6.01.2009

Os corruptos



Histórias feias de uma democracia emporcalhada


Mário Crespo escreveu há dias, a propósito da nova lei do financiamento partidário, um artigo intitulado «Não é a crise que nos destrói. É o dinheiro», do qual não resisto a salientar as seguintes passagens:


«Nada no mundo me faria revelar o nome de quem relatou este episódio. É oportuno divulgá-lo agora, porque o parlamento abriu as comportas do dinheiro vivo para o financiamento dos partidos. O que vou descrever foi-me contado na primeira pessoa. Passou-se na década de oitenta. Estando a haver grande dificuldade na aprovação de um projecto, foi sugerido a uma empresária que um donativo partidário resolveria a situação. O que a surpreendeu foi a frontalidade da proposta e o montante pedido. Ela tinha tentado mover influências entre os seus conhecimentos para desbloquear uma tramitação emperrada num labirinto burocrático, e foi-lhe dito, sem rodeios, que se desse um donativo de cem mil contos "ao partido", o projecto seria aprovado. O proponente desta troca de favores tinha enorme influência na vida nacional. Seguiu-se uma fase de regateio, que durou alguns dias. Sem avançar nenhuma contraproposta, a empresária disse que por esse dinheiro o projecto deixaria de ser rentável e ela seria forçada a desistir. Aí, o montante exigido começou a baixar muito rapidamente. Chegou aos quinze mil contos, com uma irritada referência de que era "pegar ou largar". Para apressar as coisas e numa manifestação de poder, nas últimas fases da negociação o político facilitador surpreendeu novamente a empresária, trazendo consigo aos encontros um colega de partido, pessoa muito conhecida e bem colocada no aparelho do Estado. Este segundo elemento mostrou estar a par de tudo. Acertado o preço, foram dadas à empresária instruções muito específicas. O donativo para o partido seria feito em dinheiro vivo, com os quinze mil contos em notas de mil escudos, divididos em três lotes de cinco mil. Tudo numa pasta. A entrega foi feita dentro do carro da empresária. Um dos políticos estava sentado no banco do passageiro, o outro no banco de trás. O da frente recebeu a pasta, abriu-a, tirou um dos maços de cinco mil contos e passou-a para trás, dizendo que cinco mil seriam para cada um deles e cinco mil seriam entregues ao partido. O projecto foi aprovado nessa semana. Cumpria-se a velha tradição de extorsão que se tornou norma em Portugal e que nesses idos de oitenta abrangia todo o aparelho de Estado.


Rui Mateus no seu livro, Memórias de um PS desconhecido (D. Quixote 1996), descreve extensivamente os mecanismos de financiamento partidário, incluindo o uso de contas em off shore (por exemplo na Compagnie Financière Espírito Santo da Suíça - pags. 276, 277) para onde eram remetidas avultadas entregas em dinheiro vivo. Estamos portanto face a uma cultura de impunidade que se entranhou na nossa vida pública e que o aparelho político não está interessado em extirpar
».

Se alguém julga impossível esta história, imaginando-a patranha de um jornalista pouco sério, posso assegurar-vos que, para mim, ela não traz nada de novo. Há anos, um querido amigo, já falecido, quadro superior numa grande empresa de obras públicas, foi encarregado de encontrar local onde pudessem ser despejadas as terras provenientes de um grande empreendimento que estava a ser realizado em Lisboa pela sua empresa. Contactados vários municípios dos arredores da capital, logo se prontificou o presidente de um deles a receber as terras, mas exigindo um donativo de 10 mil contos para, alegadamente, ser construída uma sede do seu partido.


Face à situação, a empresa aceitou a exigência, e o valor foi pago em dinheiro vivo, em duas tranches de 5 mil contos, sendo a primeira entregue pelo meu amigo a um assessor do presidente da autarquia, e a segunda entregue ao mesmo cavalheiro por um administrador da empresa.


Noutra ocasião, um conhecido empreiteiro da península de Setúbal confidenciou-me que estava com sérias dificuldades para conseguir a aprovação de um projecto de urbanização, apesar de ter entregue a sua execução a um gabinete de arquitectura sugerido por um alto quadro dos serviços de urbanismo da câmara local, que lhe garantiu que isso iria «facilitar a aprovação». Devo acrescentar que esse gabinete de arquitectura pertencera ao referido técnico camarário, do qual aparentemente se desvinculara para evitar especulações.


As coisas começaram a azedar quando o tal gabinete de arquitectura informou que o pagamento da execução do projecto seria feito metade em dinheiro, passando o respectivo recibo, e a outra metade com a cedência de um lote, sem qualquer recibo. Em contrapartida, seria permitido o aumento da área de construção, através da elevação de mais um piso, ao que equivalia mais uma assoalhada, do tipo estúdio, por inquilino.


Mas o pior foi quando lhe disseram que tudo ainda estaria condicionado ao aumento da área de cedência à câmara, pois o terreno era insuficiente para a construção pretendida. Aí, milagrosamente, a própria autarquia encontrou a devida solução. Mesmo ao lado, confinando com a urbanização do empreiteiro, estava um terreno, por acaso da família de um senhor vereador, que dispunha de terreno a mais. Feitos os contactos, ficou a saber-se que o negócio podia ser feito, mas com a condição de o terreno ser transaccionado por 100 mil contos, dos quais só se passaria, no entanto, um recibo de 50 mil.


Com o investimento feito, só restava ao empreiteiro aceitar, e de bico calado, pois a alternativa era o prejuízo total, com o terreno às moscas. Devo acrescentar que, na minha santa inocência, lhe perguntei se me autorizava a denunciar a situação no jornal Outra Banda, que então dirigia, mas pediu-me, por todos os anjinhos, que não o fizesse, pois se isso acontecesse nunca mais teria um projecto aprovado no concelho em causa.


Calei-me, na altura, por não ter o direito de agir contra a vontade de quem confiara em mim e, num desabafo, lamentara o lodaçal onde se tinha deixado atascar. Mas, falando em termos gerais, contei no local próprio e à frente das pessoas certas, uma estranha história que tinha ouvido algures. E querem saber uma coisa? Em duas semanas o projecto estava aprovado!


Há dias, uma amiga avisou-me para os perigos resultantes do que escrevo, pedindo-me para ter cuidado. Estranho aviso. Fez-me recordar os tempos de antigamente, quando os amigos ou a família avisavam para a necessidade de não erguer a voz, de calar a revolta, de não tocar no sistema instalado. Essa amiga, que estimo muito, avivou-me, na memória, os ecos de então. Percebo-a, agradeço-lhe, mas não lhe vou obedecer. As histórias verídicas que hoje aqui contei, sem pormenores, têm nomes, caras, datas, documentos, testemunhas. São histórias sujas de uma democracia porca – porque foi emporcalhada por senhores de colarinho branco – transformada num regime sem moral, sem valores, sem vergonha.


Um dia, quando for oportuno, as contarei – estas e outras – sem hesitar. Para resgatar Abril e as suas esperanças. Porque no 25 de Abril que vivi há mais de 34 anos, não cabia gente desta. Nem no mais negro dos sonhos.


E se eu não estiver cá para as contar – seja lá porque motivos forem – alguém as contará por mim. E, com toda a certeza, melhor do que eu.

5.28.2009

Freeport, Freeports

A corrupção é um monstro que ameaça a nossa vida colectiva.
Que nos devora. É, também, o óleo que lubrifica
tudo o que é negócio público ou privado.
Freeportes há muitos, seus palermas!



Um grupo de 23 alemães endinheirados propôs que as pessoas com um rendimento anual superior a 500 mil euros paguem, neste e no próximo ano, um imposto extra de 5%.


Não é grande oferta, especialmente porque limitada no tempo, mas vai, apesar disso, em sentido contrário ao que os patos-bravos cá do sítio defendem. Realmente, por aqui é precisamente o inverso: de Vítor Constâncio a Belmiro de Azevedo, de Silva Lopes a Américo Amorim, de qualquer ex-ministro das finanças ao presidente das associações patronais, um tal Francisco van Zeller, todos defendem, com a concordância operacional do governo, a manutenção dos seus privilégios, e que paguem a crise aqueles que trabalham. Acima de tudo, defendem a contenção – ou, até, a redução – salarial para a generalidade dos trabalhadores, salvo para eles próprios e para as suas respectivas seitas. A recente tentativa, atrapalhadamente sustida, de os administradores glutões do Banco de Portugal se voltarem a aumentar, é prova dessa mentalidade imoral.


Posso garantir, com a autoridade que a minha experiência de vida me dá, a par da excelente memória que tenho, que neste regime – de democrata e republicano enganosamente chamado – tal como no regime anterior, de Salazar e Marcelo, se pensa e se age, em termos de políticas económicas e sociais, exactamente da mesma maneira. Nesse aspecto, como em quase todos os outros, nada mudou. Ou melhor. Tudo está a voltar, aceleradamente, ao mesmo. E se quisesse acrescentar que hoje se fecham escolas e serviços de saúde onde antigamente se abriam, poderia fazê-lo sem correr o risco de me chamarem aldrabão ou coisa pior.


Digo – repetindo o que tenho dito noutras ocasiões – que nada distingue, em termos de governação da coisa pública, estes democratas dos outros ditadores. Sempre se pediram sacrifícios ao povo, fosse por causa da crise existente, fosse para pagar os custos de uma crise passada, fosse para evitar uma crise futura. Uma receita velha e gasta, mas sempre eficazmente mantida e aplicada, seja pela força do bastão, seja pela manipulação habilidosa das consciências, seja por acéfalas submissões partidárias.


