7.31.2007

Os contentamentos de Sócrates


O Grande Urinol
O primeiro-ministro está feliz. O ministro da Saúde ainda mais. Ambos descobriram que os portugueses que se queiram curar ou, até, sobreviverem a uma doença grave, vão tratar-se a Espanha. Um exemplo é o que li há dias sobre transplantes pulmonares. Dizia o texto que o desinteresse e a desorganização foram as causas da morte do programa de transplantação pulmonar em Portugal. Uma média anual de dois transplantes desde que foi lançado, em 2001 – quando o país precisa de 15 a 20 transplantes pulmonares anuais – e uma taxa de sucesso a longo prazo considerada "má", fazem os doentes optarem por tentar a sorte, e consegui-la, em Espanha. Para onde até já seguem, aliás, os pulmões recusados pela a única unidade portuguesa que os poderia aceitar, no Hospital de Santa Marta.

Se o panorama é por todos assumido como negro, há quem tenha esperanças que as coisas melhorem. Diz José Fragata, director do Serviço de Cirúrgica Cardiotoráxica do HSM, que se está a tentar relançar o programa e, dentro de alguns meses, ninguém terá de ir a Espanha. Pois…

Para além das opiniões médicas, mais ou menos de carácter técnico, o que importa salientar é que este exemplo é apenas mais um da política criminosa que, sob a batuta do governo dito socialista, com Sócrates como maestro e o ministro Correia de Campos como desalmado solista, o povo português está a sofrer. Enchem em boca com modernidade e outros palavrões da moda, mas deixam os portugueses morrer como morrem os tordos na época da caça.

A verdade – nua e crua – é que para se receber um transplante pulmonar, muitos portugueses seguem para a Corunha, na Galiza, onde se instalam com armas e bagagens. E descansam numa taxa de sucesso que a equipa que os recebe calcula em 60% de sobrevida aos cinco anos e 50% aos dez anos. Por cá, morre-se sob a insensibilidade e incompetência socialistas, porque até os pulmões doados e compatíveis com alguns doentes, ou são desperdiçados ou são enviados para Espanha. Por isso, Sócrates e os seus sinistros ministros – especialmente o da Saúde - andam tão felizes.

Entretanto, e continuando muito feliz e contente consigo próprio, coisa própria dos néscios ou de qualquer vendedor de banha-da-cobra, o primeiro-ministro (que certo dia se disse engenheiro) foi para o Algarve apresentar projectos que, segundo ele, são a prova provada de que a nossa economia e o país, em geral, vão no bom caminho. Cantou, na sua voz de falsete, festivas aleluias e deu hossanas aos senhores capitalistas.

De facto, duas semanas depois de o ministro da Economia ter apresentado, em Faro, oito dos dez novos investimentos turísticos privados aprovados para o Algarve, no âmbito dos designados Projectos de Interesse Nacional, foi agora a vez de Sócrates, no campo de golfe de Palmares (se calhar, queriam que fosse numa fábrica, não?), ali na zona da Meia Praia, em Lagos, dar gritinhos de contente ao falar da coisa e fazer dela a sua nova bandeira, metendo, pelo meio, rasgados elogios aos empresários.
Fechem-se as fábricas, abram-se hotéis!

Ao ouvir tanta música a sair da boca dum homem que, depois de se fazer passar por engenheiro anda a fazer-se passar por socialista (ou vice-versa), cheguei a pensar, descuidado como sou, que os tais projectos estavam relacionados com a abertura de novos complexos industriais, a reactivação das nossas pescas e a reanimação da agricultura. Isso é: pensei que Portugal estaria a voltar-se para a produção industrial e – ao mesmo tempo – a tomar as medidas necessárias para pôr os nossos campos a produzirem os produtos de que necessitamos para matar a fome a tanta gente, pelo que teríamos mais leite, mais carne, mais batatas, mais legumes, mais cereais, e mais frutos. E, no que às pescas respeita, estaria a renascer das cinzas a nossa frota pesqueira, para que, tudo somado, deixemos de comer tantos produtos importados. Para não sermos tão dependentes sob o ponte de vista económico. Enganei-me.
Saia um autódromo, morra a agricultura!

De que constam, então, estes novos e maravilhosos empreendimentos? Eu conto. São projectos no Algarve, cujo investimento global ultrapassa 1,4 mil milhões de euros, e constarão de resorts e hotéis de quatro e cinco estrelas, além de um autódromo preparado para a Fórmula 1. Diz-se que vão permitir um total de 5.100 postos de trabalho (mais um pulinho e estamos nos tais 150 mil prometidos há dois anos…). O Algarve passará a ter, em 2010, um total de 23 unidades hoteleiras de cinco estrelas, mais do dobro das existentes em 2005. Mas já em 2007 haverá 14 infra-estruturas daquele tipo a funcionar na região e integrados noutros projectos.
Frota de pesca ao fundo! Viva o campo de Golfe!

Se bem percebi, a alegria de Sócrates baseia-se no facto de o Algarve ir ter um autódromo, mais uma mão-cheia de hotéis para ricos, mais uns campos para golfe e equipamentos do género. É, então, para isto que caminhamos! Para vender sol e praia, meter meia dúzia de rapazinhos e rapariguinhas a servir os senhores abastados que vêm beber uns copos, trincar uns mariscos e dar umas braçadas ou umas tacadas – e pronto, já está. E, na volta, alguns deles desenrascarem umas criancinhas para umas brincadeiras sexuais, coisa que já não é novidade em certos meios que nós conhecemos.

A Sócrates ainda sobrou tempo para valorizar o "espírito empreendedor, a iniciativa e o risco" empresarial dos investidores, lembrando que "ninguém investe tanto dinheiro num país em que não tenha confiança". E aproveitou para fazer um auto-elogio: "nenhum político desiste da confiança, desde ao nível mais local até ao nacional. Mesmo nos momentos mais difíceis, nunca perdi a confiança nem no país nem nos portugueses e sempre soube que iríamos resolver os nossos problemas como está hoje mais claro do que há dois anos".

Porém, há uma outra realidade que este truão ignora – e da qual nem quer ouvir falar. Com uma frequência assustadora, empresas produtivas encerram as suas portas, despedindo trabalhadores aos milhares. Conforme dizem as estatísticas nacionais e estrangeiras, Portugal é o país mais desigual da Europa, onde o fosso entre os ricos e os pobres aumenta sem cessar. Fecham-se escolas, maternidades, urgências, SAPs, tribunais, golpeiam-se as reformas, e até uma mulher que ganhe 20 euros por semana a lavar as escadas do prédio onde habita, deixa de ser considerada desempregada, perdendo, por isso o mísero subsídio de desemprego.

Endividadas, milhares de famílias, lutam pela sobrevivência a tudo recorrendo para que a fome não morda os filhos nem se vejam, de um dia para o outro, a dormir debaixo da ponte.

Mas enquanto as fábricas fecham, os campos se desertificam e a frota pesqueira apodrece encalhada – e se paga para arrancar a vinha a mando do interesse estrangeiro – sua excelência, o suposto engenheiro, vai para o Algarve e fala em hotéis de luxo e equipamentos para ricaços, como se aí estivesse a salvação do país. Talvez o sonho do homem seja transformar Portugal numa qualquer República Dominicana, numa Malásia, numa Ilhas Fiji, sei lá… Um paraíso para pedófilos, para a indústria do sexo, para a proliferação de casinos, para o negócio da carne humana.

O que vale, é que vamos entrar em período de férias. Deixemos ir o fulano, entretido com as suas ridículas masturbações à volta de mirabolantes sucessos governativos, que, no regresso, cá estaremos, cada vez mais definhados, mais vendidos ao estrangeiro, menos senhores do nosso destino, mais pobres e empenhados. Mas, pelo menos, durante umas semanas, somos capazes de nos esquecermos que esta gente existe.
Portugal - um grande urinol

Entretanto, Portugal cumpre o seu destino de país periférico, óptimo, por isso, para se transformar num grande e imenso urinol da União Europeia. E de quem mais quiser aproveitar o sol, o mar, a areia e outros «recursos naturais»…

7.24.2007

Portugal - Uma desgraça completa


Uma anedota
chamada governação


Não sei para que lado me hei-de virar. São tantos os temas dignos de aqui serem tratados, dando, cada um deles, para mais de uma crónica, que optei por abordá-los a todos, em prejuízo da abordar cada um deles com a devida profundidade. Deixá-lo! Depois de tudo espremido, afinal o que se verifica é que o país é um autêntico caos económico e social, não passando de puras atoardas do primeiro-ministro (que afinal já não é engenheiro) e do seu camarada do Banco de Portugal, Vítor Constâncio, as patacoadas sobre os «decimais» animadores da nossa economia.
Call-center, ou o trabalho escravo

Estive ontem num call-center, que é um daqueles sítios onde as pessoas nos telefonam para divulgar produtos, fazer inquéritos de opinião, sondagens, etc. Fiquei a saber que não têm ordenado fixo, recebendo entre 1 e 2 euros por cada inquérito completo que consigam realizar. São pagos a recibo verde (o que quer dizer que 20% do que receberem vai logo para o Fisco). Por outras palavras. Podem passar dias inteiros sem receber um euro, pois, como sabemos, cada vez se reage pior a este tipo de chamadas. Entretanto, os desgraçados, gastam dinheiro em transportes e refeições só para estarem umas horas ao telefone a ouvir negas e, nalguns casos, insultos. É para a generalização deste tipo de relações de trabalho que o Governo e o grande patronato apontam, percebendo muito bem que estão a apontar para qualquer coisa parecida com o trabalho escravo.
O envelhecimento do país e a política do penso-rápido

Por estas e por outras, o país envelhece. No ano passado, registaram-se cerca de 4.300 nascimentos a menos do que no ano anterior. Quem é que quer dar ao mundo filhos num país sem futuro, sem esperança, sem condições dignas de vida? Para mostrar que está atento ao problema, a ave canora que ocupa o poleiro de primeiro-ministro, esganiçou-se e veio anunciar uma série de medidas que, no dizer da criatura, vão incentivar os portugueses a fazer mais portuguesinhos. Maior tempo para as mães acompanharem os recém-nascidos, uns aumentos nos abonos de família, que poderá começar ainda nos últimos 6 meses da gravidez e duplicar ou triplicar o seu valor à medida que outros filhos se acrescentem ao anterior. Esquecem-se de dizer que uma trabalhadora contratada a prazo, caso engravide, vai para o olho da rua, porque ninguém lhe renova o contrato.

