 50,14 euros, de medicamentos que lhe foram receitados: Calcitab, Exxiv, Alprazolam, Cerestabon, Anafranil, Ttryptizol, Ludiomil e Concor. Faço notar que este valor de 50,14 euros já beneficiou de todos os descontos que a sua doença e o valor da sua pensão permitem.



23 contos para viver um mês

Feitas as contas, depois de receber os seus 283 euros mensais, ter pago os 115 de consulta e os 50,14 de medicamentos, ficaram-lhe no bolso pouco mais de 117 euros, ou seja, 23 contos para comer, pagar água, luz, gás e outras despesas miúdas que aparecem sempre na vida das pessoas.

Este caso, que eu conheço e aqui dele dou notícia e testemunho, é apenas um entre centenas de milhares – ou deveria dizer milhões? – que me fazem, todos os dias, ter vergonha de ser cidadão deste país. Ao tomar conhecimento concreto de casos como este, sinto crescer cá dentro uma revolta enorme e, por muito mal que pareça, um ódio profundo por todos aqueles que, de 1975 para cá, governaram este país e a isto chegaram.






Governo paga (aos reformados) 13 euros
em 14 prestações de 90 cêntimos!


Já que estamos a falar em pensionistas, que dizer da ridícula decisão dos palhaços de serviço a este circo, de pagar a prestações o aumento das pensões relativo ao mês de Dezembro? Há casos em que esse valor se traduzirá em 14 prestações de 90 cêntimos! Seria para rir às gargalhadas, se não fosse tudo isto um sintoma trágico de que vivemos num país agonizante, sangrado por vampiros impiedosos e insaciáveis.


Tempos livres da escola na casa mortuária...





País onde, por exemplo, as crianças da escola do 1.º ciclo da povoação de Marinheiros, em Leiria, passam os seus tempos livres na casa mortuária lá do sítio, depois de terem sido despejadas do centro de tempos livres da Quinta da Matinha, que foi ocupado por alunos de outra escola.




... e escola com ratos no refeitório!





Face a isto, já nem sei se o que se passa na escola do 1.º Ciclo do Ensino Básico de Folgosa, em Viseu, é melhor, ou pior. A verdade é que os pais dos alunos fecharam as portas da escola a cadeado, em protesto pela falta de condições do refeitório onde as crianças almoçam. Queixam-se que o refeitório ocupa o hall de entrada da escola, local «onde faz muito frio e há ratos». Dizem que a louça tem de ser tapada, porque senão aparece com excrementos da rataria. Não tarda, temos a ministra da Educação a dizer que os pais, em vez de se queixarem, talvez devessem aproveitar os ratos para compor a ementa. No estado a que o país chegou, em que o governo se vê forçado a pagar 13 euros em 14 prestações de 90 cêntimos, comer ratos deve ser a medida que se segue.


Urgências, antecâmaras do cemitério

Sucedem-se as mortes nas urgências, porque o encerramento dos SAPs e a eliminação destes serviços em muitos hospitais, sobrelotam as urgências que ficaram. Crónicas de mortes anunciadas.


Albertina Fernandes Mendes tinha de 85 anos e morreu nas Urgências do Hospital de Aveiro, após quatro horas à espera de médico. O bastonário em exercício da Ordem dos Médicos, José Manuel Silva, responsabilizou o Governo e o primeiro-ministro pela morte da idosa, atribuindo-a «à errada política de Saúde do Governo», que leva à sobrecarga das Urgências. E respondeu assim, quando lhe perguntaram porque razão o Governo diz que está a melhorar o SNS:

«Não seria de esperar que, de qualquer Governo, viesse uma afirmação no sentido de destruir o Serviço Nacional de Saúde. Aquilo que o Governo diz, di-lo por razões políticas e quase por obrigação política. Não pode dizer que está a fazer as coisas erradas. Tem de dizer que está a fazer as coisas certas. Quem está no terreno, quem conhece os problemas da Saúde, quem se preocupa e analisa as coisas para além da demagogia política, não tem quaisquer dúvidas que o Serviço Nacional de Saúde está a ser progressivamente destruído. E mais. Eu considero até que existe neste momento um perigoso pacto de regime na área da Saúde». E explicou porquê: «Se nós assistimos ao facto dos grandes grupos económicos estarem a investir milhares de milhões de euros na área da Saúde e esperam naturalmente ter o mesmo nível de retribuição que em qualquer outro sector da economia, há uma coisa que têm de ter a certeza. Na área da Saúde não vai haver ciclos políticos. Ou seja, não vai aparecer no futuro nenhum Governo que altere esta política».