Vivemos perdidos no meio de um círculo vicioso que urge romper, se queremos, como é próprio de uma verdadeira democracia e de um regime republicano, ser donos do nosso próprio destino. Devemos perceber que não é só pelo voto que lá vamos. É pela intervenção cívica e cidadã, é pela afirmação pública e permanente dos nossos direitos e garantias, é pela exigência da aplicação prática e efectiva das disposições constitucionais, é pela indignação publicamente manifestada, é pela denúncia dos desmandos praticados a todos os níveis do poder, é pela capacidade de afrontarmos, de todas as formas, um sistema onde se encavalitou uma corja de oportunistas, corruptos, parasitas e outros estafermos, todos agarrados às tetas de uma porca, que outra coisa já não é a política dos nossos tempos.


O que estou a dizer é que o poder político, nos dias que correm, está tão distanciado das populações – e contra elas tão virado – como o estava antes do 25 de Abril. Do alto do seu poder, conferido pelo voto, os políticos não cuidam de servir as populações, mas de manter o cargo e, através dele, servirem-se, servirem a força política em que se estribaram (para não perderem a confiança política), cuidarem do seu futuro e, periodicamente, em épocas que antecedem os períodos eleitorais, tratarem de descer até à ralé, sem gravata e com ar desportivo, para impingirem as mesmas tretas que impingiram há quatro anos atrás. E toca a andar, que já enganámos mais estes…


Na maior parte dos casos – porque há, aqui ou ali, honrosas excepções – suas excelências incharam com o poder recebido e já se imaginam seres soberanos e inquestionáveis. Porque podem decidir, utilizam os cargos para distribuir benesses nos colos convenientes, compram cumplicidades, traficam influências, subornam e corrompem. As populações e os seus interesses deixaram de ser uma preocupação, mas apenas um pretexto e um meio para se decidirem negócios e negociatas, onde os diferentes clãs se amanham e sequiosamente se abastecem. E para melhor o fazerem – e só por isso – se acotovelam e insultam.


Há dias, pessoa amiga perguntava-me se eu não estranhava que num escândalo tão grande, como é o caso do Freeport, os partidos políticos se mantivessem tão discretos, tão cautelosos, tão pouco agressivos e exigentes na descoberta da verdade. Respondi-lhe que não, que não estranhava. No fundo, em maior ou menos escala, Freeportes é o que por aí mais há. Nenhum, que se saiba, com tão grandes dimensões como o de Alcochete, mas tudo é negociável e sujeito a um convite à lubrificação de uns quanto por cento. Do mero estaleiro de construção civil, permitido em terreno agrícola, ao famoso empreendimento inglês, passando por grandes urbanizações, em tudo se estabelece um toma-lá-dá-cá desavergonhado, onde, em boa verdade, se esbatem as diferenças ideológicas, os valores a ética e a honra.
Como referi na crónica anterior, passam-se coisas, em Portugal (sem que ninguém se demita, seja demitido ou vá preso), que têm, em qualquer país da Europa, consequências bem diferentes.


Dois exemplos:


O primeiro-ministro belga, Yves Leterme, propôs, em 19 de Dezembro do ano passado, a demissão de todo o Governo, na sequência de acusações de alegadas (alegadas, note-se!) pressões sobre a justiça. Leterme negou qualquer pressão sobre o poder judiciário, mas admitiu ter feito «contactos»;


Michael Martin, presidente da Câmara dos Comuns, anunciou em 19 de Maio, a demissão, após acusações de alegadamente (alegadamente, também, note-se) ter consentido alegados (só alegados) abusos nas despesas de representação de alguns deputados; e dois membros da Câmara dos Lordes foram suspensos por, alegadamente (só alegadamente, volte a notar-se), terem aceitado dinheiro para votar projectos de lei.


Nenhum deles tinha sido (note-se de novo) condenado por sentença transitada em julgado, e mesmo assim (abra-se a boca de pasmo), tiraram consequências políticas de alegações fundamentadas que os visavam. Então e aquela coisa da “presunção de inocência”, que, cá no burgo, é tão útil – e utilizada? Serão as democracias belga e inglesa que têm muito a aprender com a nossa, ou falta-lhes comer, como dizia o outro, muita papa Maizena para chegarem aos calcanhares da democracia portuguesa?


José Saramago escreveu, há dias, que a explicação para o facto de Berlusconi estar no poder, é porque metade de Itália é como ele, e a outra metade gostaria de ser.
Pergunto eu: será que os portugueses já são todos como Sócrates?


Eu não sou. E você?

4.19.2009

Abril das mágoas mil

Trinta e cinco anos após o 25 de Abril, a «democracia» reinante
fomenta as dádivas de alimentos como meio de matar a fome
a milhões de portugueses. O trabalhao e o pão não são direitos
efectivos do povo português, de estarem consignados na Constituição.



Abril das mágoas mil


Há cinco anos, precisamente no dia 22 de Abril de 2004, no editorial do jornal Outra Banda, que então dirigia, escrevi o seguinte texto:


«Sou dos que não alinham no foguetório que saúda cada aniversário do 25 de Abril, embora compreenda, apesar de tudo, as boas intenções de quem o lança. Não consigo festejar Abril, quando o que dele resta é o voto e uma ilusória sensação de liberdade de expressão, no fundo pouco mais do que a estafada e quase inútil conversa de café. Não consigo festejar memórias ou vestígios.


Do voto, não duvido que é, cada vez mais, a certidão de óbito da nossa cidadania, e que não serve para outra coisa que não seja a de legitimar as práticas políticas daqueles que, encaixados no partidos do sistema, vão encontrando sucessivas maneiras – e desculpas – para extorquirem a mais de nove milhões de portugueses o necessário para que as grandes fortunas, filhas dos grandes negócios, continuem no mar de abastança em que já nadavam antes do 25 de Abril. E o resto é paisagem.


Da liberdade de expressão, cada vez mais condicionada pela ressuscitada noção de que não é saudável afrontar os poderosos, restam desabafos limitados pelo sentido das conveniências, pois manter um emprego – ou consegui-lo – pode depender de sermos, ou não, pessoas dispostas a nos sujeitarmos à velha ordem natural das coisas. Em lugar da Censura, aí está, pujante, a auto-censura. Domesticados éramos, domesticados somos.


Do voto, suspeite-se somente que vai pender para quem defende uma sociedade justa, onde todos tenham o direito – e a obrigação – de trabalhar e, pelo seu trabalho, receber a justa paga; e que ligado a isso, todos – todas as pessoas e todas as empresas – tenham perante o Estado as mesmas responsabilidades, direitos e deveres (incluindo os fiscais), de modo a que a todos seja garantido uma existência segura, digna e feliz, e logo veremos como o sacrossanto voto deixa de valer, e como a democracia logo se desmascara e se vê a ditadura que lhe está nas veias. Democracia, democracia, poder económico à parte.


Da liberdade de expressão, imagine-se apenas que alguém conseguia ser um novo Messias e levar a esperança aos que a não têm, e, mais do que a esperança, a certeza de que, todos juntos, poderíamos construir um país novo, justo e solidário, e logo se veria como uma nova PIDE aí estaria para pregar na cruz o atrevido.


No 25 de Abril que eu vivi, não cabiam a fome, nem o desemprego, nem as listas de espera, nem a opulência feita à custa da miséria alheia. No meu 25 de Abril, não há lugar para os políticos de carreira, com ordenados chorudos e reformas obscenas, profissionais do embuste e do oportunismo, parasitas de um povo que continua tão vampirizado como o era até há trinta anos.


E quando o meu país se torna cúmplice activo de uma guerra colonial – de descarada pilhagem e sangrenta ocupação – convictamente vos digo que já nada distingue estes “democratas” dos outros ditadores.»


Estas palavras, escrevi-as eu há cinco anos atrás, na edição número 333 do extinto Outra Banda. Hoje, nem uma palavra retiraria ao que então escrevi. Pelo contrário: várias outras, e bem piores, lhes poderei acrescentar.


Com o «socialismo» de Sócrates e do PS, aumentou o desemprego, a precariedade de emprego é a regra, os salários em atraso são o pão nosso de cada dia, diminuíram as reformas, os salários perderam ainda mais poder de compra, aumentou a criminalidade, a corrupção é uma forma de vida e de governo, o Ensino conhece os seus piores dias após o 25 de Abril, a Saúde deixou de ser um direito (porque se transformou num negócio), as desigualdades sociais acentuaram-se, o número de pobres ultrapassa os dois milhões de há três anos, e a Justiça passou a ser uma anedota, onde o poder político mete o bedelho para o pressionar e controlar a seu bel-prazer.


Fecham-se escolas às centenas, tal como maternidades e urgências hospitalares. Aumentam-se as taxas moderadoras e os medicamentos, mas reduz-se a lista dos que são comparticipados. O acesso fácil à Justiça é só para os ricos.


A classe dominante, uma mistura promíscua de políticos e altos empresários, troca favores e interesses por cima e por debaixo da mesa, e a Justiça, forte e exigente para com a arraia-miúda, é completamente cega, surda, muda e paraplégica quando confrontada com a alta corrupção reinante.


Obriga-se o povo a pagar os desfalques no sistema financeiro, onde se injectam milhões saídos dos nossos impostos, milhões que depois nos emprestam com juros de verdadeiros agiotas.


A economia está entregue à lógica do regateio e da especulação, e a estes interesses se curvam os legisladores e o aparelho do Estado. A administração pública está enxameada pelos amigos, familiares e esbirros da facção de momento no poder, e aí se conseguem, sem custo, vantagens e mordomias para o resto da vida.


E enquanto se obriga os portugueses a apertarem o cinto, continua a apoiar-se o esforça de guerra do imperialismo, enviando tropas para qualquer parte do mundo que nos seja apontado. O Iraque de hoje é uma ruína, comparado com o Iraque próspero de Saddam, e o seu petróleo é sugado directamente para as grandes petrolíferas ocidentais, com as vénias dos governantes fantoches que os invasores lá colocaram. Nisto fomos – e continuamos a ser – cúmplices activos, servis e obrigados.