No fundo, estamos a falar de pensos rápidos para tratar de fracturas expostas. Os portugueses não querem ter filhos porque não têm emprego certo e bem remunerado e porque não acreditam que o país lhes vá proporcionar um futuro melhor. Não é um abono de família maior que lhes vai resolver esse problema. Os portugueses não podem ter filhos porque não têm condições económicas nem sociais para os sustentarem e criarem e, principalmente, para lhes garantirem um futuro digno. Os portugueses não querem ter filhos porque, mesmo sem eles, podem ver-se lançados na mais profunda miséria ou na simples indigência. Além disso, até o próprio acto de casar e constituir família, com a precariedade de emprego que por aí vai – e mais virá se a flexisegurança for um facto – e com a constante corrosão dos salários, a que se devem juntar os custos com uma vulgar habitação, até essas decisões, em Portugal, se não forem um suicídio, para lá caminham.
Crédito malparado sobre. Estavam à espera de quê?

Aliás, veja-se o caso do crédito malparado, que nos empréstimos concedidos pela banca aos particulares portugueses bateu um novo recorde. Em Maio, os calotes das famílias à banca chegaram aos 2,235 mil milhões de euros, revelou o boletim estatístico do Banco de Portugal. Entre Abril e Maio deste ano, o volume de crédito malparado aumentou em 50 milhões de euros, o que significa uma média diária de acréscimo de 1,6 milhões de euros. A percentagem do crédito de cobrança duvidosa já representa 1,86 do total dos empréstimos concedidos pela banca aos particulares. A subida de juros, decidida pela União Europeia, está a ter consequências devastadoras nos orçamentos das famílias endividadas. Com a corda na garganta, sem poderem pagar, hoje, aquilo que meses atrás estava perfeitamente dentro das seus orçamentos – e juntando a isto a facilidade com que hoje se perde o emprego – como é que o governo e o presidente da República querem que os portugueses tragam filhos a este inferno?
Grávidas sacudidas do Garcia de Orta!

Falando de ter filhos, é bom que se saiba o que está a acontecer no Hospital Garcia de Orta. Segundo sei, existe um braço de ferro entre a administração e os médicos, porque as horas extraordinárias não estão a ser pagas. O quadro de pessoal está deficitário, o que se reflecte, também, na área da obstetrícia. Porque saíram muitos médicos e existem outros que, como têm mais de 50 anos, não trabalham entre as 20 e as 8 da manhã, há dias em que não há pessoal para manter o serviço operacional, dependendo dos turnos, pois as equipas são constituídas por um obstetra e dois internistas. Ora, porque os abortos não podem esperar, as parturientes da zona de influência do HGO só dão á luz neste hospital se o parto estiver eminente, caso contrário são encaminhadas para outras unidades hospitalares, como o Amadora-Sintra, para o Barreiro e até para mais longe.
Sobe número de portugueses em Espanha. Pudera!
Sinal de que o país está de rastos – e que talvez a ideia de formar um outro país, chamado Ibéria, como Saramago sugeriu, não seja tão utópica quanto isso – está o facto de o número de trabalhadores portugueses em Espanha ter outra vez aumentado, estando quase nos 80 mil. Contudo, o número total de portugueses a viver em Espanha é significativamente mais elevado, estimado por alguns responsáveis em próximo de 100 mil, já que o valor oficial de perto de 80 mil apenas representa os trabalhadores registados na Segurança Social, sem contabilizar os seus familiares.
Portugueses cada vez mais pessimistas. Que novidade!

Por tudo isto, depois dos húngaros, os portugueses são os cidadãos da UE «menos satisfeitos com a sua vida em geral» e, inclusive, 60% considera que a situação económica e o emprego vão piorar «nos próximos 12 meses», de acordo com o eurobarómetro, divulgado pela Comissão Europeia. Desde 2001 que o pessimismo em Portugal está a aumentar. Mas agora os portugueses assumem-se como os cidadãos mais pessimistas da Europa a 25. A tal ponto, que apenas 51% dos cidadãos afirma que a sua «vida em geral» vai melhorar nos próximos cinco anos. «O que revela algum realismo» admite a nota que acompanha o eurobarómetro, «em resultado do clima de crise prolongada» que se vive em Portugal».

O que mais «aflige» os portugueses? «Desemprego», «situação económica» e «inflação», responde o inquérito elaborado pela Comissão, vindo logo a seguir o «sistema de saúde» e o «crime». O desemprego é a preocupação central de 64% dos portugueses. Cerca de 30% dos portugueses afirmam que a União Europeia é a principal causa do desemprego. E, para o futuro, receiam a transferência de empregos para outros países. «Isto coloca Portugal entre os países que mais identificam a União com o aumento do desemprego», afirma o relatório.
Para os portugueses, a estabilidade económica não é associada com a UE, a tal ponto que, pela primeira vez em dez anos, o número de nacionais que declaram como «positivo» pertencer à EU, desceu abaixo dos 50%. É que, diz o relatório, ao avaliarem a sua situação económica e financeira, «consideram que a UE teve um papel negativo. Por isso, em relação ao futuro da União, dizem os cidadãos nacionais - principalmente os residentes em áreas urbanas -, deverá centrar-se na luta contra o desemprego, a pobreza e a exclusão».
Só há um remédio: Correr com eles!

E se juntarmos a tudo isto a que se está a passar com os professores obrigados a exercer a sua profissão mesmo afectados por doenças graves e altamente incapacitantes (e de cujos novos casos todos os dias temos conhecimento) tivemos aqui, em meia dúzia de palavras, um retrato real – mas devastador – do país de Sócrates e do PS.

Rematando: nas mãos de Sócrates e do Partido Socialista (salvo seja…), Portugal transformou-se num autêntico país negreiro.

Por isso, sem medo de bufos e de esbirros, de polícias e processos judiciais, de represálias e físicas ou cobardes ameaças anónimas, acho que chegou o momento de dar-mos as mãos, juntarmos as nossas forças e corrermos, o mais depressa possível, com esta gente do poder.

De uma vez para sempre.

7.19.2007

Os novos salazares

A redução do défice, ou a redução da vida?

A redução do défice corresponde à redução da nossa saúde, da nossa educação, da nossa segurança social, do nosso futuro. Da nossa dignidade. Para o senhor Sinistro das Finanças, não há vida para além do Défice.

Com a devida vénia ao jornalista António Ribeiro Ferreira, pessoa que anda muito longe de mim em termos ideológicos, vou ler-vos, integralmente, a crónica que este colaborador do Correio da Manhã escreveu na edição do dia 16 deste mês. São, então, palavras dele:

«Com o patrocínio de Sócrates, este sítio está, dia após dia, a voltar ao tempo em que falar de liberdade era sinónimo de subversão.

Em tempos que já lá vão, neste sítio cada vez mais mal frequentado, havia uma censura cega e muito burra, que zelava não só pelos bons costumes como pela paz podre do cemitério. Era linear, sem grandes enredos intelectuais e elaboradas justificações ideológicas. Era assim, ponto final. Uma das normas dos coronéis lateiros da saudosa censura era evitar, a todo o custo, que o povo soubesse antecipadamente os passos do senhor presidente do Conselho.

A palavra «vai» era rigorosamente cortada pelos lápis azuis. As razões para essa medida com grande sentido de Estado eram várias. Mas as mais óbvias tinham a ver com a segurança de tão alta figura, sempre preocupada com comunistas, anarquistas e outras almas perdidas no tenebroso mundo da subversão, e com o natural desprezo que a dita sentia pelo povo do sítio.

O senhor presidente do Conselho só admitia olhar para a turba à distância, longe de odores e dizeres desagradáveis, que ordeiramente era conduzida em comboios e camionetas para manifestações organizadas pelo partido único, em momentos festivos ou de combate às forças negras do reviralho, domésticas ou internacionais.

Na sua infinita sabedoria, o povo deste sítio logo apelidou Sua Excelência de senhor Esteves. Nesses tempos que já lá vão, essa graçola marota não era castigada pelos esbirros da PIDE e os bufos do regime sabiam perfeitamente que nem sequer valia a pena denunciar quem a dizia em cafés, repartições públicas, autocarros, eléctricos, baptizados, casamentos, funerais ou simples festas de família. Era uma graçola, ponto final.

O senhor presidente do Conselho, ele próprio, sorria superiormente quando estas e outras anedotas lhe eram contadas com todo o respeito pelas figuras que tinham a seu cargo essa espinhosa missão. Os tempos mudaram, as gaivotas da democracia deram à costa há mais de 33 anos e eis que voltam, inesperadamente, não só os esbirros, como os censores e o próprio senhor Esteves.

O presidente do Conselho José Sócrates entra pelos fundos da Casa da Música no Porto, para fugir à turba, e inaugura uma ponte sobre o Tejo com o povo ao longe, rigorosamente vigiado. Os esbirros de serviço suspendem, despedem e ameaçam quem ouse dizer graçolas inocentes.

E os velhos coronéis lateiros foram substituídos pelos doutores e doutoras da Entidade Reguladora da Comunicação Social e da Comissão da Carteira dos Jornalistas. Com o alto patrocínio do senhor presidente do Conselho e dos acólitos socialistas este sítio está, dia após dia, a voltar ao tempo em que falar de liberdade era sinónimo de subversão
».

Os dois Esteves...

Isto foi escrito, como disse, pelo jornalista António Ribeiro Ferreira, pessoa que está muito longe de ser considerada de esquerda. Apesar disso – ou por isso mesmo – quero aplaudir o texto e pedir-lhe autorização para assinar por baixo.


Os dois «Esteves». E as parecenças sucedem-se assustadoramente...