Mas, na área da saúde, as diatribes verificadas neste circo miserável e mal cheiroso não ficaram por aqui. José Carvalho Monteiro, de 76 anos, morreu nas Urgências do Hospital de Vila Real. Na véspera, mandaram-no para casa, depois de lhe terem ministrado um remédio para os vómitos. No dia seguinte teve de voltar ao hospital, desta vez para morrer nas Urgências, com uma linda pulseira amarela.


Recorde-se que, devido ao encerramento das Urgências de concelhos e cidades vizinhas, agora toda a população do distrito acorre a Vila Real.

Morreu, morreu, acabou-se. O espectáculo do Grande Circo Sócrates tem de continuar. Morra quem morrer. O que importa é o grande número do défice, e a apoteose final, o Tratado de Lisboa.


«Teve de arrastar-se até à morte»




O monstro da desumanidade é a imagem pricipal das políticas de Sócrates. Uma professora que sofre de cancro mas não pode reformar-se porque a reforma não chega para se sustentar e às suas filhas, diz tudo sobre Sócrates, os «socialistas» e quem os apoia.

Por isso, as mortes continuam: desta vez, foi Maria Cândida Pereira, a professora de Gouveia que sofria de cancro de pulmão e morreu sem que lhe fosse reduzida a componente lectiva.

Com 47 anos, divorciada e mãe de duas meninas, com 12 e 14 anos, a professora de Educação Visual e Tecnológica, solicitou a redução da carga horária, mas nunca chegou a pedir a reforma por incapacidade, porque a redução no salário não lhe permitiria sobreviver e sustentar a família. «Ela não tinha alternativa, com 60% do ordenado não conseguia viver, por isso, teve de se arrastar até à morte», disseram os seus colegas professores na Escola Básica 2/3 Ana de Castro Osório, em Mangualde, onde a vítima era docente há três anos.

Ri-te, Palhaço!


Ouviram, seus estupores, responsáveis (se é que há responsáveis em Portugal) por esta situação? Esta mulher arrastou-se a trabalhar até à morte, porque as pensões que são impostas ao português comum, não são iguais às bem nutridas que se cozinham para as sinistras troupes que, ao longo dos anos, legislam para si de uma maneira e, para o Zé, de outra.

Mas venha o quinto canal de televisão, com o lixo enlatado que as outras já servem, para encaixar mais uns palhaços sem jobs. E arranje-se maneira de assaltar o BCP, para que a promiscuidade entre o poder político e o poder económico passe a ser oficial, com anel de noivado e certidão a atestá-la.

E, sobretudo, não se deixe o povo saber porque razão a Justiça prendeu Paulo Pedroso, não vá alguém ir à lã e sair tosquiado.

Entretanto, conforme se provou ao longo destas linhas, o povo vai morrendo. De fome e de incúria. De miséria.

Por isso, ri-te, palhaço!

(Enquanto não te pedirmos contas…)

1.01.2008

O país de Sócrates - a tempestade aproxima-se

Nuvens negras pairam sobre Portugal e os portugueses.

O ano de 2008 vai trazer mais desemprego, mais fome,

mais miséria e mais desigualdades sociais.

Apobreza vai alastrar, mesmo entre os que (ainda) têm emprego

O pior ano das nossas vidas

Não é preciso ser-se muito atento ou observador para se perceber que este Natal e este Ano Novo foram ainda mais tristonhos e descoloridos do que os do ano passado, que já tinham sido bem piores do que os anteriores.

O desemprego e a falta de poder de compra deram as mãos e passearam-se pelas lojas que há muito deixaram de saber o que significa «não ter mãos a medir», enquanto os festejos de fim de ano quase se limitaram aos fogos de artifício nos locais do costume, ou a pacatas e sombrias esperas, no refúgio do lar, pelas 12 badaladas do costume.

É claro que uma certa franja da nossa sociedade, que nunca soube o que são necessidades – e até se tem dado optimamente com as políticas do «engenheiro» Sócrates – foi para onde costuma ir, gastou rios de dinheiro e, quando pediu um bom 2008, já tinha, à partida, a certeza que assim vai ser. Mas esses são os que estão do lado porreiro do fosso (cada vez mais largo) que separa pobres e remediados (de um lado) dos ricos e muitos ricos (do outro), e para quem a crise tem o condão de, em vez de emagrecer, engordar ainda mais.
O que eu vi, numa breve volta que dei no meu habitual mister de farejar o ambiente, foi que a alegria e a despreocupação de aqui há uns anos atrás, desapareceram quase completamente. Locais onde era habitual as pessoas reunirem-se para celebrarem a passagem do Ano Velho para o Ano Bom, ou estavam fechados, ou mais pareciam um velório. Nas ruas, quase ninguém circulava, e as poucas janelas iluminadas eram outra nota de que a tristeza e a desesperança vão alastrando por toda a parte.