Fechada no castelo do poder, a casta dominante – constituída pelo poder económico e a classe política, confundidos num só trono – governa o feudo como sempre fez: impondo à maioria restrições e sacrifícios dos quais a si própria se isenta.


Se contra tudo isto se fez, com lágrimas de alegria e cravos de festa e esperança, o 25 de Abril, quem pode, em seu perfeito juízo, agora festejá-lo?


Não! Este Abril que vivemos já não é de festa. É um Abril de mágoas mil. E, por isso mesmo, de luta e indignação.


E de revolta.

4.13.2009

Portugal, hoje em dia...



Portugal, hoje em dia…
(foto triste, com soneto)


Jardim à beira-mar, foste chamado,
agora, cemitério é o teu nome,
depois de carcomido pela fome
e por novos barões acorrentado.

Um povo adormecido, descuidado,
um come e cala (ou porque cala, come);
e enquanto isso, o Poder, incólume
enche a barriga e ri-se, desbragado.

Corruptos, pedófilos, ladrões,
saltam dos bancos para a governança
e dela para os bancos, comilões.

Enchem a mula sem qualquer temp’rança,
e tu, povo carneiro, sem colhões,
pagas, sem um berro, esta festança

4.12.2009

Israel - Um retrato de hoje



NAZISMO E SIONISMO - Uma só escola
Uma t-shirt ostentando uma palestina grávida sob uma alça de mira e a inscrição "Um tiro duas mortes", foi a imagem escolhida por snipers (atiradores de elite) da infantaria israelense. Outras t-shirts exibem bebés mortos, mães a chorarem sobre os túmulos dos seus filhos, armas apontadas a crianças e mesquitas bombardeadas.
Há uma loja em Tel Aviv especializada em imprimir as ditas t-shirts, e cada pelotão escolhe a imagem que vai usar. As atrocidades praticadas pela entidade nazi-sionista já não são escondidas – são mesmo exibidas.
A Alemanha Nazi foi uma boa escola para os sionistas.

4.04.2009

Partido Socialista - A pocilga

O triunfo dos porcos já dura há tempo demais.
Dos porcos, enquanto metáfora.
Que os porcos, os verdadeiros,
merecem respeito, simpatia e ração.
Pocilga, 5 de Abril de 2002
Estou aflito.

Jornais, rádio, televisão (todos eles controlados por gente insuspeita de pertencer a tenebrosas forças de esquerda, totalitárias e etc e tal), só falam de uma coisa - ou, principalmente, de uma coisa: o Caso Freeport.

Todos os dias, um dado novo. Hoje, foi o ministro Alberto Costa, personagem que, em Macau, passou por um aviltante processo de demissão, dado que se prestou ao que, agora, se garante que terá prestado. Puta velha, portanto.

Depois, é o caso de corrupção na Câmara da Amadora (socialista, claro), que mete a mamã de Sócrates e uma dama, de apelido Vara (socialista, ora bem) que já havia estado metida no processo Freeport. Se querem fazer uma ponte Chelas-Barreiro, bem podiam aproveitar esta: Amadora-Alcochete. É toda ela cor-de-rosa. Linda!

Quanto a mim, nenhuma dúvida tenho sobre o que se passou. Só se fosse cego, surdo e, ainda por cima, burro que nem um portão de quinta. Louro, para rematar. Ou, então, um socretino dos quatro costados.

No fundo, dou por mim a pensar se haverá alguém sério no PS.

Só se for o Melancia... Ou, então, o Abílio Curto. Talvez a Fátima Felgueiras, não acham? Ou o Armando Vara. Ou o Jorge Coelho, mais conhecido pelo Senhor Cinco por Cento. Ou o José Morais, o tal professor que passou Sócrates a várias disciplinas, por atacado, e que Sócrates nunca conheceu. Ou o próprio Zezito, também conhecido por Sócrates.

E de pedófilos, nem quero falar...

SOCORRO!

3.29.2009

Sócrates - a lenta agonia

O inacreditável artigo de Marinho Pinto, em defesa desesperada a Sócrates,
acabou com o Bastonário e pregou mais um prego no caixão de «engenheiro».
Olhando para a floresta, mas pondo-se a falar de palitos,
Marinho Pinto encheu-se de ridículo e, sem querer, mostrou que Sócrates não tem defesa.


Os testículos do doutor Marinho
e outras miudezas


O doutor Marinho Pinto, bastonário da Ordem dos Advogados, habituou o país à sua frontalidade. Andam por aí as suas frases mais célebres, onde põe em causa a Justiça e podres diversos desta democracia pindérica e alvar. Não me custa dizer que subscreveria a maioria dessas tiradas, embora outras delas, pelo seu conteúdo, me cheirassem a qualquer coisa que não batia certo. Ou seja: parecia-me haver por ali um excesso de deslumbramento consigo próprio, que o levava a ser mais papista que o Papa. Um certo contestar gratuito, cheio de ideias peregrinas, um afinar extremista por causas duvidosas. Mas, enfim, de um modo geral, agradava-me aquilo que o senhor dizia, por ser uma pedrada no charco. Até se comentava, por aí, que o homem os tinha no sítio.

Claro que esse arrojo haveria de lhe arranjar alguns problemas. E foi o que aconteceu. Guerra no galinheiro – isto é: na Ordem –, ameaças de processos judiciais, contestação generalizada ao nível dos poderes, e por aí fora. Talvez por isso, durante algum tempo arrecadou a voz. Estranhei, mas pensei que tivesse esgotado os temas. Acontece, algumas vezes, a quem tem muita pressa em dizer tudo e uma ainda maior dificuldade em estar calado.

Agora, reapareceu o doutor Marinho Pinto com uma assombrosa afirmação: a carta anónima que envolveu Sócrates no escabroso processo Freeport, não era, afinal, anónima, mas resultado de um conluio entre o denunciante a alguém dentro da Polícia Judiciária. Ou seja: foi combinada a maneira de fazer a denúncia. E embora isto não tenha sido dito, resultaria daqui que, assim sendo, tudo não passava realmente de uma cabala e, portanto, os milhões do Freeport nunca existiram. Nem o tio de Sócrates; nem o primo de Sócrates, nem a Smith & Pedro; nem os escritórios de advogados; nem a polícia inglesa e todos os dados de que dispõe. E nem outras coisas que adiante veremos.

Ao ouvir isto, lembrei-me de Valentim Loureiro e de Pinto da Costa, que nunca contestaram o teor das escutas telefónicas, mas sim a maneira como teriam sido feitas. Queriam eles dizer, lá na deles, que, tendo dito o que disseram, afinal nada tinham dito, porque não foram escutados conforme a lei exigiria. E digo isto com o devido respeito, porque comparar o doutor Marinho Pinto às duas figuras que citei, pode parecer desprestigiante para o senhor bastonário. E é também com o devido respeito que confesso ter sentido uma pancada no estômago quando soube das suas declarações, tendo sido logo assaltado por uma ideia – certamente malévola – que traduzo assim: Pronto! Lá apertaram os testículos ao homem!

Realmente, ninguém ignora as inúmeras pressões que Sócrates e o PS estão a exercer sobre tudo e todos para que o Freeport e demais trapalhadas em que o «engenheiro» que a UNI licenciou a um domingo está metido, sejam rapidamente abafados. Não me custa crer que Marinho Pinto, notoriamente egocêntrico e – ainda mais notoriamente – ambicioso, tenha sido informado, por qualquer Augusto Santos Silva, sobre a necessidade de sair em defesa de quem o pode livrar de aborrecimentos e, principalmente, lhe pode abrir as portas de uma actividade política almejada. Daí – digo eu – o incompreensível artigo sobre a forma da denúncia, como se isso fosse o cerne de toda a questão e não, como até o mais lerdo dos indivíduos deduz, o dinheirinho que escorreu de Inglaterra para Portugal e ao bolso de quem foi parar. Pareceu-me, por isso, que houve ali frete encomendado. Ou que, se o não foi, aconteceu coisa ainda pior, do tipo uma lambidela sabuja ao poder reinante.

Tudo isto, é claro, me vem à cabeça, pois não tem ela – a minha cabeça – outra explicação para que um reputado causídico, de repente, pareça ter perdido o siso e, olhando para a floresta, se ponha a falar de palitos. Se não entonteceu, então anda ali mãozinha cor-de-rosa. Mas desculpem-me todos – e, principalmente, o doutor Marinho – se estou enganado. Limitei-me a dizer o que penso.

Estávamos nós – que é como quem diz: eu – nesta meditação deprimente, quando salta de lá a Manuela Moura Guedes mais o vídeo onde Sócrates é rotulado de corrupto. Com todas as letras. Aí, meus amigos, só não saltei como salto quando o meu clube marca um golo, porque já sabia – e já aqui o afirmei sem rodeios – que Sócrates está a ser cozinhado em fogo lento. Como, aliás, merece.

De resto, parece claro que já ninguém duvida que Sócrates está a dar as últimas. Segundo gente ligada ao próprio PS, há algum tempo que a sua sucessão está a ser preparada. O que está em causa, neste momento, já não é a permanência do «engenheiro» à frente do PS e do governo, mas a sua saída airosa e com poucos custos políticos. Coisa difícil de conseguir, não só pela natureza dos vários escândalos que têm Sócrates como actor principal, mas porque a luta pela sucessão está acesa entre as várias facções no partido. Porque nem só de Socretinos vive o PS.