O senhor Esteves (que dantes era António de nome e Salazar de apelido, e hoje foi baptizado como José e gosta de ser tratado por Sócrates, embora os apelidos sejam uns prosaicos Pinto de Sousa), então o senhor Esteves dos nossos dias que se cuide, mais a sua corte de esbirros e bufos «socialistas», porque este voltar ao passado não traz só coisas más. Também vai trazendo, aqui e além, umas ténues teias de cumplicidades e alianças, um certo reagrupar de forças e resistências, de tal forma que, um dia destes, quando menos esperarmos, as coisas deixarão de ser como são. Aliás, já Camões sabia que todo o mundo é composto de mudança…

A grande vitória de Costa,
que teve menos 17 mil votos
do que Carrilho, há dois anos

Falemos, agora, das eleições em Lisboa. António Costa é o novo presidente da Câmara, mas a grande vencedora das eleições autárquicas intercalares foi a abstenção, que bateu o valor recorde de 62,61 por cento.

Ao falar da grande vitória, os socialistas escondem que foram muito menos os lisboetas que votaram no PS vitorioso de António Costa, do que no PS derrotado de Manuel Maria Carrilho, em 2005, já que no domingo votaram no PS 57.907 cidadãos, e, em 2005, votaram em Carrilho 75.022. Isto é: o PS, em dois anos, perdeu, em Lisboa, mais de 17 mil votantes.

Para um partido que todos os dias arrota postas de pescada sobre as excelências da sua governação, e cujas sondagens não deixam de lhe conferir uma vantagem confortável, não deixa de ser significativo que, nas urnas, perante uma oposição dividida – e concorrendo com um dos seus pesos mais pesados (meus senhores, aquela barriga esférica e opada não engana: a política engorda mesmo…) tenha alcançado tão mísero resultado. Afinal, dos eleitores inscritos, só 11 % votaram em António Costa.

Mas o fenómeno da abstenção, que afectou seguramente todas as candidaturas, é o que mais significado tem. Pouco a pouco, o povo vai dizendo, com os seus votos em branco e com a sua ausência das urnas, que não acredita nesta política e nestes políticos. Que está farto. Que já sabe que o seu voto não resolve nada, e só os «adeptos dos clubes» - isto é: os indefectíveis dos partidos – se dão ao trabalho de ir ao jogo puxar pelo clube de cada um. Mesmo que, depois, nada ganhem com isso.
O país e o povo reduzidos a zero. Ou quase...

O que muita gente ainda não percebeu – e os que perceberam não disseram – é o que significa Teixeira dos Santos ter vindo dizer, com ar de festa, que o défice talvez fique abaixo dos 3%. E o homem falou disto como se o governo estivesse a realizar um feito magnífico, a que correspondesse uma benfeitoria para os milhões de portugueses que vivem e sofrem no país onde tiveram a infelicidade de nascer.

É que à redução do défice corresponde a redução de escolas, a redução de vários serviços de saúde, a redução da protecção na doença e no desemprego, a redução das reformas, vendo-se cada vez mais gente obrigada a trabalhar até morrer, como todos os dias vamos sabendo de mais casos. A redução do défice corresponde à redução da nossa vida, à redução da nossa esperança numa vida digna, à redução da nossa liberdade. A redução do défice corresponde à redução de mais leite para as nossas crianças, pois o seu preço é superior à média europeia, embora sejamos obrigados a reduzir a produção para cumprir as imposições dos países ricos da UE.
A Pátria já foi vendida por Soares e Cavaco

Daqui dou um salto para as afirmações de Saramago, segundo as quais Portugal pode estar a caminho de ser uma província de um novo país, chamado Ibéria. É claro que saíram disparadas reacções de sinal contrário. Aplausos e apupos. No fundo, esqueceram-se os mais patriotas que Portugal já não é um país independente há muitos anos, desde que aderiu a uma União Económica que o obrigou a abrir mão da sua siderurgia, que o impede de pescar o que precisa, que o obriga a arrancar vinha e olival, a produzir menos leite (embora hajam crianças que nem o cheiram), que está impedido, em suma, de produzir tudo aquilo que podia e devia para que não houvesse tanta fome por aí. Por imposição da UE, nem uma simples fava ou um singelo brinde podemos ter no bolo-rei. É claro que para esses patriotas, Portugal não foi vendido ao estrangeiro por Soares e Cavaco, nem a nossa independência económica se perdeu a troco de betão e subsídios para jipes e coutadas.

Na verdade, Saramago apenas teorizou a partir de uma realidade económica, social e geográfica, numa perspectiva de evolução política onde cada povo mantivesse a sua língua, a sua cultura e a sua autonomia.

O que eu não sei é se a outra parte da Ibéria, aquela que não fala português, estaria interessada em juntar-se a este bocado de terra e a este magote de gente, que de tão frouxa e decadente, trinta e três anos depois de se ter libertado de uma ditadura, já se deixou enredar, pacificamente, nas teias de uma outra ainda mais trituradora, feroz e descarada. Onde as vidas humanas não valem por si, mas por aquilo que dizem as contas de um fulano sinistro, chamado Teixeira dos Santos.

E um certo «socialista», que já foi presidente da República e, enquanto tal, lembrou ao governo de então (que não era PS) que havia mais vida para além do défice, anda agora muito entretido a ganhar uns milhares para fingir que combate a tuberculose no mundo, devendo achar, nos dias que correm, que, sendo o Governo «socialista», haverá sempre mais défice para justificar o sacrifício de mais vidas.

E depois, dizem que a taxa de abstenção é muito alta. E vai piorar, meus amigos, vai piorar.

7.10.2007


A grande vaia
- crónica de uma noite de Verão.


Os cerca de 40 mil espectadores que vaiaram intensamente o primeiro-ministro Sócrates, até há pouco também conhecido por «engenheiro», título que, soube-se agora de fonte segura, não pode utilizar sem que esteja a mentir (ou a brincar), dizia eu que esses cerca de 40 mil espectadores podem ser responsabilizados criminalmente por manifesta falta de respeito a uma das mais altas figuras da hierarquia do Estado.

Segundo conseguimos apurar, José Sócrates já pediu ao ministro da Administração Interna que mande visionar as cassetes gravadas pelas diversas câmaras de segurança instaladas no Estádio da Luz, no sentido de identificar os subversivos prevaricadores. Segundo parece, só Cavaco Silva, sentado a seu lado – e na altura do nefasto acontecimento a ajeitar o aba do seu impecável casaco – estará livre de qualquer suspeita. Ainda assim, há testemunhas que dizem ter detectado em Cavaco Silva um meio sorriso misterioso, embora se diga que poderia ser apenas um dos muitos esgares em que o senhor Presidente da República é pródigo.

Sócrates também já contactou os responsáveis da Liga de Clubes de Futebol Profissional e a Federação Portuguesa de Futebol, tendo em vista serem encontrados os mecanismos que possam justificar a interdição do Estádio da Luz por vários jogos, alegando-se, para o efeito, o comportamento incorrecto do público.

Por outro lado, o Ministério da Educação encarregou a directora da Direcção Regional de Educação do Norte, a virtuosa D. Margarida Moreira – recentemente nomeada Coordenadora-Chefe da Nacional Bufaria – no sentido de tentar apurar se o professor Charrua teria estado presente no Estádio da Luz, como chefe de claque, já que muitos dos insultos dirigidos ao senhor primeiro-ministro correspondem aos que, alegadamente, o dito professor teria proferido entre um grupo de amigos (amigos… salvo seja).

Outras das orientações de Sócrates dizem respeito aos autores de apupos, vaias e insultos que sejam identificados como funcionários públicos, para os quais se prevê, para além da responsabilização criminal, a imediata suspensão e a abertura de inquérito por falta de lealdade e notória postura antipatriótica.

Finalmente, Sócrates deseja que o Sport Lisboa e Benfica, como proprietário do estádio – e palco já reincidente neste lamentáveis comportamentos, uma vez que Durão Barroso ali mereceu igual tratamento – seja severamente punido, devendo descer de divisão e ficar proibido de equipar de vermelho, tido como cor subversiva – já Salazar, certa vez, se lembrara disso – e mesmo cor-de-rosa, por ser a rosa a flor do PS.

Mas se a vaia ao primeiro-ministro já foi um transtorno grande para José Sócrates, amachucando-lhe o ego até ao nível do papel higiénico depois de usado, outra vaia pode trazer ao governo sérios problemas diplomáticos. É que a Estátua da Liberdade, uma das candidatas a nova maravilha da humanidade, mereceu outra enorme vaia quando surgiu nos ecrãs do Estádio. Segundo consta, o embaixador norte-americano em Lisboa já pediu explicações ao Governo português, sugerindo mesmo que, a repetirem-se manifestações anti norte-americanas desta natureza, o país seria incluído no terrífico Eixo do Mal, o que equivale a dizer que Portugal seria considerado um estado potencialmente terrorista e passível de ser preventivamente bombardeado a qualquer momento. Convidado a comentar esta ameaça, o ministro dos Negócios estrangeiros, Luís Amado, desvalorizou a questão, dizendo que essa possibilidade não existia, tanto mais que Portugal não era um país produtor de petróleo. Só de calhaus.

Bem, meus amigos, depois deste devaneio próprio de uma noite de Verão, convém que vos diga, já mais a sério que, de facto, a grande maravilha dessa noite de novas maravilhas, foi mesmo a estrondosa, espontânea, genuína e pura vaia, saída com força e convicção da alma de dezenas de milhares de portugueses, fartinhos que estão de ser humilhados por um governo que não merece o mínimo de respeito nem o mínimo de credibilidade.

Ainda o aborto


Entretanto, todos percebemos que continua a saga do aborto (e que me desculpem os defensores da dignidade da mulher através do acto abortivo), mas é assunto que todos os dias aparece na comunicação social, por isso não vejo razão para fugir a ele.