A miséria e o luxo separados por uma rotunda



25 a 30% da população do distrito do Porto é pobre.

A "pobreza envergonhada" é a nova forma de pobreza emergente no distrito,

e reflecte, de um modo geral, o que se passa por todo o país.

Lembrei-me que, há poucos dias, soube-se que, só no Porto, há cerca de nove mil portugueses que vivem em casas, nas chamadas «ilhas» da cidade, onde «os telhados não impedem a chuva de corroer o mobiliário e onde os ratos são convidados indesejáveis, deixando marcas de mordidelas nas orelhas e caras das crianças». E faço notar que isto não são palavras minhas, mas retiradas da reportagem que oportunamente o Correio da Manhã ofereceu aos seus leitores. Nela se retrata toda a miséria e abandono a que parte da população está votada, não só pelo flagelo do desemprego, como por força dos baixos salários.

Mas o curioso desta reportagem é que, depois de mostrar como vivem milhares de portugueses na segunda mais importante cidade do país, o jornalista vai mais longe e diz:

«Ao atravessar a rotunda do Castelo do Queijo, ali mesmo ao lado, a realidade transfigura-se. É outro mundo, onde os BMW recolhem nas garagens das casas de dois milhões de euros, ou mais. Para quem passa pela avenida Brasil, na marginal da Foz, é impossível não reparar nas vistosas moradias.

Ali passamos das rendas de vinte euros para habitações cujo valor pode chegar aos cinco milhões. São casas de excepção e dão forma a uma realidade maior. Portugal é um dos países da União Europeia onde as desigualdades sociais mais se fazem sentir. Se na restante Europa os mais ricos ganham cinco vezes mais do que os mais pobres, em Portugal essa diferença é de 7,2, segundo dados da Eurostat».

Tudo aumenta em Janeiro

- e bem acima da inflação anunciada de 2,1%

Do pão ao gás, dos transportes às portagens,
das propinas à electricidade e à água, tudo vai aumentar
acima da inflação e levar na torrente os míseros aumentos de 2,1%

É este, cada vez mais, o país de Sócrates. E foi já a partir das primeiras horas deste ano que a vida de milhões de portugueses piorou. Aumentos garantidos – e quase todos muito acima da inflação – vão ter o pão (nalgumas regiões e em certas variedades o aumento foi de 30%), a água, os transportes, o gás, a electricidade, as portagens, a famigeradas taxas moderadoras, ou as propinas. O leite não precisou da passagem de ano para passar a pesar mais nos bolsos dos portugueses – o que equivale, em muitos casos, a pesar menos nos estômagos das famílias, especialmente no das crianças.

Continuando a dar provas da sua imensa desumanidade, o ministério da Saúde vai poupar, pelo menos, 330 milhões de euros, só em 2008. Chega-se a este valor com o encerramento dos Serviços de Atendimento Permanente e a diminuição das comparticipações. Com o fecho dos SAP, ficam nos cofres do Estado entre 25 a 30 milhões de euros, valor avançado pelo próprio ministro Correia de Campos, quando, em Maio, se pronunciou sobre os custos estimados dessas unidades de saúde em funcionamento.

A este valor soma-se uma verba de 150 milhões de euros, que não vão ser canalizados para a comparticipação de medicamentos, e outros 150 milhões de euros que não serão destinados à comparticipação dos meios de diagnóstico e terapêutico, como análises clínicas, Raios X, TACs e electrocardiogramas. Assim se brinca, criminosa e desumanamente, com a saúde dos portugueses.

Quinhentas portuguesas já deram á luz em Badajoz

No Hospital de Badajoz, quinhentas portuguesas já deram á luz,

após o encerramento da maternidade de Elvas.

