1.08.2008

Grande Circo Sócrates




A trágica palhaçada


Uma pensionista deste país, que recebe todos os meses a opulenta pensão de 283 euros – o que dá cinquenta contos e uns picos – sabendo das nossas crónicas, de que se diz leitora fiel, pediu-me que aqui desse conta do seu caso. Sofre, para mal dela, de uma doença crónica que a obriga a consultas frequentes de psiquiatria. Como é normal neste tipo de doentes, tanto pode acontecer andar bem durante uns tempos, como ver-se obrigada, em determinados períodos, a recorrer com mais assiduidade ao seu médico.

Como sabemos, o SNS não dá resposta pronta e eficaz a este tipo de doentes, pelo que a pessoa em questão tem vindo a ser assistida por um médico particular, o único que, até hoje, conseguiu mantê-la relativamente bem. Só que, por cada consulta, a senhora desembolsa 115 euros. Recentemente, a juntar a este valor, acrescentou mais 50,14 euros, de medicamentos que lhe foram receitados: Calcitab, Exxiv, Alprazolam, Cerestabon, Anafranil, Ttryptizol, Ludiomil e Concor. Faço notar que este valor de 50,14 euros já beneficiou de todos os descontos que a sua doença e o valor da sua pensão permitem.



23 contos para viver um mês

Feitas as contas, depois de receber os seus 283 euros mensais, ter pago os 115 de consulta e os 50,14 de medicamentos, ficaram-lhe no bolso pouco mais de 117 euros, ou seja, 23 contos para comer, pagar água, luz, gás e outras despesas miúdas que aparecem sempre na vida das pessoas.

Este caso, que eu conheço e aqui dele dou notícia e testemunho, é apenas um entre centenas de milhares – ou deveria dizer milhões? – que me fazem, todos os dias, ter vergonha de ser cidadão deste país. Ao tomar conhecimento concreto de casos como este, sinto crescer cá dentro uma revolta enorme e, por muito mal que pareça, um ódio profundo por todos aqueles que, de 1975 para cá, governaram este país e a isto chegaram.






Governo paga (aos reformados) 13 euros
em 14 prestações de 90 cêntimos!


Já que estamos a falar em pensionistas, que dizer da ridícula decisão dos palhaços de serviço a este circo, de pagar a prestações o aumento das pensões relativo ao mês de Dezembro? Há casos em que esse valor se traduzirá em 14 prestações de 90 cêntimos! Seria para rir às gargalhadas, se não fosse tudo isto um sintoma trágico de que vivemos num país agonizante, sangrado por vampiros impiedosos e insaciáveis.


Tempos livres da escola na casa mortuária...





País onde, por exemplo, as crianças da escola do 1.º ciclo da povoação de Marinheiros, em Leiria, passam os seus tempos livres na casa mortuária lá do sítio, depois de terem sido despejadas do centro de tempos livres da Quinta da Matinha, que foi ocupado por alunos de outra escola.




... e escola com ratos no refeitório!





Face a isto, já nem sei se o que se passa na escola do 1.º Ciclo do Ensino Básico de Folgosa, em Viseu, é melhor, ou pior. A verdade é que os pais dos alunos fecharam as portas da escola a cadeado, em protesto pela falta de condições do refeitório onde as crianças almoçam. Queixam-se que o refeitório ocupa o hall de entrada da escola, local «onde faz muito frio e há ratos». Dizem que a louça tem de ser tapada, porque senão aparece com excrementos da rataria. Não tarda, temos a ministra da Educação a dizer que os pais, em vez de se queixarem, talvez devessem aproveitar os ratos para compor a ementa. No estado a que o país chegou, em que o governo se vê forçado a pagar 13 euros em 14 prestações de 90 cêntimos, comer ratos deve ser a medida que se segue.


Urgências, antecâmaras do cemitério

Sucedem-se as mortes nas urgências, porque o encerramento dos SAPs e a eliminação destes serviços em muitos hospitais, sobrelotam as urgências que ficaram. Crónicas de mortes anunciadas.


Albertina Fernandes Mendes tinha de 85 anos e morreu nas Urgências do Hospital de Aveiro, após quatro horas à espera de médico. O bastonário em exercício da Ordem dos Médicos, José Manuel Silva, responsabilizou o Governo e o primeiro-ministro pela morte da idosa, atribuindo-a «à errada política de Saúde do Governo», que leva à sobrecarga das Urgências. E respondeu assim, quando lhe perguntaram porque razão o Governo diz que está a melhorar o SNS:

«Não seria de esperar que, de qualquer Governo, viesse uma afirmação no sentido de destruir o Serviço Nacional de Saúde. Aquilo que o Governo diz, di-lo por razões políticas e quase por obrigação política. Não pode dizer que está a fazer as coisas erradas. Tem de dizer que está a fazer as coisas certas. Quem está no terreno, quem conhece os problemas da Saúde, quem se preocupa e analisa as coisas para além da demagogia política, não tem quaisquer dúvidas que o Serviço Nacional de Saúde está a ser progressivamente destruído. E mais. Eu considero até que existe neste momento um perigoso pacto de regime na área da Saúde». E explicou porquê: «Se nós assistimos ao facto dos grandes grupos económicos estarem a investir milhares de milhões de euros na área da Saúde e esperam naturalmente ter o mesmo nível de retribuição que em qualquer outro sector da economia, há uma coisa que têm de ter a certeza. Na área da Saúde não vai haver ciclos políticos. Ou seja, não vai aparecer no futuro nenhum Governo que altere esta política».