Por um lado, porque inúmeros médicos (honras lhes sejam feitas) se recusam a praticar aquilo que, na verdade não é um acto médico – ou seja, um acto destinado a curar uma doença ou a salvar uma vida. De facto, um aborto por razões que nada tenham a ver com a saúde de mãe ou do filho, não passa de um acto expedito de eliminar uma vida que ameaça chatear a progenitora, algo que não encaixa na ética médica nem nas competências dos serviços de saúde, sejam públicos, sejam privados. Matar, não é a função dos médicos nem dos hospitais. Quando muito, o aborto encaixaria num serviço qualquer que se criasse exclusivamente para exterminar fetos, tipo matadouro municipal ou estatal, ou coisa parecida. Algo que tivesse a ver com o negócio da morte – e não com a dádiva da vida.

Por outro lado, porque já se viu que cada aborto vai custar ao SNS (isto é: a todos nós) um verdadeiro balúrdio, tanto fazendo que seja praticado no serviço público, como através das clínicas privadas convencionadas. Segundo a tabela em vigor, uma interrupção custa ao Estado entre 830 e 1.074 euros. (Na tabela de 2004 do Sistema de Gestão dos Utentes Inscritos para Cirurgia, uma interrupção voluntária da gravidez cirúrgica justificada pela saúde da mãe ou problemas graves com o feto, rondava os 590 euros). Ora, sendo agora a eliminação do feto não só legal, como gratuita (até de taxa moderadora está isenta), não admira que os diversos hospitais já digam que não vão ter capacidade para a chuva de abortos que aí vem, tendo que os reencaminhar para os privados.

De facto, se com as dificuldades antes existentes era o que era, agora, meus amigos, o aborto, como mais um método de contracepção puro e simples – e gratuito – vai disparar em flecha. Não se percebe – eu não percebo – que com a facilidade e diversidade de meios contraceptivos ao dispor das pessoas, possam ser assim tantas as gravidezes acidentais. Com o que vamos vendo e ouvindo – e com o que todos sabíamos, mas alguns fingiam não saber – aí está a prática abortiva como uma saída natural e comum para uma gravidez acidental ou, a partir de certa altura, não desejada – à mercê das venetas do momento – em vez de uma situação excepcional e justificada por indubitáveis razões de saúde.

Enfim, o que eu sei, isso sim, é que é mais um golpe nas contas do SNS, e que vai ser pago por todos nós. E – muito pior do que isso – vai dificultar e encarecer ainda mais o acesso aos serviços de saúde a quem está verdadeiramente doente. Pegando no exemplo da semana passada, é verdadeiramente escandaloso que um canceroso espere meses por uma cirurgia, que um doente cardíaco, renal ou hepático pague taxas moderadoras, que a vacina contra o cancro do colo do útero nem sequer seja comparticipada, que uma consulta de qualquer especialidade demore meses e meses, mas que um mulher saudável, que não teve os devidos cuidados nas suas relações sexuais – ou, de súbito – mudou de ideias em relação à sua gravidez, ocupe o lugar e os recursos dos verdadeiros doentes.

Enfim, não é apenas Sócrates que merece uma grande vaia.

7.08.2007









E a Primeira Grande Maravilha foi...


Dia 7 de Julho, no maravilhoso Estádio da Luz, numa cerimónica bacoca e sem qualquer significado cultural e científico, dizem que se elegeu, via mensagens telefónicas ou via internet (que tanto podiam ser enviadas por gente sensata, culta e inteligente, como por analfabetos e outros calhaus sem a mínima noção do que estavam a fazer) as novas Sete Maravilhas do Mundo e as Sete Maravilhas de Portugal. Valeu o que valeu - isto é: ZERO. As maravilhas que foram consideradas já o eram antes da votação - e nada se lhes acrescentou de maravilhoso - e as que o não foram, meus caros, não foi por isso que deixaram de ser coisas maravilhosas.


Mas houve uma grande, real, iniludível, verdadeira, sentida, espontânea e gloriosa grande Maravilha. Foi a monumental vaia com que os milhares de portugueses presentes «ovacionaram» o senhor José Sócrates Pinto de Sousa, por alcunha «o engenheiro».


Não assisti ao espectáculo, nem vi pela televisão. Soube, no dia seguinte, pelos diversos noticiários. E fiquei feliz. Percebi que essa «enorme e possante besta», que Erasmo de Roterdão dizia o povo ser, ainda mostra, de vez em quando, que não está totalmente dominado.


Que maravilha, meus amigos, sabermos que o povo, afinal, ainda mexe...


7.07.2007




Austrália confessa a verdade:

Entrámos no Iraque por causa do petróleo

Afirmações recentes do primeiro-ministro australiano, deixaram claro que a Austrália participou na invasão e ocupação do Iraque para garantir o controlo das vastas jazidas petrolíferas existentes no Iraque. Louve-se-lhe a franqueza. É o neo-colonialismo e a guerra de pilhagem no seus esplendor. Ou o Império (pela boca de um dos seus rafeiros) a confessar, sem receio, a sua condição imperialista.

Mas nem tudo são rosas...

A explosão de um camião carregado de explosivos num mercado da localidade de Toz, a norte de Bagdade, causou pelo menos cem mortes e 120 feridos, segundo informaram fontes da Polícia citadas pelas agências internacionais.

Entretanto, o exército norte-americano também confirmou a existência de seis baixas no seu contingente, em resultado de um atentado na zona de Amarli, a 90 quilómetros de Tikrit. Desculpem-me a franqueza, mas dou dois ou três pulos de contente por cada baixa sofrida pelos invasores. Estou farto de saltar.

Tikrit e Toz situam-se na província de Salahedin, que pertence ao denominado Estado Islâmico do Iraque, anunciado por um grupo sunita, em Outubro. Certo ou errado, estes, pelos menos, estão na terra deles.

7.06.2007

LISTA NEGRA
(Nunca esquecer estes nomes)

José Sócrates

Teixeira dos Santos

Correia de Campos

Vieira da Silva

Augusto Santos Silva

António Costa

Luís Amado

Maria de Lurdes Rodrigues

(a actualizar em caso de necessidade)

7.05.2007

Ontem, hoje, aqui


Intelectuais apolíticos

por Otto Rene Castillo [*]

Um dia,
os intelectuais
apolíticos
do meu país
serão interrogados
pelo homem
simples do nosso povo.


Serão perguntados
sobre o que fizeram
quando
a pátria se apagava
lentamente,
como uma fogueira frágil,
pequena e só.


Não serão interrogados
sobre os seus trajes,
nem acerca das suas longas
siestas
após o almoço,
tão pouco sobre os seus estéreis
combates com o nada,
nem sobre sua ontológica
maneira
de chegar às moedas.


Ninguém os interrogará
acerca da mitologia grega,
nem sobre o asco
que sentiram de si,
quando alguém, no seu fundo,
dispunha-se a morrer covardemente.


Ninguém lhes perguntará
sobre suas justificações
absurdas,
crescidas à sombra
de uma mentira rotunda.


Nesse dia virão
os homens simples.
Os que nunca se couberam
nos livros e versos
dos intelectuais apolíticos,
mas que vinham todos os dias
trazer-lhes o leite e o pão,
os ovos e as tortilhas,
os que costuravam a roupa,
os que manejavam os carros,
cuidavam dos seus cães e jardins,
e para eles trabalhavam,
e perguntarão,
"Que fizestes quando os pobres
sofriam e neles se queimava,
gravemente, a ternura e a vida?"


Intelectuais apolíticos
do meu doce país,
nada podereis responder.


Um abutre de silêncio vos devorará
as entranhas.
Vos roerá a alma
vossa própria miséria.
E calareis,
envergonhados de vós próprios.


[*] Revolucionário guatemalteco (1936-1967), guerrilheiro e poeta. A seguir ao golpe de 1954 patrocinado pela CIA, que derrubou o governo democrático de Jacobo Arbenz , Castillo teve de exilar-se em El Salvador. Voltou à Guatemala em 1964, onde militou no Partido dos Trabalhadores, fundou o Teatro Experimental e escreveu numerosos poemas. No mesmo ano foi preso mas conseguiu fugir. Regressou ao exílio, desta vez na Europa. Posteriormente retornou secretamente à Guatemala e incorporou-se a um dos movimentos guerrilheiros que operavam nas montanhas de Zacapa. Em 1967, Castillo e outros combatentes revolucionários foram capturados. Ele, juntamente com camaradas seus e camponeses locais, foram brutalmente torturados e a seguir queimados vivos.

7.03.2007

O crepúsculo da democracia


A propósito de cancros



Os doentes de cancro esperam, em média, 3 meses e meio por uma operação, mas há hospitais onde a demora na intervenção chega aos sete meses, lê-se num relatório do próprio Ministério da Saúde, divulgado recentemente, acrescentando que dos 4.075 doentes com cancro que em Outubro estavam inscritos para cirurgia, 42 % estavam na lista há mais de dois meses e 27 % há mais de quatro. Segundo o mesmo relatório, existem também grandes assimetrias regionais na resposta dada aos pacientes.

Assim, no Algarve, os doentes com cancro aguardam em média mais de 6,5 meses por uma operação, no norte do país o tempo de espera baixa para os 2,5 em Lisboa e no Alentejo é superior a 4 meses e no Centro situa-se nos 3,5 meses. No Hospital de S. Teotónio, em Viseu, e no Centro Hospitalar da Zona Ocidental de Lisboa, a espera atinge, em média, os 7 meses.


(Correia de Campos - o Grande Cancro da Saúde)

Ao contrário disto, as senhoras saudáveis, com fetos normais (isto é: com gravidezes saudáveis) que desejem abortar por razões que só elas sabem, serão atendidas em escassos dias e, como cereja em cima do bolo, estão isentas de taxas moderadoras, coisas que não acontece a qualquer desgraçado que apanhe um pneumonia, sofra um enfarte, ou um AVC. Já para não falarmos do facto de o Estado nem sequer comparticipar a vacina que previne o cancro do colo do útero. Entre um canceroso que precisa de ser operado e uma mulher saudável que queira abortar, tem prioridade, para o SNS, o humaníssimo aborto.

