7.31.2007

Os contentamentos de Sócrates


O Grande Urinol
O primeiro-ministro está feliz. O ministro da Saúde ainda mais. Ambos descobriram que os portugueses que se queiram curar ou, até, sobreviverem a uma doença grave, vão tratar-se a Espanha. Um exemplo é o que li há dias sobre transplantes pulmonares. Dizia o texto que o desinteresse e a desorganização foram as causas da morte do programa de transplantação pulmonar em Portugal. Uma média anual de dois transplantes desde que foi lançado, em 2001 – quando o país precisa de 15 a 20 transplantes pulmonares anuais – e uma taxa de sucesso a longo prazo considerada "má", fazem os doentes optarem por tentar a sorte, e consegui-la, em Espanha. Para onde até já seguem, aliás, os pulmões recusados pela a única unidade portuguesa que os poderia aceitar, no Hospital de Santa Marta.

Se o panorama é por todos assumido como negro, há quem tenha esperanças que as coisas melhorem. Diz José Fragata, director do Serviço de Cirúrgica Cardiotoráxica do HSM, que se está a tentar relançar o programa e, dentro de alguns meses, ninguém terá de ir a Espanha. Pois…

Para além das opiniões médicas, mais ou menos de carácter técnico, o que importa salientar é que este exemplo é apenas mais um da política criminosa que, sob a batuta do governo dito socialista, com Sócrates como maestro e o ministro Correia de Campos como desalmado solista, o povo português está a sofrer. Enchem em boca com modernidade e outros palavrões da moda, mas deixam os portugueses morrer como morrem os tordos na época da caça.

A verdade – nua e crua – é que para se receber um transplante pulmonar, muitos portugueses seguem para a Corunha, na Galiza, onde se instalam com armas e bagagens. E descansam numa taxa de sucesso que a equipa que os recebe calcula em 60% de sobrevida aos cinco anos e 50% aos dez anos. Por cá, morre-se sob a insensibilidade e incompetência socialistas, porque até os pulmões doados e compatíveis com alguns doentes, ou são desperdiçados ou são enviados para Espanha. Por isso, Sócrates e os seus sinistros ministros – especialmente o da Saúde - andam tão felizes.

Entretanto, e continuando muito feliz e contente consigo próprio, coisa própria dos néscios ou de qualquer vendedor de banha-da-cobra, o primeiro-ministro (que certo dia se disse engenheiro) foi para o Algarve apresentar projectos que, segundo ele, são a prova provada de que a nossa economia e o país, em geral, vão no bom caminho. Cantou, na sua voz de falsete, festivas aleluias e deu hossanas aos senhores capitalistas.

De facto, duas semanas depois de o ministro da Economia ter apresentado, em Faro, oito dos dez novos investimentos turísticos privados aprovados para o Algarve, no âmbito dos designados Projectos de Interesse Nacional, foi agora a vez de Sócrates, no campo de golfe de Palmares (se calhar, queriam que fosse numa fábrica, não?), ali na zona da Meia Praia, em Lagos, dar gritinhos de contente ao falar da coisa e fazer dela a sua nova bandeira, metendo, pelo meio, rasgados elogios aos empresários.
Fechem-se as fábricas, abram-se hotéis!

Ao ouvir tanta música a sair da boca dum homem que, depois de se fazer passar por engenheiro anda a fazer-se passar por socialista (ou vice-versa), cheguei a pensar, descuidado como sou, que os tais projectos estavam relacionados com a abertura de novos complexos industriais, a reactivação das nossas pescas e a reanimação da agricultura. Isso é: pensei que Portugal estaria a voltar-se para a produção industrial e – ao mesmo tempo – a tomar as medidas necessárias para pôr os nossos campos a produzirem os produtos de que necessitamos para matar a fome a tanta gente, pelo que teríamos mais leite, mais carne, mais batatas, mais legumes, mais cereais, e mais frutos. E, no que às pescas respeita, estaria a renascer das cinzas a nossa frota pesqueira, para que, tudo somado, deixemos de comer tantos produtos importados. Para não sermos tão dependentes sob o ponte de vista económico. Enganei-me.
Saia um autódromo, morra a agricultura!

