Assim que a chamada Cimeira de Lisboa amanhou o Tratado Europeu, o «engenheiro» Sócrates abraçou-se a Barroso e disse: «Porreiro, pá!».
Ali perto, nas ruas do Parque das Nações, mais de 200 mil manifestantes, unidos numa das mais poderosas manifestações de que há memória, não eram da mesma opinião, e gritavam-no bem alto. Eles sabem que não é porreira a vida de milhões de portugueses, e que não ficará mais porreira se o Tratado for posto em prática.
Aquele «porreiro, pá!», que Sócrates não conteve, soou-me aos ouvidos, educados por muitos anos de convivência com cretinos desta e doutra natureza, com uma expressão da nossa gíria, que viria muito mais a propósito. «Já os lixámos, pá!». Mas não serei eu que vou estragar a festa ao primeiro-ministro, que, de tanta excitação, até o seu habitual ar pardacento adquiriu uns leves tons rosados.
Deixem-me, por isso, embarcar no clima festivo que a criatura deu à mascarada há muito cerzida nos bastidores mais bafientos da Europa e, indo para além do Tratado de Lisboa, exclamar o meu «porreiro, pá!» por muitas outras vitórias deste brilhante estratega do reaccionarismo nacional, ao pé do qual Salazar e Caetano se sentiriam definitivamente chocados. E não por não terem conseguido fazer tanto, mas porque até eles tinham limites para a bestialidade anti-social em que Sócrates é mestre.
Então, porreiro, pá!, porque a partir deste Tratado Portugal será uma colónia insignificante de uma Europa Federal, comandada por alemães e franceses, e totalmente entregue aos interesses do capitalismo selvagem que, por via do Tratado, imporá as regras do jogo, das quais a flexisegurança é apenas uma pequena e pálida amostra.
Porreiro, pá!, porque a tua fúria destruidora de tudo o que é serviço público, e que tem sido a imagem de marca e o denominador comum das tuas medidas como dirigente máximo do Partido Socialista – e a que chamas, cinicamente, «reformas modernizadoras», – passará a ser culpa do Tratado e, consequentemente, do Parlamento Europeu, essa coisa que os europeus não conhecem e os portugueses não querem, sequer, conhecer.
Porreiro, pá!, porque um político capaz de fazer aprovar um Tratado que dá ao capitalismo as rédeas de todo o poder, pode tratar a Função Pública – e, nomeadamente, os professores – abaixo de cão, enquanto os restantes trabalhadores não passarão de vermes inqualificáveis.
Porreiro, pá!, porque agora sentes as mãos ainda mais livres para privatizar o que resta, desde a água aos correios, dos cemitérios às estradas e caminhos, sem esquecer o ar, logo que os teus amos e senhores capitalistas encontrem maneira de o armazenar e distribuir.
Porreiro, pá!, porque sendo tu um tipo com tanto poder, já podes mandar entrar a polícia em qualquer sítio, principalmente nos sindicatos. Ou, de madrugada, em casa de qualquer cidadão, desde que, nalguma escuta telefónica, daquelas que são decididas em certos gabinetes, de um certo andar, de um certo edifício da Rua Gomes Teixeira, tenham gravado algumas palavras menos compreensíveis, que rimem com bomba ou que acabem em ismo.
Porreiro, pá!, porque somos um Estado parasita, que consome muito mais do que produz, já que a indústria está controlada por interesses estrangeiros, ou morreu de morte macaca, e das pescas nem é bom falar.
Porreiro, pá!, pois os escândalos da banca já não são apenas os dos seus enormes lucros, mas outros mais ajardinados, que não passarão, aliás, de pontinhas de icebergues.
Porreiro, pá!, porque o salário mínimo é a vergonha que tu sabes, mas isso até é um mérito para quem convenceu a Europa a assinar um Tratado;
Porreiro, pá!, porque se os salários dos trabalhadores estão ao nível do terceiro mundo, mas já os vencimentos dos gestores são os mais elevados da tua querida Europa.
Porreiro, pá!, porque as falências de pequenas e médias empresas sucedem-se em ritmo nunca visto.
Porreiro, pá!, porque a dívida externa bruta – que quase duplica o produto interno bruto – é já, em valor absoluto, superior à do Brasil, país com 200 milhões de habitantes.
Porreiro, pá!, porque o desemprego cresce como as couves do Entroncamento e o crédito malparado atingiu um nível recorde. Os números são do Boletim Estatístico do Banco de Portugal, dirigido pelo teu amigo e camarada Vítor Constâncio, e revelam que, em Agosto, mais de 2 mil milhões de euros eram considerados incobráveis pelos bancos portugueses. Descontando aqui os do filho do senhor Jardim Gonçalves…
Tás porreiro, pá?
Porreiro, pá!, porque, pelos vistos, já deste cabo do que restava do 25 de Abril.
Mas tem cuidado, pá! É que tu finges que aqueles 200 mil que te bateram á porta não existem. Existem eles e existem muitos mais. E eu, se fosse a ti, nem era deles que teria mais medo. Quem mais deves temer, pá, são aqueles que ainda não dizem nada, Uns, por medo; outros, por comodismos; outros, por vergonha, já que um dia acreditaram em ti e no teu falso palrar de democrata e socialista. Mas quando a raiva desses se soltar, então, pá, «tás» tramado.
Então, sou eu quem dirá, mas a sério, abraçado à primeira pessoa que encontrar:
PORREIRO, PÁ!