E convém aqui recordar o que já aqui disse há umas semanas atrás, quando referi que grande parte do que vem a público tem origem dentro do próprio Partido Socialista. Pois… é isso mesmo, a luta surda pelo poder, onde António Costa (excelentemente retratado no papel de Judas, numa paródia à Última Ceia, que por aí anda a circular, e onde Sócrates faz de Cristo) está a ter um papel relevante.

É claro que a última palavra competirá à Justiça. E essa, a Justiça, vive dias difíceis, especialmente desde que o PS chegou ao poder. A D. Cândida Almeida, senhora socialista de fortes laços e abraços a Mário Soares e a Almeida Santos, e que lidera a investigação do caso Freeport, declarou, entre outras coisas surpreendentes, que não sabe do famoso vídeo, onde Sócrates é claramente incriminado, nem quer saber. Quase que me apetece dizer: pudera!

Ao mesmo tempo, notícias inquietantes dizem-nos que os magistrados ligados ao caso Freeport estão a ser pressionados e coagidos a não fazer o que lhes compete fazer, sofrendo, até, ameaças às suas carreiras. É-lhes claramente sugerido que arquivem o processo. Pergunta que logo se impõe: será o arquivamento a única maneira de salvar Sócrates desta gigantesca enrascada? Pelos vistos…

No fim desta história, veremos, então, quem tem testículos e não os deixa apertar, ou quem, em seu lugar, apenas tem miudezas facilmente (de)capáveis.

Estranha – ou talvez não – é a posição dos partidos da oposição, muito cautelosos e cheios de palavras pias e outras delicadezas politicamente correctas. E, das duas, uma: ou já estão fartos de saber que, daqui para diante, a Sócrates só resta escorregar para o abismo; ou preferem não deitar mais achas para a fogueira, não vá ainda alguém mais sair chamuscado.

Ou – quem sabe? – as duas coisas ao mesmo tempo.

2.27.2009

Cavaco Silva - pedir-lhe a lua


Porque me custa que um homem tido por íntegro - e que é Presidente da República - se cale perante as diatribes de um homem e de um partido (Sócrates e o PS) que, todos os dias afundam o país num lodaçal de escândalos e penúria, tive a veleidade de a ele me dirigir, pedindo-lhe que me dissesse de sua justiça. Sei que lhe pedi a lua, mas pedir não é crime. Eis a carta que lhe enviei.
Exmo. Senhor
Presidente da República


Tenho ouvido, por várias vezes, V. Exa. apelar aos portugueses para que enfrentem as dificuldades com coragem e optimismo, com espírito positivo, lutando contra as adversidades sem queixumes e desânimos, rematando, quase sempre, com a conclusão de que só assim, com esse espírito, se conseguirá vencer a crise e ultrapassar os tempos difíceis que vivemos e, principalmente, os que aí vêm.

Deixe-me dizer-lhe que oiço palavras e apelos como esses há muitos anos. Ouvi-os de Salazar, ouvi-os de Marcelo Caetano, ouvia-os de Mário Soares, ouvi-os de todos os outros que, até hoje, se têm sentado nos cadeirões de Belém e de S. Bento. De V. Exa., inclusive, quando lhe foram confiadas as rédeas da governação, aqui há uns anos.

Compreendo que, ao falar em dificuldades, não possa V. Exa. enumerar cada uma delas – e muitas são, como sabemos – pelo que a abstracção poderá, com alguma boa-vontade, justificar-se. Compreendo, também, que no curto espaço de que dispõe para falar ao país, não possa explicar-nos a razão dessas dificuldades, as suas causas próximas e remotas. Ou – quem sabe? – talvez prefira não as enumerar, pois isso negaria, eventualmente, a visão oficial sobre os problemas existentes, o mesmo é dizer-se: poria em causa o sistema que lhe permitiu, um dia, ser primeiro-ministro, e permite, agora, ser presidente da República. Precisando: poria em causa a ideologia dominante e o sistema económico que lhe está na génese.

Talvez por isso, quando V. Exa. fala em problemas concretos como o desemprego, a larga franja de famílias carenciadas, as desigualdades sociais e outras chagas do género (poderia, mesmo, falar em miséria, que não lhe ficaria nada mal fazê-lo), fica-se sempre a pensar, das suas palavras, que estes problemas são, em parte, fruto do acaso, coisas de combustão espontânea ou, quando muito, consequência de inocentes e pontuais erros da governação. E que, para serem vencidos, basta que para aí uns quantos milhões de portugueses se deitem ao trabalho com unhas e dentes, de cara muito alegre e optimismo a deitar por fora, para que daqui a não sei quanto tempo (dias, semanas, meses ou anos?), a crise esteja vencida.

Se eu não tivesse já os anos de vida que tenho, diria que talvez desse lado, do lado de quem detém o poder, as coisas possam ser vistas assim. Que talvez possuísse V. Exa. conhecimento de factos que escapam ao cidadão comum e que, à luz deles, se compreenda o que nos acontece, enquanto povo. Mas, tendo eu já passado, como disse atrás, por Salazar, Marcelo, Soares e todos quantos, depois disso, governaram Portugal, é justo dizer que deste lado, do lado dos que sofrem a vida dia-a-dia, esses factos que V. Exa. conhecerá, sejam eles quais forem, pouco servem para explicar – e, muito menos, resolver – aquilo que nos fere. É que, senhor Presidente, as «razões de Estado» são razões de costas largas, alheias ao bem-estar social e, apenas, convenientes para aqueles a quem elas se ajustam ou encobrem.

Ou talvez – e também é compreensível que assim se possa pensar – não queira, ou não possa, V. Exa. dizer-nos tudo o que sabe e deveria, pois outros diriam outras coisas e, abertos os armários onde se guardam todos os segredos (os de Estado e outros, de várias cores e tamanhos), lá se iria de vez a «ordem natural das coisas» em que vivemos. Ou nos forçam a viver.

Posto isto, é tempo de perguntar a V. Exa. se posso traduzir as suas palavras de estímulo e encorajamento, como um apelo ao sacrifício, a um labor cego e alheio ao que se passa à volta, a uma entrega gratuita e acéfala aos desígnios da economia, a uma indiferença de robot face ao que possa acontecer ao fruto desse labor, sem pedir contas a ninguém, sem capacidade crítica, sem exigir a justa recompensa e a mais que justa repartição da riqueza criada?

Quererá, segundo parece, dizer V. Exa., que bastar-nos-á o optimismo e a entrega incondicional nas mãos do aparelho produtivo para, daqui a uns tempos, tudo estar melhor?

Por outras palavras: dependerá, na sua visão, a Pátria assim tanto de nós?

Não me atrevo a pensar que alguma vez estas dúvidas mereçam o esclarecimento do presidente da República, pelo menos enquanto o nosso sistema político e económico for o que é e, principalmente, enquanto os nossos políticos estiverem reféns uns dos outros e, todos eles, reféns da alta finança que a todos – e a tudo – controla.

Pede V. Exa., então, coragem, optimismo e determinação aos portugueses. Em suma: espírito de sacrifício, que eu, muito plebeiamente, poderia traduzir por muito trabalho e fé em Deus.

Entretanto, como sabe, senhor Presidente da República, para além dos trabalhadores, dos estudantes, dos reformados, dos desempregados (que já ultrapassam o meio milhão, só nos simpáticos números oficiais), das centenas de milhares de trabalhadores precários, dos que têm salários em atraso, enfim, do povo em geral, a quem, a sua mensagem é, inquestionavelmente, dirigida, existem outros portugueses que não dão pela crise e, pelo contrário, não só dela se têm aproveitado, como foram eles que, por procedimentos legais ou ilegais – mas sempre inegavelmente imorais – para ela contribuíram.

Saberá, com certeza, que os portugueses comuns a quem se dirige, incentivando-os ao optimismo e a mais trabalho – e ao trabalho a qualquer preço, (os que têm trabalho, claro) – ganham, em média, pouco mais de metade (55%) do que se ganha na zona euro? E que não é a eles – a nenhum deles – que se pode assacar culpas pela crise que aí está? Mas que os nossos estimados gestores, recebem, em média, mais 32% do que os americanos; mais 22,5% do que os franceses; mais 55% do que os finlandeses e mais 56,5% do que os suecos"? Sabia disto?

Que mensagem terá, então, V. Exa. para esta casta, que tão bem conhece, já que saltitam de governo em governo, deles para os conselhos de administração (muitos destas distintas figuras foram seus ministros e enriqueceram em pouquíssimos anos), acumulando benesses escandalosas, ordenados fabulosos, reformas de nababos, bastas delas reforçadas com novos ordenados e acrescidas mordomias? Que lhes pedirá?

Que dirá ao senhor governador do Banco de Portugal, como elemento integrante de uma estrutura que se atreve a estabelecer para si própria ordenados e regalias bastante superiores ao que o país mais poderoso do mundo – os EUA – se permite dar ao seu presidente da Reserva Federal?
Diga-me, pelo menos, se não se sente ultrajado por aquilo que, sendo legal, apenas porque o decidiu quem tinha poderes para tanto, não deixa de ser uma imoralidade monumental? Porque não admitir, então, à luz da disposição constitucional que considera todos os portugueses iguais perante a lei, poderem os trabalhadores, eventualmente através dos seus sindicatos, decidirem, de igual modo, o valor dos seus ordenados, pensões e demais regalias? Porque podem os senhores que governam e governaram o Banco de Portugal decidir quanto ganham, e o comum dos portugueses não? Não estaremos, aqui, perante um evidente vestígio de mentalidade feudal, segundo a qual aos amos eram conferidos direitos que aos servos eram negados? Enquadra-se esta situação no seu conceito de República e, principalmente, de Democracia? Parece que sim.