De que constam, então, estes novos e maravilhosos empreendimentos? Eu conto. São projectos no Algarve, cujo investimento global ultrapassa 1,4 mil milhões de euros, e constarão de resorts e hotéis de quatro e cinco estrelas, além de um autódromo preparado para a Fórmula 1. Diz-se que vão permitir um total de 5.100 postos de trabalho (mais um pulinho e estamos nos tais 150 mil prometidos há dois anos…). O Algarve passará a ter, em 2010, um total de 23 unidades hoteleiras de cinco estrelas, mais do dobro das existentes em 2005. Mas já em 2007 haverá 14 infra-estruturas daquele tipo a funcionar na região e integrados noutros projectos.
Frota de pesca ao fundo! Viva o campo de Golfe!

Se bem percebi, a alegria de Sócrates baseia-se no facto de o Algarve ir ter um autódromo, mais uma mão-cheia de hotéis para ricos, mais uns campos para golfe e equipamentos do género. É, então, para isto que caminhamos! Para vender sol e praia, meter meia dúzia de rapazinhos e rapariguinhas a servir os senhores abastados que vêm beber uns copos, trincar uns mariscos e dar umas braçadas ou umas tacadas – e pronto, já está. E, na volta, alguns deles desenrascarem umas criancinhas para umas brincadeiras sexuais, coisa que já não é novidade em certos meios que nós conhecemos.

A Sócrates ainda sobrou tempo para valorizar o "espírito empreendedor, a iniciativa e o risco" empresarial dos investidores, lembrando que "ninguém investe tanto dinheiro num país em que não tenha confiança". E aproveitou para fazer um auto-elogio: "nenhum político desiste da confiança, desde ao nível mais local até ao nacional. Mesmo nos momentos mais difíceis, nunca perdi a confiança nem no país nem nos portugueses e sempre soube que iríamos resolver os nossos problemas como está hoje mais claro do que há dois anos".

Porém, há uma outra realidade que este truão ignora – e da qual nem quer ouvir falar. Com uma frequência assustadora, empresas produtivas encerram as suas portas, despedindo trabalhadores aos milhares. Conforme dizem as estatísticas nacionais e estrangeiras, Portugal é o país mais desigual da Europa, onde o fosso entre os ricos e os pobres aumenta sem cessar. Fecham-se escolas, maternidades, urgências, SAPs, tribunais, golpeiam-se as reformas, e até uma mulher que ganhe 20 euros por semana a lavar as escadas do prédio onde habita, deixa de ser considerada desempregada, perdendo, por isso o mísero subsídio de desemprego.

Endividadas, milhares de famílias, lutam pela sobrevivência a tudo recorrendo para que a fome não morda os filhos nem se vejam, de um dia para o outro, a dormir debaixo da ponte.

Mas enquanto as fábricas fecham, os campos se desertificam e a frota pesqueira apodrece encalhada – e se paga para arrancar a vinha a mando do interesse estrangeiro – sua excelência, o suposto engenheiro, vai para o Algarve e fala em hotéis de luxo e equipamentos para ricaços, como se aí estivesse a salvação do país. Talvez o sonho do homem seja transformar Portugal numa qualquer República Dominicana, numa Malásia, numa Ilhas Fiji, sei lá… Um paraíso para pedófilos, para a indústria do sexo, para a proliferação de casinos, para o negócio da carne humana.

O que vale, é que vamos entrar em período de férias. Deixemos ir o fulano, entretido com as suas ridículas masturbações à volta de mirabolantes sucessos governativos, que, no regresso, cá estaremos, cada vez mais definhados, mais vendidos ao estrangeiro, menos senhores do nosso destino, mais pobres e empenhados. Mas, pelo menos, durante umas semanas, somos capazes de nos esquecermos que esta gente existe.
Portugal - um grande urinol

Entretanto, Portugal cumpre o seu destino de país periférico, óptimo, por isso, para se transformar num grande e imenso urinol da União Europeia. E de quem mais quiser aproveitar o sol, o mar, a areia e outros «recursos naturais»…

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