E duas mil fazem ali o seu acompanhamento pré-natal


Entretanto, nasceu mais um bebé em plena auto-estrada que liga Figueira da Foz a Coimbra, o sétimo, desde que o ministro da Saúde encerrou a maternidade daquela cidade.
Outra notícia chama a minha atenção. Diz o DN: «Desde 5 de Junho de 2006, último dia em que funcionou o serviço de obstetrícia da maternidade de Elvas, que fazia mais de 200 partos/ano, meio milhar de crianças portuguesas já nasceram do lado de lá do Guadiana, e pelo menos 2.000 utentes já frequentaram o serviço e o aconselhamento pré-natal do Hospital do Perpétuo Socorro de Badajoz».

Na sala de espera do hospital, o repórter do DN ouviu coisas destas:
«A minha filha já cá teve o meu primeiro neto há um ano, agora venho cá com a outra, que está à espera de gémeos». E referindo-se à cidade: «Os preços são mais baratos, há mais gente, mais jovens, os hospitais são melhores, os cursos de medicina estão cheios de portugueses e muita gente já aqui procura trabalho, porque os ordenados são melhores e há mais emprego».

Um jovem agricultor de Terrugem, que acompanhava a mulher, referiu ao jornalista: «Há alguns meses que vimos cá, já que o nosso filho vai nascer aqui… Se gostava que ele nascesse na minha terra? Gostava, mas não me agradava que lá vivesse durante muito tempo. Talvez este seja um bom prenúncio…».

Não sei como é possível ser primeiro-ministro de Portugal – ou ministro da Saúde – e, perante este quadro, não corar de vergonha, já que não se quer mudar de política.


Nem com os saldos lá vamos




Mas abriu a época dos saldos. E aquilo que, há anos atrás, era um autêntico assalto às lojas, com filas enormes às portas, à espera da abertura, é hoje uma época normal, isto é, com pouca gente a entrar e ainda menos a comprar.

Bem se esforça o governo, através dos papagaios do costume, por desmentir a crise, fazendo constar que as compras de prendas, este Natal, foram superiores em cerca 5% às do ano passado. E como se conseguiu chegar a esta fantástica conclusão? Através dos pagamentos realizados com cartões de débito e crédito! Há coisas fantásticas, não há? Como se fosse possível saber-se, pelo volume de compras realizadas e pagas com esses cartões, qual o valor das prendas, do esparguete, das batatas, do pãozinho ou das bolachas de água e sal.

A verdade – e não é preciso ser-se nenhum génio para aqui se chegar – é que os portugueses compram mais no Natal porque receberam – os que receberam – o respectivo subsídio e reservam, tradicionalmente, esse montante para comprar algumas das coisas de que se privaram nos restantes meses do ano. Enfim, para a quadra não seja tão triste.

Por outro lado – e conforme aqui dissemos a semana passada – as dívidas das famílias portuguesas às instituições financeiras está a subir em flecha, sabendo-se que esta é, precisamente, uma época em que mais se recorre aos milagrosos cartõezinhos.
Bem podem, pois, o governo e PS encomendarem sondagens e mandar palrar os seus fiéis comentadores, que a realidade, nua e crua, aí está à vista de todos.
Por isso, desejar um bom ano de 2008 a quem se estima, por muito sincero que se esteja a ser, não passa de coisa vã, mero acto da liturgia da época.
O ano de 2008, meus amigos, vai ser um dos piores anos da nossa vida.

Fecho com palavras de Guerra Junqueiro, retratando o povo português, escritas no distante ano de 1896. Mas absolutamente actuais:

«Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas; um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional – reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta».

12.29.2007

Oferta de Ano Novo

«Um povo imbecilizado e resignado, humilde
macambúzio, fatalista e sonâmbulo...
que já nem com as orelhas é capaz de sacudir as moscas... »


Aos meus Amigos:

- Para que meditem.
- Para que interiorizem.
- Para que pratiquem, depois, a cidadania de forma participativa,
crítica e conscienciosa.
- Para que aprendam a não se deixar instrumentalizar.
- Para que não sejamos a «enorme e possante besta» que Erasmo de
Roterdão disse o povo ser, por tão docilmente se submeter aos
senhores do mando - transformados, hoje, em «democráticos»
aproveitadores da democracia, mas simples faxineiros dos
magnatas locais e globais.
- Para que, enfim, não mereçamos a expressão: «A melhor arma do
opressor, é a cabeça do oprimido»...

... ofereço-vos os textos que abaixo encontrarão, onde - os sérios e os lúcidos -detectarão estranhos sinais premonitórios ou, tão somente, a prova provada de que uma burrice atávica nos acompanha através dos séculos.

No fundo - e resumindo - eis uma boa descrição da actualidade. No fim, veja-se o autor. Insuspeito.