Os dados aqui ficam, para que se medite seriamente na maneira como a política brinca com tudo, até com a vida das pessoas. Dou-vos mais um caso. No início deste ano, uma mulher de 65 anos começou a sentir fortes dores no ombro esquerdo. Foi, às seis da manhã, para a porta do Centro de Saúde do Seixal, para, lá para o fim da manhã, conseguir ser atendida. A médica mandou-a fazer uma radiografia, que foi inconclusiva. Seguiu-se uma ecografia que acusou algo de relativamente complicado, requerendo uma consulta da especialidade no Hospital Garcia de Orta, desconfiando a médica, pelo que viu e leu no relatório, que será necessária uma operação. Nesse mesmo dia foi passada a carta, pelo CSS, a pedir a marcação dessa consulta ao HGO. Até hoje não houve qualquer resposta. Já lá vão cerca de seis meses. Depois da consulta, quantos meses se passarão até que se realize a operação, se ela for, de facto, necessária? E quanto vai custar?

Pergunto-vos: serão os casos de doentes com cancro ou com outras quaisquer doenças, menos importantes do que a decisão de uma mulher saudável em querer abortar? Sentir-se-ão bem, ao saber disto, aqueles que tanto lutaram pela liberalização do aborto, sem que perguntem a si próprios porque ficam agora mudos e quedos perante estas notícias? Onde estão, agora, os grandes, aguerridos e corajosos activistas que encheram ruas e avenidas, colaram cartazes, debitaram argumentos sobre argumentos – alguns deles verdadeiramente imbecis – a favor da liberalização do aborto e por aí andaram, de faca nos dentes, como se eliminar um feto, por razões de natureza económica, fosse um avanço civilizacional e a resolução do nosso maior problema? Porque não saltam nem se esganiçam agora (como saltaram e se esganiçaram então), em defesa dos doentes cancerosos, que esperam meses por uma operação que lhes pode salvar a vida, ou para abreviar os tempos de espera por consultas da especialidade? E, à semelhança do que acontece para o aborto a pedido, porque não lutam com igual fervor e entusiasmo, em festivas e coloridas manifestações, para que todos os doentes – mas os verdadeiros doentes, com doenças que os atingiram sem que para tal tivessem contribuído – também fiquem isentos da taxa moderadora? Então, que moral é esta? Que moralistas são estes? Que coerência há nestas pessoas?

Já que estamos a falar de cancro, falemos doutro:
um cancro chamado Partido Socialista.

Ultimamente, sucedem-se as notícias sobre constantes actos de perseguição política, sendo já três as vítimas mais mediáticas da mentalidade pidesca da gentalha que por aí está espalhada, desde os píncaros da governança até ao reles esbirro sedento de mostrar serviço.

Primeiro, foi o professor Charrua, corrido da DREN, suspenso de funções e com uma nota de culpa à perna, à conta de uma piada e de desabafos que milhões de portugueses, como eu, repetem todos os dias. Por ter brincado com o senhor presidente do conselho, sujeita-se a seis meses de suspensão
.


(Margarida Moreira, a coordenadora da bufaria na DREN)


Seguiu-se a exoneração de Maria Celeste Cardoso, Directora do Centro de Saúde de Vieira do Minho, por causa de um cartaz que recordava aquilo que o ministro da Saúde tinha dito, ou seja, que nunca tinha ido a um SAP, nem esperava ir, ao qual se acrescentava um comentário jocoso O crime da senhora saneada (para dar lugar a um boy socialista, pois claro), terá sido o de não ter mandado retirar o cartaz no preciso instante em foi afixado, ordem que foi dada pela vítima logo que do facto teve conhecimento.

(A girl bisbilhoteira Ana Maria Correia)



Como não há duas sem três, aparece agora uma nota de uma girl socialista, coordenadora da Sub-região de Saúde de Castelo Branco, de sua graça Ana Maria Correia (foto acima), onde esta informa todo o pessoal da sede «que a correspondência endereçada directamente a determinados funcionários, ou ao cuidado dos mesmos, será aberta na coordenação, desde que oriunda de qualquer serviço público, ou outro».

Também é sabido que o blog
http://www.doportugalprofundo.blogspot.com/ (cuja visita aconselho vivamente), do professor António Balbino Caldeira, está sob vigilância apertada desde o dia em que este português levantou a lebre das confusões acerca da célebre licenciatura de José Sócrates, pelo que o seu autor já foi alvo de uma queixa crime por parte do primeiro-ministro, enquanto tal e enquanto cidadão. Só falta saber porque não se queixou, também, como «engenheiro».

A forma como este governo está a tratar a liberdade de expressão, especialmente se é ele próprio o alvo da crítica, não tem comparação sequer com a ditadura do Estado Novo, já que esta, apesar de tudo, teve o cuidado de permitir sempre alguma crítica política e social.

Agora, os esbirros do PS, verdadeiros candidatos a futuros pidezecos, aprestam-se a mostrar ao grande chefe a sua fidelidade canina. Mas já nada espanta se vier da canalha socialista. Depois dos casos que citei, a que falta acrescentar as listas de grevistas de Teixeira dos Santos, e em apenas dois anos de poder absoluto, já estamos, como referi outras vezes, a respirar o ar de chumbo que nos pesava nos tempos de Salazar a Marcelo.

Entretanto, a crise arrasta-se. Para fugir a ela, 200 mil portugueses abastecem-se regularmente em Espanha. As lojas, por cá, estão às moscas, mesmo com promoções de 50%. Cada vez há mais casas devolutas, porque as famílias não podem pagar uma prestação que, em poucos meses, subiu para valores incomportáveis. As empresas fecham umas atrás das outras.

Porém, para o senhor «engenheiro», o remédio não é governar bem. É calar os críticos, como se faz em qualquer ditadura. Os jornalistas começam a incomodar? Sujeitam-se jornais e jornalistas a órgão autoritários, fiéis ao Governo, capazes de calar uns e outros. Censura? Nem pensar!

E a malta, com os bolsos cada vez mais vazios, não sabe o que fazer à vida. Se rir das patacoadas de ministros imbecis, se começar a pensar que isto só vai lá à bomba.

Uma coisa é certa. Democracia é que isto não é. Ou se é, sofre de cancro.

Um cancro chamado PS.

7.02.2007

Combustíveis e não só..


200 mil portugueses abastecem
regularmente em Espanha
As notícias dos jornais galegos davam conta dos combustíveis a preços recorde naquela região autónoma: o gasóleo a 0,98 euros e a gasolina sem chumbo 95 octanas a 1,11 euros.

Ora, o preço recorde da Galiza, que não é diferente do resto da Espanha, é ‘apenas’ mais baixo 26 cêntimos (52 saudosos escudos) por litro da gasolina e dez cêntimos por litro de gasóleo do que em Portugal. Com esta diferença, atestar um carro a gasolina sem chumbo, de 95 octanas, no outro lado da fronteira, significa uma poupança mínima de dez euros (dois mil escudos) o que, para quem vive perto, é muito significativo.
Um automobilista que, no nosso país, gaste uma média de 1.500 euros de gasolina por ano, se abastecer em Espanha, consegue poupar pelo menos 364 euros. É por isso que, segundo a Associação Nacional dos Revendedores de Combustíveis (ANAREC), já são cerca de 200 mil os automobilistas portugueses que abastecem regularmente em Espanha, o que corresponde a qualquer coisa como 300 milhões de euros gastos em combustíveis no país vizinho.
"Pouco compro em Portugal"
Leio nos jornais: «António Lima vive na vila de Valença do Minho, a 500 metros de Tui, “onde tudo, menos comer em restaurantes, é mais barato do que cá”, diz ele - e diz quem faz as compras todas em Espanha. “Pouco compro em Portugal”, diz este valenciano, destacando as diferenças de preços da gasolina, do gás, da carne, do peixe, dos cereais e até do pão e do leite. “Na minha casa somos cinco pessoas e há dois carros. A comprar tudo em Espanha e a meter lá gasolina conseguimos uma poupança de mais de 250 euros por mês”, acrescentando que “o que cá vale a pena é ir comer fora e tomar café”».
É por isso que a ANAREC diz não ter dúvidas de que 25 a 30 por cento dos habitantes da raia portuguesa faz compras regularmente em Espanha, o que dá cerca de 200 mil pessoas. Não é por acaso que, só no ano passado, decretaram falência mais de 30 postos de abastecimento de combustíveis nas vilas e cidades fronteiriças.
É. Um dia destes dou o salto. Estou farto disto. Estou farto deles. Cheiram-me ao mesmo que me cheiravam os outros, os que um dia de primavera se renderam ao Movimento das Forças Armadas.

6.26.2007

Santiago do Chile e Lisboa




Da farda bruta, ao distinto Armani

O governo socialista está prestes a atingir os seus objectivos: colocar a corda na garganta a cerca de nove milhões de portugueses, enquanto os restantes, essencialmente os detentores do poder económico e os barões da classe política – e seus afilhados – terão o país inteiramente para si.

Para nós, povo comum, a sangria está ao rubro. Emprego precário – e é se houver – ordenados incapazes de fazer face ao custo de vida, dificuldades cada vez maiores no acesso ao ensino (só acessível às elites), reformas cada vez piores e mais tardias, o acesso a cuidados médicos e de saúde progressivamente dificultado, agravamento de impostos, criação de novos mecanismo de extorsão, a nível central e local, como sejam a criação de novas taxas e o agravamento de outras.
Tudo serve para taxar. Por enquanto, salva-se o ar. Até ver...

Agora, uma chamada Comissão para a Sustentabilidade do Financiamento do Serviço Nacional de Saúde, por encomenda do Governo, vem propor que as despesas com a Saúde deixem de ser dedutíveis no IRS. Se assim for, milhões de portugueses vão trabalhar para, exclusivamente, pagarem impostos e reduzirem o seu dia-a-dia ao nível da pura sobrevivência.