Mas, na área da saúde, as diatribes verificadas neste circo miserável e mal cheiroso não ficaram por aqui. José Carvalho Monteiro, de 76 anos, morreu nas Urgências do Hospital de Vila Real. Na véspera, mandaram-no para casa, depois de lhe terem ministrado um remédio para os vómitos. No dia seguinte teve de voltar ao hospital, desta vez para morrer nas Urgências, com uma linda pulseira amarela.


Recorde-se que, devido ao encerramento das Urgências de concelhos e cidades vizinhas, agora toda a população do distrito acorre a Vila Real.

Morreu, morreu, acabou-se. O espectáculo do Grande Circo Sócrates tem de continuar. Morra quem morrer. O que importa é o grande número do défice, e a apoteose final, o Tratado de Lisboa.


«Teve de arrastar-se até à morte»




O monstro da desumanidade é a imagem pricipal das políticas de Sócrates. Uma professora que sofre de cancro mas não pode reformar-se porque a reforma não chega para se sustentar e às suas filhas, diz tudo sobre Sócrates, os «socialistas» e quem os apoia.

Por isso, as mortes continuam: desta vez, foi Maria Cândida Pereira, a professora de Gouveia que sofria de cancro de pulmão e morreu sem que lhe fosse reduzida a componente lectiva.

Com 47 anos, divorciada e mãe de duas meninas, com 12 e 14 anos, a professora de Educação Visual e Tecnológica, solicitou a redução da carga horária, mas nunca chegou a pedir a reforma por incapacidade, porque a redução no salário não lhe permitiria sobreviver e sustentar a família. «Ela não tinha alternativa, com 60% do ordenado não conseguia viver, por isso, teve de se arrastar até à morte», disseram os seus colegas professores na Escola Básica 2/3 Ana de Castro Osório, em Mangualde, onde a vítima era docente há três anos.

Ri-te, Palhaço!


Ouviram, seus estupores, responsáveis (se é que há responsáveis em Portugal) por esta situação? Esta mulher arrastou-se a trabalhar até à morte, porque as pensões que são impostas ao português comum, não são iguais às bem nutridas que se cozinham para as sinistras troupes que, ao longo dos anos, legislam para si de uma maneira e, para o Zé, de outra.

Mas venha o quinto canal de televisão, com o lixo enlatado que as outras já servem, para encaixar mais uns palhaços sem jobs. E arranje-se maneira de assaltar o BCP, para que a promiscuidade entre o poder político e o poder económico passe a ser oficial, com anel de noivado e certidão a atestá-la.

E, sobretudo, não se deixe o povo saber porque razão a Justiça prendeu Paulo Pedroso, não vá alguém ir à lã e sair tosquiado.

Entretanto, conforme se provou ao longo destas linhas, o povo vai morrendo. De fome e de incúria. De miséria.

Por isso, ri-te, palhaço!

(Enquanto não te pedirmos contas…)

9 comentários:

Maria dos Anjos disse...

Que triste e tão real retrato do meu país. Arrepio-me só de pensar que estes são alguns exemplos em milhares, em milhões possíveis.

É este o país que queremos? São estes os governantes que prometeram a lua e nos tiram o sol? Poderá descer-se ainda mais?

Um abraço.

São disse...

Sobre esta inqualificável decisão das prestaçõs, já postei.
Quanto ao resto...até quando?!
Um abraço, João!

Eduardo P. disse...

Caro amigo

Estas vergonhosas situações deveriam abrir todos os noticiários e ser objecto de debate em todos os dias e a todas as horas.

Elas são a imagem fiel da governação. E dizem sem margem para dúvidas que este é um governo de descarados facínoras.

De facto, o melhor que Sócrates e os socialistas conseguem fazer... é serem piores que o fascista Salazar.

Graça Pires disse...

Meu querido amigo, já não se aguenta...
Um beijo.

Monte Cristo disse...

Meus amigos (Maria dos Anjos, São, Eduardo e Graça).

Desculpem não individualizar a resposta, mas já que é tão grande a consonância na apreciação da situação do país que o meu escrito descreve, as mesmas palavras a todos servem:

LUTEMOS - DENUNCIANDO, RESISTINDO, TRANSMITINDO A NOSSA INDIGNAÇÃO, CONFRONTANDO OS NÉSCIOS OU OS DISTRAÍDOS COM A SUA INDIFERENÇA OU CUMPLICIDADE - E NUNCA ACREDITEMOS QUE A SOLUÇÃO É DOBRAR OS JOELHOS.

Um abraço a todos.

São disse...

Bom fim de semana. amigo meu!

soledade disse...

E como vamos nós pedir-lhes contas? Também de formas legais e eficazes de intervenção na vida pública vamos sendo espoliados. Denúncias como as que aqui faz são importantes. Cresci ouvindo dizer que os necrófagos como os que governam este país têm horror da luz e que os holofotes da revelação e a tomada de consciência dos cidadãos os assustavam. Mas nós já não somos cidadãos de nada. E o despudor dos detentores do poder político e económico atingiu níveis nunca vistos. E vêm mais *novidades* aí. Este país é um circo de horrores.

São disse...

Querido João, a Luz da Manhã espera por ti lá em casa e ficarei grata se a aceitares.
Semana iluminada.

São disse...

Gostaria que fosses a Silêncio Culpado, cujo link está nas minhas Netamizades, e comentasses.
Obrigada!
Bom dia.