E parece que sim porque V. Exa. promulgou, apenas com um senão, o Código do Trabalho, onde se coloca, literalmente, a vida dos milhões de trabalhadores portugueses nas mãos dos seus empregadores. Em muitos casos, este aborto da democracia em curso chega a envergonhar as disposições laborais dos tempos da ditadura que – embora me custe admiti-lo – nunca se atreveu a ir tão longe.

Entretanto, o país esboroa-se. Física e moralmente. A criminalidade multiplica-se, fruto das dificuldades económicas, da desmoralização reinante, do vale-tudo que a classe dominante tem como insígnia, e que já não consegue esconder. Casos como os do BPN e BPP são, como saberá, pontas de um icebergue global, e ilustram bem a quem estamos entregues.

Porque o clima é este, porque a lei da selva se instituiu como instrumento nacional, a pequena e a grande criminalidade confundem-se nos objectivos e só de distinguem nos métodos e nas punições. Mata-se – e, perante os factos, bem – o que assalta um banco, de fora para dentro; protege-se e branqueia-se os que os assaltam por dentro.

No meio desta barafunda, temos um primeiro-ministro que só o é porque estamos em Portugal e, como já disse anteriormente, a classe política, que se guerreia por aquilo a que o povo chama «tachos», «gamelas», ou «mesa do orçamento», protege-se quando se trata de limpar as nódoas do banquete onde todos convivem. É evidente que os casos que já vieram a lume, envolvendo o primeiro-ministro (dos quais o Freeport é apenas o mais estrondoso), só ainda não descambaram em exigências de demissão porque andam por aí muitas moedas de troca. Há armários cheios de esqueletos nas várias casinhas desta democracia pindérica, mas de acentuados traços sicilianos.

Que orgulho, motivação, esperança ou outra coisa qualquer pode ter um português para se dispor a salvar o seu país, quando sabe que ele não lhe pertence? Que está nas mãos de gente que, todos os dias, nos dá uma nova prova de falta de escrúpulos?

Diga-me, senhor presidente: acha que o caso da licenciatura de José Sócrates é uma cabala, uma manobra negra da oposição? Acha que o facto de José Sócrates ter mentido no documento que entregou na Assembleia da República e que, depois, viciou, lhe permite ser uma pessoa credível ou confiável para governar um país? E o facto de ter negado conhecer o professor que o passou a quatro disciplinas, quando se sabe que o mesmo senhor fez parte de um governo ao qual pertencia, para além de estar provado conhecê-lo, intimamente, de certas aventuras serranas?

Não acha, senhor presidente, que os processos, arquivados ou em curso (e, inexplicavelmente, escondidos há anos numa qualquer gaveta milagrosa), onde o nome do primeiro-ministro e do seu tal professor da UNI constam, por serem coisas reais e não cabalas e campanhas negras, devem ser tidos em linha de conta para se avaliar a personalidade de quem governa o país e, em último caso, deveria ser um exemplo para todos?

Acha que a farsa do computador Magalhães, fruto falso de neurónios nacionais (trata-se de um produto da Intel, disfarçado de azul), que rendeu, sem concurso, milhões de euros a uma firma ligada ao PS, com sérios problemas fiscais, dignifica e moraliza a nossa vivência colectiva?

Acha que é normal, decente e democrático um governo exercer pressões sobre a comunicação social – o último caso denunciado partiu do director do semanário SOL – para impedir que o país saiba os podres do governo e, em particular, do seu primeiro-ministro?

Acha próprio um país da União Europeia ser governado por um homem que escondeu, no seu currículo, ter feito parte de uma sociedade onde os outros três sócios (entre eles, Armando Vara, hoje administrador do BCP – e também licenciado num ápice pela UNI – e Fátima Felgueiras) acabaram condenados em distintos processos? E que o outro, Sobral de Sousa, foi condenado por práticas de falsificação?

Acha, ainda, dignificante para Portugal que o actual primeiro-ministro seja envolvido pela polícia nacional, pela polícia inglesa e por familiares seus num caso de corrupção, e que se assista, como única defesa do visado, ao lançamento de uma nuvem de fumo, que é a ridícula tese da cabala? Não configura todo o processo do Freeport algo de muito grave, suficientemente grave para um governante se demitir para permitir que a Justiça apurasse toda a verdade? Não disse, inclusive, V. Exa. que se trata – o caso Freepot – de uma questão de Estado? Ou tratou-se de uma frase sem significado?

Gostaria – mas sei que é pedir a lua – de o ouvir a propósito disto tudo. Gostaria, ainda mais, de nunca me ter sentido obrigado a escrever o que agora escrevi.

Porém, tenho a certeza de duas coisas:

a primeira, é que enquanto o país estiver nas mãos de quem está, todos os seus apelos aos portugueses serão inúteis;

a segunda, é que no dia em que este país for, realmente, uma democracia plena, de facto e de direito, ninguém precisará de apelos para cumprir o seu dever de cidadão e de patriota.

2.21.2009

Dois Sócrates e um grande vómito

Sócrates não se sentirá ofendido com esta montagem fotográfica.
Salazar... não sei
Coisas cá da pocilga

Comecemos por uma mensagem que anda aí a circular pela Internet.

"Os donos do capital vão estimular a classe trabalhadora a comprar bens caros, casas e tecnologia, fazendo-os dever cada vez mais, até que se torne insuportável. O débito não pago levará os bancos à falência, que terão que ser nacionalizados pelo Estado".
Quem escreveu isto – e quando? Foi um senhor chamado Karl Marx, em 1867, na sua obra O Capital. Não faço comentários. Nem preciso.

Agora passemos à nossa trágica vidinha doméstica. À vidinha que levamos neste lixeira, nesta espelunca, nesta pocilga, neste pântano ou, como disse Carlos Queiroz, «neste local mal frequentado», entregue a pedófilos, a corruptos, ladrões, a oportunistas de toda a espécie. Local onde se fazem fortunas inexplicáveis, impossíveis – como, por exemplo, a de um pequeno boy socialista, chamado Mesquita Machado – e tudo fica na mesma, numa impunidade imprópria de uma democracia e, até, de certas ditaduras com alguma vergonha na cara.

Voltemos a este lodaçal onde, finalmente, apareceu um político que se atreve a contrariar um «engenheiro» feito à pressa, licenciado ao domingo, metido em várias outras trapalhadas, bem maiores que aquelas que levaram Sampaio a pôr Santana na rua. «Engenheiro» que é primeiro-ministro, governando com maioria absoluta, em nome da esquerda e ao serviço da direita, que controla grande parte dos órgãos de comunicação social, que mente com todos os dentes – e todos os dias – mas que, segundo parece, continua a contar com vasto apoio popular. Estou a falar do «engenheiro» José Sócrates, como já perceberam.

E quem é o atrevido que ousa enfrentá-lo e garante ir fazer o que ele não fez? Inverter as suas políticas e transformar o país, afirmando mesmo que vêm aí tempos de mudança? Nada mais, nada menos que um tal José Sócrates de Carvalho Pinto de Sousa, que se propõe governar a partir das próximas eleições, fazendo realmente uma política de esquerda, tirando aos ricos para dar aos pobres, ou seja, o contrário daquilo que o actual primeiro-ministro fez ao longo deste longuíssimos quatro anos – ou quase. Um Sócrates que quer mudar tudo aquilo que o outro Sócrates fez.

Tempos de mudança, então, apregoa este novo herói socialista, capaz de enfrentar corajosamente o até agora incontestado líder do PS. É parecido com o seu rival – quase igual a ele – usa o mesmo nome, mas não é ele. Não pode ser, a menos que se trate de um caso inverosímil de dupla personalidade, uma variante de uma bipolaridade suicida, ou coisa assim. Para além de, com o seu discurso, arrasar toda a política do seu homónimo e correligionário – mais e melhor do que fez o pessoal da oposição – parece que é neste segundo Sócrates que o PS vai apostar.

Coitado! Não vai ter muito apoio partidário, pois só cerca 35 mil militantes socialistas poderão votar nele – e não é líquido que todos o façam – num universo de cerca de 90 mil filiados. E é isto o partido que governa o país? Bem, mas uma coisa é certa: o outro Sócrates, o que tem governado, pobrezinho, nem a votos se atreve a ir…

(A propósito: só com cerca de 35 mil militantes a pagar quotas, onde arranjará o PS fundos para sobreviver? Em Alcochete? Na Guarda? Na Covilhã? Na Póvoa do Varzim? Ou será a vender Magalhães?)

Resta saber o que este Sócrates, o que quer ser primeiro-ministro, tem para propor ao eleitorado lá mais para a frente, já que, para além de arrasar o seu camarada, «engenheiro» Sócrates, só se lembrou de mariquices, como o caso da regionalização e do casamento entre pessoas do mesmo sexo. A ver vamos, como dizia o cego – e cegos é coisa que não falta em Portugal.

Voltando ao Sócrates que manda hoje – e ainda ao Freeport – quero que se lembrem dum senhor chamado Rui Gonçalves, que foi secretário de Estado do Ambiente, quando Sócrates titulava a pasta. E que o veio defender, com unhas e dentes, na televisão, jurando a pés juntos que tudo se passou na mais estrita legalidade.
Ora, este senhor Gonçalves é, desde Abril de 2008, vogal da Empresa Geral de Fomento e, por inerência, assumiu os cargos de presidente do conselho de administração da Valnor, da Rebat, da Resat, da Residouro e de vogal da Valorsul, passando a presidir, a partir de Setembro de 2008, à Resistrela. Todas estas empresas da área do saneamento básico foram criadas por Sócrates quando era ministro do Ambiente. De 2002 a 2005, o senhor Gonçalves também foi professor convidado da Universidade Independente. Ela há coincidências do caraças, não há?