Cinicamente, incute-se na população ideia de que o Serviço Nacional de Saúde está a caminho da rotura, porque as receitas não cobrem as despesas. Esquecem-se os facínoras que tal apregoam, que o SNS não é uma clínica privada, cuja finalidade é ganhar dinheiro à custa dos que podem pagar uma assistência de melhor qualidade. O SNS é pago por todos os portugueses, através dos seus impostos, e que o Orçamento Geral do Estado, cujas receitas saem dos bolsos de todos nós, deveria dotá-lo com as verbas necessárias a satisfazer, gratuitamente, as necessidades de toda a população, o que só não acontece porque o governo prefere gastar dinheiro noutras coisas.

A hipocrisia do Governo e da referida Comissão vai ao ponto de comparar Portugal com outros países, onde, para além dos ordenados serem incomparavelmente maiores, os respectivos SNS têm uma capacidade que não tem o SNS português – e cada vez tem menos. Por isso mesmo, o facto de as despesas de saúde serem dedutíveis no IRS, resulta do facto de sermos obrigados a recorrermos a serviços exteriores ao SNS, aliviando-o de milhares de consultas e outros actos médicos.

Por outro lado, ao pagarmos taxas moderadoras – ou, como eles querem que se diga agora, taxas de utilização – é bom que fique claro que estamos a pagar aquilo que já pagámos com os nossos impostos, e que só não chega porque o Governo, como já afirmei antes, não dota o OGE com as verbas adequadas à realidade nacional. Aos gastar onde não deve, falta-lhe onde não podia faltar.

Fica claro, assim, que matriz genética deste governo é, essencialmente exterminadora. Extermina tudo o que seja benéfico para a generalidade dos portugueses. Reduz as reformas e aumenta o tempo de trabalho. Extermina o direito à saúde, tornando-a cara, e eliminando Urgências, Serviços de Atendimento Permanente e maternidades. Extermina escolas e consulados. Extermina, em suma, o direito dos portugueses a uma vida sadia, feliz e digna.

No outro pólo, no entanto, no pólo das senhores ricos e dos seus ricos governantes e da sua imensa corte de assessores, adjuntos, gestores, administradores, presidentes, comentadores, analistas, propagandistas, e colaboradores, directores regionais de tudo e mais alguma coisa, a vida é diferente. A administração pública (central e local) está repleta de grandes e pequenos parasitas, abrigados sob as capas dos vários partidos, bandos de ociosos sugadores do erário público, construindo meticulosamente a reformazinha que lhes garantirá um amanhã sem os pavores que hoje atormentam milhões de portugueses.

Aí não faltam ordenados repolhudos, ajudas de custo generosas, reformas várias e em qualquer idade (bastando uns curtos meses para a elas se ter direito), seguros de vida, de saúde e de acidentes pessoais, o saltitar constante de um cadeirão para outro, prémios de resultados, mesmo que os resultados sejam negativos, automóvel às ordens, cartões de crédito com belos plafonds, enfim, a ordem é pilhar depressa e bem. É aí, também, que prolifera a corrupção com a sua cascata de bons negócios e as devidas gratificações.

E quando alguém fala em classes sociais, mesmo que aponte os casos que eu acabei de apontar, logo os tenores da governança (e os seus títeres dos andares inferiores da pirâmide), soltam um pungente dó de peito, gritando, «Aqui d’el Rei!, classes sociais não existem, o que se passa é que tais benesses são indispensáveis à dignificação das funções». E eu, ingénuo, a pensar que a dignidade da função tinha apenas a ver com a maneira como era exercida, e não com a maneira como era remunerada.

Mas Sócrates, o Exterminador Implacável, não pode ter tudo. Muito menos gente feliz nas ruínas. Pode tentar calar as vozes dissonantes, mandar perseguir opositores, ameaçar autores de blogs, iludir e tentar segurar aqueles que acreditaram um dia nele. Podem os seus lacaios obrigar uma professora a trabalhar até à morte, ou levantar processos a quem ouse desabafar contra a camarilha governante.

Mas a fome está aí, insidiosa, alastrando como mancha de óleo. A mentira não enche barrigas, não paga a prestação da casa, nem os livros dos filhos, nem a conta na farmácia. Nem a batata ou o papo-seco. E a retórica, de tantas vezes utilizada, enjoa. Enoja.

A regressão social e económica que vivemos assemelha-se, em muito, à regressão que os chilenos sofreram após o golpe de Pinochet. A diferença, é que no Chile foi à bruta. Aqui – porque eles também aprendem com os seus erros – está a ser silenciosa, delicodoce, cor-de-rosa. Não veste farda nem bombardeia o povo. Veste Armani, mas produz decretos tão assassinos como as bombas de Pinochet.

Portugal vive, hoje em dia, sob a mais violenta e sofisticada das ditaduras. A ditadura justificada por um voto que, descuidado – ou desencantado – lhe escancarou as portas.

Santiago do Chile, Setembro de 1973; Lisboa, Junho de 2007. O mesmo drama. As mesmas vítimas.

Chegou a hora de fazermos qualquer coisa. Não sei exactamente o quê, mas que é preciso fazer qualquer coisa, disso não tenho a menor dúvida.

6.23.2007

Ó Sócrates, diz-me com quem andas...




Tudo bons rapazes


António José Morais (lembram-se dele?) foi acusado de corrupção e branqueamento de capitais num inquérito à construção de uma estação de tratamento de resíduos na Cova da Beira.

O ex-professor de José Sócrates na Universidade Independente, esteve ligado à construção do aterro sanitário em 1996 através do GEASM, o seu gabinete de engenharia, que preparou o projecto, o programa do concurso, o caderno de encargos e avaliação técnica das propostas.

A Polícia Judiciária começou a investigar o caso em 1999, após uma denúncia anónima. À data dos factos, José Sócrates era secretário de Estado do Ambiente, mas não foi ouvido no inquérito. A notícia, avançada pelo Expresso Online e já confirmada pelo PÚBLICO, refere que foram constituídos mais cinco arguidos ".

Para quem já não se lembra do Morais e das suas ligações a Sócrates e ao Partido «Socialista», eu recordo alguns pormenores deliciosos:

I - Comecemos pela querida priminha

O António José Morais é primo em primeiro grau da Dr.ª Edite Estrela. É um transmontano, tal como a prima, que também é uma grande amiga do «engenheiro» Sócrates. Também é amigo de outro transmontano, igualmente licenciado pela UnI, o doutor (será mesmo?) Armando Vara, antigo caixa da Caixa Geral de Depósitos e actualmente Administrador desta instituição, e também ele grande amigo do «engenheiro» Sócrates e da Dr.ª Edite Estrela.

II - Um curiculum maravilhoso

O engenheiro Morais trabalhou no prestigiado LNEC (Laboratório Nacional de Engenharia Civil), só que, devido ao seu elevado espírito empreendedor, canalizava trabalhos destinados ao LNEC, para uma empresa em que era parte interessada. Um dia, devido à sua infeliz conduta, foi convidado a sair. Trabalhou para outras empresas, entre as quais a HIDROPROJECTO, e pelas mesmas razões foi também convidado a sair. Nesta sua fase de consultor de reconhecido mérito, trabalhou para a Câmara da Covilhã, à qual vendeu serviços requisitados pelo técnico «engenheiro» Sócrates – isto, claro, sem nunca se conhecerem...

III - O nascimento de uma bela amizade

É desta amizade entre o «engenheiro» da Covilhã e o engenheiro Consultor que se dá a apresentação de Sócrates à Dr.ª Edite Estrela, proeminente deputada e dirigente do Partido Socialista. E assim começa a fulgurante ascensão do «engenheiro» Sócrates no Partido Socialista de Lisboa, apadrinhada pela famosa Dr.ª Edite Estrela. Porém, logo ficou evidente que à natural e legítima ambição do político Sócrates era importante acrescentar a licenciatura. Fica bem, dá outro estatuto e outra credibilidade. Enfim, facilita a abertura de muitas portas. E, sobretudo, distingue a gente fina da ralé, da maralha…Assim, o engenheiro Morais, já professor do prestigiado ISEL (Instituto Superior de Engenharia de Lisboa) passa a contar naquela Universidade com um prestigiado aluno – José Sócrates Pinto de Sousa, bacharel, sendo importante recordar que não se conheciam de lado nenhum. Nem da Covilhã.

IV - Mais dados para o curriculum

Porém, o diligente e empreendedor engenheiro Morais, demasiado envolvido noutros projectos, faltava, amiúdes vezes, às aulas, o que, naturalmente, levou a que fosse convidado a sair daquela docência. No entanto, convém não esquecer que estamos a falar de um homem dotado de grande espírito de iniciativa, pelo que, rapidamente, se colocou na Universidade Independente. Aí, o seu amigo (mas desconhecido) bacharel, José Sócrates, imensamente absorvido na política e na governação, seguiu-o, mas apenas «porque era a escola, mais perto do ISEL que encontrou». E, claro está, continuava a não saber quem era o engenheiro Morais.

E assim se licenciou, tendo como professor da maioria das cadeiras (logo quatro) o «desconhecido», mas «exigente», engenheiro Morais. E, ultrapassando todas as dificuldades, conseguindo ser ao mesmo tempo secretário de Estado e trabalhador estudante, licencia-se e passa a ser «engenheiro».

Eis que, licenciado o governante, há que retribuir o esforço do hiper, super, mega professor, que, com o sacrifício do seu próprio descanso, deve ter dado aulas e orientado o aluno a horas fora de normal, já que a ocupação de secretário de Estado é normalmente absorvente.

V - E assim…

O amigo Vara, também secretário de Estado da Administração Interna, coloca o engenheiro Morais como Director Geral no GEPI, um organismo daquele Ministério.

VI - E lá vem outra vez o curriculum...

Mas o Morais, um homem cheio de iniciativa, também aí teve de ser demitido, devido a adjudicações de obras não muito consonantes com a lei, para além de outras trapalhadas na Fundação de Prevenção e Segurança fundada pelo secretário de Estado, Vara. De tal modo as coisas foram, que a sigla FPS deixou de significar Fundação de Prevenção e Segurança, para passar a significar, no dizer do povo, Fundos para o PS. (Lembram-se, decerto, que foi por causa dessa famigerada Fundação que o engenheiro Guterres foi obrigado a demitir o já ministro Vara (pressões do presidente Sampaio), o que levou ao corte de relações de Vara com Jorge Sampaio – consta, até, que Vara nutre pelo ex-presidente um ódio de estimação). Guterres, farto que estava do Partido Socialista, aproveita a derrota nas autárquicas e dá uma bofetada de luva branca no PS, mandando-os todos para o desemprego.