E que ninguém diga, depois, que não pensou logo em certos senhores. Em certos clãs. Em certas castas.

Deliciem-se.

" Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas; um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional - reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta (...)

Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta ate à medula, não descriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados (?) na vida íntima, descambam na vida pública em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira a falsificação, da violência ao roubo, donde provém que na politica portuguesa sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos,absolutamente inverosímeis no Limoeiro (...)

Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo; este criado de quarto do moderador; e este, finalmente, tornado absoluto pela abdicação unânime do pais, e exercido ao acaso da herança, pelo primeiro que sai dum ventre - como da roda duma lotaria.

A justiça ao arbítrio da Política, torcendo-lhe a vara aoponto de fazer dela saca-rolhas.

Dois partidos (...), sem ideias, sem planos, sem convicções, incapazes (...) vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos, iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero, e não se amalgando e fundindo, apesar disso, pela razão que alguém deu no parlamento, - de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar (...)"
Guerra Junqueiro, in «Pátria», escrito em 1896

Ele hoje, escreveria o mesmo,
mas ainda com mais revolta, acutilância e indignação

12.26.2007

Vara - o escândalo dentro do escândalo




Ali Babá


Tem sido entre o gozo e a indiferença que a opinião pública vai ouvindo falar do escândalo do BCP. Para que as reacções não sejam mais adequadas à realidade, muito tem contribuído a actuação de Jo Berardo, que se veste e fala como se de um português comum se tratasse, um de nós, sem tirar nem pôr, uma espécie de Zé Povinho com sorte. O capitalista bonzinho a atirar para o popularuncho. Aquele que faz os broncos pensar que, se tivessem trabalhado muito, também teriam lá chegado.

Contudo, o que se passa no maior banco privado português, é a prova exemplar daquilo que aqui temos dito muitas vezes a propósito do poder económico (e de como ele se sobrepõe ao poder político) e de como a justiça e as várias instituições, encarregadas de zelar pela salvaguarda das leis e do seu cumprimento, usam os chamados dois pesos e duas medidas.

De casaca e colarinho branco

Parece ser um facto indesmentível que foram praticados no BCP, pelo menos desde 1999, actos que apontam para graves crimes de natureza económica.

- A primeira pergunta que me ocorre, é como foi possível, durante oito longos anos, ninguém ter dado por nada, especialmente o Banco de Portugal e a Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM)?

- A segunda, é porque razão, levantada a lebre, a Polícia Judiciária não avançou para buscas nas residências dos senhores administradores e restantes elementos dos corpos sociais do BCP, desde 1999, levando atrás as televisões e demais comunicação social, para que víssemos, em directo, o arrombamento das portas e a detenção dos suspeitos?

- A terceira questão decorre das anteriores. Será que esses procedimentos não são adequados aos crimes de colarinho branco, mas apenas aos rufiões da Ribeira do Porto ou aos mafiosos de terceira do Apito Dourado?

Pelo que se viu, para suspeitos deste quilate, basta o senhor governador do Banco de Portugal, o socialista Vítor Constâncio, convocar os principais accionistas do BCP para o seu luxuoso gabinete e declarar-lhes que acha conveniente que os administradores e responsáveis pelos órgãos de fiscalização do banco, desde 1999, fiquem inibidos de exercer cargos em instituições financeiras (inclusive o ilustre banqueiro da Opus Dei, fugido para a Espanha após o 25 de Abril, e ali repescado por Mário Soares).


A oportuna miopia

Mas o Banco de Portugal fica muito mal neste retrato, depois de tantos anos de passiva conivência. A sua intervenção chega tarde e é praticamente virtual. Fica claro que só actuou quando já não podia mais fechar os olhos, dada a dimensão dos escândalos. Recordo que, há vários meses, a administração norte-americana abrira um processo contra a agência do BCP em Nova York, facto que o BP preferiu não ver.

O que sabemos, é que as trafulhices reveladas, tanto no offshore como no onshore lusitano, constituem apenas uma ponta do iceberg. E que elas, certamente, não são uma exclusividade do BCP…

Certo, sob o ponto de vista do interesse nacional, estava o governo que, em 1975, decidiu nacionalizar toda a banca portuguesa. A devolução, pela mão do PS, do sistema financeiro aos banqueiros, conduziu ao que agora se assiste. E o que vemos – os que querem ver – é que a banca privada não serve o país; serve-se dele para exauri-lo.