Espero que o outro Sócrates, o que aí anda a fazer campanha para ser o futuro primeiro-ministro, dê uma valente vassourada nesta corja toda, já que, pelo que diz, renega em absoluto este Sócrates. Nas políticas e no plano ético…

Falando em professores da Universidade Independente, que o actual Sócrates em boa hora mandou fechar para que não mais se vasculhasse nos seus arquivos, sei que o tal professor que passou o actual primeiro-ministro a quatro cadeiras, de seu nome José Morais – e que chegou a integrar o mesmo governo que Sócrates, e que Sócrates nem conhecia (outra coincidência do caraças… ) – foi acusado num processo de corrupção passiva e de branqueamento de capitais relativamente ao concurso e adjudicação da obra da central de tratamento de lixo da Cova da Beira, caso que, por incrível coincidência (ou será outra terrível cabala?) também toca em José Sócrates – o actual governante.

Recorde-se, ainda, que este processo dá conta de que José Sócrates, Jorge Pombo e João Cristóvão, à data dos factos secretário de Estado do Ambiente, presidente da Câmara da Covilhã e assessor deste último, respectivamente, teriam recebido dinheiro da sociedade HLC, que ganhou o concurso para a construção da estação de tratamento de resíduos sólidos da Associação de Municípios da Cova da Beira.
Estavam em causa «trezentos mil contos, dos quais cento e cinquenta mil se destinariam ao senhor secretário de Estado». Ali se refere também que «provas genéricas de que todo o processo de concurso foi controlado por pessoas ligadas ao PS da Covilhã; que a empresa vencedora é uma empresa ligada ao PS; que o assessor já trabalhava para a HLC e que a empresa recebeu 480 mil contos da Associação de Municípios da Cova da Beira, por trabalhos que não realizou». Lembra ainda que «o proprietário do terreno onde se pretendia fazer a central era um funcionário da HLC e que o então presidente da Câmara da Covilhã passou a trabalhar para a HLC».

Não sei se é por estarmos a falar de lixos, mas sai de tudo isto um cheiro tão nauseabundo, que me faz pensar que o senhor Presidente da República deve andar bastante constipado para não dar por ele.

Até eu, que nunca estive perto de José Sócrates (o actual primeiro-ministro e incontestado engenheiro) começo a sentir vómitos.

Desculpem-me. Vou ali vomitar, e volto já.

11.29.2008

Sócrates e a banha-da-cobra

(Com a devida vénia ao autor do blog referido na foto)

As mentiras e o que elas escondem

Quando o senhor «engenheiro» veio dizer aos portugueses, com o ar mais convicto deste mundo, que Portugal havia escapado à recessão económica, estava, é claro, a mentir. Mesmo que seja um ignorante em economia, dado que o diploma que obteve apenas lhe permite auto-intitular-se engenheiro, tinha obrigação de perguntar ao seu ministro das Finanças se podia garantir tal coisa. É claro que o ministro das Finanças, mesmo sendo considerado o pior de UE, deveria saber o suficiente para o aconselhar a não proferir tal barbaridade. Donde se conclui, sem margem para qualquer dúvida, que Teixeira dos Santos e José Sócrates decidiram aldrabar aos portugueses.

Na realidade, o INE divulgou, recentemente, os dados provisórios sobre o PIB do 3.º trimestre de 2008. E esses dados revelam, quando os comparamos com os do trimestre anterior, que o crescimento económico em Portugal foi ZERO. Na verdade, um primeiro-ministro avisado, ou que não gostasse de mentir aos seus governados, deveria saber que os dados divulgados pelo INE são ainda provisórios, pois os definitivos só serão publicados em Dezembro, e que os dados definitivos, normalmente, corrigem os provisórios em baixa, o que poderá significar que o ter «escapado à recessão» é transitório e apenas resulta da falta de precisão dos dados agora disponíveis.

Para além disso, um crescimento zero, que deveria deixar de cabelos em pé a qualquer governo responsável, parece não incomodar o senhor primeiro-ministro, que prefere continuar a apostar na mentira e no ilusionismo como forma de governação. Na melhor das hipóteses – isto é: o primeiro-ministro e o ministro das Finanças são dois ignorantes chapados – poder-se-ia concluir que Sócrates e o seu governo ainda não conseguiram compreender que o País caminha para a recessão económica, e que são necessárias medidas urgentes para reduzir as consequências sociais e os consequentes efeitos sobre a economia. Medidas urgente, e não conversa fiada.

Por outro lado, Sócrates embarca, como todos os governantes por esse mundo fora, apostados em socorrer o capitalismo nesta sua longa e fétida agonia, na tese enganadora – outro mentira, portanto – que garante que a crise financeira vai agora afectar a «economia real», ou seja, vai entrar forte e feio nos bolsos das pessoas. Quanto a mim, que não sou engenheiro nem economista, sei o suficiente para vos garantir que é precisamente o contrário, ou seja: foi porque a crise afectou drasticamente as famílias, levando-lhe dos bolsos até o necessário para as despesas básicas, que o sistema «deu o berro» (perdoem-me o plebeísmo), já que se confrontou com a impossibilidade de continuar a sugar a torto e a direito, como até há pouco fazia.

Vendo bem, este «aviso» de que vêm aí tempos difíceis, mais não é que preparar o pagode para ainda mais sacrifícios, já que é necessário voltar a encher os baús dos magnatas com fundos públicos, em vez de lhes retirar as rédeas do poder económico, encarcerá-los (como se faz a qualquer larápio) e, naturalmente, desapossá-los definitivamente das empresas que delapidaram criminosamente.

Falámos, então, de duas mentiras recente do senhor «engenheiro». Como não há duas sem três, continuemos:

Sócrates não se cansa de afirmar que o Orçamento Geral do Estado, apresentado para 2009 – e aprovado apenas pelo PS – diminui a carga fiscal que incide sobre as empresas e as famílias. É mentira! Repito: é mentira! A verdade é outra, e Sócrates bem o sabe.

Explica-nos o economista Eugénio Rosa (que por ser um desmancha-prazeres não é visita frequente dos programas de opinião e «esclarecimento» que as nossas televisões impingem) – e passo a citar – que «em 2008, os escalões do IRS aumentaram apenas 2,1% e, em 2009, a subida decidida pelo governo é apenas de 2,5% o que dá, para o conjunto dos dois anos, 4,7%, ou seja, um valor que é inferior à taxa de inflação, que somou 5,5%. Assim, se um trabalhador tiver no conjunto dos dois anos uma subida salarial igual ao aumento de preços, o seu poder de compra diminuirá devido ao efeito corrosivo do IRS, já que a actualização insuficiente dos escalões do IRS determinará que ele passe para um escalão mais elevado, o que obrigará a pagar mais imposto, ficando, em consequência, com menos salário».

E continua Eugénio Rosa, na sua qualidade de economista dos pobres, e não ao serviço dos senhores do capital financeiro: «É o que acontecerá com os trabalhadores da Administração Pública, cujos vencimentos aumentaram, em 2008, apenas 2,1% e, em 2009, o governo pretende impor uma subida de apenas 2,9% o que dá, para o conjunto dos dois anos, um aumento de 5,1%, que é inferior à subida dos preços nos dois anos. O poder de compra destes trabalhadores diminuirá devido não só ao facto dos vencimentos subirem menos do que a inflação, mas também porque os escalões do IRS aumentaram menos que a subida verificada nos vencimentos. Neste caso, verificar-se-á o efeito corrosivo conjugado da inflação e do IRS, o que provocará uma descida mais acentuada do poder de compra dos vencimentos no conjunto dos dois anos».

Assim, como facilmente se conclui, «a política fiscal do governo, materializada na Proposta de OE2009, determinará um agravamento da injustiça fiscal. E isto porque a percentagem das receitas fiscais que têm como origem os Impostos Indirectos, que são impostos mais injustos porque não têm em conta o rendimento de quem os paga, aumentará de 57,7% para 58,9%. Isto significa que em cada 100 euros de impostos pagos pelos portugueses em 2009, 58,9 euros terão como origem impostos indirectos (IVA, Imposto sobre Produtos Petrolíferos, Imposto de Tabaco, etc). É claro o desrespeito pelo n.º 1 do art.º 103 da Constituição da República, que diz textualmente o seguinte: "O sistema fiscal visa a satisfação das necessidades financeiras do Estado e outras entidades públicas, e uma repartição justa dos rendimentos e da riqueza"».

Aqui chegados, podemos concluir que nem são as mentirolas de Sócrates que mais nos devem preocupar, já que elas só servem para encobrir algo de muito grave, e que é isto: o governo socialista depena e sangra os trabalhadores portugueses e os reformados, para canalizar os recursos assim acumulados directamente para as mãos do grande patronato e para as arcas sem fundo dos senhores do capital financeiro.

E como estamos no campo das mentiras e dos mentirosos, vem a talho de foice falarmos do fecho das Pirites Alentejanas. Há seis meses, José Sócrates garantia, em Aljustrel, trabalho para dez anos e salientava que «é disto que o País precisa».

Agora, mal passado que foi meio ano, é anunciado novamente o fecho das minas, e o governa desdobra-se em manobras para tentar ganhar tempo e adiar os protestos dos trabalhadores. Fala de uma venda das minas – o que não é possível, uma vez que apenas poderá ser negociada a concessão da exploração dos recursos naturais, e não a sua propriedade – a um grupo estrangeiro fantasma, mas tudo leva a crer que nada disso tem bases credíveis.

Mas também não importa. Afinal são apenas algumas centenas de famílias que vêem a miséria a bater-lhes à porta.

Olhem: são mineiros, não é verdade? Pois que fossem banqueiros, que alguma coisa se havia de arranjar. Para aí qualquer coisa como uns vinte mil milhões de euros, estão a ver?