Seguem-se Durão Barroso e Santana Lopes, que não se distinguem em praticamente nada de positivo, e assim volta ao poder o Partido Socialista, já comandado pelo «engenheiro» Sócrates. Ganha com maioria absoluta.

VI - Mais um tacho, mais uma oportunidade… e mais dados para o curriculum

Eis que, amigo do seu amigo é, e vamos dar mais uma oportunidade ao Morais, que o tipo não é para brincadeiras. E aí está o fabuloso engenheiro Morais nomeado Presidente do Instituto de Gestão Financeira do Ministério da Justiça. Claro que Sócrates não teve nada a ver com isso – e quem pensar o contrário é gente de mau íntimo, suspeitosa e má-língua. Pois se ele mal o conhecia e, certamente, teria apenas uma vaga ideia do outro ter sido seu dedicado professor e muito prestável examinador… Mas o Morais, que é homem sensível e de coração grande – e que, como a maioria dos homens, não é de pau – tomba de amores por uma cidadã brasileira, que era empregada num restaurante no Centro Comercial Colombo.

Ora, sabemos todos como a paixão obnubila a mente e trai a razão. Vítima disso, o Morais nomeia a «brasuca» Directora de Logística dum organismo por ele tutelado, a ganhar 1.600 € por mês. Claro que ia dar chatice, porque as habilitações literárias (outra vez as malfadadas habilitações) da pequena começaram a ser questionadas pelo pessoal que por lá circulava. Daí até a coisa vir publicada no 24 Horas, foi um ápice. E assim lá foi o apaixonado engenheiro Morais despedido outra vez.

E foi este o homem que fez do senhor José Sócrates Pinto de Sousa um… senhor «engenheiro»!

Agora, o Morais, está a contas com a Justiça. O Sócrates - para que conste - nunca ouviu falar do homem, nem coisa que se pareça.

Comentários? Para quê?

São rosas «socialistas», senhores! São rosas «socialistas».


6.19.2007

Siderurgia Nacional - testemunho de um crime


O mais giro, é que ninguém foi preso...


A história que eu vou contar não é ficção. É uma história que se passou em Portugal, nos nossos dias. É a história de um grande crime, com vários crimes menores pelo meio. É, em suma, uma história de terror.

No dia 5 de Março de 1998, escrevia eu no jornal Outra Banda: «O fim da Siderurgia Nacional, como empresa estratégica ao serviço dos interesses nacionais, está praticamente consumado. O processo arrastou-se ao longo de vários anos, mas caminha agora para um fim inexorável e muito bem definido: colocar um instrumento necessário ao desenvolvimento nacional e ao bem-estar dos portugueses nas mãos de quem, a nível europeu, quer, pode e manda na indústria siderúrgica».

Mas para que se compreenda melhor todo o processo, é preciso dizer que Portugal nunca produziu mais do que 60% das suas necessidades em produtos siderúrgicos. Conscientes desse défice, que obrigava o país a importar os restantes 40%, o que o colocava numa perigosa e caríssima dependência do estrangeiro, nos finais da década de setenta, início da década de oitenta, o Estado entendeu – e bem – executar um plano de desenvolvimento da Siderurgia Nacional. Investiram-se, então, já em meados anos 80, 70 milhões de contos nesse plano, o que incluiu trabalhos de terraplanagens e compra de equipamentos, entre eles um novo alto-forno, que ficou acondicionado nos terrenos da empresa. Convém dizer que, na época, trabalhavam na Siderurgia Nacional, entre as instalações de Aldeia de Paio Pires e da Maia, cerca de 6.500 pessoas.

Porém, por essa altura, iniciaram-se as conversações para a adesão de Portugal à CEE, que impuseram, entre outras obrigações, a necessidade de reduzir a nossa produção de produtos siderúrgicos, pois a Comunidade era, como parece que ainda é, excedentária nessa matéria.
Ora, se isso era verdade em relação à Comunidade, não o era em relação a Portugal, que precisava de produzir mais para satisfazer o seu consumo interno. Parece lógico que, a haver redução de quotas, deveriam ser os países que produziam acima das suas necessidades a fazê-lo, e nunca Portugal. Por incompetência, cobardia ou outra razão qualquer ainda mais censurável (e seria bom que, um dia, os dossiers fossem divulgados para conhecermos os nomes e as caras desses vendilhões da pátria), a verdade é que fomos forçados a sacrificar o interesse nacional para comprarmos os produtos siderúrgicos produzidos no estrangeiro.

Para além dos 70 milhões de contos assim deitados à rua – apenas o alto-forno, que entretanto apodrecia nos caixotes expostos ao tempo, permitiu algum retorno, pois foi vendido para um país asiático – também se comprometeram as hipóteses de garantir, no futuro, o nível de emprego e a estabilidade social de milhares de trabalhadores e suas famílias.

Se o que acabamos de relatar é mau, o que estava para vir não seria melhor.

Mentindo aos portugueses, o governo de Cavaco Silva acabou aquilo que a governação de Mário Soares havia começado. Estou a falar do desmembramento e venda da Siderurgia Nacional a empresas estrangeiras, o que - e ao contrário do que afirmaram, em coro, PS e PSD - não foi uma imposição, nem uma consequência da integração na CEE. Aliás, depois desta venda, passámos a ser o único país da então CEE que não tinha uma indústria siderúrgica própria.

Mas se o desmantelamento e venda da SN foram um autêntico crime de lesa-pátria, as peripécias da venda atingiram as raias do autêntico escândalo, próprio de uma qualquer – e autêntica – república das bananas.

Depois de dividir a SN em três empresas (SN-Serviços, SN-Empresa de Produtos Longos e SN-Empresa de Produtos Planos), o Governo decidiu manter na pose do Estado apenas a SN-Serviços, abrindo à privatização as outras duas. Em 18 de Setembro de 1995, é decidida a privatização da SN-Empresa de Produtos Longos, de Aldeia de Paio Pires e da Maia, a qual é adquirida por 3,750 milhões de contos, pelo grupo constituído pela Metalúrgica Galaica, SA e a Herisider Holand, B.V., uma empresa do Grupo Riva, considerado como os patrões do aço a nível europeu. E os compradores terão feito, sem a menor dúvida, o maior e melhor negócio do século passado, digno de figurar no Guiness.

De facto, por apenas 3,750 milhões de contos, a nova empresa ficou proprietária de todas as instalações e equipamentos das fábricas da Maia e de Aldeia de Paio Pires, das respectivas linhas de produção, correspondendo tudo a uma área de 83 hectares. Mas, para além disso, ficou a deter, também, 5 milhões de contos em stocks (isto é, produtos já fabricados, que, só eles, valiam mais do que o preço pago por tudo) e, como cereja em cima do bolo, de mais 9 milhões de contos em créditos, ou seja, valores a receber por vendas feitas antes de terem comprado as fábricas. Contudo, o Estado português, que abriu mão dos seus créditos, assumiu, pelo contrário, todos os débitos existentes à altura da venda.

Resumindo: a RIVA comprou por menos de 4 milhões de contos aquilo que valia, no mínimo, 14 milhões de contos. Sendo assim, não espanta sabermos que, tempos depois, cedeu a sua posição aos seus parceiros espanhóis por um valor que rondou os 20 milhões de contos.

Foi de tal ordem o escândalo, que o Eng. Silva Carneiro, na altura deste mirabolante negócio presidente do conselho de administração da SN, foi despedido sem justa causa, mas o inquérito que Augusto Mateus, secretário de Estado de Guterres, em finais de 1995, então prometeu, perdeu-se nas inúmeras gavetas do poder político.

A partir daqui, sucederam-se os despedimentos de milhares de trabalhadores. E como nota final, também ela explicativa da subserviência do Estado português aos interesses económicos – e dos muitos negócios subterrâneos que se adivinham no meio desta trapalhada toda – enquanto o alto-forno funcionou, a SN-Serviços, a única que se manteve nas mãos do Estado português, fornecia à SN-Longos as matérias primas (bilhetes, produzidos a partir da gusa líquida, via alto-forno, e energia).
Porém, com a substituição no alto-forno por um forno eléctrico, enganam-se os que pensam que o novo forno ficou nas mãos nacionais. Nada disso. Agora, toda a produção passou para as mãos privadas, que são, como sabemos, estrangeiras. Portugal perdeu totalmente o controlo sobre uma área estratégica fundamental para o seu desenvolvimento, que é a produção de produtos siderúrgicos.

E aqui vos deixei os traços principais de um crime – de vários crimes – em consequência dos quais o país saiu altamente lesado. Mas de onde, para além dos grandes interesses económicos estrangeiros, alguém deve ter ficado muito bem na vida.

Mas a verdade é que ninguém foi preso.

6.18.2007

Margarida Moreira e a Santa Bufaria


Cuidado, ó infiéis! As fogueiras já crepitam!

Mistura de Silva Pais e de juiz do Santo Ofício, Dona Margarida Moreira vive o seu momento de glória. É figura pública, mediática. Assanha-se em defesa de Sócrates, engenheiro sem mácula e político sem émulos. Pai de todos os tachos - e do seu, por consequência - o cônsul está acima de todas as críticas, gracejos e insultos. Ou melhor: o cônsul não pode ser criticado, alvo de gracejos ou de insultos, ainda que se trata de mero desabafo solto enquanto cidadão.

Incauto, o Charrua disse o que milhões de outros plebeus dizem. Desabafou na presença do comparsa amigo. Porém, antes de ser amigo, o comparsa, por já saber que «eles» andam por aí, pensou na sua barriguinha, na sua carreira, no seu interesse. E de bufo se fez.