Endividamento das famílias
- disfarça a crise e enriquece os bancos

(Faço aqui um parênteses, para defender este ponto de vista com notícias recentes. Dizem elas que «por cada hora do mês de Outubro, o endividamento das famílias portuguesas, perante a Banca, aumentou mais de 1,5 milhões de euros. Ao fim de cada dia a soma atingia 38 milhões de euros. No final do mês as dívidas dos particulares ao banco aumentaram mais 1,18 mil milhões de euros, o que significa que o crédito bancário junto dos cidadãos já ultrapassa os 125 mil milhões de euros. Estes números são assustadores e revelam que há uma ‘bomba-relógio’ que pode explodir no dia em que parte significativa das famílias já não conseguir honrar os compromissos bancários. Os números do crédito malparado também acompanham a subida do crédito e já vai em 2,238 mil milhões de euros».

Assim, enquanto as políticas económicas levam os portugueses a endividarem-se para fazer face às suas necessidades mais elementares, iludindo, deste modo, a recessão instalada, os bancos aproveitam e enchem os cofres. Entre o fracasso da sua governação, os interesses dos bancos e a saúde financeira das famílias, já se viu que Sócrates e Teixeira dos Santos consideram que esta fuga para frente é a única solução. Fim de parênteses).

Vítor Constâncio e Teixeira dos Santos
- incompetência, ou conivência?

Voltemos ao pântano do BCP, onde, para além dos intocáveis banqueiros, há dois figurões que agem e falam como se nada fosse com eles. Um, como já se viu, é Vítor Constâncio, que está no BP desde 2002. O outro, é o actual ministro das Finanças, que presidiu à CMVM entre 2000 e 2005.

Assim sendo, parece que só restaria aos dois senhores alegarem razões de ordem pessoal e, rapidamente, desaparecerem de cena. É que, das duas, uma: ou foram altamente incompetentes nas suas funções; ou foram altamente coniventes com esta trapalhada toda.

O maná do PS


Um oportuno (como sempre) cartoon de Luís Afonso


Para além disto, um outro escândalo se perfila no horizonte. Desde sempre cúmplice dos grandes interesses financeiros deste país – o que não é o mesmo que defender-se o sistema financeiro essencial ao desenvolvimento económico e social do país, confusão que alguns, como Sócrates, gostam de fazer – o PS tem retirado gordos dividendos dessa opção. Como é sabido, tem vários boys e girls espalhados por tudo o que é empresa, fundação, organismo, instituto ou instituição de carácter público. A política é, para o PS, um autêntico maná.


Como alguns dos accionistas do BCP são empresas onde o Estado tem posição dominante, caso da CGD, presidida pelo socialista Santos Ferreira, e porque todos preferem que as ondas sejam poucas e baixas – ou nenhumas – nada melhor que resolver-se o imbróglio de modo a satisfazer o poder político (entenda-se: a clientela socialista), que, por sua vez, tudo fará para que ninguém se afogue ou saia muito sujo do lamaçal.


Deste modo, Santos Ferreira saltaria da CGD para o BCP, e todos ficariam contentes. Acontece, porém, que o PS perdeu o pouco que lhe restava de bom-senso. A sua fúria de abocanhar depressa o que há para abocanhar, nem lhe permite parar para pensar. Assim, para além de Santos Ferreira, quer também outro boy no poleiro do BCP. Nada mais, nada menos do que Armando Vara.
Olha quem!



Armando Vara!?
O mesmo Vara da FPS!?



Armando Vara, se este país não fosse o escarro que é, mas algo minimamente evoluído e regido por valores básicos de ética e decência, seria hoje (se não estivesse de quarentena no sítio indicado, pelas suas proezas como governante, especialmente aquela da famigerada Fundação para Prevenção e Segurança – FPS – que o povo logo baptizou de Fundos para o PS, e que levou Jorge Sampaio a impor a sua demissão) dizia eu que Vara seria hoje o que era quando se meteu na vida partidária: um simples funcionário da CGD, já que ali nunca passou de um mero caixa num escondido balcão de Trás-os-Montes.

Mas não. Porque a política em Portugal é assim mesmo – e quando interpretada pelo PS ainda é pior – o pardacento e anónimo ex-caixa da CGD, encontrou no PS a lanterna mágica de Aladino. De facto, depois de ministro, demitido por indecente e má figura, foi promovido de caixa a director da CGD e, num abrir e fechar de olhos, de director a administrador.




Não nos iludamos. Ali Bábá não é uma lenda.

Nem os quarenta (só?) ladrões.