11.19.2008

Grande Circo Lusitano (II)



A democracia interrompida


Sempre que o PS está no poder, lembro-me dos tempos anteriores ao 25 de Abril. Parece-me que faço uma viagem ao passado. Volta a insegurança, volta o medo, voltam as dificuldades, voltam as perseguições, as ameaças, a repressão, as denúncias, a bufaria. Volta o contar aflitivo dos tostões (cêntimos, na desgraçada moeda actual).
Para além destes regressos, aparecem coisas novas, como o Código do Trabalho, que pretende obrigar-nos a trabalhar onde e quando os patrões quiserem, mais nuns dias, menos nos outros, entregando-nos – e às nossas vidas – completamente, nas mãos das entidades patronais. Esta, meus amigos, nem Salazar admitiria.

Há dias, um sujeito que ocupa o lugar de secretário de Estado da Administração Pública, boy socialista cheio de energia para levar à prática as políticas do «engenheiro»-chefe, José Sócrates Pinto de Sousa, disse, sem se engasgar, que a reforma da Administração Pública « está no terreno» e que quem não cumprir as exigências que a lei impõe «será trucidado». E precisou: «Trabalhadores, serviços e dirigentes que não estejam com a reforma serão trucidados». Este belo exemplar da raivosa matilha socialista, de seu nome Gonçalo Castilho dos Santos, não está com meias medidas, pelo que resolveu enfatizar: os funcionários devem ter a noção de que «a reforma já não pode andar para trás», pelo que «trucidará quem não estiver com ela».

Resumindo a ideia do fulano:
hoje, quem não está com o poder arrisca-se a ser trucidado, tal como antes se arriscava a bater com os ossos em Caxias ou Peniche. E estamos conversados sobre o conteúdo democrático da gentalha socialista instalada no poder.

Mas, no entanto, convém esclarecer que as ameaças do senhor Castilho dos Santos revelam algo mais do que espírito despótico. Revelam medo. É que se o Governo aprovou legislação para entrar em vigor em 1 de Janeiro, não há lei que obrigue ninguém a assinar o novo contrato. Para poder entrar em funções, cada funcionário público assinou um contrato. É esse que vale, pelo menos até assinar outro que o substitua. O que falta saber é como irá reagir a maioria do funcionalismo público ao convite para assinar um contrato pior do que o anterior. Com mansidão suicida, ou dizendo um estrondoso «BASTA!» a tanta manigância e violência? Como 2009 é ano de eleições, este assunto, apesar das ameaças, não está encerrado.

Voltando aos professores – e aos alunos – e à sua justa luta contra as malfeitorias desvairadas da ministra, verifica-se que a Monalisa da Educação já começou a recuar a todo o vapor. No que respeita ao Estatuto do Aluno, até legislou ao domingo para – pasme-se! – acusar as escolas de… estarem a cumprir a lei. Diz ela no seu despacho: «Considerando que a adaptação dos regulamentos internos das escolas ao disposto no Estatuto do Aluno nem sempre respeitou o espírito da Lei, permitindo dúvidas nos alunos e nos pais acerca das consequências das faltas justificadas designadamente por doença ou outros motivos similares…». Isto é: as escolas perceberam mal o «espírito da Lei». Pois… o espírito da Lei. E a letra da Lei, a que a ministra agora dá outra e letra e, consequentemente, novo espírito? Francamente, senhor ministra, V. Exa. entrou, definitivamente, em parafuso.

Relativamente à avaliação dos professores, a ministra, suando por todos os poros, já deixa escapar que, afinal, tudo pode ser discutido. Ainda estrebucha, mas já vai dando o flanco. É fundamental que, agora, os professores, os alunos, as famílias e, em geral, os portugueses mantenham a unidade e a firmeza necessárias para impedir a concretização das alucinações de Sócrates e da D. Maria de Lurdes.

Pelo meio, duas anedotas:

Uma, conta-nos que mais de 250 Magalhães, entregues por Sócrates numa escola transmontana, foram retirados aos alunos mal acabaram as cerimónias da oferta, captadas com toda a pompa e alarido pelas câmaras de televisão, numa das mais ridículas acções de propaganda promovidas pelo senhor «engenheiro». É de morrer a rir, esta anedota…

A outra, é contada pelo próprio Sócrates. Disse ele: «Sou, digamos assim, da geração Kennedy. Essa eleição representou já um momento histórico. Lembro-me do debate que houve na América quando, pela primeira vez, um católico se candidatou a presidente. O próprio Kennedy teve de vincar bem que nunca receberia ordens do Papa enquanto presidente dos EUA. Lembro-me bem do que isso significou

Ora, José Sócrates Carvalho Pinto de Sousa nasceu no dia 6 de Setembro de 1957, em Vilar de Maçada, concelho de Alijó, distrito de Vila Real. E Kennedy foi eleito presidente dos EUA em Novembro de 1960. Ou seja: José Sócrates tinha, então, três aninhos de idade. Que menino tão precoce! Ou será que a certidão nascimento também foi passada ao domingo e – digamos assim – de forma menos precisa?

Voltando ao sério, soubemos que foi reconhecido, em Bruxelas, aquilo que, em Portugal, todos sabemos. Temos dos piores sistemas de cuidados de Saúde de toda a Europa, dado que surgimos em 26.º lugar numa classificação dos sistemas de cuidados de Saúde em 31 países europeus, divulgada em Bruxelas pela organização Health Consumer Powerhouse, que sublinha o deficiente acesso aos tratamentos e tempo de espera.

Com um total de 507 pontos em 1.000 possíveis, no conjunto de 34 indicadores de desempenho divididos em seis categorias, Portugal é o quarto país da União Europeia com pior resultado, surgindo na lista apenas à frente de Roménia e Bulgária, da Croácia e Macedónia (dois países candidatos à adesão à UE) e da Letónia, última classificada, numa lista liderada pela Holanda.
O 26.º lugar atribuído a Portugal representa uma nova queda relativamente às hierarquias elaboradas nos anos anteriores, já que em 2006 Portugal surgia na 16.ª posição e no ano passado no 19.º posto. Mais uma medalha de «mérito» para a governação socialista, coisa que a modéstia de Sócrates impede de referir nos seus inflamados discursos.

A propósito de Saúde. A gaguejante ministra da pasta, Ana Jorge, parece querer bater Lino e Pinho no que respeita a gaffes e barracadas. Não sabe responder a nada do que lhe perguntam, especialmente quando se trata das contas – das dívidas – do seu ministério e das enormes derrapagens orçamentais. Enrola, sorri, engole em seco, gagueja, diz que o secretário já respondeu às questões, e quando lhe recordam que isso não corresponde à verdade, lá vai dizendo que a «não resposta» do senhor secretário é, afinal, a resposta que se pode arranjar.

É o Grande Circo Lusitano em todo o seu esplendor.

Mas haja circo, porque pão, esse, vai faltando um pouco por todo o lado.

11.16.2008

Intermezzo VI




Outono

Escrevi na terra molhada o meu nome. E fui no vento.
No hálito da tarde, habitada por folhas inquietas,
persegue-me a nitidez das letras recortadas.
É ali que vou morrer, pressagio,
sem ponta de medo ou emoção.
Creio que os plátanos sabem,
no silêncio obsessivo das raízes,
o local exacto onde o outono cobra os seus tributos.

Resta, então, um silêncio fatigado de desejos magoados,
tela pintada com poalhas e crepúsculos,
uma vontade enorme de ser chão, ou seiva, ou aloendro.
No entanto, um insólito calor corrompe os musgos,
fermenta o vinho novo nos lagares antigos
e, no segredo das colmeias, fervilham sonhos de flores ausentes.

Pressinto a vida emboscada na ilusão da morte.

11.15.2008

De Maria de Lurdes e outras calamidades

Uma ministra alucinada, um «engenheiro» egocêntrico
e um partido que envergonharia a velha União Nacional,
são as grandes atracções do Grande Circo Lusitano

O Grande Circo Lusitano

A ministra da Educação, entrevistada no dia da gigantesca manifestação dos professores, entre várias diatribes indicadoras do seu desespero e, acima de tudo, da falta de argumentos que suportam as medidas governamentais para o sector, regorgitou que tudo tinha a ver, essencialmente, com estratégias partidárias e o ano eleitoral que se aproxima.

Ao ouvi-la, lembrei-me de Salazar, que costumava atribuir aos comunistas qualquer vestígio de contestação à ditadura. Há tiques – e desculpas – que definem a mentalidade de quem os usa, do que resulta que não é democrata e decente quem quer – ou disso se rotula – mas quem intrinsecamente o é.

Na altura em que expeliu afirmação tão bafienta, a senhora ministra, do alto da sua arrogância e prepotência, acrescentou que a manifestação também era uma forma de chantagear as escolas e os professores que, segundo ela, eventualmente acatam as malfeitorias do governo socialista. Nessa altura, bem poderia – e deveria – o jornalista ter-lhe perguntado se alguns desses professores também não terão o seu partido (no caso, o PS) e, por isso, agirão mais por devoção partidária, e menos em defesa dos seus interesses profissionais e, acima de tudo, em defesa da escola, do ensino e da formação dos alunos que têm a seu cargo.

Poderia perguntar-lhe, também, se a ministra não tem conhecimento das enormes pressões exercidas pelo aparelho socialista instalado nos vários patamares da hierarquia do sector, que vão desde a actuação dos rasteiros e dissimulados bufos, até à descarada repressão de responsáveis pelas direcções regionais de educação – de que é exemplo flagrante uma tal Margarida Moreira, matrona socialista, de vocação inquisidora, a que junta uns laivos repressivos herdados do regime anterior. Mas o jornalista não se lembrou destas elementares perguntas ou, então, achou mais prudente não irritar a senhora e, por consequência, o «engenheiro», que assim não precisou de se incomodar a telefonar para o responsável da estação, exigindo que o atrevimento fosse devidamente punido. Como já fez noutras oportunidades.