Dona Margarida Moreira, matrona cor-de-rosa assanhado, que também sabe o que lhe convém, assumiu ela o papel de Silva Pais e de juiz do Santo Ofício, curiosa simbiose genética, versão Portugal XXI. Que lhe assenta lindamente.

Charrua já cheira os odores da lenha incendiada. Vai pagar a herética ousadia.
Para que ele - e todos os potenciais hereges - aprendam.

6.15.2007

Antes o carjacking


Quando você compra um carro, paga IVA e Imposto Automóvel. (Em breve pagará o mesmo imposto, mas com nome diferente). Depois, para poder circular na via pública, ou para nela ter o carro estacionado, pagava o chamado «selo do carro», ou imposto de circulação, ou imposto municipal sobre veículos.

Mas se você, por qualquer razão, desistisse de utilizar a sua viatura, bastava pô-la num espaço particular (garagem, terreno, etc) e nada devia a ninguém. Era razoável. Justo, até.

Agora, na sua sofreguidão por sacar os últimos cêntimos que chocalhem no bolso do cidadão, o governo do iluminado, distinto, competente, generoso e magnânimo engenheiro José Sócrates (é melhor utilizar esta linguagem, não vá a excelsa guardiã do templo socialista, Dona Margarida Moreira, mui ilustre Directora da DREN, ler estas palavras) decidiu que o selo nada tem a ver com a circulação/utilização/ da via pública, mas com a mera posse da viatura. Isto é: quem compra carrito, está sujeito a um, dois, três impostos. Até ver...

Para além disso, você paga uma fortuna em imposto por cada litro de combustível que mete no seu bólide. Nada mau!

Face a isto, antes o carjacking, meus amigos. Antes o carjacking.

6.14.2007

Uma indizível desumanidade


(Breves e fundamentadas reflexões sobre a chusma socialista e a vida humana - ou um preocupante regresso ao passado)

Uma professora portuguesa, chamada Manuela Estanqueiro, foi praticamente obrigada a dar aulas até cair para o lado. Morta. Sofria de leucemia há cerca de um ano, mas a ADSE, na sua desvairada ânsia de levar à letra as orientações governamentais, recusou a sua aposentação. Uma aposentação que lhe servisse de lenitivo para o seu sofrimento e amenizasse os últimos dias de vida.

Depois disso, uma mulher de Vendas Novas morreu de paragem cardíaca, dias após ter encerrado, a mando do Governo, o SAP que ficava a escassa distância da sua residência. Chegou morta ao Hospital de Évora, sem ter podido ser socorrida em tempo útil. Não teve direito a uma migalha de esperança através de um socorro rápido, àquilo a que a Constituição da República e a Declaração Universal dos Direitos Humanos determinam: o direito à saúde e a cuidados médicos eficazes.

A isto chegámos! Os episódios de Manuela Estanqueiro e o de Vendas Novas nada mais são do que o reflexo da brutalidade das políticas em curso. Da sua natureza de classe. Da sua indizível desumanidade. A vida humana, para Sócrates e restantes acólitos – os que o acompanham no governo e os milhares de boys e girls colocados, a granel, por toda a máquina administrativa do aparelho do Estado – foi reduzida à sua expressão mais simples, ou seja, não passa de um mero detalhe ao serviço da redução do défice.

Inebriada pela miragem de deter o poder absoluto, a chusma socialista pensa e age ao mesmo nível da máquina repressiva e opressora dos tempos da ditadura. Os incontáveis boys e girls esfalfam-se e atropelam-se na sua sofreguidão de mostrar ao «chefe» que merecem o jobezinho. Apuram-se no exercício do seu santo ofício, para que o senhor «engenheiro» saiba que perceberam como ele quer que o país funcione. Conheci gente desta – sem tirar nem pôr – antes do 25 de Abril. Era feita da mesma massa a maioria dos chefes de repartição, dos directores-gerais, dos responsáveis disto e daquilo, gente da máxima confiança do regime, sem esquecer esse sinistro exército transversal de bufos, informadores e pides.

Também hoje estas verrugas sociais estão espalhadas por todo o lado. Na DERN, por exemplo (denunciando e perseguindo colegas que não são da cor), na ADSE, no movimento sindical (furando lutas), nas autarquias, nas escolas, nos centros de saúde, em todas as repartições públicas, enfim.

Mas há uma coisa contra a qual não podem lutar. É que hoje, como então, esta gentalha já vive à margem da gente comum. É olhada com desconfiança e desprezo. Com nojo. Calamo-nos – ou mudamos de conversa – se por acaso algum deles se junta ao grupo. Já não são parte da comunidade, mas algo a ela estranho e, bem pior do que isso, algo que lhe é nocivo.

Numa palavra: repugnam.

6.11.2007

À população da Margem Sul

(Foto: João Carlos Pereira)

Estamos vivos! Somos gente!
(E por isso,dia 15, sexta-feira, voltamos ao BUZINÃO)

O ministro Mário Lino não quer pedir desculpa às populações da Margem Sul. Aliás, não é só o senhor ministro que nos deve desculpas e explicações. Há muitos anos que sucessivos governos olham para esta Outra Banda – e tratam esta Outra Banda – como se aqui habitassem seres menores, portugueses de segunda – ou terceira – categoria.

Os Governos não investem na Península de Setúbal – ou investem pouco e mal. Grandes empresas (Lisnave, Setenave, Sorefame, Siderurgia, Parry & Son, Mundet, Wicander, Alcoa, etc, etc) foram friamente assassinadas ou reduzidas a quase nada. O desemprego e o emprego precário atingem as mais elevadas taxas do país. Aos milhares, somos forçados a procurar trabalho na Margem Norte.

Na Arrábida, ex-libris do nosso turismo – uma das meia belas paisagens do mundo e ninho de espécies únicas da fauna e da flora mundiais – o Governo permite que a cimenteira e as pedreiras vão cumprindo o seu sinistro trabalho de corrosão e ruína. Até a co-incineração ameaça envenenar para sempre a Serra-Mãe. Na Costa de Caparica, o mar galga a terra e ameaça destruir o que resta de uma magnífico areal.

Se precisamos de ir à capital do país, seja para trabalhar, estudar, consultar um médico ou, simplesmente, numa mera acção de cultura ou lazer, pagamos aquilo que mais ninguém paga em Portugal: uma portagem que é, na prática, um imposto territorial, exclusivo da Margem Sul. Porque não temos alternativas gratuitas.

Atente-se nisto:

- Ninguém paga para atravessar o Douro

- Ninguém paga para atravessar o Mondego

- Ninguém paga para atravessar o Túnel da Gardunha

- Ninguém paga para atravessar o Guadiana e ir passear a Espanha

- Quem entra em Lisboa vindo de Este, do Oeste ou do Norte de Lisboa tem vias alternativas gratuitas.

E da MARGEM SUL? Aqui, ou pagas… ou pagas.

SEREMOS MENOS PORTUGUESES?

Exijamos ser tratados como os cidadãos do resto do país.

DIGAMOS NÃO:

- À DISCRIMINAÇÃO POLÍTICA E SOCIAL

- AO IMPOSTO TERRITORIAL EXCLUSIVO DA MARGEM SUL
(MAIS CONHECIDO POR PORTAGEM)
INDIGNA-TE – PROTESTA – LUTA
DIA 15 ADERE AO BUZINÃO

6.09.2007

Estão de volta


Os esbirros

Conheci-os noutro tempo. Num tempo que eu julguei definitivamente acabado numa certa manhã de um dia de primavera. Marcava o calendário o dia 25 do mês de Abril de 1974.

No meu bairro, em Campolide, eram temidos e desprezados. Chamavam-lhes os bufos, os informadores; de alguns se dizia, ainda com mais temor e ódio, que eram mesmo agentes da PIDE. Também havia os outros, os salazaristas de «mãos limpas», os admiradores confessos do regime, que iam à missa todos os domingos, que nunca se misturavam com a ralé, que tinham automóvel e botões de punho de ouro. Geralmente gordos, vestiam paletó, usavam o cabelo todo penteado para trás, lustroso de brilhantina. As suas madames nunca eram vistas sem ser muito bem vestidas e pintadas, salpicadas de jóias. Cobertas de espaventosos chapéus. E tinham criadas, fardadas a rigor.

Ainda me lembro de ver, nos verdes anos da minha meninice, alguns deles fardados de legionários, em certos dias caros ao regime, ostentando a pose dos que estão por cima.

Conheci-os, depois, no emprego e na tropa, sempre seres marginais e repugnantes. Sempre perigosos e indesejáveis no seio da maralha.

Depois da tal manhã, sumiram-se, uns; converteram-se à democracia, os outros.

Mais tarde, quando a vingança ganhou força e atrevimento, percebi que tinham voltado. Dei por eles no meu local de trabalho, nos sindicatos, na minha rua, no café, nas autarquias. Identifiquei-os pelo cheiro, pelo olhar matreiro e sombrio, pelo som das palavras ocas ou dúbias. Pelo espumar verde das ideias que o tempo gastou. Pela mesma atitude de tumor, pela mesma silhueta do esbirro oficial. São, agora, democratas. E de esquerda. E abrigam-se debaixo de um chapéu cor-de-rosa, que tem um rótulo onde se pode ler: Partido Socialista.

Insinuaram-se, primeiro, num palrar de lérias avulsas. Depois, encorajados pela envolvência confortável dos estofos do poder - onde se deve destacar o advento do estatuto do boy e da girl «socialista» - aí estão eles (e elas) sem medo, sem pudor, sem limites.

Seja na Direcção Regional de Educação do Norte, perseguindo os seus pares desalinhados, seja na ADSE, obrigando uma professora a trabalhar até morrer, seja nas empresas, seja nas autarquias, seja nos locais de residência, os bufos e os esbirros aí estão de novo, prontos a fazer cumprir as orientações do «chefe máximo». Do «chefe absoluto».

Os esbirros gozam o seu momento de glória. Até ao dia em que, como aconteceu há 33 anos, sairão de cena como ratazanas que são.

Embora tenham, como sabemos, o aspecto inconfundível dos porcos.