Mas deixemos, por agora, D. Maria de Lurdes e os seus fantasmas, para olharmos o país em geral, onde a pobreza continua a alastrar. E se pensam que se trata de uma afirmação minha, subversiva e sectária, desiludam-se. Quem o afirma é a própria igreja católica, pela voz dos seus bispos, que garantem não deixar de lutar contra a pobreza, chamando a atenção para o facto de haver cada vez mais famílias a passar fome em Portugal.

Discursando na Assembleia Plenária da Conferência Episcopal Portuguesa, realizada em Fátima, o arcebispo de Braga, D. Jorge Ortiga, afirmou mesmo que o governo devia proteger mais as famílias e fazer do combate à pobreza a sua principal preocupação. Repito: a sua principal obrigação.

«Numa sociedade dita avançada é confrangedor deparar com as dificuldades vividas no interior de muitos lares. Começam a faltar bens essenciais e a vergonha torna a pobreza mais angustiante», afirmou D Jorge Ortiga, salientando que «não se pode ignorar e desconsiderar as grandes dificuldades económicas em que se encontram muitas das nossas famílias, particularmente os mais jovens e os reformados».

Como que respondendo a isto, em Oliveira de Azeméis encerrou mais uma fábrica, a IBEL, lançando para o desemprego cinquenta trabalhadores. São mais algumas famílias que vão engrossar a lista angustiante dos que não sabem como vão sobreviver daqui para a frente. Claro que estes postos de trabalho que se perderam não contam para a contabilidade de José Sócrates mais os seus mirabolantes 150 mil novos postos de trabalho, já que para a contabilidade do senhor «engenheiro» não existe a coluna do deve, mas apenas a coluna do haver.

Entretanto, o preço do petróleo já está abaixo dos 50 dólares, quando há poucos meses se cotava a 140 dólares. Resultado desta descida? A redução, de vez em quando, de alguns cêntimos no preço dos combustíveis. Pergunta ingénua: porque não voltam os combustíveis aos preços aproximados daqueles que vigoravam quando o petróleo se transaccionava ao preço que tem hoje?

Ao mesmo tempo, a União Europeia quer que Portugal reduza as suas capturas de pescado em águas nacionais, propondo um corte de 40% para o carapau e cortes inferiores, mas significativos, para outras espécies. Tudo isto levará a preços mais caros, a mais desemprego e a um maior endividamento do país ao estrangeiro, já que o pescado que não podemos capturar passará a ser importado. Veremos como vai reagir o governo, mas o costume é curvar-se à vontade comunitária, depois da palhaçada de algumas reduções simbólicas à proposta inicial.

No capítulo da segurança, continuam os assaltos para todos os gostos. Portagens, cafés, ourivesarias, bancos, pessoas na via pública, e por aí fora. Nas Caldas da Rainha, por exemplo, uma mulher, de 68 anos, foi picada com uma seringa, arrastada pelo chão durante vinte metros e agredida a pontapé por um ladrão, toxicodependente, que acabou por lhe roubar dez euros. Apesar da violência do roubo, que obrigou a vítima a receber assistência hospitalar, o assaltante, entretanto detido, ficou em liberdade a aguardar o julgamento. E, provavelmente, com a sua indispensável seringa, paga por todos nós, e que por não ser considerada uma arma, não carece de licença.

Bem fez o proprietário de um café no Barreiro, que despachou o seu assaltante com sete tiros, não fosse terem falhado os seis primeiros. Também um dos assaltantes de uma cabine das portagens de Auto-estrada 1, em Santarém, acabou morto por atropelamento, durante a perseguição movida pela GNR. Desculpem-me a insensibilidade, mas não senti a mínima pena.

No meio disto tudo, a trapalhada com o Banco Português de Negócios, a provar que as nacionalizações apenas são boas quando se trata de pôr os portugueses todos a pagar as vigarices dos banqueiros. Misterioso – ou talvez não – é o comportamento do socialista Constâncio, que governa o Banco de Portugal. Há anos que se acumulavam indícios do que realmente se passava, desde livros publicados a denúncias de auditores credíveis e a relatórios da equipa que investiga a Operação Furacão. Victor Constâncio, cuja competência todos salientam, curiosamente não viu nada, não ouviu nada, e, claro, nada fez – ou pouco fez. É muito pouco, tendo em atenção o muito que ele ganha. Mas, como é costume em Portugal – e a este nível – tudo vai dar em águas de bacalhau. Apostam?

E sabem uma coisa? Eu adivinhei que a D. Fátima Felgueiras ia ser condenada… mas com a pena suspensa.

Também não era preciso ser muito esperto para adivinhar isto, pois não?

10.01.2008

Do «Magalhães» à Wall Street

Qual a semelhança entre o computador Magalhães
(como invenção nacional) e a Wall Street? São ambos ficção.

Das pequenas e das grandes mentiras

Porque as escolas continuam a fechar um pouco por todo o interior do país, em Montalegre, por exemplo, há crianças que passaram a ter de viajar duas horas por dia para frequentarem o ensino básico. Há outras cujos pais admitem colocá-las em estabelecimentos de ensino espanhóis, por ficarem mais perto das suas residências.

Entretanto, a ministra da educação diz que o Inglês chegou a todas os alunos do primeiro ciclo. Contudo, na Escola do Ensino Básico n.º 2 de Massamá, no segundo ano, os pais foram informados que a escola não tinha condições para dar aquela disciplina. E outras existem nas mesmas condições.

O governo de Sócrates também fez a festa e deitou os foguetes relativamente aos novos passes sociais para estudantes. Contudo, há pais a queixarem-se de que, para solicitar o dito passe, se vêem obrigados a saltar de empresa de transportes para empresa de transportes, porque cada uma levanta o seu problema. E que, quanto à apregoada redução de 50%, as coisas não são bem assim, pois um passe que custava 38 € não passou para 19 €, como seria de esperar, mas apenas para 24 €.

Quanto ao famoso Magalhães, a coisa tem mais para contar. Ouçamos o que por aí se diz.

Os noticiários, em coro bem afinado, anunciaram o lançamento do «primeiro computador portátil português», o tal Magalhães. A RTP chegou mesmo a dizer, sem se engasgar, que se tratava de «um projecto português produzido em Portugal».

A SIC, para não ficar atrás, salientou que é «um produto desenvolvido por empresas nacionais e pela Intel» e que a «concepção é portuguesa e foi desenvolvida no âmbito do Plano Tecnológico».


Na realidade, só com muito boa vontade é que o que foi dito e escrito éverdadeiro. O projecto não teve origem em Portugal, já existe desde 2006 e é da responsabilidade da Intel. Chama-se Classmate PC, e é um produto de baixo custo, destinado ao Terceiro Mundo, e já é vendido há muito tempo através da Amazon.


As notícias, no entanto, foram cuidadosamente feitas de forma a dar ideia que o Magalhães é algo de completamente novo e com origem em Portugal. Não é verdade. Na imprensa escrita, salvou-se, que se tenha dado conta, a notícia do Portugal Diário, que disse: «Tirando o nome, o logótipo e a capa exterior, tudo o resto é idêntico ao produto que a Intel tem estado a vender em várias partes do mundo desde 2006. Aliás, esta é já a segunda versão do produto».

Pelos vistos, o jornalista Filipe Caetano, autor da notícia, foi o único a fazer um trabalhinho de investigação, em vez de reproduzir o comunicado de imprensa do Governo.

Para a Intel, este é um negócio da China, pouco se lhe dando que conste por aí que o Magalhães é um produto do bestunto nacional. O que lhe interessa é despachar o material que tinha destinado aos países em desenvolvimento, o que nem deixa de ser o nosso caso. E a JP Sá Couto tem assim, sem concurso, todo o mercado nacional do primeiro ciclo. Tudo se justifica em nome de um número de propaganda políticaterceiro-mundista. Mas é assim que Sócrates tem governado o país

Entretanto, o capitalismo agoniza. Enredado nas suas próprias teias, devorado por dentro pela lógica predadora que lhe está nos genes, procura transferir para os trabalhadores do mundo inteiro a responsabilidade pelo pagamento da factura astronómica que a sua insaciável sede produziu. A solução que o governo norte-americano – e alguns governos europeus – encontram, é pôr os contribuintes a pagar a compra de bancos falidos, através da sua nacionalização.

Porque não os nacionalizaram antes, quando estavam saudáveis, de forma a evitar a actual situação e a canalizar os lucros para o bem-estar e o desenvolvimento dos respectivos países? Que culpa tem o cidadão comum dos desvarios de banqueiros gangsters e dos políticos que lhes dão apoio e cobertura? Quem mexe os cordelinhos dos sistemas financeiros? Quem, em última análise, é responsável pelo colapso financeiro?

É tempo de pensar que a ruína da Wall Street e de tudo o que ela representa, cria a oportunidade para uma outra forma de pensar a economia, para um outro sistema financeiro, sob o controle público e fiscalizado por responsáveis eleitos. O neoliberalismo agoniza. Entre os lençóis da sua enorme mentira.

Que morra depressa e que o enterrem bem fundo.

9.15.2008

Intermezzo V



Caminhos

Vagarosamente,
como se levasse uma lua em cada passo,
vou deixando palavras pelas bermas,
vestígios de silêncios inviolados.
Talvez um dia passes por aqui
e percebas, na sombra de uma acácia,
o segredo dos caminhos que não soube,
no tempo dos sorrisos
,
decifrar-te.